Todos os Santos: cantos litúrgicos, comentário e dicas
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31/10/2020 Por Pe. Francisco Cornélio Freire Rodrigues (Via Vida Pastoral) O Canto na Liturgia; Canal Palavra de Vida: O Evangelho ao nosso alcance; CNBB Notícias Todos os Santos: cantos litúrgicos, comentário e dicas
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Santidade: a vocação da humanidade

I. Introdução geral

A solenidade deste dia recorda que a santidade é a verdadeira vocação da humanidade e, por isso, é acessível a todas as pessoas. O caminho para alcançá-la consiste em viver o programa de vida de Jesus, expresso nas bem-aventuranças (Evangelho). Criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,2), o ser humano é chamado a assemelhar-se a ele também na santidade (Lv 19,2). Dirigido inicialmente a um povo específico, Israel, esse chamado foi estendido a toda a humanidade por Jesus Cristo. Por isso, nesta liturgia rendemos graças a Deus pela multidão incontável de homens e mulheres, de todas as nações da terra, que já alcançaram o Reino definitivo (1ª leitura) e renovamos a esperança de também alcançarmos tal graça, não obstante as tribulações do presente. Isso nos enche de alegria e esperança, pois mostra que a santidade não é reservada a heróis ou fazedores de milagres, mas está ao alcance de todas as pessoas, pois é o destino da humanidade. Por isso, como recorda o papa Francisco, ao falar de santos e santas, “não pensemos apenas em quantos já estão beatificados ou canonizados” (Gaudete et Exsultate, n. 6), mas vejamos a santidade já agora, no povo simples e humilde que se esforça cotidianamente para viver, com dignidade e esperança, num mundo desafiador. De fato, pelo dom de sermos filhos e filhas de Deus (2ª leitura), podemos dizer que a santidade já está em nós.

II. Sugestão de cantos litúrgicos de acordo com o Hinário Litúrgico (CNBB)

Partitura: Para ter acesso às partituras dos cantos desse domingo, acesse o documento abaixo.

III. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: Ap 7,2-4.9-14

A primeira leitura é tirada do Apocalipse de São João, o último livro do Novo Testamento, escrito entre o final do primeiro século e o início do segundo. É obra de um profeta cristão, herdeiro de tradições ligadas ao apóstolo João, cujo nome adotou como pseudônimo (Ap 1,2). O nome Apocalipse não tem relação com tragédias ou catástrofes, como às vezes se pensa. Significa “revelação”: tirar o véu que encobre uma realidade para torná-la conhecida com o uso de linguagem simbólica, como é típico do gênero literário apocalíptico. Trata-se de um livro de resistência e esperança, escrito para animar as comunidades cristãs da Ásia Menor, vítimas da cruel perseguição do imperador romano Domiciano. Fazendo uso intenso de imagens e símbolos, o autor transmite esperança aos cristãos e, ao mesmo tempo, denuncia a crueldade do poder opressor.

Inserido na seção dos “sete selos” (6,1-8,1), o texto da leitura oferece uma imagem esplêndida, que descreve a vitória final de quem persevera na fidelidade ao Senhor, apesar das muitas tribulações que se apresentam aos cristãos enquanto vivem neste mundo. Num primeiro momento, o texto se refere à situação dos cristãos na vida presente (vv. 2-3): são chamados de servos e se encontram em plena provação, ameaçados por forças destruidoras, mas possuem uma marca que lhes garante força e resistência. A marca na fronte é um selo que representa o batismo cristão, imagem muito utilizada pela Igreja primitiva; simboliza a força do Espírito Santo, transmitida no batismo, e o jeito de ser cristão no mundo. Inicialmente, o número dos marcados ou eleitos é contável, embora seja uma quantidade muito alta: 144 mil (v. 4). Esse número simboliza a plenitude do povo de Israel (144 mil = 12 x 12 x 1.000); os remanescentes da Antiga Aliança, incluindo a grande maioria dos primeiros cristãos, são os primeiros beneficiados pela obra redentora de Cristo e, por isso, contados entre os eleitos, como prova da fidelidade de Deus às suas promessas.

Uma nova visão contempla a realidade celeste em forma de ação litúrgica (vv. 9-14): uma multidão incontável de eleitos, gente de todos os povos da terra, de todas as culturas, trajando vestes brancas e trazendo palmas nas mãos, diante do trono e do Cordeiro. É a fraternidade universal consumada em Cristo, pois toda a humanidade é contemplada pela sua obra de salvação. As vestes brancas (v. 9.13-14), paradoxalmente lavadas no sangue do Cordeiro, significam a vida nova conferida pelo batismo, marcada pela alegria e pureza; é a configuração a Cristo. As palmas significam a vitória (v. 9): quem passa pela tribulação e resiste é vitorioso. A grande tribulação significa as dificuldades que os cristãos enfrentam para pôr em prática o programa das bem-aventuranças, e o sangue do Cordeiro sintetiza a obra redentora de Cristo, cujo ápice é sua paixão, morte e ressurreição, da qual participamos pelo batismo (v. 14).

A imagem predominante no texto é uma ação litúrgica celeste, cuja assembleia, formada pela multidão de eleitos, louva a Deus por poder contemplá-lo definitivamente e por ter sentido a sua presença quando ainda padecia em meio às provações do mundo.

2. II leitura: 1Jo 3,1-3

A primeira carta de João, da qual é tirada a segunda leitura, é mais uma reflexão teológica em forma de homilia do que uma carta propriamente dita. De fato, de todos os escritos do Novo Testamento classificados como epístolas, esse é um dos que têm menos características do gênero epistolar. A data e os destinatários primeiros não são conhecidos com exatidão; é certo, no entanto, que é um escrito posterior ao Quarto Evangelho e dirigido a grupos cristãos que já conheciam o referido Evangelho, provavelmente de comunidades da Ásia Menor, onde surgiam ideias e doutrinas que ameaçavam a unidade da fé cristã. Em algumas passagens, parece funcionar como aprofundamento de temas que não ficaram muito claros no Evangelho, como o trecho lido hoje, que trata da filiação divina.

O texto começa com uma notícia que deve ser motivo de alegria para todos: o amor de Deus é tão grande, que nos deu o direito de sermos seus filhos e vivermos como tais ainda nesta vida (v. 1-2). A condição de filhos exige correspondente coerência de vida, que consiste em assemelhar-se ao Pai, principalmente no jeito de amar. Ainda neste mundo, os cristãos devem refletir na própria vida a semelhança com Deus, cujo parâmetro é o próprio Jesus, o Filho. A santidade é isso. O que, porém, ainda é parcial só se tornará pleno quando Jesus se manifestar definitivamente na parusia. Naquele momento, a semelhança com ele será plena e seremos puros como ele mesmo é (v. 3). Como resposta ao amor recebido, devemos nos esforçar para nos assemelharmos a ele o máximo possível ainda neste mundo, vivendo e amando à sua maneira.

3. Evangelho: Mt 5,1-12a

A liturgia nos propõe a leitura das bem-aventuranças do Evangelho de Mateus. Esse texto, que introduz o discurso da montanha (Mt 5-7), é considerado o coração do Evangelho de Mateus e o núcleo essencial de todo o ensinamento de Jesus. Na verdade, mais do que um ensinamento, as bem-aventuranças são uma síntese da vida de Jesus, pois as situações que ele apresenta como causa de felicidade são aquelas que ele mesmo experimentou e viveu. Por isso, as bem-aventuranças não são uma doutrina, mas um programa de vida; descrevem a maneira de viver de Jesus e o que ele propõe aos cristãos e cristãs de todos os tempos como ideal de vida.

Encantador do ponto de vista estético, esse é um texto desafiador, porque convida os cristãos a adotar um estilo de vida que contraria o que muitas sociedades estabeleceram como critérios de felicidade e bem-estar, como o acúmulo de bens, a vida cômoda e o prestígio social. Jesus anuncia que são felizes aquelas pessoas que eram tratadas como infelizes e desgraçadas.
Por isso, trata-se de mensagem altamente revolucionária e de consequências transformadoras, cujo resultado é a construção  de um mundo ao revés da ordem estabelecida. À medida que esse ideal de vida é assimilado pelas pessoas, o Reino dos  céus (Reino de Deus) se manifesta neste mundo e as estruturas de pecado são desmascaradas.

Como o espaço aqui não é suficiente para comentar e refletir sobre cada uma das bem-aventuranças, optamos por considerá-las em seu conjunto. Elas constituem um caminho de oito etapas (v. 1-10), cuja meta é a santidade, ou seja, a configuração a Jesus. Encontramos então oito bem-aventuranças, embora alguns estudiosos considerem nove, em virtude de a expressão “bem-aventuranças” (em grego, makarioi) aparecer nove vezes no texto. De acordo com a maioria dos exegetas, porém, a nona ocorrência (v. 11) já não é uma nova bem-aventurança, mas uma recapitulação e consequência das oito anteriores: quem percorre o caminho de santidade proposto por Jesus nas bem-aventuranças será, inevitavelmente, perseguido. A perseguição é, portanto, o critério de verificação da fidelidade a Jesus.

IV. Pistas para reflexão

Ressaltar a solenidade de hoje como motivo de alegria e esperança para toda a humanidade. Mais do que a recordação dos méritos na vida dos santos e santas – o que é importante, pois são exemplos concretos de adesão e fidelidade aos propósitos de Deus –, essa festa é uma declaração solene de que a vivência do Evangelho de Jesus é viável. Recordar que fomos marcados por Deus, tanto pela condição de sermos sua imagem e semelhança quanto pelo privilégio de sermos seus filhos pelo batismo. É necessário, no entanto, manifestar a marca de Deus em nós com o testemunho cotidiano do seu amor, pondo em prática o programa das bem-aventuranças. A imagem esplêndida da liturgia celestial (1ª leitura) encoraje os cristãos e cristãs de nossos tempos a perseverar na prática das bem-aventuranças com fidelidade, mesmo diante das inúmeras tribulações que os tempos atuais apresentam.

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