Todos os Santos: cantos litúrgicos, comentário e dicas
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02/11/2019 Por Zuleica Aparecida Silvano (Via Vida Pastoral) O Canto na Liturgia; Canal Palavra de Vida: O Evangelho ao nosso alcance; CNBB Notícias Todos os Santos: cantos litúrgicos, comentário e dicas
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"A santidade é o rosto mais belo da Igreja (Gaudete et Exsultate, n. 9)"

I. Introdução geral

Nesta celebração, somos convidados a agradecer a Deus o testemunho dos santos e santas de todas as nações (I leitura). Eles e elas se purificaram, no dia a dia, do pecado e da iniquidade (II leitura) e permaneceram fiéis ao compromisso com a justiça, com a misericórdia, com a paz, com a vida (evangelho). Desejamos também pedir a graça de perceber os sinais da presença do Espírito em toda parte: na sociedade, em nossas comunidades, em nossa família e nas pessoas que não fazem parte da nossa religião, do nosso grupo, mas nos ajudam a contemplar a beleza da santidade.

II. Sugestão de cantos litúrgicos de acordo com o Hinário Litúrgico (CNBB)

Partitura: Para ter acesso às partituras dos cantos desse domingo, acesse o documento abaixo.

III. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: Ap 7,2-4.9-14

Essa passagem do livro do Apocalipse objetiva animar as comunidades cristãs a permanecerem fiéis a Cristo em meio ao sofrimento e à perseguição que estão vivenciando. O texto de Ap 7 está situado na seção da abertura dos selos (cf. Ap 6,1-7,17) e é a resposta à pergunta do capítulo precedente (cf. Ap 6,17): quem poderá ser considerado inocente (“ficar em pé”) no dia da intervenção final e do julgamento de Deus? O autor responde: será aquele que permanece fiel ao seguimento de Jesus Cristo no amor, mesmo que isso possa lhe custar a entrega da vida.

A primeira cena (cf. Ap 7,2-4) tem como contexto a terra, sob a ameaça dos ventos que vêm dos quatro ângulos do universo, considerados ventos nocivos e destruidores (cf. 1 Henoc 76). Os servos, porém, serão poupados por meio da intervenção direta e gratuita de Deus, conforme anuncia o quinto anjo, encarregado por Deus de dar ordens aos mensageiros, descritos no v. 1.

O assinalamento na fronte (cf. v. 3) expressa a proteção divina (cf. Ex 12,21-30). Provavelmente, os assinalados são aqueles que não se deixaram contaminar pela idolatria e, portanto, pertencem a Deus.

O número 144 mil (cf. v. 4) é simbólico: indica que são muitos e formam uma totalidade perfeita (144 mil é um número perfeito, resultado da multiplicação de 12 x 12 x 1.000). Refere-se, provavelmente, ao povo que será preservado das ameaças e dos flagelos pela sua fidelidade ao Deus vivente.

A segunda visão (cf. Ap 7,9-14) apresenta uma multidão incontável, proveniente de todas as nações (universalidade). A túnica branca retrata a salvação e, no Apocalipse, foi prometida aos vitoriosos e aos mártires (cf. Ap 3,4 e 6,11), ou seja, aos fiéis ao projeto de Deus que venceram as forças contrárias a Cristo. Da mesma forma que Deus salvou Israel da escravidão do Egito, também o Cordeiro salvará aqueles que resistiram a toda opressão. A vitória e a salvação pertencem a Deus e ao seu Cordeiro. Desse modo, os mártires e os perseguidos, passando pela tribulação, participam da paixão de Cristo, mas também de sua vitória.

A pergunta do ancião, no v. 13, tem a finalidade de enfatizar a solenidade da revelação e ressaltar o significado do simbolismo das “túnicas brancas”. A resposta paradoxal, segundo a qual as túnicas são brancas porque foram lavadas no sangue do Cordeiro, faz-nos vislumbrar a salvação final, já parcialmente experimentada pelos fiéis ao aderirem a Jesus, o Messias, e ao serem introduzidos pelo batismo no tempo messiânico. Assim, a purificação trazida pelo sangue do Cordeiro permite aos cristãos realizar um culto agradável a Deus por meio da vivência comunitária, do cumprimento da missão de anunciar o Reinado de Deus e da doação da própria vida por fidelidade ao seguimento de Jesus.

2. Evangelho: Mt 5,1-12a

As bem-aventuranças marcam o início dos discursos sobre o Reino de Deus no Evangelho segundo Mateus. Os destinatários da mensagem de Jesus são pessoas provenientes de vários lugares, tanto de Israel como das regiões dos gentios – ou seja, de todas as nações (cf. Mt 4,25).

Jesus sobe ao monte e assume a posição de Mestre. O monte é o lugar da revelação divina e é o local onde Jesus ensina com autoridade (cf. Mt 7,28-29). É possível estabelecer um paralelismo entre Jesus e Moisés. Este subia ao Sinai para receber a Lei de Deus destinada ao povo (cf. Ex 19,3; 24,15.18), sinal da aliança estabelecida com Deus; Jesus, como Messias e Filho de Deus, sobe ao monte para apresentar não uma Lei, mas um programa de vida, e estabelecer uma nova aliança com toda a humanidade (cf. Mt 5,1-7,27). As bem-aventuranças, em Mateus, podem ter um caráter escatológico, mas no sentido do “já e ainda não”; ou seja, elas já acontecem e são reveladas nos gestos de Jesus Cristo e daqueles que seguem o Messias Jesus, mas serão vivenciadas em plenitude na salvação futura. Por isso, estão relacionadas ao passado e ao presente, e não somente ao futuro.

O discurso das bem-aventuranças é o alegre anúncio do Reinado de Deus, dirigido ao pobre, ao oprimido, ao indefeso, ao marginalizado, ao aflito. Em Cristo, Deus vem para defender, consolar, acolher, ouvir novamente o clamor do povo. As bem-aventuranças, portanto, descrevem o modo cristão de viver o seguimento de Jesus, de estar em comunidade, na história. É o convite a uma mudança de mentalidade, tendo como critério a novidade do Reino, que nos desconcerta, visto que são chamados de “felizes” aqueles que a sociedade despreza, exclui, os considerados “infelizes”.

A primeira bem-aventurança é dirigida aos “pobres em espírito”; no entanto, não podemos espiritualizar o pobre ou suavizar a mensagem evangélica. De fato, se lermos as bem-aventuranças, compreenderemos que “pobre” é aquele completamente desprovido, aquele que carece de recursos, por ser explorado e oprimido social e economicamente. Assim, é o estrangeiro, a viúva, o órfão, o necessitado, o enfermo, o aflito, o perseguido, que são totalmente dependentes de Deus. Mas é também o misericordioso, aquele que vai ao encontro do outro, que consola, que tem sede e fome de justiça e promove a paz. Enfim, é aquele que está disponível para cumprir a vontade divina, pois tem consciência de que não é possível depositar sua confiança na riqueza ou no poder, sabe o que é fundamental e o que dá sentido à vida.

Outro aspecto que nos chama a atenção na expressão “pobres em espírito” (Mt 5,3) é sua afinidade com a frase “vivem perseguidos por causa da justiça” (Mt 5,10), pois para ambos é prometido o Reino de Deus. Desse modo, é legítimo afirmar que os “pobres em espírito” são também os perseguidos por causa da justiça, ou seja, os que sofrem nas mãos dos opositores a Cristo (cf. Mt 4,18-24). São os que acreditam que o Reino de justiça, vivido e anunciado por Jesus, não é algo ilusório, por isso lutam e resistem para que esse Reino se realize. Um texto que poderia nos ajudar a entender os “pobres em espírito” é Mt 25,34-40, que afirma que aqueles que têm compaixão para com os mais pobres herdarão o Reino de Deus. Nessa perspectiva, os “pobres em espírito” são também aqueles que são solidários, dóceis à Palavra e abertos à incessante novidade de Deus.

Os aflitos, contemplados na segunda bem-aventurança, constituem os que sofrem por causa das forças do mal, sendo vítimas da opressão e da violência. O termo “consolar” pode ser traduzido literalmente por “chamar para junto de” – ou seja, defender, intervir em favor daquele que não pode se libertar sozinho – e remete à missão profética descrita em Is 61,1-2. Hoje vivemos numa sociedade marcada pela negação do sofrimento e plena de ofertas de felicidade. Quem é capaz de sentir o sofrimento e ser consolado por Jesus torna-se sensível ao sofrimento alheio. Essa bem-aventurança, portanto, lança-nos o desafio da compaixão, do compadecimento com o sofrimento do nosso próximo.

A terceira bem-aventurança está baseada no Sl 37,11, quando menciona os injustamente desapropriados de suas terras. Por isso, podemos traduzi-la por felizes os oprimidos, os fracos, os que se encontram em condições lastimáveis e percebem, no anúncio de Jesus, a possibilidade de restituir a própria dignidade e contar com a partilha. Ela é, ainda, um convite para nos desarmarmos diante das realidades de violência, ódio, inimizades, e sermos testemunhas da mansidão, um dom do Espírito (cf. Gl 5,23). Ser manso também é uma expressão da pobreza em espírito, pois supõe o despojar-se para poder estar disposto ao diálogo e ceder, quando necessário, do próprio ponto de vista, das próprias ideias e projetos.

Os que têm fome e sede de justiça são aqueles que optaram por viver a justiça de tal forma, que ela perpassa seu modo de ser, pensar e agir, constituindo uma necessidade primária (cf. Sl 107,5.8-9). Justiça pode ser entendida como a adequada relação com Deus, com o próximo e consigo mesmo. Quem tem fome e sede de justiça se deixa conformar a Cristo, é pessoa que vive o processo de humanização de suas relações, alguém que deseja e constrói uma sociedade justa e fraterna. Isso também supõe perseverança, pois é muito fácil permanecermos saciados em nosso comodismo.

A bem-aventurança seguinte é centrada na misericórdia, tema fundamental em Mateus, que se expressa na compaixão para com o outro, por meio de gestos concretos, na saída para ir ao encontro dos marginalizados (cf. Mt 9,13; 12,7; 15,22; 25,35-37), no perdão fomentado nas relações comunitárias (cf. Mt 18,33; 6,12-15) e no amor aos inimigos (cf. Mt 5,38-48).

A expressão “puros de coração” nos remete ao Sl 24,4, que descreve as características do fiel ao qual é permitida a entrada no santuário. Assim, são aqueles e aquelas que defendem a vida, que não estão comprometidos com a falsidade e não realizam juramentos desonestos; isto é, aqueles que são íntegros e coerentes. Ser puro de coração é ser capaz de amar e poder ver a Deus, pois ele é amor.

A expressão “os que promovem a paz” pode ser interpretada como referência aos justos (cf. Sl 34,15), por terem uma vida perpassada por valores éticos. A paz é a síntese dos bens prometidos por Deus aos tempos messiânicos. Trabalhar pela paz, portanto, é ser um colaborador de Deus na construção de seu Reino. É uma bem-aventurança que nos desafia, pois, como diz o papa Francisco: “é muito comum sermos causa de conflitos ou, pelo menos, de incompreensões” (GE 87), e, nesses momentos, ser instrumentos de paz não é fácil, pois isso requer criatividade, escuta, uma vida marcada pela oração.

Ser perseguido é consequência de uma vida doada e marcada pelo evangelho, à semelhança da vida do Mestre Jesus, que também foi perseguido, incompreendido e sofreu por fidelidade ao projeto do Pai.

3. II leitura: 1Jo 3,1-3

1Jo 3,1-3 retoma os temas já apresentados em 1Jo 1,5-10. Esses versículos contêm os mesmos elementos do discurso dirigido às pessoas em processo de iniciação à vida cristã, após a adesão a Jesus Cristo e o batismo, com a finalidade de refletir sobre o seguimento de Cristo, o significado do messianismo de Jesus e o fundamento do agir cristão. Para o autor, aquele que cumpre a justiça e não peca provém de Deus (cf. 1Jo 3,1) e caminha em direção a ele (cf. v. 2).

Em 1Jo 3,1, o autor expressa sua admiração pelo grande amor de Deus Pai e pelo fato de serem filhos de Deus por meio do batismo, dado que os membros da comunidade participam da filiação divina em virtude da fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus. A expressão “nascer de Deus” é própria da literatura joanina. Para o evangelista, o “nascer de Deus” está intimamente ligado com o “nascer do alto” (Jo 3,6.8) e, após o batismo, o fiel torna-se parte da família de Deus. No v. 1, a palavra “mundo” deve ser entendida como tudo aquilo que se opõe a Cristo; na primeira carta de João, são aqueles que não reconhecem Jesus como Messias e Filho de Deus.

A frase do v. 2c, “sabemos que, quando será manifestado”, deve ser interpretada como a epifania da identidade cristã, quando o batizado estiver diante da manifestação do Filho na parusia. Assim, nossa identidade de filhos será manifestada somente no final dos tempos, quando atingirmos a perfeição, ou seja, a meta final, por estarmos diante do Filho e do Pai.

O termo “puro” está relacionado à vida em contraposição à morte. Assim, afirmar que Jesus é puro é o mesmo que dizer que ele é a vida.

A necessidade de purificar-se para permanecer na proximidade de Deus (cf. v. 3) e de Jesus, dado que eles são santos e puros, perpassa todo o AT e pertence ao âmbito cultual; mas podemos também interpretá-la no sentido ético, ou seja: aproximamo-nos de Deus quando agimos conforme os ensinamentos de Cristo, libertando-nos do pecado, da iniquidade, de tudo que conduz à morte.

IV. Pistas para reflexão

As leituras desta solene festa de Todos os Santos e Santas nos ajudam a contemplar a beleza da santidade que se manifesta no povo, no mundo, em todas as partes. Assim, desafiam-nos a viver a santidade na humanização das nossas relações (evangelho), na purificação de tudo que nos conduz à iniquidade (II leitura) e à não adequada relação com o outro (injustiça) e com Deus (idolatria), e convidam-nos a permanecer fiéis mesmo diante da perseguição ou de realidades que se opõem ao projeto de Deus (I leitura). Somos também interpelados a nos questionar nessa festa: Como estou abraçando diariamente o caminho do evangelho? Como sou chamado/a a ser santo/a nas ocupações de cada dia?

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