Superar a anemia espiritual da Vida Religiosa Consagrada
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13/02/2020 Superar a anemia espiritual da Vida Religiosa Consagrada
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Pe. Luís gonzález-Quevedo, sj

Publicado em: Revista CONVERGÊNCIA – Ano LIII – Nº 513 – Julho e Agosto 2018, p. 43-54.

Introdução

O Conselho Editorial da revista me pede para escrever sobre: “a superação da anemia espiritual da Vida Religiosa Consagrada (VRC)”.

O tema é desafiador. Suscita em mim mais interrogações do que respostas: a nossa VRC estará mesmo anêmica? A anemia é passageira, conjuntural, ou crônica, quase constitutiva do seu próprio ser? Quais são os “valores de referência” para poder julgar se estamos espiritualmente anêmicos? Existe um modelo ideal de VRC saudável?

Donde viemos nós, os que entramos na VRC naqueles belos anos do Concílio Vaticano II, e donde vêm, hoje, os jovens que estão entrando na VRC? Onde estamos neste momento histórico e neste país em que temos a graça de viver? E para onde estamos indo ou querendo ir?

A VRC tem futuro ou estaremos nos tornando os últimos exemplares de um ‘livro raro’, cuja edição está esgotada? Quais são as motivações que sustentam e dão sentido a esta forma de vida, tão louvada por uns e tão “irrelevante” para outros, no horizonte secularizado dos nossos dias?

A pergunta decisiva seria esta: como superar a nossa anemia – no caso de ela existir – ou, em todo o caso, como conservar e melhorar a nossa saúde espiritual?

Diagnóstica da Vida Religiosa Consagrada

Não é fácil arriscar um diagnóstico, a respeito da saúde espiritual de uma forma de vida tão antiga, tão diversa e tão rica como a VRC.

Um diagnóstico pessimista: um primeiro “diagnóstico” da VRC, no Brasil e no mundo, seria negativo: A vida religiosa está em crise, as vocações diminuíram, as saídas talvez não sejam tantas como nos anos do pós-Concílio (ou será que já nos acostumamos a elas e não nos chocam mais?), mas continuam afetando os Institutos. A pirâmide por faixa etária se inverteu: temos muitos membros idosos e poucos jovens que possam assumir as comunidades e as obras que herdamos do passado.

Este diagnóstico pessimista não é de hoje. Eu o tenho escutado desde que entrei na Companhia de Jesus. E era uma época em que ainda tínhamos muitas vocações. Aí veio o Concílio Vaticano II, e o que, para uns, foi uma “primavera”, para outros foi um tsunami, cujos efeitos se prolongam até hoje.

No final dos anos 1970, um destacado historiador beneditino escreveu que, nos doze primeiros anos de pós-Concílio, os mosteiros beneditinos se tinham afastado da observância da Regra de São Bento mais do que em todos os séculos anteriores2.

Outro autor que endossou a tese pessimista sobre a vida religiosa no pós-Concílio foi o jesuíta Jean Daniélou (1905-1974). Daniélou tinha sido um teólogo “progressista”, participou do Concílio como perito conciliar, e foi distinguido com o título de cardeal.

Em 1972, o cardeal Daniélou concedeu uma entrevista à Rádio Vaticano, sobre a renovação da vida religiosa. Na opinião do cardeal, mais do que de “renovação”, deveria falar-se de “decadência” das Ordens e Congregações religiosas. Tal decadência afetava mais ao mundo atlântico. Os países do Leste europeu, da África e da Ásia gozariam de melhor saúde espiritual.

A crise da VRC, segundo Daniélou, se manifestava em todos os campos. “Os conselhos evangélicos não são mais considerados como consagração a Deus, mas encarados numa perspectiva sociológica e psicológica: evita-se uma fachada burguesa, mas no plano individual não se vive a pobreza. A obediência religiosa é substituída pela dinâmica de grupo. Sob pretexto de reagir contra o formalismo, abandona-se a regularidade da vida de oração...”. As consequências seriam “o desaparecimento das vocações e os escandalosos abandonos de religiosos, que renegam o pacto que os ligava ao povo cristão”.3

Segundo Daniélou, a decadência da vida religiosa era devida a uma falsa interpretação do Concílio, em um contexto social de crescente secularização.

O otimismo pós-conciliar: um segundo diagnóstico da VRC seria muito mais otimista. Sem ser um teólogo profissional, nem ter participado do Concílio, o Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955) foi um autor emblemático, inspirador do otimismo pós-conciliar. Cientista (paleontólogo) e homem de sólida fé, acreditava que o mundo material e a humanidade evoluíam continuamente, passando de estágios inferiores para estágios superiores, em um processo inexorável de evolução, em direção ao Ponto Ômega, o Cristo Total.

Teilhard foi criticado por não levar suficientemente em conta a existência do mal no mundo e no coração do ser humano4. Ao otimismo teilhardiano poderia objetar-se que o desenvolvimento tecnológico está aumentando a desigualdade social, última raiz das guerras e dos conflitos sociais. A essa objeção, Teilhard responderia que isso faz parte do processo, mas a longo prazo o Bem triunfará, porque é mais forte do que o mal. Pouco antes da abertura do Concílio, no dia 30 de junho de 1962, a Santa Sé publicou um monitum (admoestação) contra os escritos de Teilhard, todos eles póstumos, mas que estavam tendo um surpreendente sucesso. A visão de Teilhard de Chardin, aberta e otimista, poética e mística, foi endossada, em boa parte, pelo Concílio Vaticano II, sobretudo na Constituição pastoral Gaudium et Spes, sobre a Igreja no Mundo.

Um autor representativo da visão otimista da vida religiosa foi o teólogo dominicano Frei Jean-Marie Roger Tillard, OP (1927-2000). Perito conciliar, teve certa influência no pós-Concílio, não só no campo da VRC, mas também no movimento ecumênico. Ele acreditava que o futuro da VRC estaria nas comunidades mistas, formadas por homens e mulheres. Mas suas ideias, ao menos neste ponto, não foram aceitas por Roma5.

O surgimento das Novas Comunidades, tão florescentes no Brasil atual, poderia parecer uma confirmação da previsão de Tillard. No entanto, a questão não está ainda clara, nem madura, tanto do ponto de vista jurídico como teológico-pastoral6.

Depois do Concílio, a teologia e a espiritualidade da VRC foram campo de especial atenção na América Latina, especialmente depois da Conferência de Medellín (1968). Havia toda uma geração de teólogos religiosos que, em torno à CLAR e à CRB, repensavam a VRC na linha da “Teologia da Libertação” (Leonardo Boff, OFM, Ronaldo Muñoz, SS.CC, João Batista Libânio, SJ, Víctor Codina, SJ7), muito embora não faltassem polêmicas entre os nossos teólogos, como a suscitada por Frei Clodovis Boff, OSM, ao criticar a “ambiguidade epistemológica” da Teologia da Libertação8.

Um diagnóstico equilibrado: teólogo e religioso, com experiência de cargos de governo, P. Carlos Palácio, SJ, nesta mesma revista, fez um diagnóstico da VRC equidistante do pessimismo e do otimismo.

Palácio reconhece “o desencanto estampado na vida de tantos/as religiosos/as”, e afirma que “a VRC sofre hoje de uma inegável ‘anemia evangélica’, pessoal e institucional” 9.

Porém, o autor se identifica com os que, “apesar de tantas dificuldades, não cessam de acreditar que a VRC tem futuro”10. O autor conclui que a vida religiosa apostólica (VRA) pode entrar em diálogo com outras  vocações e formas de vida na Igreja: “sem esconder o seu rosto nem diluir-se em alguma das outras formas, mas afirmando o seu lugar e a sua função na comunidade eclesial e no mundo ao qual é enviada”11.

Uma só reserva eu faria ao excelente artigo de Palácio. O autor enfatiza que a experiência de Deus, a vida comunitária e a missão, elementos essenciais de toda VRC, são radicalmente diferentes na VRA e na vida monástica. E atribui a crise de identidade da VRA, em primeiro lugar, à “transposição monástica”, com a imposição de um modelo único de Vida religiosa, inspirado na vida monástica12.

Da minha parte, eu não me sinto à vontade com esta contraposição radical dos “Institutos puramente contemplativos” (PC 7; VC 8)13 e dos “Institutos dedicados à vida apostólica” (PC 8; VC 9). Prefiro pensar em termos de complementaridade e convergência dos diversos estados, vocações e formas de vida na Igreja. Neste sentido, as “novas expressões de vida consagrada (...) são sinal da complementaridade dos dons do Espírito Santo” (VC 12).

Na sociedade tecnocrática e secularizada em que vivemos, o maior risco de nossa VRC não é a “uniformização monástica”. Pelo menos na vida religiosa masculina que eu vivo, os maiores riscos são a dispersão individualista, o acesso imediato e permanente à Web; a “desertificação espiritual”; a transposição à vida consagrada dos critérios e dos costumes do “mundo”, nesse fenômeno complexo e sutil que o papa Francisco chama de “mundanismo espiritual”14.

O próprio Palácio tem consciência da incidência na crise de identidade da VRA da fragmentação da cultura pós-moderna. As aceleradas mudanças culturais, na sociedade em que vivem tanto os monges, como os frades mendicantes, os clérigos regulares, e os membros de todos os Institutos femininos, contribuem para “a desintegração da unidade perdida entre experiência espiritual, estilo de vida e envio em missão” 15.

A Identidade da Vida Religiosa Consagrada

No diagnóstico da situação histórica da VRC, sempre houve e continuará havendo discordâncias. Nos “valores de referência” da VRC, porém, deveria haver uma maior convergência.

O Concílio Vaticano II nos ensinou, aos religiosos e religiosas, duas coisas inesquecíveis: a) A norma última e a regra suprema da VRC é o seguimento de Cristo proposto no Evangelho; b) O necessário aggiornamento, atualização ou conveniente adaptação às novas condições dos tempos se deve realizar de acordo com a “índole e função particular” (o carisma próprio) de cada Instituto. Por isso, é necessário conhecer e conservar fielmente “o espírito dos fundadores”, a finalidade do Instituto e as suas “sãs tradições”, todo o qual constitui o patrimônio de cada Instituto, que enriquece a Igreja.

Depois do Concílio, a Igreja dedicou o Sínodo dos Bispos de 1994 ao tema: “A vida consagrada e a sua missão na Igreja e no mundo”. O itinerário desse Sínodo culminou na Exortação Apostólica Pós-sinodal Vita Consecrata, de 25 de março de 1996, que continua sendo o mais completo documento que o Magistério da Igreja dedicou à VRC. Eu o proporia como leitura, estudo e meditação, não só de aspirantes, postulantes e noviços, mas de todo religioso ou religiosa, para que não tenham mais dúvidas a respeito dos valores essenciais da VRC.

Segundo o Magistério e a teologia atual, os elementos estruturais desta forma de vida cristã que chamamos “religiosa” e/ou “consagrada” são:

  1. a) a experiência de Deus;
  2. b) a comunidade fraterna;
  3. c) e a dedicação integral à missão evangelizadora da Igreja de Cristo.

A quem objetar que tais valores não são exclusivos da VRC, respondemos que não é necessário buscar diferenças de caráter absoluto entre a vocação religiosa e a vocação cristã. Ser religioso/consagrado é simplesmente uma forma particular de ser cristão, como ser cristão ou cristã é uma maneira específica de ser homem ou mulher16.

A experiência de Deus

O que fez com que o jovem Bento de Núrsia abandonasse a casa paterna e os bens de sua “nobre estirpe”? São Gregório Magno diz que foi o “desejo de agradar somente a Deus”17 . O que move hoje um/uma jovem do Norte/Nordeste do Brasil a sair de sua família e de sua terra, para vir ao Sul e entrar em um Instituto de Vida consagrada? Pe. Libânio responde: “a experiência fundante”18. E exemplifica com a frase de Santa Teresa: “solo Dios basta!”, que ecoa no “Dieu seul!” das numerosas Congregações religiosas femininas surgidas na Europa, no século XIX e primeira metade do Séc. XX19.

AVRC radicaliza a compreensão do valor absoluto de Deus, relativizando todo o resto. Dom Luciano Mendes de Almeida gostava de repetir a frase do Padre Leonel Franca: “Com o Absoluto não se regateia, quem não deu tudo, não deu nada”. Todos os santos fundadores tiveram a intuição de que “tudo passa, o que não é eterno não é nada” (São João Bosco)20.

Certamente, a experiência de Deus não é exclusiva da VRC, mas entre as notas características da vocação religiosa, a primeira é a busca intensa de Deus. O Concilio Vaticano II o lembrou a todos os que professam os conselhos evangélicos, em qualquer forma de VRC: “busquem e amem mais que tudo a Deus, que nos amou primeiro (1Jo 4,10) e procurem em todas as circunstâncias cultivar a vida escondida com Cristo em Deus (Cl 3,3), da qual dimana e recebe estímulo o amor do próximo, para a salvação do mundo e a edificação da Igreja”21.

Por isso – conclui o Concílio - os membros dos Institutos devem cultivar com esforço contínuo o espírito de oração e a mesma oração, recorrendo às fontes genuínas da espiritualidade cristã: a Sagrada Escritura e a Liturgia, sobretudo o mistério eucarístico. Sem esta relação  intensa com Deus, a VRC perde seu fundamento e as nossas comunidades e atividades apostólicas se reduzem ao que o papa Francisco chama de “ONGs espirituais”.

A comunidade fraterna

O desejo de agradar somente a Deus levou Bento a fugir do mundo e embrenhar-se pelas montanhas de Subiaco e Montecassino. Mas seu testemunho radical atraiu outros homens e mulheres desejosos de Deus, que abraçaram a vida monástica cenobítica. O “só Deus!” de Teresa levou-a a tornar-se andariega (andarilha) pelas estradas de Castela e Andaluzia, fundando 17 Carmelos femininos e colaborando decisivamente na Reforma do Carmelo masculino.

No seu Testamento, São Francisco de Assis escreveu: “Depois que o Senhor me deu irmãos, ninguém me mostrava o que deveria fazer, mas o próprio Altíssimo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho”22. O milagre da comunhão fraterna, na grande família franciscana, como nos demais Institutos de Vida Consagrada, não se deve à humilde e cativante figura do poverello, nem às qualidades humanas dos seus irmãos e irmãs, mas à ação gratuita do DeusAltíssimo, que suscitou no santo de Assis e nos seus irmãos e irmãs o desejo de viverem juntos a forma de vida do Evangelho.

Embora historicamente a vida anacorética tenha precedido à vida cenobítica, hoje devemos incluir, entre as notas características da VRC, a “vida fraterna em comunidade” 23 O próprio Concílio tinha afirmado que a comunidade (religiosa) “como verdadeira família, reunida em nome do Senhor, goza de sua presença (cf. Mt 18,20) e dela dimana um grande dinamismo apostólico” 24.

A missão de Cristo, presente na Igreja:

Convalescente de uma grave ferida, Santo Inácio de Loyola leu a Vida de Cristo e um florilégio das Vidas dos Santos. Ele queria seguir o exemplo de Francisco e de Domingos, mas também o do eremita Santo Onofre. Chegou a pedir informações sobre a Cartuxa de Sevilha25. Finalmente, a “visão de La Storta” 26orientou definitivamente sua vida para a ação apostólica, muito embora ele tivesse que ficar em Roma, coordenando a ação missionária da Companhia de Jesus.

Antes de dispersar-se pela “vinha do Senhor”, os primeiros jesuítas se questionaram: “que devemos responder aos que nos perguntem quem somos? Inácio fez questão de responder: “somos da Companhia de Jesus!”. E Polanco, que será o secretário da nova Ordem, justifica: porque “não tinham outra cabeça, nem outro prepósito que Jesus Cristo, a quem só desejavam servir”27 . O seguimento radical de Jesus será outra das notas características de toda a VRC.

O Diário Espiritual de Inácio mostra que o fundador da Companhia de Jesus foi um místico, mas sua mística não era uma mística esponsal, como a de Santa Teresa, embora o “Sentir com a Igreja” inaciano se fundamente na fé em que “entre Cristo nosso Senhor, Esposo, e a Igreja, sua esposa, é o mesmo espírito que nos governa e rege para a salvação de nossas almas” 28.

A mística inaciana também não é uma mística da pobreza, da poesia, da ecologia e da paz, como a mística franciscana, embora Inácio apresentasse a pobreza como o “firme muro” da Vida religiosa29 e fosse um homem sensível, que se enternecia diante das flores ou das estrelas do firmamento (Cf. a “Contemplação para alcançar amor” 30).

A mística de Inácio de Loyola é uma mística de união com Cristo na ação, uma “mística de serviço” à missão de Cristo, que se prolonga na missão da Igreja. Os Exercícios Espirituais, principal fonte da espiritualidade que Inácio legou a toda a Igreja, são decididamente cristocêntricos.

A “missão”, entendida como tornar Cristo presente lá onde estivermos31, constitui o terceiro eixo estrutural de toda VRC, mesmo na vida de clausura, como foi o caso de Santa Teresinha de Lisieux, padroeira das Missões, junto com São Francisco Xavier.

Profilaxia da Vida Religiosa Consagrada32

Um século atrás, em 1920, a tuberculose causou a morte da jovem Marta González-Quevedo Monfort, irmã do meu pai. Tinha apenas 20 anos de vida e queria ser religiosa. Suas últimas palavras foram: “Vocação! Vocação!”

A tuberculose é uma doença infecto-contagiosa que, segundo a Organização Mundial da Saúde, mata 5.000 pessoas por dia no mundo. Um quarto da população mundial estaria infectado pelo bacilo de Koch (Mycobacterium tuberculosis), mas apenas de 5% a 15% dos infectados evoluem para a tuberculose ativa33. A convivência ou proximidade com pessoas infectadas, assim como os ambientes fechados e pouco ventilados, favorecem o contágio.

Sem forçar demais a comparação, podemos pensar que uma comunidade anêmica, infectada por divisões e fofocas, só por milagre poderá suscitar e conservar vocações religiosas, tanto contemplativas como apostólicas. Pelo contrário, uma comunidade fervorosa, aberta e espiritualmente arejada, com muitas ou poucas vocações, dará sempre no mundo o testemunho do “bom odor de Cristo” (2Cor 2,15).

Quem entrar em tal comunidade respirará um clima de confiança e liberdade, de obediência e fraternidade, de amizade com o Senhor, dos irmãos ou irmãs entre si e com o povo.

“Por isso aconselharia eu aos que têm (vida de) oração, em especial no começo, procurem amizade e relacionamento com outras pessoas que tratam do mesmo. É coisa importantíssima!”, insiste Santa Teresa34. “Porque andam as coisas do serviço de Deus tão fracas, que os que lhe servem precisam proteger-se uns aos outros, para irem adiante  (...) Porque, para cair, havia muitos amigos que me ajudassem; para me levantar, encontrava-me tão sozinha, que agora me espanto como não fiquei sempre caída”35.

Teresa foi ajudada, também, pela leitura das Confissões de Santo Agostinho, das Cartas de São Jerônimo e das obras dos místicos franciscanos do século XVI. “Deu-me a vida ter ficado amiga de bons livros”36 Ela queria que os confessores tivessem bom entendimento e experiência de oração. E se fossem “letrados”, muito melhor! Porque de “devoções bobas (isto é, sem fundamento), Deus nos livre!”37.

O remédio fundamental recomendado por Teresa e por todos os autores espirituais é a oração, que ela define como “relação (trato) de amizade”38 com Deus: “porque não é outra coisa oração mental, a meu parecer, senão tratar de amizade - estando muitas vezes tratando a sós - com quem sabemos nos ama”. Para Teresa, a verdadeira amizade tem duas exigências: intimidade (‘a sós’) e assiduidade, trato frequente (“estando muitas vezes tratando a sós”). “Parentes e amizade se perdem com a falta de comunicação” 39.

Em matéria de doenças, tanto físicas como espirituais, um princípio profiláctico é cortar os males nos seus começos. Toda doença deve ser combatida tão logo se manifesta. Do contrário, o resfriado pode virar gripe, e a gripe, pneumonia. Um poeta latino o disse: Principiis obsta (“Opõe-te ao princípio”)40. A mesma ideia se encontra nas Cartas de São Jerônimo: “Dificilmente se curam os males que não se cortam tão logo começam a crescer41”.

Aos jovens em formação, eu recomendo harmonizar a “sadia rebeldia”, própria da juventude, com o bom senso e o humor do nosso povo, quando diz: “o que não tem remédio, remediado está”, “manda quem pode; obedece quem tem juízo...”. Dia chegará em que eles – os jovens - poderão corrigir os erros que, hoje, nós cometemos. Mas, entretanto, eles precisam praticar duas virtudes que não são frequentes na juventude: a paciência e a perseverança.

O conhecido escritor dominicano Frei Betto (Carlos Alberto Libânio Cristo), sendo Noviço, estava um dia tão desanimado, que decidiu abandonar a VRC. Entrou no quarto do Mestre de Noviços e disse-lhe que queria ir embora. O velho Mestre perguntou-lhe: “Betto, se você estivesse uma noite em plena floresta, sem luar, e a sua lanterna apagasse, você continuaria caminhando, batendo nas árvores e esfolando-se, ou pararia e esperaria pelo amanhecer?” O jovem Noviço respondeu: “Eu pararia e esperaria pelo amanhecer”. O Mestre concluiu: “Pois, espera pelo amanhecer! Entretanto, leia isto”. E entregou-lhe as Obras Completas de Santa Teresa.

Conclusão

Creio que a nossa VRC está anêmica, sim. Creio que precisamos voltar às fontes, retornar a Assis42, caminhar à beira do rio Cardoner43... Sobretudo, precisamos voltar a Nazaré, reencontrar-nos com Jesus, deixar-nos seduzir por Ele, seguir suas pegadas e consagrar-Lhe, mais uma vez, toda a nossa vida.

Questões para refletir

  1. a) Que fatos poderiam indicar que a VRC atual sofre de anemia espiritual?
  2. b) Quais seriam as notas características de uma VRC saudável?
  3. c) Como prevenir e curar uma VRC espiritualmente anêmica?

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2 A. de Vogüé, “Saint Benoît aujourd’hui. La vie monastique et son aggiornamento”, NRTh. 100/5 (1978), 720-733. De Vogüé é autor, entre outras obras de história monástica, do comentário à Regra de São Bento, na prestigiosa coleção “Sources Chrétiennes”.

3 Cf. Alberto Royo Mejía, “Historias del postconcilio (IV): La polémica del Cardenal Daniélou com algunos superiores generales religiosos”, www.infocatolica.com/blog/historiaiglesia.../hi-cardenaldanielou/

4 “A visão do Pe. Teilhard parece não contar com o ‘mistério da iniquidade’ ou com o pecado, e em absoluto silencia as noções de salvação e redenção do gênero humano” (Estevão Bettencourt, “Teilhardde Chardin e Evolução”, Pergunte e Responderemos, set. 1958).

5 Que o futuro da VRC fossem as comunidades mistas, o próprio Tillard me disse, em uma conversa pessoal, no final dos anos 1970. O último livro do autor tem um título significativo: Je crois em dépitde tout: entretiens d’hiver avec Francesco Strazzari. Paris: du Cerf, 2001.

6 Ocupei-me do tema em “Nuove comunità nella Chiesa brasiliana”, La Civiltà Cattolica, 2017, I, n. 4002, p. 595-609 (11-25 marzo 2017). O meu texto foi redigido antes da Carta da Congregação para a Doutrina da Fé Iuvenescit Ecclesia, sobre a relação entre dons hierárquicos e carismáticos para a vida e missão da Igreja, de 15 de maio de 2016.

7 Cf. CLAR-CRB, Para uma Vida Religiosa Latino-Americana. Seleção de textos teológicos. São Paulo: CRB/Loyola, 1986.

8 Cf. Clodovis Boff, OSM, “Teologia da Libertação e volta ao fundamento”, REB 67 (out. 2007), 1001-1022. Para o Frei Clodovis, haveria uma Teologia da Libertação que “colocou os pobres no lugar de Cristo”. Cf. a resposta de Leonardo Boff, “Pelos pobres contra a estreiteza do método”, REB 68 (julho 2008), 701-708.

9 Carlos Palácio, “Luzes e Sombras da Vida Religiosa Consagrada nos dias de hoje”, Convergência, XLVI, nº 444 (set, 2011), 416-441 (416-417).

10 Id., ib., 417.

11 Id., ib., 440.

12 “A uniformização monástica foi um golpe mortal para a identidade da VRA”, Id. Ib., p. 438.

13 Cito o Decreto Perfectae Caritatis e a Exortação Apostólica pós-sinodal ‘Vita Consecrata’, de João Paulo II (1996).

14 Exortação apostólica Evangelium Gaudium, 24 de novembro de 2013, n. 93-97.

15 Palácio, loc. cit., 427.

16 Sobre a especificidade da vocação religiosa, cf. o verbete “Vocação. 2. Estudo Teológico”, do Dicionário Teológico da Vida Consagrada, dirigido por A. Aparicio Rodríguez, CMF, e J. Canals Casas, CMF. São Paulo: Paulus, 1994, 1161-1163, onde procurei descrever as notas características – não necessariamente exclusivas - da vocação religiosa na Igreja.

17 Vida e Milagres de S. Bento – Livro Segundo dos Diálogos de S. Gregório Magno. 3ª ed. Rio de Janeiro: Edições “Lumen Christi”, 1986.

18 J.B. Libânio, “Discernimento vocacional: a experiência fundante”, Convergência 20 (1985), 195-206.

19 Em 1817, havia na França 12.400 religiosas; em 1877, eram já 127.753, contra 30.287 religiosos varones. Na segunda metade do século XIX, houve na Espanha uma grande expansão das comunidades religiosas femininas. Na Itália, entre 1900 e 1952, surgiram 152 novas fundações femininas. Tomo estes dados de Manuel Martín Riego, em Isidorianum. Revista del Centro de Estudios Teológicos de Sevilla, a. 26, n. 51-52 (2017), 365-366.

20 Cf. 1Jo 2,17. Sobre o fundador da Congregação Salesiana, veja-se: Cristina Siccardi, São João Bosco místico. Uma vida entre o Céu e a Terra. Campinas: Ecclesiae, 2015.

21 PC, 6.

22 Francisco de Assis, Escritos. Santo André, SP: Ed. Mensageiro de Santo Antônio, 1999, 130 (“Fontes Franciscanas”, 1).

23 Cf. Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, A vida Fraterna em Comunidade, 2 de fevereiro de 1994.

24 PC, 15.

25 Autobiografia de Inácio de Loyola. Tradução e notas: A. Cardoso. São Paulo: Loyola, 1987, nº 12. A mais recente tradução portuguesa, de R. Paiva, adotou o título de: O Relato do Peregrino (Loyola).

26 Ib., nº 96.

27 Cf. R. García-Villoslada, Santo Inácio de Loyola: Nova Biografia. São Paulo: Loyola, 1991, 423-424. Neste ponto, o biógrafo do santo fundador esclarece que o nome “Companhia”, no contexto da época, não tinha conotação militar. Santo Inácio não foi nunca “soldado” ou “capitão”, como repetem os mal informados. Inácio foi apenas um “cavaleiro”, que empunhava as armas em defesa do seu senhor.

28 Exercícios Espirituais, nº 365.

29 Constituições, nº 553.

30 A “Contemplação para alcançar Amor” é o último exercício dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola.

31 “De fato, as pessoas consagradas têm o dever de tornar presente, mesmo entre os não-cristãos, Jesus Cristo casto, pobre, obediente, orante e missionário”, João Paulo II, Ex. Ap. Vita Consecrata, nº 77.

32 A profilaxia é a parte da Medicina que tem por objeto medidas preventivas contra as doenças.

33 Julio Abramczyk, “Tratando a tuberculose antes que ela apareça”, Folha de São Paulo, 24 de março de 2018.

34 Teresa de Jesus, Santa, Livro da Vida, 7, 20. A santa, porém, critica as “amizades particulares”, porque não são saudáveis.

35 Id, ib., 7, 22.

36 Id. Ib., 3, 4.

37 Id. Ib., 13, 16. A Santa estima, pois, os “letrados”, mas diz também que, se não são pessoas de oração, ajudam pouco aos principiantes.

38 Id., ib., 8,5. Cf. “Puedo tratar (con Cristo) como amigo, aunque es Señor”: ib. 37,6

39 Caminho de Perfeição, 26,9.

40 Ovídio Nasone, Remedia amoris. Bologna: P. Pinotti, 1988, 121 (cit. por Renzo Tosi, Dicionário de Sentenças Latinas e Gregas. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 378).

41 Cartas de San Jerónimo II. Madrid: BAC, 1962, 136. (Carta 100, 1).

42 M. A. Santaner, Le retour a Assise. Bruges: Desclée de Brouwer, 1970

43 O Cardoner é o rio que passa pela cidade catalã de Manresa, onde Santo Inácio iniciou seus Exercícios Espirituais. À beira do rio Cardoner, o fundador da Companhia de Jesus teve a maior graça mística de sua vida (cf. Autobiografia, n. 30).

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