Pedro Casaldáliga: poeta, profeta e revolucionário
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14/01/2020 Por ANA ELIZABETH DINIZ | ESPECIAL PARA O TEMPO Notícias Pedro Casaldáliga: poeta, profeta e revolucionário
Liderança espiritual. O bispo Pedro Casaldáliga tem dedicado sua vida a acolher e apoiar minorias - Foto: Ana Helena Tavares/Divulgação
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A carioca Ana Helena Tavares nasceu em 1984, o ano das Diretas Já. É jornalista e criadora do site de jornalismo político Quem Tem Medo da Democracia?. E foi assim que, em 2012, ela se encontrou com o bispo Pedro Casaldáliga, na Prelazia de São Félix do Araguaia.

“Quando o conheci, eu queria apenas uma entrevista sobre a ditadura militar para uma série de reportagens que eu fazia para o site Outras Palavras. Mas a inclinação que eu já tinha de trabalhar na fronteira entre o jornalismo e a literatura e a vontade de contar histórias reais me fizeram perceber que eu havia encontrado um personagem fantástico e desafiador. Alguém que ousou amaldiçoar cercas sem jamais amaldiçoar pessoas”, relembra a jornalista.

No caminho para São Félix do Araguaia, seu ônibus foi barrado por um protesto de posseiros que resistiam a desocupar terras indígenas. “Precisei descer, filmei, conversei com pessoas. Um homem com um daqueles chapéus usados por fazendeiros perguntou qual era meu destino. Meio desavisada, eu disse: vou entrevistar dom Pedro Casaldáliga. O homem levou um baque, olhou fixo nos meus olhos e disparou: ‘Arrumo um carro para te levar, mas fique sabendo que aquele bispo não vai para o céu’. Aceitei a carona e, chegando à residência de Pedro, fiquei pensando que ali já era o próprio céu”, diz Ana Helena.

Quatro anos depois, a jornalista retornou à casa do bispo para lhe entregar seu primeiro livro, “O Problema É Ter Medo do Medo”, título inspirado na entrevista de Casaldáliga, para informá-lo que iria biografá-lo.

A partir dali, Ana Helena sabia que a trajetória e a vida do religioso mereciam ser conhecidas de todos. O resultado está no livro “Um Bispo contra Todas as Cercas: A Vida e as Causas de Pedro Casaldáliga”, que ganha agora nova edição pela Vozes e apresenta os muitos “Pedros” que há em Pedro: poeta, profeta, místico, revolucionário, definitivamente humano.

Ana Helena conta que o que mais a encantou na história do bispo foi “a profunda coerência entre discurso e prática, que é muito rara”. “Pedro, na forma simples como gosta de ser chamado, resistiu por muitos anos a ter geladeira. Se os pobres não podiam ter, ele também não podia, era o que dizia e fazia. Pelo mesmo motivo, até hoje, não aceita ter ar-condicionado, aguentando as altas temperaturas do norte mato-grossense. Esses são só alguns exemplos que levam quem o conhece a se encantar, pois sua forma de vida é seu maior testemunho cristão”, diz a jornalista.

Pergunto a Ana Helena se ela acredita se ele vai ou não para o céu. “Pedro vive hoje uma espécie de martírio devido à saúde fragilíssima. De certa maneira, ele buscou o martírio, como confessou algumas vezes em seus escritos. Não foi morto por uma bala, mas foi acometido por essa doença terrível, à qual chama de ‘irmão Parkinson’”.

“Creio que ele já está desfrutando do céu na terra. Tanto porque sua casa tem mesmo uma atmosfera celeste quanto própria espiritualidade, altamente desenvolvida. Quando morrer, será, por certo, glorificado pelo povo como ‘santo súbito’. Muitos já o consideram santo em vida”, revela a jornalista.

Casaldáliga já sentenciou seu desejo de ser enterrado no cemitério dos Carajás. “Assim como ele sempre viveu ao lado dos pobres, ele quer morrer ao lado dos pobres. Quer ser enterrado debaixo de um pé de pequi, preferencialmente ‘entre um peão e uma prostituta’, deseja o bispo de almas do Araguaia”, ressalta Ana Helena.

Bispo sempre defendeu minorias

Pedro Casaldáliga atuou ativamente contra a ditadura, militou a favor da população pobre, marginalizada e ameaçada pelo latifúndio. “Encontrou mais afetos que desafetos. Mesmo entre os que se consideram inimigos de suas causas, muitos o respeitam e admiram sua coerência e coragem. Muitas vezes quiseram expulsá-lo do Brasil, em outras tantas tentaram matá-lo. Há casos de matadores de aluguel que desistiram. Um deles foi à polícia, entregou a arma e disse que, se matasse um religioso, iria para o inferno”, revela a jornalista Ana Helena Tavares.

Até recentemente, Casaldáliga recebeu ameaças de morte. “Sempre pela defesa de um progresso que não mate índios, que não destrua a natureza, que preserve a vida, que não escravize o ser humano”, diz Ana Helena.

Francisco é o papa de Pedro

Ana Helena Tavares acredita que Francisco é o papa com o qual Pedro Casaldáliga sempre sonhou. “Na década de 80, o bispo escreveu um poema chamado ‘Deixe a cúria, Pedro’. Esse Pedro se refere a são Pedro, de quem todos os papas são sucessores. Era um claro pedido para que o papa (no caso, João Paulo II) se preocupasse com os problemas do povo, abraçasse lutas como a da defesa do meio ambiente e se desprendesse dos símbolos de poder. Francisco, nitidamente, atendeu ao seu pedido”.

Biografia

  • “Um Bispo contra Todas as Cercas: A Vida e as Causas de Pedro Casaldáliga”
  • Ana Helena Tavares
  • Editora Vozes
  • 248 páginas, R$ 49,00
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