Para o papa, comunicação eclesial deve ser testemunho cristão
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24/09/2019 Dom Total Notícias Para o papa, comunicação eclesial deve ser testemunho cristão Em discurso de abertura da plenária do Dicastério para a Comunicação, Francisco adverte que a comunicação cristã não consiste em fazer propaganda proselitista.
Francisco improvisou algumas palavras na abertura da plenária do Dicastério para a Comunicação, mas entregou seu discurso escrito. (Vatican Media)
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Comunicar o Amor com o corpo e alma, dando tudo de si: são as palavras que o papa Francisco dirigiu aos membros do Dicastério para a Comunicação, que iniciou esta segunda-feira a sua plenária.

A audiência foi realizada na Sala Regia, no Vaticano, na presença de inúmeros funcionários, entre os quais os jornalistas brasileiros e lusófonos que compõem a redação em língua portuguesa do Vatican News.

Testemunho

O pontífice preferiu entregar o discurso já preparado e improvisar algumas palavras sobre o tema da comunicação:

“Comunica-se com a alma e com o corpo, comunica-se com a mente, com o coração, com as mãos; comunica-se com tudo. O verdadeiro comunicador se entrega, não se poupa. É verdade que a comunicação maior é o Amor, quando no amor se vê que há a plenitude da comunicação: amor a Deus e nosso”.

Todavia, advertiu o papa, comunicar não é fazer propaganda. “Gostaria que a nossa comunicação fosse cristã”, afirmou, e não feita de proselitismo, como dizia claramente Bento XVI. Atração significa testemunho.

“ Se quiserem comunicar uma verdade ‘mais ou menos’, mas sem se envolver, sem testemunhar com a própria vida, com a própria carne aquela verdade, parem, não o façam. Há sempre a assinatura do testemunho em cada coisa que fazemos. Testemunhas: cristãos quer dizer testemunhas. Mártires. Esta é a dimensão do martírio da nossa vocação: ser testemunhas".

Sem medo

Outra advertência feita por Francisco foi quanto à resignação.

“O ar de mundanidade não é algo novo do século XXI: não. Sempre foi um perigo, sempre houve a tentação, sempre foi um inimigo: a mundanidade. (…) Esta é a segunda coisa que gostaria de dizer: não ter medo; somos poucos? Sim, mas com a vontade de ‘missionar’, de mostrar aos outros quem somos. (...) E comunicare é isto: comunicar esta riqueza grande que nós temos”.

Comunicar com os substantivos

O terceiro ponto levantado pelo pontífice foi o uso de adjetivos e advérbios, em detrimento do substantivo – costume ao qual o papa disse sentir “alergia”.

“O comunicador deve fazer entender o peso da realidade dos substantivos que refletem a realidade das pessoas. E esta é uma missão do comunicar: comunicar com a realidade, sem adoçar com os adjetivos e os advérbios. ‘Isto é algo cristão: para que dizer autenticamente cristão? É cristão! Só o uso do substantivo “cristão”, “sou de Cristo”, é forte: é um adjetivo substantivado sim, mas é um substantivo. Passar da cultura do adjetivo à teologia do substantivo. E vocês devem comunicar assim.”

“A beleza não necessita da arte rococó”, finalizou o papa, pedindo que os jornalistas comuniquem com alegria o Evangelho.

Discurso escrito

Senhores Cardeais,
queridos irmãos e irmãs,

Dou-lhes as boas-vindas e agradeço pelas palavras que me dirigiu em nome de todos, o dr. Paolo Ruffini, prefeito do dicastério, que pela primeira vez preside a assembleia plenária. Alguns de seus rostos me são mais familiares, porque vocês me acompanham na minha atividade cotidiana e nas minhas viagens apostólicas. Sei, no entanto, que há muitas outras pessoas que também vivem a sua semana de trabalho ao ritmo dos compromissos do papa. Mas fazem-no "nos bastidores", colocando no seu trabalho, ao serviço da Igreja, todo o seu profissionalismo e criatividade, a sua paixão e discrição.

Estou feliz de poder ver hoje vocês todos juntos e agradecer por tudo o que fazem! Graças ao seu trabalho, muitas pessoas são encorajadas no seu caminho de fé e muitas são convidadas a procurar e encontrar o Senhor. Graças ao trabalho de vocês, o papa fala em quase quarenta línguas - é um verdadeiro "milagre pentecostal"! Graças a vocês, o Magistério do papa e da Igreja é lido no papel, é escutado na rádio, é visto nas redes de televisão e nos sites e partilhado através das redes sociais, no cada vez mais vertiginoso mundo digital.

Esta é a primeira vez que encontro vocês todos juntos desde que, há quatro anos, teve início o processo de reunificação em um novo Dicastério da Cúria Romana todas as realidades que, de diversas maneiras, se ocupavam da comunicação (cf. motu proprio O atual contexto comunicativo, 27 de junho de 2015).

As reformas são quase sempre fadigosas, e também é a dos meios de comunicação social do Vaticano. Pode ter havido alguns trechos de estrada particularmente difíceis, pode ter havido alguns mal-entendidos, mas estou contente em ver que o caminho avança com previsão e prudência. Sei do esforço que fizeram para utilizar da melhor forma os recursos que lhes foram confiados, contendo os custos improdutivos.

Para a Igreja, a comunicação é uma missão. Nenhum investimento é muito alto para difundir a Palavra de Deus. Ao mesmo tempo, todo o talento deve ser bem usado, feito frutificar. Também nisso se mede a credibilidade daquilo que dizemos.

Além disso, para permanecer fiel ao dom recebido, é preciso ter a coragem de mudar, nunca sentir que chegou, nem desanimar. É preciso sempre colocar-se em jogo, sair das próprias falsas seguranças e abraçar o desafio do futuro. Percorrer os tempos não é extinguir a memória do passado, é manter vivo o fogo.

Eu vi o trabalho que vocês fizeram. Vejo-o todos os dias. Por isso, hoje eu gostaria de agradecer a Deus junto com vocês pela força que ele lhes deu e que nos dá. A memória agradecida por tudo o que já foi feito, e a consciência do esforço comum, possam dar-lhes a força para avançar neste caminho.

Na verdade, somente as nossas forças não são suficientes. Foi o que disse há 55 anos são Paulo VI, recebendo os membros da primeira assembleia plenária, da então chamada Pontifícia Comissão para as Comunicações Sociais. Reconhecia quão limitadas eram as nossas forças diante deste imenso campo da comunicação. Mas é precisamente por isso - dizia -, que é necessário "pensar em outra ordem de forças, outro modo de julgar as coisas; ordem e modo, que vamos estudar na escola do Senhor. […] Um pensamento de fé deve, portanto, sustentar a pequenez de nossos humildes esforços [...]. Quanto mais nos tornarmos instrumentos nas mãos de Deus, isto é, pequenos e generosos, maior será a probabilidade da nossa eficiência crescer". (Ensinamentos II [1964], 563).

Sabemos que, desde então, os desafios nesta área têm crescido exponencialmente, e as nossas forças ainda não são suficientes. O desafio ao qual vocês são chamados, como cristãos e como comunicadores, é realmente alto. E precisamente por esta razão é bonito.

Alegro-me, portanto, que o tema escolhido para esta assembléia seja "Somos membros uns dos outros" (Ef 4,25). A sua, a nossa força está na unidade, no ser membros uns dos outros. Só assim poderemos responder cada vez melhor às exigências da missão da Igreja.

Na mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano, que tem o mesmo título, escrevi que "uma comunidade é muito mais forte quando é mais coesa e solidária", quando "persegue objetivos comuns". A metáfora do corpo e dos membros nos leva a refletir sobre a nossa identidade, que se baseia na comunhão e na alteridade. Como cristãos, todos nós nos reconhecemos como membros do único corpo do qual Cristo é a cabeça", e "somos chamados a manifestar a comunhão que marca a nossa identidade de crentes. A própria fé, de fato, é uma relação, um encontro; e, sob o impulso do amor de Deus, podemos comunicar, acolher e compreender o dom do outro e responder-lhe".

A comunicação na Igreja só pode ser caracterizada por este princípio de participação e partilha. A comunicação só é verdadeiramente eficaz quando se torna testemunho, isto é, uma participação da vida que nos é doada pelo Espírito e nos faz descobrir em comunhão uns com os outros, membros uns dos outros.

São João Paulo II escrevia na carta apostólica O rápido desenvolvimento: "Tanto a comunicação dentro da comunidade eclesial como a da Igreja com o mundo exigem transparência e um novo modo de enfrentar as questões relacionadas com o universo da mídia. Este é um dos campos em que é mais necessária a colaboração entre fiéis leigos e pastores, uma vez que, como bem recorda o Concílio, "destas relações familiares entre leigos e pastores devem esperar-se muitas vantagens para a Igreja, [...] para que toda a Igreja, apoiada por todos os seus membros, possa desempenhar mais eficazmente a sua missão pela vida do mundo" (Lumen gentium, 37). (n. 12).

Por isso, encorajo vocês a continuar no seu trabalho quotidiano, a trabalhar cada vez mais em equipe, nesta cooperação entre leigos, religiosos e sacerdotes de tantos países, de tantas línguas, que faz muito bom à Igreja. Que o próprio estilo do seu trabalho seja testemunho de comunhão.

Encorajo também vocês, para além do trabalho desta assembleia plenária, a procurar com engenho e criatividade todos os modos para fortalecer a rede com as Igrejas locais. Encorajo também nisto a favorecer a formação de ambientes digitais, nos quais se possa comunicar e não só se conectar.

Sei que recentemente este Dicastério promoveu alguns instrumentos concretos para que cresça entre as Igrejas locais e o Dicastério a circularidade da comunicação a serviço de todos. Sei que vocês têm novos projetos, aos quais não faltará o apoio do papa. Através do seu trabalho vocês participam no serviço da unidade da Igreja e na coordenação da comunicação de toda a Cúria Romana. Devemos caminhar juntos. Devemos saber interpretar e orientar o nosso tempo. Que a comunicação eclesial seja verdadeiramente expressão de um único "corpo".

Obrigado a cada um de vocês, obrigado também às suas famílias e comunidades. Peço a vocês, por favor, que rezem por mim, e de coração os abençoo.

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