O legado africano para a casa comum
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03/06/2019 O legado africano para a casa comum
Foto: arquivo pessoal/ Margem do rio Kwanza
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 É em meio a tantos assombros e ruinas causados pelo homem do século XXI, que o atual líder da Igreja Católica Papa Francisco, bispo de Roma, acentuou seu pontificado com sua Encíclica “Laudato Si, mi Signore” em 2015. O documento nos convoca a um novo jeito de ser e de se relacionar com o cosmo ou casa comum. O título, mantido no dialeto úmbrico falado no século XIII, “Laudato Si, mi Signore” carrega na sua tradução para o português, o trecho “Louvado sejas, meu Senhor” cantado pelo inspirador do Pontífice, São Francisco de Assis, que com sua vida soube louvar o Senhor com palavras e atitudes. Em síntese, a encíclica nos chama a partilhar de um mesmo espaço numa ótica de respeito e cuidado com aquilo que não está para além de nós, mas faz parte da nossa própria existência, somos interligados. Descuidar da casa comum é descuidar de nós mesmos num sentido de que somos parte de um todo orquestrado. Entretanto, a nação africana com sua riqueza cultural, histórica e geográfica já profetizava o “novo jeito de ser” falado pelo Papa Francisco não com palavras, mas já com o próprio jeito de ser. 

Para entendermos essa maneira já vivida pelos nossos irmãos é necessário apontar alguns elementos que são muito caros as culturas africanas. Quero aqui, me localizar na cultura angolana e mesmo assim mantermos o uso do termo culturas, considerando que é um país de diversas línguas, dialetos e tradições. O primeiro elemento é a respeitabilidade do mais velho, chamado também de Soba. O Soba é aquele que conduz e lidera uma pequena ou grande comunidade, é aquele que dá o tom para que determinada comunidade cante a melodia da vida. O mais velho carrega consigo grandes responsabilidades, pois na crença cultural é por meio dele que o povo saberá o seu percurso histórico-passado, fará sua organização social, cultural, espiritual e educacional. Ou seja, é por meio do Soba que se far-se-à a educação das novas gerações e que manterá o seu equilíbrio fraterno. Em outras palavras, segundo B. Keita, o mais velho é considerado como o “depositário de experiencias práticas, morais e organizativas dentro da sua comunidade.” 

Entendido esse primeiro elemento vamos, agora, entender, a relação homemterra vivenciada nas aldeias. Com base nessa grande tarefa, o Soba será também não apenas o regente do povo, mas também o regente da terra. A tradição em conformidade com o governo delegará também a ele à autoridade de dividir o pedaço de terra que cabe a cada família de sua comunidade. O mais velho é aquele que reconhecerá o lugar que cada um deve ocupar no espaço territorial para construir ali a vida de uma família. O pequeno alqueire de terra, não necessariamente dado em apenas um espaço, mas normalmente dividido em dois terrenos distantes, deverá ser cultivado e acariciado por cada família que o recebe, pois, aqueles espaços serão lugar da sua casa e da sua lavra. Entretanto, por mais que seja o Soba delegado pela tradição e pelo Estado como o responsável maior para dar a legitimação das terras, a terra não o pertence e nem ao Estado e muito menos a aquele que o recebeu. Juridicamente o Estado alega sua propriedade, mas ouvindo a voz da tradição, o poder político ou a autoridade maior é apenas um representante. Foi a partir do espírito da terra que os herdeiros receberam este bem temporário. Assim, a terra (casa comum) surge como algo divino, não podendo ser propriedade exclusiva de nenhum indivíduo.

Dessa forma, os povos africanos já no germe de sua educação vivenciam aquilo que hoje, com voz profética, o Papa vem anunciando ao seu rebanho, o respeito e cuidado pela terra. Relacionar com a terra de forma respeitosa é conceder a ela o título de irmã, de divina e de mãe porque nos dá vida e nos acolhe em seu seio. Reconhecer a terra como divina é deixar de vê-la como produto mercantil, de lugar de exploração, é deixar de usurpar sem respeitar seu tempo, ritmo e outros mais. Que com o exemplo desses povos possamos educar as novas gerações capitalistas para chegarmos a uma verdadeira vivencia saudável e harmônica com o cosmo e conosco mesmos.

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