O amor não é amado – Festa de São Francisco
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05/10/2020 Fr. Fábio L'amour Notícias O amor não é amado – Festa de São Francisco
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O Teólogo franciscano capuchinho Luiz Carlos Susin em uma live sobre a crescente intolerância nas redes sociais e o papel dos cristãos nestes ambientes, vai dizer, falando sobre o que leva as pessoas a agirem com agressividade:  “é mais fácil odiar que amar - é mais fácil vingar que perdoar.” Parece que de fato, como diz São Francisco, vivemos em tempos em que "o amor não é amado".

Fica para nós a pergunta: estamos nós isentos de ser contaminados pela onda de ódio e intolerância nas redes sociais, e na sociedade, simplesmente, pelo fato de sermos pessoas religiosas? Será que no meio religioso já não existe muita intolerância e falta de amor?

O poeta nordestino Bráulio Bessa em seu poema “dar a luz” vai falar com muita beleza sobre o amor, mas um amor que cuida nos seguintes termos:

“quem gera nem sempre cuida,
mas quem ama vai cuidar…
Vai cuidar independente
da cor que a pele tem,
da genética, do sangue,
o amor vai mais além.”

Gostaria de continuar esta minha reflexão aprofundando um pouco mais sobre estes dois temas levantados pelo poeta, e ao meu ver, muito importantes para nós hoje: o amor e o cuidado.

John Dewey, filósofo, cientista social e pedagogo norte americano, ao tratar da temática do comportamento humano, vai falar da pessoa como ser de razão que usa sua racionalidade para traçar objetivos e alcançá-los. Dewey faz uma crítica à racionalidade pura, e afirma que todo o raciocínio prático, por mais racional que seja, envolve o desejo, naquilo que ele vai chamar de desejo apaixonado. Nesta perspectiva, se o objetivo é dar bons frutos, segundo Dewey, esses frutos devem ser alcançados com racionalidade e paixão, ou seja, deve ser algo que nos envolve, nos apaixona.

Na live de lançamento da Revolução Laudato Si desta semana, proposta pela Família Franciscana e a Família Jesuíta para comemorar os 5 anos da Encíclica, Leonardo Boff fala da importância desta iniciativa e usa por várias vezes o termo: a Paixão pelo Cuidado. Como Dewey, Boff usa o termo paixão,  apaixonado, e vai falar especificamente de três dimensões desse cuidado:

1.Cuidado apaixonado pela vida.
2.Cuidado apaixonado pelos pobres.
3.Cuidado apaixonado pelo irmão.

Primeiramente, o que significa cuidar? Na definição do verbo podemos facilmente encontrar no dicionário: dar atenção, apoiar, ajudar, promover o bem estar, proteger. A ação de cuidar pode ser direcionada tanto a uma pessoa, a um objeto, quanto a uma situação. 

Na primeira distinção do verbo cuidar, podemos falar em cuidar de uma pessoa, de um doente, de uma criança ou um idoso. Em enfermagem, por exemplo, existe uma disciplina específica chamada de ética do cuidado, que fala dos princípios que regem o cuidado para trazer bem estar, conforto e atenção ao doente e evitar seu sofrimento. 

Na outra distinção, podemos ainda falar em cuidar de alguma coisa: das plantas, dos animais, de nossa casa, de nossa família. Na Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco fala em cuidado da casa comum como princípio que deve orientar nossa conduta ecológica neste mundo. 

Podemos ainda falar em cuidar levando em conta uma situação concreta da realidade: cuidar para que o direito dos pobres seja respeitado, cuidar para que as pessoas tenham acesso à educação de qualidade, cuidar para que haja mais respeito entre nós, e como pede nosso pai São Francisco, cuidar para não perdermos o espírito de oração e devoção.

Leonardo Boff então nos convida a refletir sobre três níveis de cuidado apaixonado:

1.Cuidado apaixonado pela vida: Na perspectiva da ecologia integral - cuidado para com todos os seres, especialmente a irmã e mãe terra, e sua relação com todas as criaturas, pois tudo está interligado. O foco e a ênfase estão nas relações. Essas relações devem buscar o bem comum e a responsabilidade no uso de todos os bens comuns.

2.Cuidado apaixonado pelos pobres: Na perspectiva da opção preferencial pelos pobres, ser sensível ao seu sofrimento, colocar-se ao lado dos empobrecidos e suas lutas, juntar-se a eles, fortalecer a presença, combater as injustiças.

3.Cuidado apaixonado pelo irmão: Na perspectiva da fraternidade universal, fazer comunhão caritativa com todos e, sem excluir ninguém da fraternidade, buscar a cooperação e o entendimento em todas as situações, mesmo as mais difíceis, pagando o mal com o bem, buscando a tolerância e não a vingança.

A ganância e a sede de lucro quebram o elo do cuidado e fazem prevalecer a lógica capitalista da exploração e da acumulação desmesuradas.

Viver o imperativo do cuidado em toda sua plenitude é para nós hoje um apelo, e também um grande desafio, pois vivemos em um tempo de grandes incertezas, crises, desentendimentos e injustiças. É urgente e necessária a união de forças, a cooperação e o respeito mútuo para lutarmos contra toda forma de ódio e intolerância, especialmente nas redes sociais.

Para encerrar esta minha reflexão, retomo à fala do Frei Luis Carlos Suzin, que diz que é mais fácil odiar que amar, vingar que perdoar. Ninguém está isento de se contaminar pelo vírus do ódio. Muitas vezes também é  mais fácil abandonar que cuidar, especialmente quando estamos diante de uma situação desafiadora, ou que requer muito da nossa atenção.  Como cristãos, religiosos e religiosas, leigos e leigas, franciscanos e franciscanas, celebrando a memória de nosso Pai São Francisco neste 04 de outubro, somos chamados a cuidar para que prevaleça entre nós o amor e não o ódio, isso em todos os âmbitos de nossa vida. Que nossos esforços sejam crescentes e redobrados, especialmente nestes tempos de intolerância, na construção de uma sociedade mais justa e solidária, e de uma fraternidade capaz de amar, neste caminho que leva ao cuidado, ao Cristo Ressuscitado e à vida. 

Paz e Bem! 

Convido a você a procurar no youtube o canto franciscano “O amor não é amado”.

No meu sonho eu caminhava tão feliz. De repente um homem pobre eu avistei, 
andando pela estrada de Assis, tão aflito que confesso eu chorei.

Perguntei-lhe o que tinha acontecido. Me ouviu mas ficou chorando sem parar. 
Até que enfim me olhou e disse assim. A paixão de Jesus hei de chorar.

Pois o amor, o amor, não é amado. A felicidade assim não se pode encontrar. 
É preciso voltar a Jesus. O amor que eu quero amar.

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