Maria, a construtora de pontes
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26/07/2019 Maria, a construtora de pontes A compreensão islâmica sobre Maria pode enriquecer a visão cristã sobre seu lugar na história da salvação.
Abóbadas interiores e pinturas murais de Hagia Sophia em Istambul, Turquia. Na cúpula do meio, o mosaico da Virgem Maria e do Menino Jesus é visível. (Reprodução/ Islami City)
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Por Patrícia Prado*

Maria. Quantas Marias conhecemos? Quantas histórias carregam essas Marias? Quantas vidas foram geradas através das Marias? Maria. Entre tantos nomes, esse, talvez, seja um dos mais comuns, e talvez, também, se tornou comum por causa de uma Maria: a mãe do Messias.

Sobre essa, uma narrativa atravessa os tempos, unindo pessoas de diferentes tradições religiosas. Sim, Maria. A menina-moça que um dia ouviu a voz do anjo a lhe chamar para viver o maior desafio de sua vida: aceitar que em seu ventre virgem se recebe o Verbo de Deus. E da noite para o dia, a menina de Nazaré, vê-se mãe. A mãe do Messias, aquele cujo os antigos haviam predito e por gerações foi aguardado. Maria, a mãe do menino que libertaria o mundo da injustiça e da opressão. A mãe de Jesus.

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Em Maria vemos toda a humanidade sendo narrada através do corpo frágil dessa mulher que, através dos tempos, é venerada. Sua história de coragem e fé une-nos em uma busca pelo exemplo daquela que é descrita como a bem-aventura (Lucas 1:45), da pura (Alcorão 66:12), que não mediu esforços para cumprir a vontade de seu Senhor. “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra”. (Lucas 1:38). 

Essa, que os Escritos Sagrados narram, torna-se ponte entre cristãos e muçulmanos que têm sua vida como fonte de inspiração. Muito se tem dito sobre Maria na visão cristã, mas o que, como cristãos, poderíamos aprender sobre Maria a partir da visão dos muçulmanos sobre ela? O que os filhos de Abraão, para quem Jesus, o filho de Maria é um profeta, teria a compartilhar?

Uma das grandes lições é a importância e valorização da mulher na missão de Deus no mundo. No Alcorão, o livro Sagrado dos muçulmanos, Maria é colocada em destaque: é citada mais de 34 vezes e é a única mulher que tem um capítulo com seu nome (Surata 19 - Mariam). Conforme a narrativa alcorânica, a mãe de Maria consagrou o fruto de seu ventre ao serviço de Deus sem que essa soubesse que aquela a quem esperava seria uma menina. Apesar de, pela tradição, somente os meninos servirem no templo, ainda assim, a mãe de Maria mantém o voto e a entrega para o serviço a Deus. “E seu Senhor a acolheu, dando-lhe agradável abrigo e a fez florescer e crescer de forma afável...” (Alcorão 3:36).

O papel de protagonista do destino é revelado de forma contundente nas narrativas islâmicas sobre Maria e Jesus. Um destino atrelado ao de seu filho, como pode ser visto, também, nos Evangelhos. Porém, a virgem que dá a luz ao menino messias é descrita no Alcorão em uma outra perspectiva: o destino de Jesus é atrelado ao dela. Maria foi consagrada e preparada, desde a mais tenra infância, para viver o propósito de Deus: ser a serva que em obediência daria a vida ao Verbo de Deus.

Ó Maria, Deus te escolheu e te purificou e te exaltou acima das mulheres dos mundos. Ó Maria, submete-te a teu Senhor, inclina-te e prostra-te com os que se prostram. (...) Ó Maria, Deus te anuncia a chegada de Seu Verbo, chamado o Messias, Jesus, filho de Maria. Será ilustre neste mundo e no outro, e será um dos favoritos de Deus. (Alcorão 3:42-45).

A obediência de Maria, fruto de sua piedade, gerou-lhe benevolências de Deus. Os milagres que a seguiram durante o processo de espera pelo cumprimento da profecia em sua vida nos revelam um Deus que sabe das dificuldades e desafios que estão sobre aqueles aos quais ele escolhe, e por isso, provê a Presença que ampara e consola. Maria nunca esteve sozinha em sua missão. (Alcorão 3:37)

Tal perspectiva leva-nos a uma releitura ou a um aprofundamento de nossas compreensões teológicas, algo próprio do diálogo inter-religioso. Ao fazer tal leitura, não estamos a criar um novo dogma, mas, antes, estamos permitindo que a narrativa sobre o menino messias e a menina que aceita ser a que traz a vida à profecia, se amplie, revele novas nuances que em nada anula ou enfraquece os papéis desses personagens, mas ao contrário, os coloca mais próximos de nós. 

Maria, a menina de Nazaré, que entrou na história do mundo e que ainda hoje torna-se ponto de discussão e até dissensões, pode e deve ser uma ponte de diálogo entre as tradições. Sobre essa menina-mulher a história daquele que é considerado um dos ícones – seja como profeta, seja como filho de Deus, ou apenas com um homem exemplar – faz-se real. Logo, Maria deve ser observada mais de perto e tradições religiosas, como o cristianismo e o islã podem e muito contribuir para essa observação, pois cada uma trabalha aspectos diferentes sobre essa, a qual entre todas, Deus achou graça e a agraciou como a portadora das boas novas de salvação.

*Patrícia Prado é doutoranda em Relações Internacionais, com doutorado sanduíche no Líbano; mestra em Ciências da Religião; especialista em Ciências da Religião; licenciada em Pedagogia; bacharel em Teologia. Também é pesquisadora do Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (Gracias); Grupo de Estudos Oriente Médio e Magreb (Geomm); Grupo de Pesquisa Religião, Pluralismo e Diálogo (GPREPLUDI).

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