Fraternidades que evangelizam com paixão e competência
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24/09/2020 Frei Antônio Michels (via franciscanos.org.br) Notícias Fraternidades que evangelizam com paixão e competência
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Querendo presentear uma fraternidade de religiosos franciscanos, entalhei em madeira os seguintes dizeres: “Nesta casa só temos uma ocupação: viver e anunciar o Evangelho!” Quem desembrulhou o presente exclamou: “Mas isto é forte demais!” No entanto, é esta “a vida e a regra dos Frades Menores” (Rb I,2). Somos “portadores do dom do Evangelho”, nos lembrou mais recentemente nossa Ordem. Evangelizar não é uma camisa que nós, frades, usamos quando “fazemos pastoral”, mas o horizonte de toda a nossa vida.

Não considerando, por hora, tantos outros aspectos importantes de nossa missão evangelizadora, proponho uma pequena reflexão a partir da pergunta: O que é preciso para evangelizar?

Para evangelizar é preciso ter fogo no coração e luz nos olhos. O que impulsiona a ação evangelizadora é, por um lado, uma vocação, uma experiência espiritual, uma “divina inspiração” (Rb 12,1), uma mística, um fogo no coração, um desejo arrebatador, um dom do Espírito. Chamemos essa força mobilizadora simplesmente de paixão pela evangelização.

Mas não basta paixão, não basta boa vontade, não basta fazer força, é preciso puxar na corda certa. Então, por outro lado, a ação evangelizadora exige luz nos olhos, sensibilidade e fantasia evangélica, metodologia e pedagogia adequada, saber fazer. Chamemos a essa dimensão mais técnica do serviço evangelizador de competência para a evangelização. Sei que o termo “competência” pode soar na lógica do mercado, da busca da utilidade, do poder, da glória mundana. Tenhamos claro que sucesso mundano não é critério de evangelização e que, ao contrário, o evangelizador participa do destino do Crucificado. Aqui ser “competente” é encarnar de fato o caminho aberto por Jesus. Mas, na falta de termo melhor, deixo o termo “competência”. Até porque, diante da pergunta pela eficácia evangelizadora de nossa presença e ação, os que mais reagem incomodados costumam ser justamente os que “já sabem o que fazer”, os que julgam ter uma receita infalível, ou que não têm disposição alguma para superar o “mesmismo”.

Para evangelizar, é preciso fogo no coração (paixão pela evangelização) e luz nos olhos (competência para a evangelizar). As duas coisas.

Paixão pela evangelização:

A paixão evangelizadora nasce de uma experiência de fé, de um encontro profundo com o Senhor e é nutrida pela escuta da Palavra, pelo “estar com o Senhor” no espírito de oração e pelo exercício da docilidade ao Espírito e seu modo de operar. Quem tem a graça de crer de verdade em Jesus, quem tem a mesma fé de Jesus, não pode deixar de anunciá-lo e fazer o que Ele fez. Evangelizar se torna um desejo e um dever imperativo: “Ai de mim se não evangelizar” (1Cor 9,16).

Na história da Igreja, a paixão evangelizadora sempre foi o termômetro da fé: se a fé é viva, a evangelização é vigorosa; se há crise de fé, observa-se uma anemia na evangelização.

A paixão evangelizadora é o que há de mais decisivo para a evangelização. Tendo esta paixão, do resto a gente corre atrás. A paixão faz empregar todos os esforços, encontrar caminhos, entregar a vida a serviço e ainda se sentir devedor. Sem este fogo no coração, aquele que deveria ser um evangelizador vira funcionário, executivo, conservador do estabelecido, quando não um carreirista, mais um a usar do povo. Não evangeliza.

Em nenhuma iniciativa, em nenhum método, em nenhum meio de evangelização pode faltar a experiência de fé e o testemunho do evangelizador e da fraternidade que o envia. Sem a palavra e o exemplo de cristãos tocados no mais profundo de suas vidas pelo encontro com Jesus Cristo, os meios e métodos mais sofisticados podem significar muito pouco. Falando desta necessidade de a Palavra do Evangelho se encarnar na vida daqueles que a anunciam, João Paulo II dizia que a santidade é a prioridade pastoral para o terceiro milênio1.

Competência para a evangelização:

É o outro lado inseparável da moeda. Quem tem paixão busca competência. Não basta ser bonzinho, obediente e piedoso. Importa saber ler a realidade. “Aqueles que não veem o que acontece pensam que veem o que não acontece” (Tertuliano). “Se queres ser cego, sê-lo-ás” (José Saramago).

Ter clareza da essência do Evangelho em meio a tantos “Jesus” fabricados para vender no mercado; aprofundar os conteúdos da fé de modo a encarná-los de maneira concreta, compreensível e significativa, em diálogo com a cultura atual; estar inequivocamente ao lado dos pobres, vivendo num dos países mais desiguais do mundo; promover a “conversão eclesiológica”, passando de uma evangelização centrada no clero para uma evangelização baseada em todo o Povo de Deus; aprender a pedagogia de Jesus e o modo franciscano de evangelizar; desenvolver os próprios talentos como dons dados pelo Senhor a serem colocados a serviço do Evangelho; saber trabalhar em fraternidade e em comunhão com a Igreja, fiéis ao carisma e à caminhada da Igreja; saber fazer planejamento pastoral participativo; desenvolver a capacidade de comunicar-se, de lançar mão dos meios e técnicas a serviço da evangelização; ter esquemas e instrumentos, mas não ficar presos a eles etc. Cada um pode completar.

Para conversar

Jesus é sempre nossa grande referência. Queremos ser irmãos menores evangelizadores, de coração voltado para o Senhor. Na história da Igreja temos tantos exemplos de pessoas que souberam “dar ao Evangelho o próprio rosto”. O Papa Francisco, com gestos e documentos tão eloquentes, nos convoca para “a alegria do Evangelho”. E o Papa inspira-se em nosso pai São Francisco, homem apaixonado pelo Evangelho e que soube, de forma tão simples e inteligente, encarnar o Evangelho nas realidades do seu tempo. Encarnou o Evangelho sobretudo em si mesmo, lembrando que a grande obra evangelizadora a ser erguida é antes de tudo em nós mesmos, ou seja, é deixar Deus nos possuir.

Na Igreja, hoje, não são poucos os sinais de carência de paixão pela evangelização, mesmo entre pastores. Também em nossa Família Franciscana que “existe para evangelizar”. Crise de fé? Apesar de todos os apelos, não são poucos os que não vão além da pura “pastoral de manutenção”, ou que apostam em alguma receita devocional que “dá certo”, enchendo a igreja, ou ainda que descansam como grandes evangelizadores porque seu trabalho atinge tantas mil pessoas. “Se o sal perder o sabor, com que lhe será restituído o sabor?” (Mt 5, 13).

Também não é raro ver muita incompetência: incapacidade de preencher o tempo com atividades que testemunhem a “alegria do Evangelho”; homilias sofríveis, redução da evangelização só à liturgia, falta de planejamento da ação evangelizadora, dificuldade até para realizar uma reunião com coordenação e metodologia etc.

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