Entrevista com o Papa Francisco
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02/10/2020 IHU Notícias Entrevista com o Papa Francisco
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"“A teologia moral deveria ajudar a aumentar a consciência daqueles ‘pecados’ que o mundo já incorporou à sua normalidade, e não os percebe mais como tais”"

O Papa Francisco, em preparação para o 150º aniversário da proclamação de Santo Afonso M. de Ligório Doutor Ecclesiae (24 de março de 2021), concedeu uma extensa entrevista à Studia Moralia, a revista científica da Academia Alfonsiana.

Reproduzimos aqui algumas passagens significativas da entrevista do Santo Padre.

A entrevista é apresentada por Alfonso V. Amarante, C.Ss.R., Decano da Academia Alfonsiana, publicada por revista Studia Moralia da Academia Alfonsiana[1], 29-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

A versão completa da entrevista será publicada no próximo número de Studia Moralia (58/2 julho dezembro 2020).

Eis a entrevista.

Santo Padre, a pandemia coloca novos, urgentes e complexos desafios no plano moral. A crise sanitária, que gerou uma crise econômica generalizada e preocupante, está trazendo à tona a fragilidade de nossos sistemas sociais. Essa situação exige que nossas comunidades reavivem a criatividade da caridade com propostas e gestos significativos, chegando às raízes dos problemas. Em sua opinião, o que a teologia moral pode fazer por um frutuoso acompanhamento formativo das consciências?

A pandemia é uma crise universal. Todos nós sabemos que de uma crise não se sai iguais como antes. Saímos melhores ou piores, tanto individualmente quanto socialmente. Tudo vai depender de como os Países programarem o pós-Covid: se de forma humana, ou se apenas de modo técnico, isto é, se olharão principalmente para o desenvolvimento econômico e financeiro, ou se escolherão partir das pessoas, que obviamente sempre valem muito mais que um simples lucro ou dados financeiros.

A indiferença é uma quarentena que escolho para mim mesmo, para me proteger do vírus da realidade. Por isso, dos subúrbios a realidade pode ser vista sem maquiagem – Papa Francisco

Acredito que a questão seja educar as consciências para pensar diferente, em descontinuidade com o passado. O que nos espera é certamente um tempo difícil, com um aumento da pobreza e da fome.

Todos devemos agir com responsabilidade, saber se queremos ou não uma humanidade mais humana, sem escravos, sem homens e mulheres explorados. Devemos nos perguntar se ainda queremos que as nações explorem outras nações, privando-as – por exemplo – de suas riquezas naturais, principalmente neste momento em que cresce a necessidade de recursos específicos para serem empregados nas novas tecnologias que estão se tornando o novo petróleo, o novo ouro. Não faz sentido para uma nação se comprometer, por um lado, a dar um sistema político democrático a uma nação mais pobre e, depois, segurar para si o usufruto de seu subsolo. É inadmissível que essa forma de pensar e de viver permaneça igual depois da grande crise da pandemia. Devem ser feitas escolhas corajosas que imponham uma mudança. Mas nenhuma mudança é possível, se não mudar a visão e percepção da realidade que nos rodeia. Acredito que a teologia moral deva ajudar a aumentar a consciência daqueles "pecados" que o mundo já incorporou à sua normalidade, e não os percebe mais como tais.

O que mais o impressiona no ensinamento de moral de Jesus?

Sempre me impressionou aquilo que Jesus, a certa altura, diz sobre si mesmo, ou seja, que não veio para abolir a Lei, mas para levá-la ao seu verdadeiro cumprimento (Mt 5,17). É uma afirmação que nasce como uma censura aos doutores da Lei. Basta ler o capítulo 23 do Evangelho de Mateus, onde Jesus os censura pelo fechamento com que interpretam o ensinamento da Lei, reduzindo-a apenas a palavras e casos que, no final, podem ser manipulados segundo a conveniência.

Em vez disso, ele quer levá-los a uma nova consciência de que a Lei está a serviço do homem, conforme relata com grande clareza no capítulo 25 desse mesmo Evangelho: "Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver.” (Mt 25, 35-36).

A vida moral é uma educação para o ser humano e não uma retórica dos esquemas.

O senhor costuma falar das “periferias existenciais”, por que deveria a teologia, e especificamente a teologia moral, pensar a partir da periferia da vida?

Porque nas periferias se vê melhor a realidade. Do centro se tem uma visão edulcorada e distorcida, enquanto da periferia se vê a realidade crua e real, sem qualquer máscara. Há uma fotografia nas instalações da Esmolaria Apostólica feita por um bom fotógrafo. Intitula-se "indiferença". Representa uma senhora que sai depois de comer em um restaurante, usando luvas, casaco de pele, chapéu. Ao lado dela está outra mulher com uma muleta, pobre, magra, idosa que lhe pede esmola. Estão próximas uma da outra, mas a primeira olha para o outro lado. A indiferença: esse é o grande mal que produz um mundo autocentrado, aparafusado sobre si mesmo. A globalização da indiferença é uma das palavras que usei em Lampedusa. A indiferença hoje é uma forma de se defender. É uma quarentena que escolho para mim mesmo, para me proteger do vírus da realidade. Por isso, dos subúrbios a realidade pode ser vista sem maquiagem.

"Indiferença" (Foto: Esmolaria Apostólica | Vatican Media)

Mas também gostaria de dizer que, quando falo de periferias, não quero dizer apenas coisas ruins. As periferias são o que as pessoas, o povo realmente vive. Periferia é o trabalho, a cultura, a música das pessoas. Mesmo um concerto de música que reúne muitos jovens é uma periferia, e tudo isso não pode ser ignorado.

Em certo sentido, a periferia é se deixar provocar pela realidade, como o senhor escreveu na Evangelii gaudium. A esse respeito, devemos também dizer que a nossa realidade é marcada pelas descobertas das neurociências, das ciências médicas, da inteligência artificial. Em certo sentido, mudaram a antropologia, a maneira como nos relacionamos com a realidade. Em sua opinião, como deveríamos nos posicionar diante da singularidade irrepetível do ser humano, que se pretende substituir pela inteligência artificial?

Devemos nos perguntar claramente o verdadeiro significado de inteligência, consciência, emotividade, intencionalidade afetiva e autonomia de ação moral. Dispositivos artificiais que simulam capacidades humanas, na realidade, carecem de qualidade humana. Jamais devemos esquecer esse dado para poder orientar a regulamentação do seu uso, e a própria pesquisa, para uma interação construtiva e equitativa entre os seres humanos e as versões mais recentes das máquinas, que se propagam em nosso mundo e transformam radicalmente o cenário da nossa existência. Se soubermos afirmar essas referências também nos fatos, as extraordinárias potencialidades das novas descobertas poderão irradiar seus benefícios sobre cada pessoa e sobre toda a humanidade, sem jamais substituir o que é a verdadeira imagem e semelhança de Deus, e que é justamente a unicidade de cada homem e de cada mulher.

Santíssimo Padre, no seu ensinamento é fácil apreender uma empatia e uma sintonia com a visão moral e pastoral de Santo Afonso de Ligório. Várias vezes o senhor confidenciou que leu o livro "As glórias de Maria". Como se deu o seu encontro com Santo Afonso e como percebe a sua proposta de uma Igreja sempre em êxodo para os últimos e os abandonados?

Inicialmente, não sabia que Santo Afonso era o pai da teologia moral. Fiquei sabendo disso mais tarde. Minha primeira abordagem foi justamente através da leitura de “As glórias de Maria”. É um texto escrito no estilo da época, com um acento devocional e afetivo. Mas o que é surpreendente é a grande solidez teológica que subjaz a todo o texto. Santo Afonso sempre parte de uma reflexão real, histórica, existencial. Eu me apressava a ler os capítulos para chegar às histórias que ele contava. São histórias reais, da vida real, repletas de humanidade, de existência concreta. Aquela de Santo Afonso não é uma teologia moral para os anjos, não é uma teologia moral pelagiana. Percebe-se que Santo Afonso sabe pegar entre as mãos a fragilidade e lê-la à luz da graça de Deus. Nele não há excesso, mas harmonia. Ele nunca cai no laxismo, nem no jansenismo. Seu realismo é iluminado.

Existe uma sintonia entre o pensamento de Santo Inácio e o de Santo Afonso? Santo Inácio fala da participação afetiva na vida de Cristo. Em sua opinião, existe algo semelhante no pensamento alfonsiano?

Acho que sim. Para Santo Inácio, por exemplo, é importante envolver o afeto na meditação, inclusive na leitura do Evangelho. Isso leva o homem moral, o teólogo, a ser syn-pathico com a pessoa que tem diante de si. Dessa forma, ele nunca pensará no outro apenas como um pecador, como um malvado a ser condenado. Ele também é um pecador. O outro que vai ao seu encontro é um homem que busca a Deus e vai ao confessionário porque está procurando por Jesus, e Jesus nunca condena o pecador de antemão. Sua dureza era e é contra uma mentalidade errada, mas ao lado da dureza da condenação do pecado, Ele mostra infinita ternura por cada homem, mesmo pelo mais pecador. Jesus condena o pecado e não o pecador.

2021 marca o 150º aniversário da proclamação de Santo Afonso como Doutor da igreja. A bula de proclamação reconhece em sua proposta moral e espiritual "o caminho seguro" no emaranhado de opiniões muitas vezes conflitantes. Santo Afonso o fez por meio do confronto e do diálogo, sempre tomando a realidade viva das pessoas como ponto de partida e de verificação. Qual é a contribuição que seu ensinamento ainda pode dar hoje?

A teologia de Santo Afonso é uma teologia humana e divina ao mesmo tempo. Como Jesus, Santo Afonso também entrava em relação direta com as pessoas. É assim que deveríamos fazer também nós com as pessoas que hoje vêm ao nosso encontro. Por isso, quando se deseja descrever concretamente a reflexão dos casos morais com a teologia de Santo Afonso, não se pode fazer isso apenas com a casuística. Como dizíamos antes, sua atitude sempre parte da fragilidade; a revelação de Deus da fragilidade; o acolhimento e acompanhamento sem nunca fechar a porta. Nunca. É a atitude dos confessores que são padres, que sempre os acompanham. Eu me pergunto: Santo Afonso, doutor da Igreja, pensou em sua moralidade no laboratório? Não, ele a pensou no confessionário, ou seja, a partir da vida das pessoas.

No discurso que proferiu à Academia Alfonsiana, em 9 de fevereiro de 2019, por ocasião do 70º aniversário da sua fundação, pediu-nos “um empenho mais convicto e generoso com uma teologia moral animada pela tensão missionária da Igreja em saída”. Que aspectos e perspectivas poderia acrescentar para percorrer rapidamente o caminho que o senhor traçou?

Nunca vou me cansar de repetir: ir justamente para as periferias. Mas em um sentido prático e real. É preciso abrir-se para o encontro concreto com as periferias existenciais sem cair na armadilha de fazer reflexões teóricas que nunca encontraram realmente o drama e a beleza da verdadeira realidade. É preciso nos abrir. Há uma imagem que usei no discurso que fiz no pré-conclave: no Apocalipse lemos que Jesus está à porta e bate (Ap 3,20). É claro que ele bate para entrar e jantar conosco. Ainda hoje Jesus está à porta e bate, mas bate de dentro da Igreja porque não o deixamos sair. O fechamento de ideias, dos preconceitos, essas são as raízes onde nascem as ideologias laxistas ou rigoristas. Repito: Santo Afonso não é laxista nem rigorista. Ele é um realista no verdadeiro sentido cristão.

Nota:

[1] Francisco, "Progettare passi coraggiosi per meglio rispondere alle attese del popolo di Dio" in Studia Moralia 57/1 (2019) 13-16.

 

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