Dom José Maria Pires – um eco em movimento
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27/08/2020 IHU Notícias Dom José Maria Pires – um eco em movimento
Dom José Maria Pires, o dom Zumbi. Foto: CEBI
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"Certa vez, numa reunião com bispos, ele começou, assim, a missa: 'Em nome de Olorum, de Oxalá e de Ifá'. A assembleia respondeu: 'Axé'. Diante do ar de desaprovação dos colegas, justificou-se: 'Se eu posso invocar a Trindade em português, latim e grego, por que não em língua nagô?' (Oliveira apud Passos, 2011, p. 1) E deu uma risadinha irônica com um sorriso leve de agradecimento", escreve Mauro Passos, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutor em Ciências da Educação pela Università Pontificia Salesiana de Roma (UPS), pós-doutorado em Antropologia da Religião pela UFMG, Presidente do CEHILA (Centro de Estudos de História da Igreja na América Latina/ Cehila-Brasil).

Eis o artigo.

  • ...tu és a história que narraste
  • não o simples narrador.
  • (Carlos Drummond de Andrade)

Dois nomes fazem eco – José Maria Pires e Igreja. Substantivos próprios na gramática e no ministério. De um extraordinário bom senso, apurado na linguagem e refinado no espírito crítico e refinado. Com a impressão digital de sua escrita, entrevistas e depoimentos, compartilhou sem pose, uma prosa leve, afluente e delicada. Adorava literatura, música e um longo papo sobre viagens no interior da arquidiocese – casos e “causos” de vida. Gostava de tudo. Fez o Caminho de Compostela, hospedando-se nas pousadas coletivas. Era, nesse sentido, um pascaliano. Foi uma lição de liberdade e bom humor, com o dom da afeição e a vocação da cordialidade. Era muito disciplinado, organizado e pontual. Com base no horizonte amplo de Igreja – Comunidade de Ministérios – exerceu seu ofício episcopal. Um detalhe – sua eloquência. Era um excelente orador. Sabia articular as passagens bíblicas, nas homilias, com diferentes textos e contextos. Escreveu vários livros, artigos, prefácios. Era muito solicitado para palestras.

No dia 27 de agosto, celebramos a Páscoa de três “Santos Padres da Igreja do Brasil” – Dom Helder Camara (1999), Dom Luciano Mendes de Almeida (2006) e Dom José Maria Pires (2017). Com o Povo fizeram-se Povo, sendo bispos fizeram-se Profetas, Pastores, Companheiros e Amigos.

Quero resgatar alguns aspectos da trajetória de um desses Santos Padres – Dom José M. Pires, com base em entrevistas do livro: Um profeta em movimento; em seu livro e num prefácio que escreveu. Sua trajetória pastoral foi uma alavanca em busca do Evangelho e da melhor reflexão teológica do século XX, particularmente da América Latina.

1. De saber em saber

Dom José Maria Pires nasceu em Córregos, Minas Gerais (15/03/1919). Dizia sobre sua proveniência: “Sou um paraibano nascido em Minas”. Uma distância de apenas 2.067 km, mas que o levou a encontrar outra sociabilidade, outro sotaque, outra cor do céu, outra temperatura. Com a realidade nordestina, descobriu a verdadeira extensão do mundo, da vida, da Igreja e do episcopado. Em várias situações, dizia: “É preciso combater a rigidez da doutrina e da moral”. Desde cedo viveu as possibilidades de trânsito entre diferentes lugares.

Sua primeira diocese foi Araçuaí, no interior de Minas, onde ficou de 1957 a 1965. Nessa data foi nomeado Arcebispo da Paraíba aonde chegou marcado pela experiência do Concílio Vaticano II. A partir de então, despojou-se do palácio episcopal, indo morar numa casa simples. Cuidava do jardim e do quintal, o que lhe permitia ter alimentos naturais. Era apicultor, tinha boa saúde, graças a sua atividade física diária.

Participou com José Comblin, alguns professores e leigos da experiência de um Seminário Rural, em 1980. Segundo Comblin: “Era o que se chamava ‘Teologia da Enxada’. Dom José ficou entusiasmado. Adotou o projeto sem hesitar, e, de certo modo, fez seu esse projeto. Depois veio de Roma uma proibição absoluta de preparar sacerdotes dessa maneira” (Comblin apud Passos, 2011, p.195-196).

Dom José Maria Pires encarna a presença da Igreja na história. Ele marca o profetismo com o colorido mineiro, o diálogo e sua sensibilidade. Diálogo é sua marca registrada, bom humor seu sobrenome.

Contra a advertência do Presidente da Congregação dos Bispos, por exemplo, participou do IV Congresso Internacional Ecumênico de Teologia, promovido pela Associação Ecumênica de Teólogos do Terceiro mundo, em 1980, com a presença do Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega. Ele foi, fez uma exposição e comentou: “Está muito bom esse encontro. Estou aprendendo muito. Se o cardeal romano tivesse vindo, iria gostar também” (Libanio apud Passos, 2011, p. 11).

A memória de Dom José Maria Pires está associada à de Dom Helder. Estavam intimamente ligados e se identificavam pela mesma causa. Assim, fundou em 21 de abril o Centro de Defesa dos Direitos Humanos. De acordo com ele:

“Foi o primeiro Centro de Defesa dos Direitos Humanos da América Latina, fundado em 1976. Para nós, a defesa dos direitos humanos tinha um endereço certo – a defesa do direito do pobre. O Centro ao assumir a defesa de um determinado direito o fazia com a preocupação de que as pessoas se tornassem agentes de sua transformação social. O Centro encontrou algumas dificuldades, porque, na medida em que ele tomava a defesa dos injustiçados, a pessoa ou a instituição que estava oprimindo, queria se defender. E como não se podia acusar a organização de estar agindo contra a lei, então era preciso levantar sobre ela uma suspeita – a suspeita de estar fazendo agitação, subversão. Isso não nos intimidava” (Passos, 2011, p. 47).

2. Trajetória pastoral – um novo jeito de ser Igreja

Na continuidade de sua trajetória, Dom José põe em prática os pontos decisivos da luz conciliar, de Medellín e do Pacto da Catacumbas. Mais do que isso, em lugar de fazer, mobilizava os grupos e as pessoas para com isso multiplicar ações. Para ele, a pastoral dever ser um farol iluminando a vida. Assim, escreveu sobre as Igrejas Independentes Africanas: “Será que nossas Igrejas tradicionais têm o monopólio da apostolicidade? O Pentecostes foi fato histórico único ou novos Pentecostes acontecem, dando origem a Igrejas totalmente novas e independentes das anteriores?” (Pires, 1992, p. 12, 13). Assim, fez a apresentação do livro: Falando por nós mesmos, sobre a teologia africana.

Sua participação na II e III Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, em Medellín (1968) e Puebla (1979), foi muito significativa. Em seu depoimento, afirma: “Praticamente o Concílio, para nós, começou em 1968, em Medellín. Medellín concretizou para a América Latina e para o Brasil as decisões do Concílio Vaticano II” (Passos, 2011, p. 39). Fez uma intervenção a favor da ordenação sacerdotal de homens casados; no entanto, a Santa Sé fechou a questão e não permitiu que essa questão fosse debatida.

Com o tema: “Comunidades Eclesiais de Base: Igreja, povo que se liberta”, acolheu de 19 a 23 de julho de 1978, em João pessoa, o III Encontro Intereclesial das CEBs. Sobre as CEBS (Comunidades Eclesiais de Base) e fez a seguinte apreciação:

“Tínhamos mais de quatrocentas Comunidades Eclesiais de Base na área de nossa Arquidiocese, tanto na zona rural, quanto na periferia de João Pessoa. Tais comunidades eram integradas por pessoas que queriam viver melhor a sua fé, e, assim, se reuniam e começavam a caminhar, independentemente da presença do padre” (Passos, 2011, p. 76).

Em seu livro: Do centro para a margem, escreveu sobre as CEBs: “Estamos diante de uma verdadeira comunidade eclesial. Ela é viva e participante e não mais indolente e passiva como em outros tempos. Ela é “laical” e não clerical” (Pires, 1980, p. 122). 

Viveu a condição étnica de negro sem constrangimento e o apelido de Dom Zumbi, se ligou à causa negra. Depois da Missa dos Quilombos teceu um comentário:

“A Missa dos Quilombos e da Terra Sem Males foram proibidas e não podem ser celebradas. No ano da visita ad limina, levei o long-play da missa e dei de presente ao cardeal Gantin e ao Papa. Só tive resposta do cardeal Gantin: ‘Ouvi e não concordei. A missa foi mais uma homenagem a um homem chamado Zumbi. E a missa deve ser uma homenagem a Jesus Cristo’. Pronto, não entendeu nada” (Passos, 2011, p. 65).

Ele presidiu a celebração e fez uma homilia comprometida e com grande abertura para o futuro, refletindo a situação histórica e religiosa do escravo no Brasil:

“Pretos, meus irmãos:

Estamos recolhendo, hoje e aqui, os frutos do sangue de Zumbi, símbolo da resistência de nossos antepassados. Eles foram trazidos à força da África para essas terras, arrancados de sua Pátria, separados de seu povo e de suas famílias, misturados com pretos de outras línguas e de outros costumes. Violentaram-lhes a consciência, impuseram-lhes uma religião que não escolheram. Até o nome lhes roubaram e os chamaram por nomes destituídos de significado para eles. Mais longa do que a servidão do Egito, mais dura do que o cativeiro da Babilônia, foi a escravidão do negro no Brasil. Podemos entender – aceitar não – a escravidão como consequência de uma guerra ou em pagamento de uma dívida. Só mesmo um total desrespeito à pessoa humana, associado à torpe ambição do lucro pode levar homens a transformar outros homens em propriedade sua, a fim de explorá-los, igualando-os a animais de carga. No Egito, como na Babilônia, os hebreus foram submetidos a dura servidão. Puderam, entretanto, conservar sua consciência de povo e a dignidade de pessoa. O africano, ao invés, foi desenraizado de seu meio e separado propositalmente de sua gente e de sua família. Foi reduzido à condição de um objeto que se pode vender, se pode dar, trocar ou destruir”. (Passos, 2011, p. 113-114).

Considerando, o lugar do negro na Igreja, Dom José fez vários comentários e destacou a formação de grupos afrodescendentes ligados à pastoral e afirmou:

“Foi a partir de 1980 que começaram a ser organizados grupos de reflexão dentro da própria Igreja. Surgiram dois grupos: o grupo dos Agentes de Pastoral Negros (APNs) e o Instituto Mariama (IMA), que reúne bispos, padres e diáconos negros. Na Igreja, esses dois grupos vão caminhando e a cada ano realizam seus encontros, reuniões com o apoio, se não explícito pelo menos implícito, da CNBB. Claro que ainda há problemas, mas melhorou muito, para a liturgia e o estudo da teologia” (Passos, 2011, p. 71).

Certa vez, numa reunião com bispos, ele começou, assim, a missa: “Em nome de Olorum, de Oxalá e de Ifá”. A assembleia respondeu: “Axé”. Diante do ar de desaprovação dos colegas, justificou-se: “Se eu posso invocar a Trindade em português, latim e grego, por que não em língua nagô?” (Oliveira apud Passos, 2011, p. 1) E deu uma risadinha irônica com um sorriso leve de agradecimento.

3. A partir do Povo... para o Povo

Diante da gravidade rural no Nordeste, Dom José fez um movimento em prol das camadas populares, principalmente da zona rural. Escreveu várias Cartas Pastorais sobre a questão agrária e a vida no campo. Seu apoio foi na teoria e na prática. Em 1975 começou uma situação conflituosa nas regiões de Alagamar, Camucim e Mucatu que durou vários anos. Escreveu uma Carta Pastoral sobre esses conflitos e registrou, na introdução, uma conversa que teve com o Comandante do IV Exército, General Argus Lima:

  • - General Argus Lima: [...] Eu sou da Cavalaria. O senhor sabe o que é Cavalaria?
  • - Arcebispo: - Não sou entendido em assuntos militares, General. Mas, se o senhor é da Cavalaria, acredito que há de ser muito cavalheiro.
  • - General: - A Cavalaria, desde as suas origens, tomou a defesa dos fracos, dos órfãos e das viúvas.
  • - Arcebispo: - Então nos encontramos empenhado na mesma causa. A Igreja cada vez mais vem procurando colocar-se ao lado dos fracos e dos oprimidos. (Passos, 2011, p. 103).

Dom José tinha esse jeito. Era capaz de falar coisas incríveis sem ofender seu interlocutor. Na continuidade de suas reflexões, com mais densidade, argumentou:

“Hoje, o fraco a ser protegido não é só a criança que atravessa uma rua movimentada ou o órfão que passa fome ou a viúva sem teto... O fraco é o operário que vive com salário mínimo, o trabalhador forçado a emigrar da terra em que nasceu. O fraco a ser protegido é o lavrador de Alagamar, de Piacas e de tantos outros sítios ou fazendas invadidas pelo boi ou pela cana. É sobre essa situação que vamos refletir na presente Carta Pastoral” (Ib. p. 104).

Um fato singular foi a ida de Dom José, Dom Helder, outros bispos e religiosos para tocar os animais transportados para essa região. Na multiplicidade de lutas pela terra, o escritor Waldemar J. Solha foi às fontes do conflito e escreveu a Cantata pra Alagamar, musicada pelo maestro Alberto Kaplan, Regente titular da Orquestra da Paraíba. Pela sua presença, palavra e intervenção, junto às autoridades, Dom José impediu que houvesse violências maiores no campo. Foi um irmão surgido de repente.

Dom José teve uma participação ativa na CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) nacional e regional. Considerando a Igreja no Brasil, nos últimos anos, fez o seguinte comentário:

“No Brasil, é visível que a Igreja está perdendo o profetismo. É uma Igreja que hoje não está se arriscando, que não está conseguindo fazer gestos que possam estremecer as bases. Hoje, para mim, quem tem profetismo no Brasil são organizações como o MST (Movimento dos Sem Terra). Esse, sim! Apesar de ser um movimento dos pequenos, dos fracos, politicamente está conseguindo abalar as estruturas. A Igreja é que devia fazer isso, no aspecto da Boa Nova” (Passos, 2011, p. 90).

Em vida, serviu o vinho da cordialidade e partilha. De quando em vez, gostava de cutucar a estrutura eclesiástica: “A igreja será fiel ao evangelho quando for além da opção pelos pobres”. Com sua Páscoa em 27 de agosto de 2017, pode cantar com Milton Nascimento: “Sou do mundo, sou Minas Gerais”.

Neste período em que se perde tanto amor e respeito, visualizamos um horizonte de esperança neste pastor e profeta. Seus textos, falas e obras fazem parte de sua vida. São fios que sustentam seu trabalho num novo eco – José Maria Pires e Vida.

Referências

IGREJAS AFRICANAS INDEPENDENTES. Falando por nós mesmos. São Paulo: Paulinas; Editeo, 1992.

PASSOS, Mauro. Um profeta em movimento: Dom José Maria Pires desatando nós. Belo Horizonte: O Lutador, 2011.

PIRES, José Maria. Do centro para a margem. 2ª. ed. Petrópolis: Vozes, 1980.

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