Ceia do Senhor – 1º de abril
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01/04/2021 Por Marcus Mareano (Via Vida Pastoral) O Canto na Liturgia; ; CNBB Notícias Ceia do Senhor – 1º de abril
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Amor até o fim

I. INTRODUÇÃO

A cena que contemplamos na liturgia vespertina deste dia não é mero exemplo de humildade, mas um jeito de ser e estar no mundo. Ser cristão consiste em oferecer-se, a exemplo de Jesus. Lavar os pés uns dos outros torna se a insígnia dos seguidores do Mestre.

Os últimos momentos de Jesus recordados nesses dias foram demasiadamente tumultuados. As atitudes dele com relação ao sábado, à pureza, às mulheres, aos enfermos e outros gestos ousados incomodavam alguns, sobretudo o grupo dos fariseus. Jesus possuía uma autoridade (exousia) diferente para falar e agir, em nome de Deus, como um profeta livre dos padrões enrijecidos da religião do seu tempo. O movimento que ele criara com sua pregação já inquietava alguns poderosos. Então, as ameaças para eliminá-lo aumentaram, e, provavelmente, ele percebia que seu fim se aproximava.

A liturgia desta celebração e as leituras pressupõem essa contextualização. A recordação do final da vida terrena de Jesus não se centra na perturbação e nas angústias possíveis pelas quais ele passou, mas sim na sua perseverança de amar até o fim e de não recuar diante das intimidações.

II. SUGESTÃO DE CANTOS LITÚRGICOS DE ACORDO COM O HINÁRIO LITÚRGICO (CNBB)

Partitura: Para ter acesso às partituras dos cantos desse domingo, acesse o documento abaixo.

III. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS

1. I leitura (Ex 12,1-8.11-14)

Os relatos da “última ceia”, nos Evangelhos sinópticos, dão a entender que essa última refeição de Jesus com seus discípulos foi uma ceia pascal como os judeus celebravam naquele período e como lemos na primeira leitura. Eles recordavam ritualmente a libertação da escravidão no Egito por meio de uma ceia aos moldes lidos no episódio do Êxodo.

O trecho da leitura se situa entre a ameaça (11,4-5) e a execução da décima praga (12,29-30), por ocasião da saída dos judeus, sob a liderança de Moisés, rumo à “Terra Prometida” por Deus (cf. 3,7-12; Gn 12,7). Por isso a pressa para a refeição, o cordeiro compartilhado com outra família, os pães sem fermento, os rins cingidos (sinal de prontidão) e o cajado na mão. Deus passaria após a saída do povo, atingindo os egípcios (v. 13). Os judeus se preservariam com o sinal ritual do sangue do cordeiro.

A experiência no deserto constitui aquela gente como povo de Deus, e essa saída passa a ser recordada como um “memorial” pelas gerações (v. 14). A cada ano os fiéis judeus a celebravam, revivendo o momento e recordando a fidelidade de Deus. Cada vez que se repetia ritualmente a ceia, o povo se libertava da escravidão e se dirigia a um novo horizonte de vida.

2. II leitura (1Cor 11,23-26)

O mais antigo registro escrito da celebração eucarística feito pela comunidade cristã encontramos na segunda leitura. Paulo escreve para Corinto, orientando a comunidade sobre aquela refeição comunitária. Não consistia em uma reunião qualquer desordenada.

Semelhantemente aos relatos dos sinópticos, Paulo recorda a tradição recebida sobre a última ceia e o que Jesus fez (v. 23): tomou o pão, deu graças (eucharistós) e distribuiu, dizendo que era seu corpo. Repetiu com o vinho, dizendo que aquele cálice era o sangue da Nova Aliança. Cada vez que os cristãos se reuniam para comer desse pão e beber desse vinho, proclamava-se o que acontecera com Jesus até sua aguardada vinda (v. 26). Portanto, o encontro comunitário possuía um sentido e precisava de ordem nas assembleias de Corinto (11,17-22).

Conforme Paulo, aquilo que Jesus deixou aos discípulos na última ceia, a comunidade primitiva continuava a repetir gestualmente, recordando a pessoa de Jesus. Cada vez que as pessoas se reuniam em celebração para essa finalidade, o Senhor se fazia presente na partilha e no amor praticado.

Tal celebração atravessou os milênios e constitui hoje, para nós, a missa, que é esse “memorial” da morte e ressurreição de Jesus. Não como mera lembrança. Cada vez que a celebramos, recordamos (como se estivéssemos presentes) esse mistério, até sua vinda gloriosa.

3 Evangelho (Jo 13,1-15)

O primeiro versículo do Evangelho desta liturgia sugere a emoção do episódio: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (v. 1). Alegria e nostalgia se misturam nesse momento: por um lado, o dom da vida de Jesus ofertada; por outro, o drama da traição, condenação e execução da pena de cruz. Essa introdução não serve apenas para a cena do “lava-pés”, mas também para o acontecimento da elevação de Jesus (Jo 13-17).

Após um interlúdio (12,37-50), o evangelista retoma a narração, situando a proximidade da Páscoa (v. 1). O episódio se desenrola com o entendimento que Jesus possui acerca de seu retorno ao Pai (v. 1.18). Sendo assim, ele age de forma a representar o que fora sua existência. Jesus faz o trabalho que faziam os escravos daquele tempo: levanta-se, despoja-se do manto, amarra uma toalha na cintura e lava os pés dos discípulos. O senhor do grupo se torna servo de todos. De igual forma, toda a vida de Jesus foi serviço em prol das pessoas.

Pedro não entende a ação de Jesus e, inicialmente, recusa-se a aceitar o lava-pés (v. 6-9). Ele imaginava um messias de tipo davídico, opulento e autoritário. Jesus precisa explicar-lhe que aquele gesto é para que Pedro participe da sua obra messiânica. O messianismo de Jesus era diferente. O banho que ele dava era para que os discípulos assumissem igualmente a condição de servidores uns dos outros.

Ao final, Jesus veste o manto novamente, sem retirar a toalha do serviço. Ele é o senhor que serve, e não é apenas servido. Com base no que fora feito, Jesus esclarece seus seguidores sobre o que eles vivenciaram: “Também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que também vós façais assim como eu vos fiz” (v. 14-15).

A recomendação de Jesus é para lavar os pés uns dos outros, isto é, assumir a condição de servo na própria vida, a seu exemplo. Com isso, assume-se a herança (o “novo” mandamento) que ele deixa à humanidade: “Amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei” (v. 12). Para as Escrituras, o amor não significa um sentimento ou uma atração física, mas representa oferta, entrega, doação, acolhida e cumplicidade. Por isso, o amor baseia-se mais em atos do que em palavras, como lembra 1Jo 3,18: “Não amemos com palavras nem com a língua, mas com as ações e em verdade”. Servir consiste no amor cristão a exemplo de Jesus.

O Evangelho de João, propositalmente, não repete o episódio da instituição da Eucaristia, a fim de dar-nos o sentido dela com o abaixamento de Jesus para agir como os escravos daquele tempo, que lavavam os pés dos seus senhores. Da mesa, onde se oferece a refeição, Jesus desce aos pés dos seus discípulos, explicando que a Eucaristia se traduz em serviço e oferta de si à humanidade. Quem participa de seu corpo e sangue deve servir as pessoas à maneira de Jesus.

IV. PISTAS PARA REFLEXÃO

Celebrar não consiste só em repetir gestos conjuntamente; significa, antes de tudo, experimentar o mistério divino por meio dos ritos, orações, silêncio e ações. Um momento importante que deve se estender no cotidiano da vida das pessoas.

Com isso, participar da Eucaristia não pode ser mero cumprimento de preceito religioso. Deve ser comprometimento com o que se celebra. Recebemos o corpo e sangue do Senhor para nos tornarmos sua presença no mundo atual. Assim como o Senhor amou até o fim, comungamos para amar com esse amor com o qual somos amados.

Da mesma forma que os judeus recordavam a libertação da escravidão do Egito e as primeiras comunidades se reuniam, repetindo o que Jesus fizera na última ceia, quem celebra hoje esta liturgia tem de se dispor a “tornar-se” a Eucaristia celebrada.

A liturgia toca o interior humano com a repetição do silencioso ato de Jesus. A profissão de fé rezada nas solenidades é substituída pela atitude de abaixar-se e lavar os pés. Seguir o Senhor implica assumir sua condição de servidor.

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