Carnaval: separe o joio do trigo e viva a Quaresma
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05/03/2020 Élio Gasda (via Dom Total) Notícias Carnaval: separe o joio do trigo e viva a Quaresma Ao jejuar, faça-o em solidariedade aos mais de 800 milhões de pessoas passam fome no mundo
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Estamos na Quaresma. Desde as origens do Cristianismo, o período significa reflexão, renovação do espírito, e principalmente, das relações humanas e de estreitar nossa intimidade com Deus. Nesse sentido, três práticas são recomendadas:  jejum, obras de caridade e oração.

Na oração nos aproximamos de Deus. Um encontro silencioso e no deserto, onde a “palavra de Deus acaricia nosso coração como a brisa suave... O deserto é o lugar essencial. ... lugar da solidão. Ainda hoje, perto de nós, existem muitos desertos, muitas pessoas sozinhas” (papa Francisco 26/02/20).

Mas quem são essas pessoas sozinhas? É o povo pobre, preto e periférico, os idosos, os encarcerados, os enfermos, os imigrantes. Esquecidas, abandonadas e descartadas! Falar delas, como lembra papa Francisco, “não dá audiência”. Talvez seja preciso rever o carnaval de 2020, pois as escolas de samba retrataram esse povo que luta contra o conservadorismo de sacerdotes, pastores e levitas do século 21. Carnavalescos de todo Brasil, dos desfiles grandiosos aos blocos despretensiosos, não ficaram indiferentes aos gritos que vem das ruas, dos becos e dos morros e deram voz aos invisíveis.

O carnaval, “alegria popular ...uma das raras alegrias que ainda sobram para minha gente” (Dom Helder Câmara), é um grito de resistência. Em 2020 o carnaval foi o mais cristão de todos os tempos. Se apoderou do Jesus vivo, que sofre, mas que também canta e samba. A verdadeira Igreja em saída, como pede Francisco, sem medo de sujar as sandálias, “atravessou o mar e se ancorou na passarela”.

Provocação reflexiva, assim como pede a Quaresma. O carnaval da resistência e do engajamento, retratou histórias de personagens que deram voz e vez a negros e negras, aos LGBTs e outros tantos discriminados. A Viradouro venceu no Rio com um samba sobre mulheres, escravidão e resistência. Cantou a história das ganhadeiras de Itapuã, na Bahia: “Ganhadeira que benze, vai pro terreiro sambar, nas escadas da fé: É a voz da mulher”.

A história de um pai de santo, Joãozinho da Gomeia, foi retratada pela Grande Rio. Um negro, nordestino, gay. Do candomblé, também sofreu perseguição política e religiosa. Sem se intimidar, foi exemplo de luta contra a intolerância e o ódio. A Mangueira levou para a Sapucaí um Cristo negro crucificado e cravado de balas. Sua rainha da bateria representada por um Cristo mulher, nascida no morro, denunciou o feminicídio. Evangelho puro: A Verdade vos fará livre!

As escolas, inspiradas na fé, fizeram um trabalho de conscientização política e social. Em São Paulo a Águia de Ouro venceu levando para a avenida, o poder do saber – Se saber é poder...Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, homenageando Paulo Freire, educador respeitado em todo mundo, menos pelo bolsonarismo.

Muito gliter, caras e bocas embalaram os blocos, bloquinhos e blocões em Belo Horizonte. Um carnaval que renasceu como forma de resistência pelo direito à cidade em resposta ao governo de Márcio Lacerda. Ironia, bom humor e exemplo de diversidade e respeito às diferenças. Um bloco a parte: Todo mundo cabe no mundo sem divisão e sem preconceito agrega pobres e ricos, brancos e negros, eficientes e deficientes, homos e heteros. Não tem abadá e nem cordão, sua bateria é relaxada, mas nem por isso deixa de dar ritmo à inclusão. Um bloco que ensina sobre partilha e respeito.

O carnaval da alegria e diversidade zombou dos políticos. Trouxe à tona discussões como a violência, principalmente contra o negro, pobre e favelado, feminicídio, homofobia, misoginia situações cotidianas omitidas pelo Estado. Cantou o empoderamento e protagonismo das mulheres. Em Belo Horizonte o crescimento de 50% nas denúncias de importunação sexual em relação a 2019 demostra a conscientização e reação das mulheres a esse tipo de violência. Não é não!

Um carnaval popular e saudável, da resistência contra governos conservadores autoritários. São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, foram alguns dos estados que, com apoio das Igrejas neopentecostais, tentaram criminalizar a festa e impedir que a maior manifestação popular acontecesse.

“É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida” (Dom Helder Câmara). Estamos na Quaresma. Então, ao jejuar, o faça em solidariedade aos mais de 800 milhões de pessoas passam fome no mundo (FAO/2019).

Acolha e proteja os que foram silenciados pelos hipócritas. “O jejum que me agrada é partilhar o pão com quem tem fome” (Isaías 58, 6-7). Dar de comer a quem tem fome é a primeira obra de misericórdia. “Que importa ao Senhor que sua mesa esteja cheia de objetos de ouro se ele se consome de fome?” (São João Crisóstomo). Viver a Quaresma é também comprometer-se na luta contra todas as formas de discriminação e violência. Reze em Cristo, com e pelos pobres, transforme a alegria do carnaval em vida samaritana. Não perca a paz por causa do joio.

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