Aula 4: A história de são José na tradição dos evangelhos apócrifos
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15/03/2021 Frei Jacir de Freitas Faria, OFM Notícias Aula 4: A história de são José na tradição dos evangelhos apócrifos
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Os evangelhos apócrifos, isto é, a literatura que não foi considerada inspirada e, portanto, não entrou na lista dos livros da Bíblia, revelam dados de fé que evangelizam pelo caminho do imaginário religioso. São 180 livros e fragmentos de textos que não foram aceitos pelo cristianismo que se tornou hegemônico. Neles contêm, dentre outras coisas, elementos que não foram contemplados nos textos bíblicos. Verdade ou não, eles inspiraram a arte religiosa e a catequese, sobretudo os complementares aos canônicos.[1]

São José, pouco citado nos evangelhos canônicos, é um bom exemplo de textos complementares, os quais contribuíram na defesa de ideias diante de grupos que se opunham, por exemplo, à fé na virgindade de Maria antes, durante e depois do parto.  

São sete os apócrifos que falam de São Jose, a saber: Protoevangelho de Tiago; Evangelho do pseudo-Tomé; A história de José, o carpinteiro; Livro do Descanso; Evangelho árabe da infância de Jesus; Evangelho do pseudo-Mateus e o Evangelho da Natividade de Maria. O conjunto desses relatos nos oferece muitos elementos da vida de São José, no exercício de sua paternidade em relação a Jesus.  

  1. Protoevangelho de Tiago: casamento e respeito à virgindade de Maria

Livro do séc. II, possivelmente do ano 200, e muito popular no Oriente. Só chegou ao Ocidente no século XVI. O personagem principal é Maria, seu nascimento, consagração no templo etc. José entra em cena quando ela, estando no templo e tendo completado 12 anos, cria um problema para os sacerdotes: a sua permanência no recinto sagrado poderia torná-lo impuro, vista a sua menarca que estava por vir.

Os sacerdotes convocam homens para ir ao templo. Deus indicaria quem deveria ser o esposo de Maria. Todos deveriam trazer consigo uma vara. Deus daria um sinal por meio dela.

José, já idoso, com 99 anos e viúvo, se apresenta com a sua vara. No templo, os sacerdotes rezam e sobre a vara de José e dela sai uma pomba que pousa sobre a sua cabeça, sinalizando que ele era o escolhido. José aceita levar Maria para a sua casa em Nazaré.

Chegando a Nazaré, ele fica fora de casa durante seis meses a trabalho. Nesse interim, Maria aparece grávida. No seu retorno, José questiona a sua atitude. Maria garante que não tinha perdido a virgindade. José decide repudiá-la ocultamente. Um anjo lhe aparece em sonho e explica que o que aconteceu com Maria foi obra do Espírito Santo. José aceita a situação. No entanto, surge um boato na cidade de que José teria tido relação com ela antes do casamento, o que resultaria na condenação de ambos.

Levados ao tribunal, Maria passa pelo teste da erva amarga (Nm 5,16-31) ou da água da prova do Senhor, com o objetivo de verificar se ela era culpada. Trata-se de um ritual previsto na lei. A mulher deveria fazer juramento que não havia traído o marido, tomar água de ervas amargas e cinzas. Caso fosse culpada, o seu sexo murcharia e o ventre incharia. José e Maria são separados e enviados ao deserto. Após de certo tempo, eles voltam em estado perfeito de saúde e não são condenados.

Depois de um tempo, surge um novo problema para José. Ele teria que ir ao recenseamento em Belém, e a questão era como apresentar Maria: sua esposa ou filha. No caminho de Belém, Maria dá à luz numa gruta. Percebendo que Maria estava em trabalho de parto, José sai à procura de uma parteira. Para a parteira, José diz que Maria não era sua mulher de verdade porque a concepção dela foi pelo Espírito Santo. Durante o nascimento de Jesus, José tem uma visão cósmica: o tempo e todas as coisas ficam imóveis, voltando ao normal somente quando o menino Jesus nasceu.

  1. Livro do Descanso: a fuga para o Egito

Nesse evangelho, escrito em etíope, entre os séculos III e IV, José e Maria têm diálogos durante a viagem para o Egito. Maria conta que José foi áspero com ela, mandando-a dar o peito ao menino Jesus. Em viagem, Maria se irrita com José dizendo que não havia nada para eles comerem no deserto. José retruca dizendo que não podia fazer nada, e que ele tinha se tornado estranho para os seus parentes, após o seu casamento com ela. Ele a culpa por ter perdido a virgindade, e afirma ter a certeza de que o filho não é dele, reconhecendo que ele nasceu do Espírito Santo. José, no entanto, diz que cuidará dela e do menino.

Em outra parte do livro, Maria conta para as suas amigas que na fuga para o Egito, ela ouviu a voz de um menino que estava sendo arrebatado e que, naquele momento, José intervém e pede para sair do lugar, pois ele tinha visto um menino eterno. O relato termina dizendo que esse menino era Jesus. 

  1. Evangelho da infância do pseudo-Tomé: o pai que educa o filho

Esse evangelho, datado no século II, possivelmente no ano 170, foi escrito por um cristão helenista. O seu foco é a infância de Jesus. A função de José é de pai que educa o menino Jesus, que, não poucas vezes, o chama de pai.

Quando o menino Jesus estava com cinco anos, aconselhado por um amigo, José o leva para a escola. Diz a narrativa que o menino Jesus sabia tudo, portanto, desafiava os mestres. Chegou a matar um deles que ousou lhe bater na cabeça. Foram três professores e nenhum deles conseguiu educá-lo nas letras, o que causou muita irritação a José.

Certa vez, José teve que, com veemência, dar um puxão de orelha no menino Jesus, pois ele o tinha enfrentado com palavras. Em outra ocasião, José pede a Maria que mantenha o menino Jesus preso em casa, pois ele estava matando as pessoas que o contrariavam. Por outro lado, certa feita, José abraçou e beijou o menino Jesus, dizendo: “Feliz de mim porque Deus me deu esse menino”. [2]

Pseudo-Tomé também nos conta que José ensinou o ofício de carpintaria ao menino Jesus. Em uma das semeaduras de trigo, o menino Jesus foi com ele. A colheita foi miraculosa, grande. Eles a distribuíram entre os pobres.

  1. Evangelho árabe da infância de Jesus: José educa o menino Jesus

Esse evangelho pode ser datado, provavelmente, do século VI. O seu conteúdo, como nome diz, é a infância de Jesus. José aparece nos relatos como o pai que acompanha a infância do menino Jesus. José vai com Maria a Belém. Ela entra em trabalho de parto. José sai à procura de uma parteira anciã em Jerusalém. Quando volta, o menino tinha nascido e estava envoltos em panos e pleno de luz.

Com a perseguição de Herodes, José é avisado em sonho para fugir para o Egito. Ele o fez ainda de madrugada. No caminho, o menino Jesus opera muitos milagres, deixando José e Maria com temor e espantados com tais acontecimentos. O povo os acolhia, chegando a reconhecer que eles eram deuses.

Na volta do Egito, José é avisado em sonho para não regressar para Belém, mas para Nazaré. No entanto, ele volta para Belém, onde Jesus continua realizando prodígios.

José saía de casa, a trabalho, sempre acompanhado do menino Jesus que, quando necessário, realizava milagres esticando madeiras com as suas mãos para o pai etc. Certa feita, José fez um trono para o rei de Jerusalém, mas esse não ficou como o rei desejava. O menino Jesus propôs a José que cada um ficasse de lado do trono e o esticasse juntos. Desse modo, o trono ficou do tamanho desejado pelo rei. José ficou contente, pois não teria sido em vão o seu trabalho.

José distribuía tarefas para Jesus fazer, como a de recolher lenhas, a de ajudá-lo na carpintaria. José levou o menino Jesus para a escola e ao templo de Jerusalém, quando completou doze anos.

  1. Evangelho do pseudo-Mateus: ainda sobre o casamento, gravidez, fuga para o Egito e educação de Jesus

Datado do século VIII, esse evangelho trata da história de Maria desde o seu nascimento. José entra em cena, quando os homens são chamados ao templo para ver quem teria a guarda de Maria, que estava na puberdade e não mais podia permanecer no recinto como consagrada. Todos deveriam levar uma vara. Da vara de José saiu uma pomba. Ele foi o escolhido por Deus para levar Maria para a sua casa. José promete diante dos sacerdotes que custodiaria Maria até o dia em que um dos seus filhos a tomaria como esposa. O sacerdote Abiatar afirma que somente José a poderia desposar. Ele com mais cinco donzelas, as quais estariam na companhia de Maria, foram para Nazaré.

Estando José a trabalho, durante nove meses, na cidade de Cafarnaum, Maria se engravida do Espírito Santo. Quando voltou, tomando conhecimento da situação, José ficou muito triste e angustiado. As donzelas lhe garantem que Maria não tinha tido contato com homens. José pensou em fugir, com medo dos sacerdotes do templo. Um anjo lhe aparece e lhe explica a situação. José acorda e pede desculpas a Maria. Na sequência dos fatos, José e Maria são chamados ao templo para prestar contas. Ambos são inocentados, depois da realização da prova da água do Senhor.

No relato da viagem a Belém, ocorre o nascimento de Jesus na gruta e a procura de José por uma parteira. Ele consegue duas, Zelomi e Salomé.

Mais tarde, na fuga para o Egito, Maria intercede a José para resolver os problemas que iam surgindo. No entanto, é o menino Jesus que resolve todas as situações difíceis que aparecem na viagem, que dura apenas um dia.

Após a estadia no Egito, um anjo aparece a José e lhe pede para voltar para Judá. Estando na Galileia, são relatadas várias peripécias do menino Jesus, uma causando a morte de um menino que havia destruído os canais de água represada, outra tornando seco o filho do sacerdote Anás, e fazendo pássaros de barro em dia de sábado. Esses fatos causaram aborrecimentos, ódio do povo e represálias a José, que repreende severamente o menino Jesus. José chegou a se perguntar sobre quem seria capaz de dirigir e educar Jesus?

José, então, partiu com sua família para Nazaré, onde o menino Jesus realizou outras peripécias, aprendeu a profissão do pai José, não conseguiu receber a educação na escola. José teve, novamente, de deixar a cidade. Em Cafarnaum, acompanhado de José, Jesus ressuscita um defunto. De Cafarnaum, José foi com a família para Belém, onde viveu com mais tranquilidade. 

  1. Evangelho da Natividade de Maria: o lírio e o Espírito Santo

Esse é o mais tardio dos evangelhos apócrifos que falam sobre José, provavelmente, do séc. IX. Além das muitas outras informações que aparecem nos evangelhos anteriores, é dito que José é idoso, mas não viúvo. Ao ser escolhido, no templo de Jerusalém, para levar Maria para a casa, do seu bastão, ao invés de sair uma pomba, brota uma flor, e o que desce sobre ele é o Espírito Santo.  Mais tarde, a piedade popular interpretou que essa flor seria um lírio, o qual passou a ser símbolo da pureza, usada e casamentos e buquês de noiva.

José, tendo sido escolhido para casar-se com Maria, foi para Belém com a intenção de preparar a festa de casamento. Maria foi para Nazaré, onde recebeu a visita de um anjo, como nos outros evangelhos. José, depois de três meses, vai para Nazaré. Quando percebe que Maria estava grávida, ele pensa em abandoná-la. Um anjo lhe aparece e explica a situação. Ele aceita o pedido divino e se casa com ela. Pouco depois, volta para Belém.   

  1. A história de José, o carpinteiro: biografia e morte de José

Escrito em língua copta, no Egito, no século IV, provavelmente no ano 380, neste evangelho consta o testemunho que Jesus deu sobre José para os seus apóstolos, no monte das Oliveiras. No seu relato, Jesus faz os seguintes comentários sobre José:

  1. Ele se casou pela primeira vez aos 40 anos, permanecendo casado por 49 anos. Ficou viúvo por um ano. Casou-se com Maria aos 90 anos e que ele, Jesus, nasceu no terceiro ano de casamento. Seu casamento com Maria, minha mãe, durou 18 anos, tendo morrido com 111 anos.
  2. Era pai de quatro homens Tiago, José, Simão e Judas; e duas mulheres Lísia e Lídia.
  3. Foi um bendito carpinteiro de Belém, que trabalhou para sustentar a família com o pão de cada dia.
  4. Esteve perturbado quando descobriu que minha mãe estava grávida. Decidido a abandoná-la, um anjo lhe aparece em sonho e revela que a minha geração foi pela ação do Espírito Santo.
  5. Acompanhou o meu nascimento em Belém.
  6. Fugiu para o Egito e retornou, após a perseguição de Herodes, para Belém.
  7. Era considerado por mim como o meu pai segundo a carne. Eu o chamava de “meu pai”. Da minha parte, eu lhe dei carinho, afeto e obediência.
  8. Quando perdeu a vontade de comer, de beber e a falta de habilidade no ofício, percebi que era chegado o momento de sua morte. Ele estava doente, após ter vivido com saúde. Ele me pediu perdão pelos erros cometidos comigo, assim como confessou que eu sou o verdadeiro Filho de Deus e Filho do homem.

Jesus conta ainda que chorou a morte de seu pai, estando ele na cabeceira da cama de José e sua mãe, aos pés. José morre pedindo para não ser abandonado diante do fantasma da morte. Jesus implora a Deus misericórdia para com seu pai José, que morre sereno. Jesus o beija, fecha os seus olhos e cerra a sua boca. Na hora do sepultamento, Jesus chora largamente. Jesus termina pedindo aos apóstolos que, na missão de pregar o evangelho, pregassem também a respeito de seu querido pai José.

 

  1. Conclusão

Esses relatos apócrifos são historiográficos e não podem ser classificados como históricos. Ele são lendários e nos ajudam a construir um imaginário em torno de São José.  

Um dos objetivos desses relatos apócrifos complementares foi o de dar uma resposta ao grupo de cristãos que não acreditavam na virgindade de Maria, ao frisar que José era um idoso, e, portanto, não teve relação marital com Maria, respeitando a sua condição de virgem.

A figura de José que decorre desses evangelhos é a de um trabalhador, um educador, um bom pai que corrige, chama a atenção do menino Jesus, que, diferentemente dos evangelhos canônicos, teve infância como as outras crianças do seu tempo. José assume o papel da paternidade terrena, refletindo a sua relação com Deus-Pai.[3]

Um dos grandes méritos da tradição dos evangelhos apócrifos foi o de dar a José uma esposa, a Maria, um marido e ao menino Jesus, um pai. Vários detalhes narrativos saltam aos olhos do leitor, ainda que nos canônicos essas informações apareçam, mas não com tanta singularidade.

Como vimos, em alguns desses evangelhos, o protagonismo é de Maria e Jesus. José é apenas um coadjuvante. Essa mesma linha foi seguida pela Teologia. Somos desafiados a refazer uma teologia que considere José e sua relação Deus. Em outras palavras, falar de São José é falar de Deus. José é, na Trindade, o Deus-Pai terreno, Maria, Deus-Espírito Santo, e Jesus, o Deus-Filho.   

Por fim, não nos esqueçamos do pedido de Jesus aos apóstolos e a nós: na evangelização “preguem também sobre o meu querido pai José”.

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[1] Para compreender a nossa proposta de classificação dos apócrifos, veja o nosso livro: Apócrifos aberrantes, complementares e cristianismos alternativos - Poder e heresias: introdução crítica aos apócrifos do Segundo Testamento. 2ª ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

[2] Caso tenha interesse em conhecer a infância do menino Jesus nos relatos apócrifos, tomo a liberdade de indicar o meu livro: A infância apócrifa do menino Jesus: história de ternura e travessura. Petrópolis: Vozes, 2010.

[3] Para um estudo sobre a personificação de Deus-Pai em São José, veja: BOFF, Leonardo. São José: a personificação do Pai. Campinas: Verus Editora, 2005. Veja também no You Tube a nossa reflexão, dia 19 de março, com o texto publicado em www.bibliaeapocrifos.com.br intitulado: São José e sua relação com Deus-Pai (Mt1,16-24)

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