A morte, o tempo e o amor: a tríade da vida na inspiração de Sb 3,1-9
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02/11/2020 Frei Jacir de Freitas Faria, OFM Notícias A morte, o tempo e o amor: a tríade da vida na inspiração de Sb 3,1-9
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Hoje, Dia de Finados, tempo propício para pensar sobre a morte e os mortos. Em reflexões anteriores, falei sobre o sentido do perdão, do amor e do tempo. Tendo como ponto de partida a passagem bíblica de Sb 3,1-9, quero, hoje, acrescentar a essa tríade a morte. Melhor ainda, formar uma nova tríade: o amor, o tempo e a morte. A morte faz parte de condição humana e se entrelaça com o amor, o tempo e o perdão. Começo com duas perguntas:  Qual é o sentido da morte? O que acontece com quem morre e com quem continua a viagem da vida em direção à morte? 

O livro da Sabedoria situa a morte no tempo da passagem do Primeiro para o Segundo Testamento, quando os judeus acreditavam na Teologia da Retribuição. Eles pensavam assim: se sou justo, recebo a justiça, a retribuição, no tempo presente. O contrário é também retributivo. Daí o ditado popular: “Aqui se faz, aqui se paga”. Contrariamente a esse modo de ver a vida, muitos se perguntavam: como explicar o fato de alguém ser injusto, malvado e receber coisas boas, e o justo viver sofrendo? O autor desse livro mudou essa concepção ao propor a retribuição do justo no tempo da sua pós-morte, na condição de imortalidade. Sb 3,9 diz: “Os justos que confiam em Deus ficarão junto dele para sempre, pois a graça e a misericórdia são para os seus eleitos. A vida dos justos está nas mãos de Deus, nenhum tormento os atingirá”. Sobre a morte, ele afirma: “Não procureis a morte com vossa vida extraviada, não vos proporcioneis a ruína com as obras de vossas mãos. Pois Deus não fez a morte, nem tem o prazer de destruir os viventes” (Sb 1,12-13). O autor do livro da Sabedoria fala de uma imortalidade beatífica. O cristianismo entendeu esse processo como ressurreição. Tempo de vida e de amor eternos no tempo de Deus. Pena que a Igreja ensinou que devo sofrer para alcançar a vida eterna!

Mas o que é mesmo a morte? A morte faz parte da condição humana, embora que, em tempos pós-modernos, nós a ignoramos, mesmo em tempo de Covid 19. No entanto, quando ela chega, os corações dos vivos dilaceram numa dor que parece ser interminável. Bate no peito, a cada segundo, o desejo incomensurável de ver o ser amado de novo, mesmo sabendo que no espaço, no tempo físico, na vida terrena, isso nunca mais será possível.

No jogo da vida, as cartas mudam de posição. Os mortos, contemplando a Deus, nos veem de outra forma, em outro tempo, em outro modo de amar. Para os mortos, o nosso tempo deixa de existir. Já o tempo dos vivos se resume em viver a dor do luto. Passar pelo luto para romper o tempo da morte. Fechar o luto com fé na ressurreição para se abrir ao amor de quem partiu, de modo que o amor dele permaneça unido a nós como teias de fios que se entrelaçam, invisivelmente, na eternidade do tempo; como uma borboleta que sai do casulo/corpo, que nos unia fisicamente, para estar em todos os espaços e tempo, espalhando o amor. O olhar de quem morre atravessa o tempo e o espaço, pois eles pertencem ao tempo de Deus.

Com o tempo, a própria condição humana se encarrega de amenizar a dor, mas libertar-se dela é quase impossível.  A dor transforma-se em saudade, em memórias de um bom tempo vivido. O ainda vivente parece conversar com o falecido, estreitar laços que nunca foram alinhados. Lembranças de um tempo que já passou e não volta mais. Lembranças! Somente lembranças! E nada mais! E um pouco mais!

O amor e a memória que devotamos aos nossos mortos fazem com que eles, ressuscitados, continuem em nosso meio. Isso é retribuição! Isso é ressurreição! Isso é comunhão eterna no amor. Por isso, não há mais espaço para o tempo passado, num choro interminável, regado pela pergunta ‘por que ele/ela morreu? É hora do tempo futuro, tempo de se perguntar ‘para que ele/ela morreu’? É hora de o falecido retribuir a Deus, devolvendo-O o dom da vida que dele recebeu. É hora de seguirmos o caminho das flores que retribuímos aos nossos mortos. Flores de amor eterno que transformam nossas lágrimas em altares de morte/vida/ressurreição na eternidade no tempo, no amor e no perdão. Amém.

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[1] Doutor em Teologia Bíblica pela FAJE-BH. Mestre em Ciências Bíblicas (Exegese) pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Professor de Exegese Bíblica no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA-BH). É membro da Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica (ABIB). Sacerdote Franciscano. Autor de dez livros e coautor de quatorze. Último livro: O Medo do Inferno e a arte de bem morrer: da devoção apócrifa à Dormição de Maria às irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte (Vozes, 2019). Coautor de: A releitura do Deuteronômio nos evangelhos. In: KONINGS, Johan; SILVANO, Zuleica Aparecida. (Org.). Deuteronômio: Escuta, Israel. 1ed.São Paulo: Paulinas, 2020, v. 1, p. 187-230. Inscreva-se no nosso canal: https://www.youtube.com/watch?v=z7mkHXtkWq0&t=8s

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