19º Domingo do Tempo Comum: cantos litúrgicos, comentário e dicas
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10/08/2019 Por Zuleica Aparecida Silvano (Via Vida Pastoral) O Canto na Liturgia; Canal Palavra de Vida: O Evangelho ao nosso alcance; CNBB Notícias 19º Domingo do Tempo Comum: cantos litúrgicos, comentário e dicas
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Não tenhais medo! Deus é fiel

I. Introdução geral

No segundo domingo do mês vocacional, recordamos a vocação à vida em família. A liturgia sintetiza importantes eventos da história da salvação: as grandes fases do itinerário de Abraão e sua confiança incondicional em Deus (II leitura); a ação salvífica de Deus no êxodo (I leitura); a liberdade proveniente da nossa adesão a Cristo e a confiança na realização do Reino de Deus e na parusia. Somos exortados também à prontidão e à responsabilidade em construir o Reino de Deus, que é de partilha e de serviço, características daqueles que seguem o Messias Jesus, o Filho de Deus (evangelho).

II. Sugestão de cantos litúrgicos de acordo com o Hinário Litúrgico (CNBB)

Partitura: Para ter acesso às partituras dos cantos desse domingo, acesse o documento abaixo.

III. Comentários dos textos bíblicos

1. I leitura: Sb 18,6-9

O livro da Sabedoria foi escrito no final do século I, por volta dos anos 50 a 30 a.C. O contexto era bastante conflituoso para a cultura judaica, que tentava manter-se fiel às suas tradições culturais e religiosas estando em Alexandria, no Egito, fora da sua terra. Esse contexto marca os versículos escolhidos para esta liturgia, os quais fazem parte da sessão formada pelos capítulos 10-19, que enfatizam a ação da sabedoria divina na história do povo de Deus.

O texto de Sb 18,6-9 constitui um conjunto no qual se descreve a grande noite da primeira festa da Páscoa no Egito. É um evento importante, porque recorda a libertação do povo escravizado com o objetivo de mantê-lo perseverante diante das inúmeras perseguições no decorrer da história. Por outro lado, é uma noite trágica para os egípcios, uma noite de condenação para os opressores. A ênfase na expressão “naquela noite” justifica-se por ser o marco do início da experiência de Israel como um povo livre, consagrado ao Senhor. Os atos salvíficos realizados nessa noite, para o autor, seriam o cumprimento da promessa dada aos patriarcas (cf. Gn 15,13-14). Menciona-se também a preparação realizada por Moisés para que o povo estivesse consciente de tudo que iria acontecer e permanecesse firme e animado (cf. Ex 12,21-23). Para Israel, sua escolha, sua libertação e sua constituição como povo de Deus fazem parte de um único acontecimento salvífico (cf. v. 7). Por isso a insistência em não esquecer esse evento libertador. Essa ação salvífica também comprova que Deus é fiel às suas promessas e que é possível confiar na vitória, não obstante o peso da opressão, a realidade de escravidão e de perseguição (cf. v. 8).

A primeira ceia do cordeiro, recordada no v. 9, torna-se o modelo da Páscoa judaica, sendo considerado um sacrifício em honra ao Senhor Deus (cf. Ex 12,21.27). É nessa ceia que se firma um pacto com Deus e se consolida a comunhão entre os participantes, a qual será necessária durante a travessia pelo deserto. Essa solidariedade entre os membros da comunidade, ao compartilhar os bens, as alegrias, a dor e o sofrimento, expressa também a solidariedade de Deus para com seu povo.

O autor faz memória desse evento significativo para o povo de Israel com a finalidade de manter o povo fiel às suas tradições, preservar a sua identidade como povo escolhido por Deus, diante das ameaças da opressão cultural do império greco-romano.

2. Evangelho: Lc 12,32-48

As exortações presentes nesses versículos estão ligadas ao tema da riqueza, aprofundado no domingo anterior, e fazem parte de longa exortação de Jesus aos discípulos, dizendo-lhes que não precisam se preocupar com aquilo que serve à vida, porque esta vale mais do que as coisas que a sustentam, e o importante é “buscar o Reino de Deus”, pois tudo mais será acrescentado (v. 31). A confiança do discípulo e a exigência de ser livre nascem de sua adesão a Jesus Cristo e de seu compromisso com o Reino. Esse Reino é um dom gratuito, ofertado à comunidade escolhida por Deus, apesar de ser pequena, ameaçada e indefesa (cf. v. 32). A qualificação “pequenino” demonstra que Jesus não está falando do povo de Israel, mas dos discípulos.

A imagem do “rebanho”, comum no AT para qualificar o povo eleito, aponta para a visão de Deus como pastor e para a consciência de estar sob a sua proteção. Por isso não deve haver temor, pois os destinatários do Reino do Pai são os seguidores de Jesus. Estes são os beneficiários da bondade e da salvação (cf. Dn 7,27), são os destinatários da promessa messiânica e escatológica realizada por Deus e anunciada pelos profetas. Esse Reino se manifesta na partilha dos bens (cf. v. 33), na atitude de ter Deus como centro da comunidade, e não os interesses mesquinhos dos membros.

Repartir os bens e dar aos pobres deve ser a real preocupação dos discípulos, pois o tesouro no qual devem pôr o coração é o próprio Reino de Deus. Dessa forma, Jesus mostra que os bens são efêmeros, pois somente a fé em Deus responde plenamente à vocação profunda do ser humano.

Como vimos na reflexão do domingo anterior, não é possível apoiar-nos na riqueza para nos sentirmos seguros, mas somente em Deus. O “vender os bens e dar aos pobres” é exortação que parte da sensibilidade do discípulo ao sofrimento do irmão necessitado. Os bens são necessários, sem dúvida, mas não devem ser o centro da vida de um cristão, não devem ser aquilo que ocupa seu coração e suas preocupações.

Lc 12,35-48 pode ser subdividido em dois temas: a vigilância e prontidão diante da imprevisibilidade da vinda do Filho do homem (cf. vv. 35-40) e a necessária fidelidade e responsabilidade dos líderes da comunidade (cf. vv. 41-48).

A chegada improvisa do senhor e sua demora, mencionadas nas parábolas nos vv. 35-48, estão relacionadas à parusia, ou seja, à vinda do Senhor no fim dos tempos. Inicialmente se pensava numa parusia iminente, o que não aconteceu. Isso acabou desanimando as comunidades, e então surgiu a tentação de abandonar o seguimento. Outra causa de desânimo poderiam ser as dificuldades internas, como é possível perceber no texto, e as perseguições externas. Por isso o evangelista exorta a comunidade a ser fiel, constantemente vigilante, a ficar de prontidão, permanecendo confiante nos ensinamentos de Jesus. A prontidão é uma atitude do cristão, e a vigilância não deve ser penosa, não é obrigação, mas expressão do amor por aquele que se espera. Isso se explicita quando, na parábola, o senhor chega não para ser servido, mas para servir. Essas são atitudes próprias do Reino anunciado por Jesus (cf. Lc 22,27.29-30).

O autor termina a parábola recomendando que a comunidade permaneça vigilante, pois a vinda do Filho do homem pode ser improvisa. A comunidade não sabe quando será essa vinda, porém uma coisa é certa: ele virá. Esse senhor é Jesus, que veio para revelar o projeto salvífico do Pai e entregou a sua vida por fidelidade à vontade de Deus. Desse modo, é necessária uma espera ativa da parusia, pois os cristãos já foram salvos por Cristo e têm a responsabilidade de construir esse Reino. É o que será confirmado na segunda parábola, após a pergunta de Pedro.

A segunda parte apresenta como deve ser a atitude do responsável pela comunidade (cf. vv. 41-48): caracterizar-se pelo serviço, pela fidelidade à vontade do seu Senhor, e não abusar do poder que lhe foi confiado, pois a atitude opressora não faz parte do Reino pregado por Jesus. Àqueles que assumem uma postura opressora, identificados com o chamado servo irresponsável, é prometida uma ruína definitiva. Portanto, os/as discípulos/as e os/as batizados/as são os/as servos/as aos/às quais muito foi confiado; ou seja, Deus dá o seu Reino, mas cabe a cada um e a cada uma ser fiéis ao muito que lhes foi confiado.

3. II leitura: Hb 11,1-2.8-19

Nesse texto, que pertence a uma unidade maior (cf. 11,1-12,13), o autor faz uma releitura da história da salvação para demonstrar a eficácia da fé e a perseverança de grandes personagens da história de Israel. A perseverança que orientou esses grandes homens e mulheres do passado estava baseada na esperança da manifestação do Reino de Deus e na promessa do Deus fiel (cf. 11,11).

Hb 1,1 apresenta um conceito de fé resultante dos vários exemplos dados de pessoas fiéis à vontade de Deus: “fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca de realidades que não se veem”. Percebe-se que é uma fé entrelaçada com a esperança. Os vv. 8-19 traçam todo o itinerário de fé percorrido por Abraão e por Sara. Na tradição judaica, Abraão é o “justo” e, para a tradição cristã, é o pai da fé. São identificadas três fases no seu caminho espiritual e no caminho de Sara: a partida de Ur para uma terra que o Senhor iria indicar (cf. 11,8-10); a espera pelo cumprimento da promessa da descendência, apesar de ser de idade avançada e a esposa estéril (cf. 11,11-12); a prova à qual Deus o submete e sua aceitação do sacrifício de seu filho único (cf. 11,17-19). Nos vv. 13-16, Abraão é apresentado como o paradigma daquele que acredita mesmo sem ter nenhuma garantia. Em Hb 11,8, aparece a única indicação da sua vocação: “pela fé, Abraão, ao ser chamado, obedeceu e partiu para uma terra que havia de receber por herança, e partiu sem saber para onde ia”.

O chamado de Deus a Abraão inicia-se com um “partir”, aos 75 anos e com a mulher estéril, sem conhecer o itinerário nem o Deus que o envia. Pôr-se a caminho não é mero deslocar-se nem seguir uma ideia, mas – por envolver obediência a uma ordem divina – é um envio. Não é um partir para sobreviver e assegurar a continuidade do clã, mas sim para realizar o que Deus quer. Neste seu “partir” transparece o “deixar”: são necessários sucessivos desprendimentos. Abraão deve deixar uma realidade geográfica (terra), uma cultura (pátria), um lugar específico (a casa) e os deuses de seus pais (religião). Ele é chamado para algo extremamente genérico: formar um grande povo e ter uma terra. Mas qual terra? Qual povo? Como, sem filhos? Ou seja, deve deixar suas seguranças sem ter nada preestabelecido, definido, calculado. Partir sem conhecer o itinerário. Ao ser convidado a deixar o que tem, é chamado a mudar desde a maneira de viver até a própria imagem que faz de Deus e confiar. Assim sendo, a Palavra de Deus manifesta-se, desde o início, como totalizante na vida de Abraão. Dessa forma, este se torna o paradigma de toda vocação.

Abraão não é chamado para algo específico. Não temos a indicação clara daquilo que Deus lhe pede; deve simplesmente caminhar e esperar. Por isso, ele é o pai da fé. Não precisa fazer nada, somente confiar. Deus lhe pede uma ruptura com o passado, tendo uma única certeza para o futuro: “a promessa”. Abraão assume o risco para submeter-se àquilo que Deus quer. É um grande risco, mas confia, desamarrando-se dos seus medos, de sua condição limitada, de sua condição cômoda, e partindo para o desconhecido, o incerto. Na segunda fase, o texto enfatiza sua idade avançada e a esterilidade de Sara; contudo, mesmo nessas condições desfavoráveis, há a confiança em que, desses corpos marcados pela morte (de Abraão e Sara), nascerá uma multidão (cf. v. 12). Por fim, o ápice da fé: obedecer ao pedido de Deus para que sacrifique Isaac, pedido que contradiz a promessa e sua visão de Deus. Abraão, porém, não hesita e continua confiando. A conclusão, no v. 19, é uma releitura cristã desse terceiro momento de Abraão, visto como antecipação profética daquilo que acontecerá com Jesus, ao entregar a sua vida e ressuscitar. Por isso a fé não é um conjunto teórico de doutrinas a ser assimilado ou compreendido intelectualmente, mas é acreditar no imenso amor de Deus revelado em Jesus Cristo, que nos permite viver numa relação profunda com Deus, tendo a certeza da vitória sobre a morte e a garantia da ressurreição e confiando na promessa de sua vinda, quando o mundo será plenificado por sua presença, porque o Pai é fiel.

IV. Pistas para reflexão

As leituras desta celebração põem em foco a eficácia da fé e a necessidade de manter-se perseverante, não obstante os conflitos e as condições desfavoráveis. O povo no Egito, diante da força e da opressão do faraó, acreditou na libertação e na eleição. Abraão e Sara deixaram sua vida segura e partiram, como estrangeiros, rumo a uma terra que seria indicada no decorrer da caminhada, confiando na promessa de descendência, embora ambos fossem de idade avançada e estéreis. Igualmente, essa confiança é exigida do discípulo, que é exortado a não temer, a perseverar no seguimento de Jesus, mas também a se despojar das suas certezas, dos seus bens, para trilhar o caminho incerto do seguimento. Para refletir sobre essas leituras, podemos nos perguntar: o que significa acreditar em Jesus Cristo e na promessa da sua vinda, no fim dos tempos? Quais são os nossos limites para “partir” e “deixar”? Quais medos nossos causam resistência à fé? Que tipo de “administrador” ou “administradora” somos: aqueles que esperam o Senhor chegar com responsabilidade, prontidão, vigilância, aqueles que servem, ou aqueles voltados para os próprios interesses? Do que é necessário despojar-nos, a que precisamos renunciar para ser mais livres no seguimento de Jesus Cristo? Quais são os exemplos de fé e perseverança que temos em nossa família, na comunidade? Quais conflitos e crises enfrentamos em nossa família, e como as leituras desta liturgia podem nos ajudar?

V. Comentário de Frei Oton, OFM no Canal Palavra de Vida: O Evangelho ao nosso alcance

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