15º Domingo do Tempo Comum: cantos litúrgicos, comentário e dicas
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13/07/2019 Por Zuleica Aparecida Silvano (via Vida Pastoral), Hinário Litúrgico da CNBB, O canto na Liturgia, Canal Palavra de Vida Notícias 15º Domingo do Tempo Comum: cantos litúrgicos, comentário e dicas
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Amar a Deus e o próximo e agir com misericórdia

I. Introdução geral

Nesta liturgia, o tema central é o amor e a misericórdia. Em Dt 30,10-14, o amor se revela na fidelidade de Deus, que acolhe o povo desviado do caminho. Não basta, porém, desejar retornar ao Senhor, é necessário estar disposto a uma mudança de mentalidade, a uma transformação (I leitura), possível por meio da observância da Lei. Essa Lei, expressão da aliança entre Deus e o povo, não é difícil nem está distante, conforme afirma o autor, mas está ao alcance de quem ama a Deus: está em sua boca e em seu coração. A Lei como expressão da vontade de Deus está ao nosso alcance e pode ser sintetizada no amor a Deus e ao próximo (evangelho) – sobretudo ao irmão que necessita de nossa ajuda, de nossa compaixão, de nossa misericórdia. Para isso, contudo, é necessário que Cristo seja central em nossa vida, ele que é o primogênito da criação, o mediador da redenção, por reconciliar tudo por meio de sua entrega por amor ao projeto do Pai (II leitura).

II. Sugestão de cantos litúrgicos de acordo com o Hinário Litúrgico (CNBB)

Partitura: Para ter acesso às partituras dos cantos desse domingo, acesse o documento abaixo.

III. Comentários dos textos bíblicos

1. leitura: Dt 30,10-14

Dt 30,10-14 pertence ao terceiro discurso de Moisés (cf. Dt 29-30), no qual o autor contrapõe a aliança e a fidelidade de Deus às infidelidades do povo. Deus, porém, sempre acolhe e concede a vida, se o povo estiver disposto a voltar-se, a converter-se.

Para o autor deuteronomista (do século VIII-VI a.C.), a Lei de Moisés era fundamental e era fonte de sabedoria, por ser a expressão da aliança estabelecida entre Deus e o povo. Ela era fruto do amor e da eleição da parte de Deus. O texto da liturgia deste dia nasceu, provavelmente, antes do exílio, no Reino do Norte, mas depois foi levado para o Reino do Sul. Em seguida, foi relido e modificado após a experiência do exílio, considerada pelos autores deuteronomistas como resultado da infidelidade do povo e dos seus líderes. Em Dt 30,10-14, o povo é exortado a não ser infiel à Lei, considerando-a difícil e não acessível, pois ela está ao alcance de quem ama a Deus.

O v. 10 é a conclusão do discurso apresentado nos vv. 1-9. Nele, Moisés exorta o povo a retornar ao Senhor (cf. vv. 1-2), por ele ser a origem da vida. Nesse sentido, Moisés afirma que o agir divino abraça todos os âmbitos da história do povo (cf. vv. 3-7.9) e lhe concede a vida, a fecundidade, a prosperidade, a posse da terra, a segurança com relação aos inimigos. Apesar da infidelidade, Deus está disposto a acolher o povo. O autor deixa claro, contudo, que não basta voltar-se para Deus, é necessária uma transformação do coração e da alma (cf. v. 10), isto é, uma conversão que abarque a totalidade da pessoa.

A expressão “com todo o coração e com toda a alma” reporta-se ao texto do Shemah, que recomenda ao povo amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a força (cf. Dt 6,4). O v. 10 finaliza a seção anterior, que tinha como tema a bênção futura, e segue apresentando a proximidade da Lei, da Palavra de Deus. Nota-se que os termos “mandamento” (v. 11) e “palavra” (v. 14) são sinônimos neste texto, pois ainda que o primeiro sublinhe o aspecto da normatividade, que tem como mediador Moisés, e o segundo acentue a revelação de Deus, ambos os termos manifestam a vontade divina.

Os vv. 11-14, de caráter sapiencial, afirmam que a vida está no cumprimento da Lei e que afastar-se desta é a mesma coisa que morrer. A Lei não é constituída de prescrições, mas é a síntese de todas as experiências vitais importantes que o povo de Deus fez ao longo de sua caminhada; é expressão do amor de Deus, que é fonte de vida. Por isso, aderir à Lei é a mesma coisa que amar a vida, buscá-la e promovê-la.

O autor enfatiza duas expressões negativas no v. 11: “não é difícil” e “não é distante”. A palavra traduzida por “difícil”, em português, tem em hebraico o sentido de “extraordinário”, como algo inatingível, imperscrutável, incompreensível para a mente humana. A negação dessa condição aponta a acessibilidade da Lei e a possibilidade de uma compreensão imediata. A segunda expressão está ligada a Dt 5,27, que denota que aproximar-se da divindade significa pôr em risco a vida. Contrariamente, nesse v. 11, o autor afirma que aproximar-se da Lei é aproximar-se da fonte da vida.

O autor nega as justificativas que o povo pode apresentar para não cumprir a Lei (cf. vv. 12-13), afirmando que ela não está no céu nem do outro lado do mar – numa alusão ao movimento vertical e horizontal para indicar o máximo de afastamento possível (cf. Dt 29,28) –, mas está ao alcance de todos aqueles que estão dispostos a promover a vida. Também não é necessário haver alguém que a ensine, pois, como dizem os profetas, essa aliança está inscrita no coração (cf. Jr 31,31-34 e Ez 11,19; 36,36). Essa passagem supera a distância entre Deus e o ser humano. Assim, se a pessoa não pode se aproximar de Deus, este se aproxima dela. A palavra/ordem se torna mediadora da presença de Deus, sendo também a mediação de seus dons e de seus benefícios. Por meio dela, Israel estabelece e vive o ligame profundo com seu Deus. Para indicar essa proximidade da Palavra, o autor utiliza duas expressões: “na boca” e “no coração” (v. 14). A referência a “estar na boca” enfatiza a possibilidade de essa Palavra ser proclamada, anunciada, meditada. Desse modo, o autor chama a atenção para a necessidade de escutá-la, para vivê-la e anunciá-la (cf. Dt 8,3; Ez 2,8-3,11; Sl 119,131). A Palavra, contudo, não está somente na exterioridade do ser humano; está também em seu coração, em sua interioridade, na sede das suas decisões, de seus anseios, de seus afetos, de seu modo de pensar e agir. Portanto, o povo é chamado a escutar a Palavra, amá-la e pô-la em prática, pois somente ela pode lhe garantir a plenitude da vida.

2. Evangelho: Lc 10,25-37

A passagem do evangelho escolhida para esta liturgia também está inserida no relato da viagem de Jesus rumo a Jerusalém (cf. Lc 9,51-19,27). O texto apresenta um mestre da Lei que faz uma pergunta a outro mestre – uma cena comum no contexto judaico, quando os grandes mestres e os discípulos debatiam sobre temas fundamentais do judaísmo e, particularmente, sobre as diferentes interpretações da Lei. Por conseguinte, a pergunta do mestre da Lei não tem caráter hostil, como é apresentado em vários comentários, mas seria uma forma de ouvir o ensinamento de um grande mestre, como era Jesus, ou de possibilitar um debate sobre as questões divergentes entre os mestres da época.

A pergunta é sobre o que fazer para herdar a vida eterna. Jesus responde com outra pergunta, na qual pede que seu interlocutor aprofunde (“como lês?”, v. 26) aquilo que está escrito (interpretação literal), dando, portanto, a sua interpretação. O legista sintetiza a Lei em dois mandamentos, unificando duas citações bíblicas: o amar a Deus (cf. Dt 6,5) e o próximo (cf. Lv 19,18). O amor para com Deus deve abarcar a totalidade do ser humano, ou seja, sua vida (alma), a sede de suas decisões e de suas capacidades intelectuais e emocionais (inteligência e coração), mas também seus bens materiais (sua força). O amor para com o próximo é referência tirada de Lv 19,18, cujo contexto é a não vingança contra o próximo. Ou seja, no contexto literário original, o próximo seria o inimigo; com o decorrer do tempo, porém, foi mais estritamente identificado com as pessoas do clã, da família.

Diante da resposta sábia do seu interlocutor, Jesus responde com outro texto bíblico, extraído de Lv 18,5: “Faze isso e viverás” (v. 28) – ou seja, esse é o caminho que te levará para a vida em plenitude. O mestre da Lei, não satisfeito, faz outra pergunta, para continuar a reflexão: “E quem é o meu próximo?” (v. 29). A resposta de Jesus, desta vez, dá-se por meio da parábola do bom samaritano, que muda o foco da questão: não aponta quem é o próximo, mas como se fazer próximo das pessoas, sugerindo que isso consiste em ser misericordioso e ter compaixão do irmão mais necessitado.

A parábola inicia-se apresentando um homem que desce de Jerusalém para Jericó. Não há nenhuma identificação de quem seja esse homem: é um anônimo, não temos nenhuma referência sobre sua condição social, religiosa, geográfica. Provavelmente deva ser um judeu, pelos elementos apresentados e por ser depois ajudado por um samaritano.

Esse homem é assaltado, e o foco não está no assalto em si, mas na condição deplorável em que se encontra a vítima. Aparecem dois personagens, o levita e o sacerdote, ambos da classe sacerdotal, que passam, mas não sentem misericórdia por essa pessoa. Seus interesses pessoais e suas funções são mais importantes do que socorrer o ferido. Provavelmente, ambos têm medo de se contaminar com as feridas dessa pessoa, dado que estão relacionados ao culto e ao sacrifício, que exigem pureza ritual. Aparece então um samaritano, o único que tem um motivo definido para passar naquela estrada: está em viagem, provavelmente a trabalho, mas vê a vítima, tem compaixão dela e sai de si para tocar-lhe as feridas e dar-lhe assistência.

Por razões históricas, havia uma inimizade entre judeus e samaritanos. Desde o período da divisão do Reino do Norte e do Sul, a Samaria e o Reino do Norte eram sinônimos de idolatria e de abandono da tradição, pois não adoravam a Deus no Templo de Jerusalém nem eram governados pelos descendentes de Davi, afastando-se das promessas dadas por Deus ao povo. No período da dominação assíria sobre essa região, houve a migração dos samaritanos para outras cidades e a inserção de outros povos na Samaria, que traziam seus cultos religiosos e seus deuses (cf. 2Rs 17,24-41), aumentando o preconceito dos judeus contra os samaritanos. Outro fator que alimentou a inimizade entre esses povos foi a resistência dos samaritanos à reconstrução do Templo de Jerusalém, no pós-exílio. Tal conflito piorou com a destruição do templo dos samaritanos, no monte Garizim, pelos judeus, sob o mandato de João Hircano I ou Simeão, um dos Macabeus, que governou a Judeia. Por isso, provavelmente a vítima na parábola era um judeu, que teve assistência por causa da misericórdia de um samaritano.

Nessa parábola, o samaritano não ama somente a Deus com toda a alma, com o coração e com suas forças, mas também o irmão necessitado. Como diz a I leitura, cumprir a Palavra de Deus não é algo longe, distante, pois ela está próxima e se faz próxima no irmão necessitado. Amar a Deus e amar o irmão são atitudes inseparáveis. Assim, como o mestre da Lei, também nós recebemos o convite de Jesus: “Vai e faze a mesma coisa” (v. 37).

3. II leitura: Cl 1,15-20

Não há consenso entre os biblistas sobre Colossenses ser ou não uma carta autêntica de Paulo. Contudo, pela problemática abordada, pelo estilo, pelo vocabulário, pela linguagem cósmica e pela sua afinidade com Efésios, podemos considerá-la uma carta deuteropaulina, ou seja, não escrita por Paulo. O hino proposto como a segunda leitura deste dia é uma resposta à concepção presente na comunidade de Colossas de que Jesus seria inferior aos anjos, porque estes seres celestes permaneceram na presença de Deus, enquanto Jesus teria se rebaixado por causa de sua encarnação, por assumir a realidade humana.

O contexto literário de Cl 1,15-20 é Cl 1,9-14 – ou seja, essa perícope está inserida numa exortação. O autor pede que o destinatário cresça no conhecimento da vontade de Deus (cf. vv. 9-14) e receba, por meio de Cristo, o perdão dos pecados. O hino ajuda o cristão a se direcionar para o Reino do Filho, do qual Deus o fez participante, porém seu tema principal é o primado de Cristo. Inicia-se atribuindo dois títulos a Jesus, que definem o seu papel em relação a Deus e ao mundo (cf. v. 15). O primeiro título, “imagem do Deus invisível”, tem a finalidade de afirmar que Jesus é a revelação única e definitiva de Deus. O segundo título, “primogênito da criação”, define sua função em relação ao mundo criado – Jesus é o mediador entre a humanidade e Deus. Percebe-se a insistência na dimensão universal e no senhorio de Cristo sobre todas as coisas. Ele é aquele que unifica e dá coesão a tudo.

Diferentemente das cartas protopaulinas (cf. 1Cor 12,12), Colossenses apresenta Cristo como a cabeça da Igreja; portanto, como autoridade máxima. A imagem do corpo serve para reforçar essa união indissolúvel entre Cristo e a Igreja – isto é, a Igreja recebe sua vida, seu crescimento e seu dinamismo de Cristo.

Cristo tem a primazia, porque todos foram criados por ele, nele e para ele (cf. v. 16). Toda criatura deve-lhe sua existência, porque ele é a origem, a fonte, o fundamento e a meta da criação (cf. v. 17). A Igreja também é completamente dependente de Cristo, do Filho de Deus. Cristo é a potência de tudo: das coisas visíveis (cosmo) e das invisíveis (potências angélicas). Todo o mundo criado é orientado para ele.

Nos vv. 15-17, a criação e a vida eclesial são relidas à luz de Cristo. Essa releitura desemboca nos vv. 18-20, que apresentam o primado de Jesus na redenção. O Filho de Deus é denominado “primogênito dentre os mortos” (v. 18). Não porque ressuscitou primeiro, mas porque é o fundamento de nossa ressurreição e redenção. Por meio de sua fidelidade ao projeto do Pai, realiza-se a reconciliação de toda a humanidade. Desse modo, temos a ênfase no evento histórico salvífico como forma de confirmar o primado universal de Cristo. De fato, Cristo é o princípio unificador da realidade cósmica, humana e divina; é a reconciliação e a salvação; é o mediador da criação. Por isso é superior: por existir antes de tudo, toda a criação encontrar nele a origem, a existência e a consistência e, por meio dele, realizar-se a história da salvação (plenitude divina).

IV. Pistas para reflexão

As leituras desta celebração nos indicam que o amor para com Deus é inseparável do amor para com o próximo. Outro elemento importante, nesta liturgia, são os vários significados da palavra “misericórdia”. Em primeiro lugar, a misericórdia de Deus que acolhe o povo, apesar de sua infidelidade em cumprir a aliança, embora seja necessária a transformação do coração (I leitura). A misericórdia expressa na entrega salvífica de Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado (II leitura) que não é inferior aos seres celestes, mas é a plena revelação de Deus e de sua presença na história. Por fim, a misericórdia como expressão de uma vida coerente com os dois mandamentos: amor a Deus e ao próximo.

Diante da parábola do bom samaritano, também nós podemos procurar justificativas para nossa falta de iniciativa: os tempos são outros; hoje há muita violência… Nós nos reservamos por medo de magoar, ofender, sermos intrusos, sermos mal interpretados, por indiferença e por omissão. Podemos também não nos sentir corresponsáveis por aquilo que acontece com as pessoas na sociedade. O papa Francisco, no Ano da Misericórdia, alertava-nos sobre as situações de precariedade e os sofrimentos do mundo atual:

Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. A Igreja é chamada ainda mais a cuidar dessas feridas, a aliviá-las com o óleo da consolação, a enfeixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas […]. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los
a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo (Misericordiae Vultus, §15).

Durante esta semana, que possamos ter presentes no coração estas perguntas: Como nos fazer próximos dos irmãos e irmãs, sobretudo daqueles que necessitam da nossa misericórdia? O nosso agir cristão é perpassado pela nossa experiência de sermos amado/as e redimido/as por Jesus Cristo, o Senhor da nossa vida?

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