“NÓS VOS ADORAMOS, SANTÍSSIMO SENHOR JESUS CRISTO...”
Notícias
            Informações             Notícias             “NÓS VOS ADORAMOS, SANTÍSSIMO SENHOR JESUS CRISTO...”
03/04/2019 “NÓS VOS ADORAMOS, SANTÍSSIMO SENHOR JESUS CRISTO...” A propósito do uso de uma oração medieval, adotada por São Francisco de Assis
VIACRUCIS X e XII - Memorial Guido Shaffer - Rio de Janeiro 2019 - Artista: Sergio Ricciuto Conte.
A+ a-

O presente texto pretende ser uma contribuição para melhor uso da oração “Nós vos adoramos...”, na prática litúrgica diária dos frades menores. A reflexão dar-se-á sob três aspectos, a saber: Seu uso na tradição franciscana, o sentido bíblico-litúrgico do termo ‘adoração’ e uma sugestão para o uso adequado dessa ‘devoção franciscana’.

1. Na tradição franciscana

Além da citação expressa pelo próprio são Francisco em seu Testamento,[1] há, nas fontes hagiográgicas, informações de que essa oração era praticada pelos frades, a mando do Poverello de Assis.[2] Proveniente do uso litúrgico medieval, essa oração fora conservada no atual Lecionário Santoral, como versículo da aclamação ao evangelho, da festa da Exaltação da Santa Cruz (14 de setembro). Na piedade popular, a prece “Nós vos adoramos...” continua sendo dita, em nossos dias, antes de cada estação da Via Sacra.

Duas fontes hagiográficas nos levam a intuir qual o momento e os respectivos gestos (rituais), utilizados pelos frades, quando rezavam a oração “Nós vos adoramos...”. Juliano de Espira assim se expressa: “Com humildade, os irmãos colocaram isso em prática e, considerando esta palavra simples uma ordem a ser obedecida, inclinavam-se também para as igrejas que podiam ver ao longe e adoravam, prostrados por terra, como lhes fora ensinado”.[3] Na mesma esteira, a Legenda dos três Companheiros diz: “Quando encontravam alguma igreja ou cruz, inclinavam-se em oração e, devotamente, diziam: ‘Nós vos adoramos...’. Pois eles, em todo lugar em que encontrassem uma cruz ou uma igreja, acreditavam sempre ter encontrado um lugar de Deus”.[4] Desses dois testemunhos, além da expressiva gestualidade (inclinação, prostração), se deduz que essa prece de adoração era feita no momento em que os frades deparavam com tais ‘sinais sagrados’ (igrejas, cruz).

2. Aprofundando o sentido da “adoração”

A oração de que falamos inicia-se com o verbo “adorar” que, por sua vez, vem do latim adorare, cujo significado é: orar, pedir orando, render culto, prostrar-se, ajoelhar, venerar, reverenciar...[5]. Na tradição judaico-cristã, diversos textos sagrados nos reportam à atitude dos que se põem em adoração: “Vinde adoremos e prostremo-nos por terra e ajoelhemos ante o Deus que nos criou...” Sl 95/94); “Eu, porém por vossa graça generosa, posso entrar em vossa casa. E, voltado reverente ao vosso templo, com respeito vos adoro” (Sl 5,8); “As nações todas hão de vir perante vós e, prostradas, haverão de adorar-vos, pois vossas justas decisões são manifestas” (Ap 15,4).

Na tradição litúrgica, especialmente na Celebração Eucarística e na Liturgia das Horas, o momento da ‘adoração’ corresponde aos ritos iniciais. Atendendo ao convite de Deus, a assembleia se põe na presença daquele que a convocou e, de “coração contrito e humilde” se prepara para a escuta da Palavra. Não raro, algumas antífonas de “Entrada” da Missa falam explicitamente de gestos de ‘adoração’: “Que toda terra se prostre diante de vós, ó Deus, e cante louvores ao vosso nome, Deus altíssimo”[6]; “Entrai, inclinai-vos e prostrai-vos: adoremos o Senhor que nos criou, pois ele é o nosso Deus”[7]; “Ao nome de Jesus todo joelho se dobre, no céu, na terra e nos abismos; e toda língua proclame, para a glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor”[8]. A ‘adoração’ também aparece explícita no “Glória”: “Senhor Deus, rei dos Céus, Deus Pai todo-poderoso, [...] nós vos adoramos...”.

Quanto à Liturgia das Horas, no primeiro Ofício de cada dia, canta-se um salmo invitatório, com seu convite expresso à adoração: “Vinde, adoremos, e prostremo-nos por terra, e ajoelhemos ante o Deus que nos criou...”[9]. Este salmo, quase sempre, aparece emoldurado por antífonas que reforçam o convite à adoração: “Vinde, adoremos, o Rei que vai chegar”[10]; “Vinde, adoremos, o Senhor que já está perto”[11]; “Jesus por nós nasceu: vinde todos adoremos”[12]; “A Jesus que se revela, vinde todos, adoremos”[13]; “Cristo por nós foi tentado, sofreu e na cruz morreu. Vinde, todos, adoremos”[14] etc.

No Ofício Divino das Comunidades, o convite à adoração é feito solenemente na “Abertura” do Ofício da manhã: “Venham, adoremos, Cristo ressurgiu! A criação inteira, o Senhor remiu”[15]; “Venham, adoremos a nosso Senhor, vem vindo em sua glória nosso Salvador”[16]; “Hoje um Salvador para nós nasceu, alegres, adoremos, ele é nosso Deus”[17]; “Venham, adoremos, a nosso Senhor, a preparar sua Páscoa ele nos chamou”[18]; “Venham, adoremos a nosso Senhor, com a Virgem Maria, Mãe do Salvador”[19] etc.

Em suma, pode-se afirmar, sem qualquer hesitação, que a prática de são Francisco e dos primeiros frades de rezar o “nós vos adoramos...” - assim que avistavam ou entravam em alguma igreja - corresponde ao sentido bíblico-litúrgico de vincular a ‘adoração’ com os ritos iniciais, tanto da Eucaristia, como da Liturgia das Horas.

3. Quanto ao uso adequado dessa ‘devoção franciscana’, em nossos dias

Uma vez que a oração “Nós vos adoramos...” é parte integrante da ‘devoção franciscana’ e, levando em conta o que foi dito até aqui, seu uso mais adequado é antes do início da Liturgia das Horas, bem como prelúdio de algum exercício de piedade como o “Rosário”, a “Via Sacra”, a “Adoração ao Santíssimo Sacramento”. Melhor ainda se essa oração fosse utilizada como um “refrão meditativo”, como se costuma fazer na “Chegada” do Ofício Divino das Comunidades.

Feito isso, dispensa-se, obviamente, seu uso no final de qualquer momento de oração.

--------------------------------------

[1] “E o Senhor me deu tão grande fé nas igrejas que, simplesmente, eu orava e dizia: Nós vos adoramos, Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as vossas igrejas que há no mundo, e vos bendizemos, porque, pela vossa santa cruz, remistes o mundo” (Test 4-5).

[2] Cf. 1Cel 45,2-6; Jul 27,1-3; LM IV.3,4; LTC 37,2-3.

[3] Jul 3. Grifo nosso.

[4] LTC 37,2-3. Grifo nosso.

[5] Cf. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

[6] Antífona de entrada do 2º Domingo do Tempo Comum.

[7] Antífona de entrada do 5º Domingo do Tempo Comum.

[8] Antífona de entrada da Memória do Bem-Aventurado Inácio da Azevêdo, presbítero, e seus companheiros mártires (17 de julho) e de Santo Inácio de Loyola (31 de julho).

[9] Sl 95(94).

[10] Advento, até 16 de dezembro.

[11] Advento, após 16 de dezembro.

[12] Natal até Epifania.

[13] A partir da Epifania.

[14] Quaresma.

[15] Domingos do Tempo Comum.

[16] Domingos do Advento.

[17] Natal e Tempo do Natal.

[18] Quaresma.

[19] Festas e memórias da Virgem Maria.

Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
Artigos
                  
Receba as notícias e artigos da Província Santa Cruz. Cadastre seu e-mail...
Centro Administrativo | WebTop
Seth Comunicação