Um olhar sobre a história do noviciado da Província Santa Cruz
Artigos
            Informações             Artigos             Um olhar sobre a história do noviciado da Província Santa Cruz
05/09/2018 Frei Hilton Farias de Souza, OFM Um olhar sobre a história do noviciado da Província Santa Cruz
A+ a-

 

Introdução:

O objetivo desse artigo é resgatar a nossa longa e rica experiência do “Tempo de Provação” ao longo desses 76 anos de história em solo gaúcho e mineiro. História marcada por tantos desafios, que formaram as novas gerações de frades brasileiros, dando um novo rosto ao elã missionário trazido pelos nossos irmãos neerlandeses; gerando assim no decorrer da caminhada uma nova Província, ali onde em 1942 se concretizaria o sonho de uma casa própria de noviciado. A história dessa etapa de formação na nossa PSC é marcada por uma espécie de “itinerância”, como evidenciará a nossa descrição ao longo deste artigo. Oxalá esse texto possa contribuir para fazer memória desse riquíssimo patrimônio do nosso legado franciscano. Como expressa o Livro do Eclesiástico: “Vamos fazer o elogio dos homens famosos, nossos antepassados através das gerações” (Eclo 44, 1). Gostaria, com este artigo, de fazer uma homenagem a todos os frades neerlandeses que, impelidos pelo espírito missionário, “implantaram” a presença franciscana em terras mineiras e gaúchas.

Pequenos grãos de mostarda. Os Seminários Seráficos, uma preparação prévia ao “Tempo de Provação”.

Depois de estabelecidos já um bom tempo aqui no Brasil, vencidos os desafios das doenças tropicais, os nossos missionários neerlandeses começaram a preocupar-se em investir nas vocações autóctones. Em 1922, Inicia-se em Araçuaí um Pré-seminário, ainda de forma incipiente, mas são os primeiros grãos de mostarda lançados em solo brasileiro. No ano de 1924, essa experiência se transfere para São João Del Rei num chamado Colégio Seráfico. Em Araçuaí permanece sob os cuidados de Frei José de Haas um “colegiozinho”[1] com intuito de garimpar candidatos para o Colégio Seráfico. No dia 19 de janeiro de 1925, o Colégio Seráfico é transferido para Divinópolis, com direito a recepção por parte do povo, com banda de música e foguetes[2]. No ano de 1931, o Colégio Seráfico de Divinópolis é transferido para Taquari[3], no Rio Grande do Sul. Em 1941, iniciou-se o Seminário Seráfico de Santo Antônio, de Santos Dumont.

Noviciado na Holanda.

Para onde enviar esses primeiros frutos do Comissariado para serem iniciados na Vida da Ordem? Sem titubear, são enviados à Holanda. Uma viagem longa a bordo de navios até chegar a Europa e ali enfrentar vários tipos de adaptação: a língua, a cultura, a alimentação, o banzo, o rigor do inverno, os costumes conventuais, com a severidade das suas regras. O primeiro fruto brasileiro em terras neerlandesas foi Frei Turíbio Gomes Leal, vocação do Pré-Seminário de Araçuaí, que foi acometido de uma tuberculose pulmonar nos tempos de seus estudos filosóficos e ali faleceu. Outros foram enviados, como o nosso Frei Orlando Álvares da Silva e Frei Osório da Silva Santos; ambos se tornariam depois capelães militares. Frei Osório, num dos seus momentos quando se reportava ao tempo de sua estada na Holanda como estudante, falava da experiência da sala de recreio: “Era uma sala imensa, todos os frades fumando charutos, com todas as janelas e portas fechadas por causa do inverno; nuvens espessas de fumaça, e quem não fumava era obrigado a participar assim daquele recreio”. O frade no convento desde cedo recebia o seu charuto, como uma espécie de “celebração à chegada da maioridade”. O envio de candidatos brasileiros para fazer o seu noviciado na Holanda estendeu-se até o ano de 1938 ou 1939[4]. Assim como as pequenas sementes de mostarda foram lançadas em terreno brasileiro (Seminários Seráficos), as bases anteriores ao tempo de provação foram crescendo e desenvolvendo-se, primeiro em solo mineiro e depois no Rio Grande do Sul. Foi crescendo a consciência de que era importante fundar aqui no Brasil um noviciado próprio, evitando enviar para solo neerlandês os jovens daqui que deviam fazer um esforço redobrado para se adaptarem.

No Capítulo provincial celebrado no mês de agosto de 1937 em Weert, o Comissário do Brasil propôs iniciar no Brasil uma Casa de noviciado. O governo da Província mãe foi favorável à proposta apresentada pelo Comissariado do Brasil e sugeriu que durante o triênio se esforçasse para levar a efeito o projeto, porém a Província neerlandesa não poderia ajudar financeiramente nessa empreitada. De volta ao Brasil, o Padre Comissário Frei Serafim Lunter comunicou aos padres Conselheiros a decisão acerca do noviciado tomada pela Província Mãe. Havia um consenso da parte dos conselheiros de que se devia iniciar o mais rápido possível no Comissariado um Convento para o Noviciado e o Curso de Filosofia. Assim, a Província neerlandesa providenciaria as devidas autorizações da Cúria Geral e da Santa Sé. Na Crônica que escreve o Frei Serafim Lunter, ele faz uma observação muito pertinente: “Uma das incumbências mais importantes, senão a mais importante dos franciscanos da Província holandesa que trabalhavam no Brasil, devia ser a formação de sacerdotes brasileiros, praticamente de sacerdotes e religiosos franciscanos brasileiros e enfim fundar uma província franciscana brasileira autônoma” (SC,1, 1965, p.91). É bom frisar que, ao tomar a iniciativa de se criar um noviciado próprio em terras brasileiras, também estava fundamentado nos resultados promissores do investimento dos seminários seráficos, como o de Taquari que nessa época contava com um número expressivo de 70 alunos, com a possibilidade de aumentar. Essa constatação fortalecia os argumentos a favor de um noviciado “próprio”. É interessante deixar falar o nosso cronista Frei Serafim Lunter sobre o número cada vez maior de vocações para o Seminário de Taquari:

“E devia ser considerada coisa normal que esses candidatos fizessem o seu noviciado e recebessem a sua formação espiritual e científica no próprio país; mandá-los por este motivo para outro país com clima, língua, cultura, costumes diferentes, devia ser tido anormal, como medida de emergência imposta por circunstâncias especiais, que não devia durar por mais tempo do que fosse necessário. Para muitos deles uma estadia de quatro, cinco anos na Holanda significava um grande sacrifício; também muitos pais eram contrários a isso. E o clima frio e úmido da Holanda não convinha a muitos brasileiros e podia ter, para um ou outro, consequências desastrosas. Também para a vida espiritual deles era melhor que ficassem no Brasil. Considerando-se a questão do ponto de vista econômico, (...) que enviar cada ano um grupo de candidatos para a Holanda, aos poucos se tornaria para o Comissariado um peso insuportável por causa das muitas viagens dispendiosas de ida e volta; esse dinheiro se poderia empregar melhor na manutenção do clericato. Por tudo isso, pareceu a todos evidente que já chegara a hora de começar quanto antes a empresa. Incitou para fazer pressa também a situação política tão incerta e perigosa da Europa, onde mais cedo ou mais tarde poderia estalar uma guerra que tornaria impossível qualquer viagem à Holanda” (SC,4, 1965, p.91-92).

Fundação da nossa primeira Casa de Noviciado.

Na sua crônica Frei Serafim Lunter faz um comentário interessante quando se cogita um lugar para a fundação da nova casa - seria mais fácil em Minas, porque se obteria mais facilmente a licença dos senhores bispos[5]. De fato, para se obter no Rio Grande do Sul a licença do bispo para a fundação da casa de noviciado se encontrou muita resistência. Por outro lado, “se o convento fosse construído na zona colonial, as despesas seriam menores, inclusive se poderia contar com a ajuda dos colonos em transportar materiais de construção e fazer outros trabalhos desinteressadamente” (SC, 4, 1965, p.92-93). Outros dois motivos corroboraram para que o convento fosse construído no Rio Grande do Sul: as outras casas do Comissariado localizadas na região seriam motivadas para angariar fundos para a construção; a região já atraía muitas vocações, e com o novo convento de clérigos seria um bom “chamarisco vocacional”. Frei Tiago ficou responsável de encontrar um lugar apropriado para a construção do convento e de estabelecer as tratativas com o arcebispo de Porto Alegre que estava viajando. O valor da compra do terreno deveria ser de uns 25 contos de reis, mais ou menos. Quando chegou a licença de Weert, o Frei Tiago iniciou as suas andanças pelas paróquias da arquidiocese à procura de um lugar ideal para a construção do novo convento. Frei Tiago encontrou um terreno num lugar chamado Poço das Antas, ali poderia construir, e os frades futuramente poderiam ajudar o pároco na “cura animarum”. O local era bem servido de estradas e correio. Frei Tiago deixou as tratativas com o arcebispo para serem feitas com o Comissário. O arcebispo Dom João Becker voltou da sua viagem da Europa, e o Comissário encontrou-se com ele em Porto Alegre, no mês de janeiro de 1939. Colocou para o arcebispo o projeto do Comissariado de não mais enviar os seus candidatos ao noviciado na Holanda, mas de fundar uma casa de noviciado no Brasil. O arcebispo estava de acordo com isto. No dia 24 de janeiro, o Padre Comissário e Frei Tiago foram a Porto Alegre para consultar o arcebispo; resolveram, antes de se encontrar com o arcebispo, visitar o seu braço direito, o Vigário Geral, sobre as possibilidades de adquirir o terreno. Encontraram no outro dia o Monsenhor e foram desaconselhados a conversar com o arcebispo, porque o mesmo estava insatisfeito com as parcas ajudas da parte das nossas paróquias na Arquidiocese em prol do seminário de Gravataí. Diante dessa resposta do Monsenhor, os dois frades não podiam esperar favores especiais da parte da Cúria. Os frades justificaram a pouca contribuição por causa das paróquias que estavam situadas em áreas muito pobres; propuseram-se suprir do próprio caixa do Comissariado a contribuição para o seminário. O Vigário Geral dispôs-se a levar o assunto para o arcebispo, ou os frades mesmos poderiam pedir uma audiência. Eles optaram pela audiência, mas o arcebispo adoeceu e não os pôde receber. O Monsenhor transmitiu ao arcebispo o pedido dos frades. Poucos dias depois, veio a resposta - o senhor arcebispo em princípio estava disposto a conceder a licença, desde que nenhuma paróquia da arquidiocese fosse prejudicada. Para isso o arcebispo aguardava uma lista dos lugares em que os franciscanos preferiam fundar o seu convento. Ao fazerem a lista, os frades evitaram lugares que não serviriam para o convento como Triunfo e Santo Amaro, mas incluíram na mesma os lugares de preferência: Lajeado, Estrela, Venâncio Aires, Poço das Antas. O Comissário, antes de voltar para Minas, entregou a lista na Cúria de Porto Alegre[6]. No dia 16 de março, a Cúria de Porto Alegre comunicou a Frei Tiago que o Senhor arcebispo tinha dado ao requerimento do Revmo Frei Serafim Lunter a seguinte resposta: “Lamentamos que nas condições indicadas não podemos conceder a licença pedida” (SC,5, 1965, p.115). Poucos dias depois da resposta, Frei Tiago foi visitar Dom João para explicações e tentar uma solução satisfatória. Dom João deu a entender que de jeito nenhum daria licença para fundar um convento nos lugares indicados na lista do Comissário. O arcebispo sugeriu aos frades “que seria muito mais conforme o espírito de São Francisco procurar um lugar no sertão, onde se precisava tanto de assistência espiritual: por exemplo, disse, Torres” (SC,5, 1965, p.115). Frei Tiago despediu-se do arcebispo e fo-sei embora. A sugestão do arcebispo deixou indignado Frei Tiago, porque Torres era uma aldeia perdida de pescadores. Veja os comentários de Frei Serafim: “Lá de certo não faltaria areia para fazer argamassa, não faltariam aos frades a brisa fresca e o banho de mar, nem pescado nos dias de abstinência; faltaria só o resto” (SC,5, 1965, p.116).

No outro dia, Frei Tiago foi atrás de Dom José, em Caxias, fazendo o pedido de abrir um convento na sua diocese, mas não em Torres! Sugeriu que os franciscanos poderiam estabelecer-se em Ipiranga e dar assistência à comunidade de origem germânica. Prometeu criar ali uma paróquia aos cuidados dos frades. Na companhia de Frei Olavo Timmers, Frei Tiago foi até Ipiranga conhecer o lugar e comunicou ao Padre Comissário que não se poderia esperar obter um lugar melhor na arquidiocese. Nesse interim, o Comissário Frei Serafim Lunter havia recebido uma nomeação como Delegado Geral da Província Franciscana do Equador, e ao mesmo tempo chegou a notícia através de uma carta de Frei Leonardo, comunicando que o bispo de Caxias, Dom José estava com receio de conceder aos frades a licença prometida para construir o convento em Ipiranga para não se indispor com o arcebispo de Porto Alegre, Dom João Becker. O Padre Comissário não gostou da atitude de Dom José e foi para o Rio de Janeiro encontrar-se com o Núncio Apostólico, Dom Aloísio Masella e expôs-lhe as dificuldades. O Núncio recomendou que se fizesse um resumo da problemática. O Comissário fez um documento e entregou-o ao Núncio. Em Ipiranga, ouviram-se as dúvidas de Dom José, e formou-se uma comissão de pessoas importantes para negociar com o bispo a criação de uma paróquia e a construção do convento[7]. O bispo ouviu os seus conselheiros e no dia 10 de junho deu a resposta: “Dado parecer favorável vigário, paróquia, consultores diocesanos, resolvi autorizar fundação franciscanos Ipiranga. Convém avisar o Provincial para regularização do assunto.  Saudações. Bispo de Caxias” (SC,5, 1965, p.117). No dia 8 de julho, o Padre Comissário foi ao Rio de Janeiro encontrar-se com Dom José, que estava hospedado com os Frades Capuchinhos. O bispo deu a licença por escrito para a fundação do novo convento. Frei Tiago foi encarregado da “Cura animarum” em Ipiranga e de preparar e dirigir a construção do futuro convento. Frei Remi Hendriks faria um projeto provisório. No mês de setembro, Frei Paulo Stein, a convite de Frei Tiago, visitou a vila, para juntos escolherem o terreno onde devia ser construído o convento. Frei Paulo não achou o local original indicado apropriado para um convento de clérigos. As objeções de Frei Paulo eram as seguintes: lugar muito pequeno, sem recursos, muito distante de assistência médica e de onde se pudesse obter o necessário para um grande convento; sem um terreno idôneo para construir além do convento de clérigos com uma horta e área para esporte. O Padre Comissário Serafim Lunter, Frei Paulo Stein e Frei Leonardo foram a Ipiranga, onde encontraram Frei Tiago para discutirem a questão e poderem chegar a um discernimento quanto ao local do futuro convento. Depois de pesarem os prós e os contras, ao final concluíram que o lugar examinado satisfazia o seu escopo, para convento de noviciado e clericato[8]. Ipiranga, que estava situada na divisa das dioceses de Porto Alegre e de Caxias, era uma região com esperança de vocações e localizada geograficamente próximo das outras casas do Comissariado. Veja as observações do cronista:

“(...) tudo conforme o plano se havia estabelecido; não se precisava gastar dinheiro na compra de um terreno, e, pelas circunstâncias topográficas e pelo auxílio garantido dos moradores, a construção do convento sairia mais econômica do que na maioria dos outros lugares, que viriam em consideração, e o mesmo se esperava para a manutenção da comunidade; a vila tinha luz elétrica, e provavelmente se poderia fazer uma instalação particular com turbina movida pela água do rego, que havia no terreno da Mitra, e que, como diziam, nunca secava. Quanto às dificuldades objetadas, julgavam que, numa atenta consideração pela maior parte, elas desapareceriam ou diminuiriam suficientemente: a vizinhança de várias cidades bastante grandes como Estrela, Lajeado, Garibaldi, com as quais Ipiranga estava ligada por um serviço regular de ônibus, resolvia satisfatoriamente o problema de assistência médica e outros recursos, podendo-se esperar que com o tempo os meios de comunicação iriam melhorar e tornarem-se mais rápidos; ademais, na vizinha Vila Seca havia um pequeno hospital, cujo médico em dez minutos podia chegar ao convento; para os padres lentes e outros eventuais sacerdotes moradores do convento haveria bastante serviço – especialmente nos domingos e festas – na sede e nas capelas das grandes paróquias da redondeza” (SC, 7, 1965, p.169-170).

Os frades ainda tentaram através de Dom José Baréa, bispo de Caxias, a possibilidade de um lugar melhor para a construção e escutaram do bispo que em toda a sua diocese não havia lugar melhor para construir um grande convento, apesar de o local ser montanhoso. Quando os frades pediram ao bispo que vendesse um terreno da Mitra que extremava com o terreno já adquirido e que parecia mais apropriada para a construção do novo convento, o bispo respondeu: “que até de graça podia ceder o que se precisasse” (SC, 7, 1965, 170). E prometeu ir a Daltro Filho no mês de janeiro de 1940, para colocar solenemente a primeira pedra do convento, inaugurar a paróquia e instalar o primeiro vigário. Os frades ainda cogitaram se poderiam encontrar um lugar melhor. Talvez na diocese de Santa Maria? Mas esta área geográfica não pertencia ao território do Comissariado, por isso os frades não podiam entrar. Próximo passo foi contentar com o terreno já adquirido e aumentado com o da Mitra diocesana de Caxias. Arrumaram um arquiteto em Arroio do Meio, o Senhor José Pohl, que fez uma planta conforme os esboços de Frei Remi e Frei Ildefonso, que contemplasse o terreno acidentado. O Padre Comissário com o seu conselho reunido em Taquari confirmaram a construção do novo convento para Daltro Filho. Dedicaram a nova construção ao Doutor Seráfico São Boaventura. Na avaliação do arquiteto, o local melhor do terreno da Mitra para a construção do convento seria onde estava localizada uma antiga capela. Procederia a construção do convento, e mais tarde se construiria a nova Matriz. Decidiu-se que o convento seria construído de blocos de arenito, que se encontrava com abundância na região. Depois do natal de 1939, começariam os trabalhos da construção. Como no início de fevereiro a construção do novo convento ainda estava nos alicerces, prevendo que os cinco alunos, que no final de 1939 terminariam o curso ginasial não poderiam, portanto, fazer o noviciado no novo convento, optou-se que eles antes fizessem o primeiro ano de filosofia em Taquari. Iniciou-se no dia 12 de fevereiro de 1940, tendo o Frei Gaudioso como mestre e lente de filosofia. Os filósofos ocuparam os quartos dos hóspedes. Como as obras caminhavam muito lentas e se previa que para o próximo ano não seria possível iniciar o noviciado no novo prédio, resolveu-se então que os cinco alunos fizessem também o noviciado em Taquari. Adaptou-se a parte do segundo andar do convento para essa empreitada[9]. Frei Gilberto Alders[10] foi nomeado mestre de noviços. No dia 01 de fevereiro de 1941, o Padre Comissário Paulo Stein fez a vestição dos cinco noviços: Daniel (Adalberto) Schauren, Hugolino (Aleixo) Favoretto, Ivo (Aldino) Kuhn, Lucas (Elígio) Corbellini e Leão (João) Pontello. Desses cinco, Daniel e Hugolino saíram no decorrer do ano, e os outros três foram levados para o novo convento em Daltro Filho em janeiro de 1942. A turma de noviços de 1942 foram quatro, e entre esses se encontrava o futuro cardeal Dom Aloísio Lorscheider.

No dia 17 de fevereiro de 1942, foi inaugurado oficialmente o novo Convento de Daltro Filho pelo Comissário Paulo Stein, com a assistência dos padres conselheiros: Zacarias e Rufino. Assim o Comissariado tinha afinal o seu convento de noviciado e curso de filosofia. A obra não estava totalmente finalizada; faltava mobilhar o convento, a capela provisória e também ser formada uma horta no terreno irregular e pedregoso. Outros problemas surgiram para dar dor de cabeça aos guardiães ao longo do tempo: a falta de água e depois a de luz. A luz da Vila mostrou-se muito fraca, falhando várias vezes, e a tão sonhada ideia de uma energia própria não foi adiante. Na época de grandes secas, devia-se buscar água na Vila e depois com a ajuda de baldes e latas levá-la para cima, no alto do convento. O Cronista descreve muito bem essa situação: “Como então os noviços e clérigos trabalharam e suaram!” (SC,8,1965, p.192). No mês de março de 1952, para solucionar o problema de forma definitiva, os frades contrataram uma empresa que perfuraram um poço artesiano, resolvendo assim a falta de água para abastecer o convento. O Cronista assinala o dia 15 de setembro de 1961 como o “finis miseriae” (SC, 8,1965, p.194); solucionou-se também o problema da luz elétrica, porque o convento foi ligado diretamente à rede elétrica.

No ano de 1946, concluiu-se a parte da frente do convento, e no dia 18 de agosto de 1948 ficou pronta a ala direita. O noviciado agora podia ser transferido definitivamente para essa ala construída com esse escopo. Havia 16 celas nessa parte. No início de 1950, Frei Paulo Stein foi nomeado o novo guardião da casa de Daltro Filho; foi ele que concluiu o conjunto da construção do Convento São Boaventura, com a Capela, que foi inaugurada solenemente no dia 31 de dezembro de 1952 pelo Ministro Provincial[11]. Segue a lista dos Mestres de noviços durante o tempo que o noviciado da única província funcionou nesse Convento de Daltro Filho:

Frei Gilberto Alders - fevereiro de 1941, em Taquari, onde funcionou provisoriamente o noviciado, até início 1943, quando foi exonerado de sua função por motivos de saúde.

Frei Eurico Peters[12] – no ano de 1943.

Frei Gaudioso Nieuwenhuijsen[13] – de 1944 até início de 1956.

Frei Gamaliel van Emmerik [14] – de 1956 até fevereiro de 1964.

*Frei Félix Neefjes[15] – “Mestre substituto” durante o período de férias de Frei Gamaliel: de janeiro de 1958 a 30 de março de 1959.

Frei Estanislau Bartholdy – 1964.

É importante deixar o nosso sábio cronista Frei Serafim Lunter falar o que representou o nosso Convento São Boaventura em Daltro Filho e seus arredores: “Qual farol, emitirá também longe ao redor de si raios luminosos de espiritualidade, de ciência e cultura. É o que fez durante os 25 anos de sua existência o Convento de São Boaventura pelos Mestres e Lentes, que estenderam as suas atividades apostólicas e culturais fora dos limites do convento e da paróquia. Não só ajudaram como coadjutores na paróquia de Daltro Filho, mas prestaram também assistência pastoral nas paróquias circunvizinhas e outras, principalmente nas grandes festas. Mais: eles deram conferências sobre assuntos espirituais e culturais, pregaram retiros e tríduos, deram cursos de cantochão em todos os recantos do Estado” (SC,9, 1965, p.213).

No ano de 1966 o Convento de São Boaventura de Daltro Filho foi entregue aos cuidados específicos dos frades gaúchos, da recém-fundada Custódia de São Francisco de Assis.

Deixemos o testemunho de um confrade mineiro que fez a sua experiência de noviciado em Daltro Filho registrar a sua memória:

“1. A primeira coisa que me vem à memória é a beleza arquitetônica do convento, sua simplicidade e rusticidade. O convento é construído sobre rochedos e é todo feito de pedras rosas lavradas, sendo que do lado externo as pedras estão à vista. Também a capela possui linhas harmoniosas e sóbrias, com a iluminação penetrando por belos vitrais. As estalas, onde nos colocávamos para a recitação do Ofício Divino, são de madeira escura. Todo esse conjunto circundado por montanhas e encostas de parreirais e vegetação nativa. 2. A execução do canto gregoriano, em Daltro Filho, principalmente no tempo do Magister Cantus Frei Emílio Scheid, atingiu notável perfeição. A própria recitação do Ofício Divino era executada como uma peça musical. 3. A arte dramática era cultivada com gosto. Nossas peças eram levadas nas festas internas, mas também excursionávamos por cidades vizinhas, por exemplo, por ocasião de Primeiras Missas de confrades. Lembro-me principalmente das peças de Pedro Bloch, de Ariano Suassuna e de Diego Fabri, sem me esquecer de algumas palhaçadas como o Coronel Chique-chique. 4. Durante os dias feriais, os noviços tinham uma palestra do Mestre, uma aula de canto, trabalho manual, mas principalmente cela, cela, cela... Alguns de nossos colegas tinham muita dificuldade em preencher esse tempo dedicado à cela. Lembro-me, particularmente, de um que encontrou uma atividade interessante para passar esse tempo:  desmanchar e, depois, remontar o seu relógio... 5. Gostei muito do período passado no Rio Grande do Sul, noviciado e primeiro ano de filosofia. É bem verdade que nosso Mestre, o saudoso Gamaliel van Emmerik, já estava um pouco cansado de sua função, mas acho que as deficiências dele eram supridas, e bem, pelo ambiente pedagógico do convento”. Frei José Belisário, em 30.05.1998.

1965 - Betim – Primeira fase

O noviciado da nossa Província funcionava em Daltro Filho, no Rio Grande do Sul. Em 1965, aconteceu a separação e a criação da Custódia de São Francisco de Assis (oficialmente criada no ano de 1966); a etapa do noviciado veio pela primeira vez para Minas Gerais. Onde instalar? A casa de Betim, que havia sido criada no passado para funcionar como um pré-seminário, foi adaptada pelo Frei Gilberto Alders para iniciar o noviciado próprio da Província Santa Cruz. No dia 29 de janeiro de 1965, foi erigida canonicamente a Casa de Betim, como o segundo noviciado da Província, recebendo o nome de Santa Maria dos Anjos. Os formandos instalaram-se no novo convento no dia 05 de março, com uma eucaristia celebrada pelo Ministro Provincial Frei Erardo Veen. E no dia 24 do mesmo mês de 1965, teve início o noviciado, com três noviços, sendo mestre Frei Estanislau Barthody[16]. Ele continuou à frente do noviciado até o ano de 1967.

É importante pontuar que até 1966 havia na província dois noviciados distintos, um para os irmãos de opção clerical e outro para os irmãos de opção laical. Somente a partir de 1966 o noviciado foi unificado[17].

1969 - Santos Dumont – Primeiro tempo.

Por ocasião do Capítulo Extraordinário, que aconteceu em 1968, decidiu-se que não haveria noviciado nesse ano na PSC[18]. O definitório provincial, reunido em Belo Horizonte, nos dias 14 e 15 de novembro de 1968, transferiu a etapa do noviciado (20.02.1969) para o Seminário Seráfico Santo Antônio de Santos Dumont. Frei Urbano Plentz[19] foi nomeado mestre, permanecendo em Santos Dumont de fevereiro de 1969 até janeiro de 1972. No ano de 1972 também não houve noviciado na Província.

É importante ressaltar “en passant” que o ano de 1971 foi um marco importante para a nossa PSC, quando foi realizado no nosso Colégio São José, em Teófilo Otoni, um Congresso de Formação[20].

1973 Betim – Segunda fase.

Ao final de 1972, os estudos de Filosofia e Teologia são transferidos para Petrópolis, e no início de março de 1973 o noviciado retornou para o Convento de Santa Maria dos Anjos, tendo agora como mestre Frei Francisco Duarte Júnior, que também coordenava os trabalhos da formação inicial como Prefeito da formação[21]. Frei Francisco ficou como mestre de noviços até janeiro de 1981; no mês de fevereiro ele foi transferido; para o seu lugar foi nomeado Frei Célio de Oliveira Goulart, que permaneceu mestre de noviços no Convento Santa Maria dos Anjos até o ano de 1982, quando por ocasião do Capítulo Provincial aconteceriam novas mudanças nessa etapa de noviciado.

Visconde do Rio Branco. Vocação primeira da casa como “Casa de missionários”.

O Convento de Visconde do Rio Branco tem sua origem no ano de 1953, como uma casa para missionários, que dali partiam para várias iniciativas da “Cura animarum” da região. A primeira equipe era composta pelos frades: Helano van Koppen, Teodulfo Kamsma, Osório da Silva Santos e Valério Heisen. A escolha do local estava influenciada pelo trabalho de Frei Osório como recrutador vocacional, que já conhecia a região nas suas inúmeras visitas às paróquias pregando missões e recolhendo esmolas para o nosso seminário de Santos Dumont. Ele tinha a simpatia e autorização do bispo diocesano Dom Delfim Ribeiro Guedes. Frei Osório ajudou e substituiu muitas vezes o pároco Cônego Raul de Faria Cunha, de Visconde do Rio Branco, o qual se encontrava constantemente em tratamento. Frei Osório relata que em 1953 o visitador esteve em Guiricema e Visconde do Rio Branco para acompanhar in loco o seu trabalho como recrutador. Naquela ocasião, Frei Osório sugeriu ao mesmo: “suprimir o cargo de recrutador, substituindo-o por uma turma de missionários, que com mais simpatia e mais disfarçadamente fizessem o trabalho das vocações; e fundar um reduto franciscano na Zona da Mata, concretizando o desejo de quase todos os nossos confrades. Este sonho chegou a ser realidade no último Capítulo” (SC, 1, 1954, p.16).

Frei Osório, em diálogo com o Sr. Oilliam José, presidente dos Marianos e Vicentinos, foi negociando um terreno deles que estava destinado a construir uma casa de retiros. No local já havia uma capela dedicada a Santo Antônio. Frei Osório ficou à frente da construção; segundo o seu relato, “foi demolido o que já existia de construção para dar lugar a alicerces sólidos. Não tive dificuldades de ganhar o terreno com escritura. Com a ajuda de Deus e ciúmes do vigário, com oito meses entreguei o convento pronto e equipado para a primeira turma de missionários” (SC, 3, 1983, p.99). Frei Osório recebeu muitas ajudas espontâneas, fruto do seu “espírito pidão”. No dia 26 de setembro de 1954, foi inaugurado oficialmente o convento, com a presença de Dom Delfim Ribeiro Guedes, o Ministro Provincial Serafim Lunter, o Cônego Raul de Faria Cunha, confrades e o povo.

No final de 1966, os missionários foram transferidos, e para o lugar deles não foram nomeados outros frades. Ali no convento de Visconde do Rio Branco ficou firme e forte, no seu trabalho manual, o nosso destemido irmão leigo Frei Metódio Kager. A presença dos frades nesse convento tornou-se menor, talvez não com a força do projeto original sonhado pela equipe dos missionários. Vale ressaltar a figura de Frei Zacarias van der Hoeven, que depois de trinta anos de pastoreio em Carlos Prates, com 75 anos, foi transferido para Visconde do Rio Branco e ali conseguiu mobilizar o povo para a construção de um grande e moderno Santuário de Santo Antônio, no lugar da velha e tradicional igrejinha. Pastoralmente, Frei Zacarias se tornou muito admirado pelas suas ovelhas. Após a figura de Frei Zacarias (+1974), o convento passou por um período de grande alternância de frades que em pouco tempo passaram por ali, mantendo o espírito franciscano.

Noviciado em Visconde do Rio Branco.

No ano de 1982, o governo provincial nomeou uma equipe de frades: Célio de Oliveira Goulart, Celso Márcio Teixeira, Conrado Goumans e Eliseu Tijdink, com a finalidade de assessorá-lo quanto a possibilidade da transferência da etapa de Noviciado de Betim para Visconde do Rio Branco[22]. Feita a visita e a avaliação, a equipe chegou à uma conclusão positiva de possível transferência dessa etapa de formação[23]. As motivações para que a casa de noviciado fosse erigida nessa cidade foram as seguintes: “por estar em uma região carente, pobre e numa cidade marcada pela religiosidade popular”[24]. O governo provincial decidiu pela transferência da casa de noviciado de Betim para Visconde do Rio Branco[25]. Encontrou-se na figura de Frei Edvaldo Kemmeren o frade ideal encarregado de fazer as adaptações no prédio antigo e de construir uma nova ala, que iria abrigar: sala de recreio, sala de reuniões, as celas, banheiros e área de serviço. Ele iniciou a reforma no dia 29 de agosto de 1982[26]. No dia 05 de fevereiro de 1983, foi inaugurada oficialmente, pelo Ministro Provincial Frei Patrício de Moura Fonseca a nova Casa de Noviciado, e presidido o Rito de entrada de 16 postulantes[27] que dava início ao tempo de “Provação” na antiga casa dos missionários. O Mestre de noviços era o Frei Célio de Oliveira Goulart, e o guardião, Frei Conrado Goumans. Um terceiro frade era aguardado para compor essa fraternidade do noviciado, o Frei Ismael Lambi, que faleceu logo após arrumar a sua mudança para Visconde do Rio Branco. A presença de uma etapa de noviciado ligada pastoralmente ao Santuário de Santo Antônio deu um novo vigor a essa presença franciscana missionária, já enraizada em Visconde do Rio Branco. Os noviços também se faziam presentes aos sábados nas comunidades aos cuidados pastorais do Convento Santo Antônio.

Os Mestres durante o tempo de Visconde do Rio Branco foram os seguintes frades:

Frei Célio de Oliveira Goulart - 1983 a 1985;

Estanislau Bartholdy - fevereiro de 1986 até janeiro de 1991;

Frei Célio de Oliveira Goulart – janeiro de 1991 até abril de 1992;

Frei Alair Matilde Naves – de maio de 1992 até fevereiro de 1996;

Frei Vicente Ronaldo da Silva – de março de 1996 a 2000;

Frei Vicente Ronaldo da Silva foi o mestre de noviciado de março de 1996 a 1998. A última turma de noviços de Visconde do Rio Branco, concluiu o seu tempo de provação no final de 1998, quando oficialmente foi encerrada a nossa presença enquanto etapa de formação inicial. Como não houve noviciado no ano de 1999 por causa do projeto do postulantado, Frei Vicente Ronaldo foi transferido para São João Del Rei, para reforçar o Coetus formatorum. Visando uma melhor preparação dos candidatos ao noviciado, foi apresentada uma proposta pelo Conselho de Formação Inicial, refletida, discutida e amadurecida; posteriormente apresentada no relatório do Capítulo Provincial de 1997, como uma moção. Durante o Capítulo, a moção apresentada pelo CFI foi apreciada e votada na íntegra na qual a etapa de Postulantado passava por modificações. O texto da moção recebeu 40 votos. Vejamos o texto votado na sessão do dia 13 de novembro de 1997: “Visto que, principalmente para o jovem que ingressa diretamente no Postulantado, a etapa anterior ao noviciado é por demais curta, o Governo Provincial, juntamente com o CFI, durante o ano de 1988, estude a possibilidade de introduzir mudanças no Aspirantado e no Postulantado, mudanças essas que visariam uma preparação melhor do candidato para o ingresso no noviciado”. (SCE, 1997, p.530). No ano de 1998, iniciou-se a nova modalidade da etapa do Postulantado, com o placet do Governo Provincial.

Santos Dumont – segundo tempo.

No ano de 2000, a etapa de noviciado foi transferida provisoriamente para o Seminário Seráfico Santo Antônio, em Santos Dumont, onde além da etapa do Aspirantado (CJF), que já funcionava naquela casa, o noviciado também foi abrigado. Como a casa era grande, foi fácil delimitar a programação e atividades próprias dessa etapa de noviciado. O mestre era Frei Vicente Ronaldo.

A procura de um lugar para o Noviciado

Uma das reflexões encabeçadas pelo então Conselho de Formação Inicial,  que antecedeu a celebração do Capítulo Provincial de 2000, foi a opção pela não continuidade da etapa de noviciado na cidade de Visconde do Rio Branco, naquela altura se pontuavam os prós e os contra a permanência ali: “levantamos alguns pontos favoráveis à nossa permanência naquela cidade: a presença franciscana junto ao Santuário; a presença da OFS, JUFRA e Amigos de São Francisco; nossa presença sem compromisso paroquial e com um bom relacionamento com a paróquia São João Batista. No entanto, os pontos favoráveis a uma saída de Visconde do Rio Branco são maiores: espaço físico que não favorece condições de silêncio e recolhimento necessários ao noviciado; casa grande e dispersiva quando o número de noviços é reduzido, sentimento de já ter cumprido a missão naquele lugar como casa de formação, dificuldade de integração no regional Visconde, Ubá e Guidoval” (SCE, 3, 2001, p.49).

Noviciado no Norte de Minas[28] – 2001.

Na preparação para o Capítulo Provincial de 2000, o CFI retomou uma moção que havia sido votada no Capítulo Provincial de 1997[29] e adequou a mesma para o local da  nova sede do noviciado que rezava o seguinte: “Tendo em vista o último Capítulo que aprovou a moção de se criar uma comunidade no Norte de Minas ou Sul da Bahia sem vínculos paroquiais, o crescente desejo de muitos frades de que se tenha uma casa de formação no Norte de Minas, e a constatação de que a realidade pobre desta região constitui-se em campo fértil para a espiritualidade franciscana e para uma presença simples e despojada, o Conselho de Formação Inicial apresenta a proposta de transferir o Noviciado para a região Norte/Nordeste de Minas” (SCE, 3, 2001, p.49).

No Capítulo Provincial de 2000, durante a sessão que discutia, afunilava e votava as diversas moções pelos frades capitulares, aquela moção referente à nova casa de noviciado, que alcançou 43 votos positivos e foi aprovada, ficou assim delineada: “Que a casa de noviciado seja situada na região norte/nordeste de Minas, preferencialmente. Não excluindo a possibilidade de estar na grande BH” (SCE, 4, 2001 p.110).

Durante o Congresso capitular, o novo governo nomeou uma equipe para fazer um levantamento de possíveis lugares nas regiões pelas quais os frades capitulares haviam optado. A equipe nomeada pelo governo provincial foi: frei Hilton (novo mestre de noviços), frei Vicente Ronaldo (ex-mestre de noviços), frei Francisco Carvalho Neto (ecônomo) e frei João Bosco (guardião do Noviciado). Recordo-me que a equipe fez dois grandes giros em busca de um lugar para instalar a nova casa de noviciado. No primeiro giro, passamos por Taiobeiras, Salinas, Rubelita e Montes Claros. No segundo giro, centramos força na cidade de Montes Claros[30], através do contato estabelecido com o arcebispo da época Dom Geraldo Majela de Castro, OPraem, por sinal muito próximo aos frades; entramos em contato com o Sr. Sérgio, que trabalhava na Imobiliária Master na cidade; ele fez um levantamento de uma série de imóveis que iríamos visitar. Em dois ou três dias percorremos vários tipos de imóveis quase em vão, porque não estavam de acordo com as orientações estabelecidas, e em discernimento conjunto avaliávamos que não respondiam ao escopo proposto no momento da saída de Visconde do Rio Branco. No último dia de busca, o Sr. Sérgio apresentou-nos um sítio, não muito longe da cidade, às margens do Rio do Cruzeiro, onde havia muitas árvores frutíferas produzindo, inclusive, frutas típicas da região. Quando a nossa equipe adentrou o sítio, fomos unânimes em constatar que ali se encontrava o espaço ideal que buscávamos para instalar a nossa futura casa de noviciado. Terreno pequeno, arborizado, que favorecia o escopo do itinerário próprio do noviciado: a vida de oração, o trabalho manual e um bom contato pastoral com o povo de Deus da zona rural.

A equipe reuniu-se, e optamos por sugerir ao governo da província a compra imediata do sítio. O sítio pertencia ao Sr. Paixão e a Dona Dalva. Segundo o nosso cronista Frei João Bosco, o imóvel estava avaliado em 50.000,00 reais, pelo fato de Dona Dalva ser muito católica e, sabendo que éramos franciscanos, renunciou a sua parte na venda, baixando assim o preço da negociação, e o sítio foi adquirido ao final pelo valor de 25.000,00 reais. Como reza o provérbio italiano: “Se non è vero, è bene trovato”! Nesse ínterim, o Sr. Sérgio apresentou-nos várias opções de imóveis que poderiam responder à nossa demanda por uma casa de aluguel provisória, até construirmos a nossa casa de noviciado. Depois de perambularmos por vários bairros de Montes Claros, encontramos uma casa apropriada, que comportaria oito frades[31], no centro da cidade, ao lado do santuário Bom Jesus. Alugamos essa casa, situada à Rua Pedro Montes Claros, 36. Enquanto aguardávamos os pertences que viriam de Visconde do Rio Branco, eu e Frei João Bosco ficamos hospedados na casa de Dom Geraldo. O tempo que permanecemos ali, nos sentimos em casa. Fomos muito bem acolhidos por ele e sua irmã Lilita. Naquela época, a residência episcopal ficava situada à Rua Januária, 371, onde atualmente funciona a Cúria Diocesana. Dali efetuamos a compra de alguns móveis que faltavam para mobiliar a casa provisória do noviciado São Benedito. Quando o caminhão com o material de Visconde do Rio Branco chegou, terminamos de arrumar a casa, na perspectiva do início da primeira turma de noviços[32] de Montes Claros. Antes de iniciarmos a construção da casa no sítio, conseguimos comprar mais uma tira de terra da fazenda que extremava conosco, com a finalidade que a construção da casa não ficasse muito próxima da estrada, evitando, sobretudo, a poeira. No mês de janeiro de 2001, as obras de construção da nossa casa de noviciado iniciaram-se a todo o vapor. É bom registrar que os desenhos da forma do novo prédio do noviciado foram minuciosamente desenhados por Frei João Bosco, discutido pelo então Conselho de formação Inicial e pelo governo da província. Foram feitos pequenos cortes e ajustes, posteriormente encaminhados para um arquiteto desenhar a planta oficial. A ideia original de uma construção triangular foi mantida, com três blocos: o primeiro abrigaria as celas (clausura); o segundo a sacristia, o refeitório, cozinha e lavanderia; o último, a hospedaria, biblioteca, sala de aula e sala de recreação. Na entrada principal, o hall, e no vértice do triângulo (entre a sacristia e hospedaria) a capela octogonal, localizada de forma estratégica na entrada da casa. Apesar de alguns problemas no encontro de telhados do claustro que permanecem até hoje, sobretudo na época das chuvas, o projeto original foi levado adiante, e hoje podemos contemplar o conjunto arquitetônico da casa de noviciado. À frente da obra estava uma equipe coordenada pelo Sr. Antônio, de Abaeté.

Ao longo do ano de 2001, fomos acompanhando todo o processo da construção: terraplanagem, alicerces, paredes se erguendo, lajes, telhados, piso, portas, janelas, acabamento, pintura... Frei João Bosco foi a “Marta” desse tempo, dando assistência de perto, pagando os vários funcionários, correndo contra o tempo para que no próximo ano pudéssemos iniciar o “tempo de provação” na nova casa. Enquanto permanecemos na casa na cidade, nos adaptamos, porque, apesar de o imóvel ser grande, o espaço era pequeno para as atividades do noviciado. Nos dias de recolhimento, por exemplo, tínhamos que fazê-lo fora; pastoralmente atuávamos em três bairros de periferia: Santo Antônio II, Alto da Boa Vista e Sion, pertencentes na época à Paróquia Nossa Senhora de Fátima. Recordo-me ainda da situação da Comunidade de Santo Antônio II; a capela estava num terreno irregular, sem documentação, e por isso celebrávamos numa capela improvisada de folhas de coqueiros. “In illo tempore!”

2002- Sonho realizado – Nova Casa de Noviciado.

No mês de janeiro de 2002, num dos momentos raros de chuva torrencial, o Rio do Cruzeiro passou por cima da velha ponte de madeira, dificultando a chegada dos novos moradores que chegavam de Kombi. Foi necessário acionar o socorro da caminhonete do Sr. Antônio para efetuar a travessia da ponte. E assim chegou a segunda leva de noviços para iniciar o tempo de provação na casa nova inacabada. Ainda faltava ligar a rede de esgoto, a capela ainda estava por concluir e tantos pequenos detalhes de acabamentos. Tivemos que celebrar a eucaristia por alguns meses na sala de aula. A grande novidade era uma turma de 10 noviços[33], enchendo a casa nova com o seu vigor. Lembro-me que serviço não faltou para tanta mão de obra generosa para cumprir o conselho de São Francisco: “E eu trabalhava com as minhas mãos e quero trabalhar; e quero firmemente que todos os outros irmãos trabalhem num ofício que convenha à honestidade” (Test. 20).

Logo no dia 04 de fevereiro de 2002[34], Dom Geraldo Majela veio presidir a eucaristia e abençoar as novas instalações da casa de noviciado, desejando perseverança e um trabalho profícuo nas terras de Montes Claros. A vantagem de se ter um noviciado com tantos noviços foi a riqueza de dons, seja nas artes, nos dotes culinários, no esporte e nos grandes mutirões. É desse ano de 2002 que nasceu a ideia de fazermos uma grande estufa para proteger a horta do sol causticante do norte de Minas. Colocamos a mão na massa e aproveitamos as sobras de madeira da construção da casa para executar a obra. Além disso, o galinheiro também foi erguido em mutirão, as capinas e tantas outas iniciativas sadias que fazem parte do processo da formação inicial. Para o esporte contávamos com uma parceria do antigo clube do DER; onde nas quartas e domingos praticávamos esporte. No trabalho pastoral continuamos atuando nas comunidades da Paróquia Nossa Senhora de Fátima. No final de 2002, a data de ingresso foi modificada para o dia 03 de outubro, por isso chegou no dia 02 de outubro mais um grupo de cinco postulantes[35] na casa; para resolver essa situação atípica, alguns tiveram que morar alguns meses na hospedaria.

No dia 31 de janeiro de 2003, eu deixei a casa de noviciado para me preparar para os futuros estudos em Roma. Fui transferido para a paróquia de São Francisco de Assis, em São João Del Rei. Para assumir o noviciado, já havia chegado no mês de janeiro de 2003 Frei Jaime Eduardo, novo mestre de noviços. Durante esse tempo, o padre mestre abraçou o trabalho com afinco, sobretudo numa realidade rural com que ele sempre se identificou: muita criação de galinhas, de porcos e a horta. Construiu uma boa cozinha de lenha, aparelhando-a com panelas de ferro, barro, tacho de cobre e demais apetrechos. Uma iniciativa boa desse período de Frei Jaime foi que a casa de noviciado assumiu um trabalho de assistência pastoral ao Núcleo I, composto por oito comunidades rurais, pertencentes à Paróquia Nossa Senhora de Montes Claros e do Bem-aventurado José de Anchieta. O momento forte desse acompanhamento é a grande Vigília Pascal, que a cada ano acontece numa dessas comunidades e reúne as demais para celebrarem juntas a “Mãe de todas as Vigílias”.

Frei Jaime Eduardo permaneceu no noviciado como mestre de janeiro de 2003 a novembro de 2006, quando, após o Capítulo Provincial que aconteceu no final de outubro de 2006, fui nomeado de novo como mestre de noviços, assumindo a turma do Frei Kelisson, que já estava a meio caminho andado. Permaneci nessa etapa em Montes Claros até o Capítulo provincial de janeiro de 2016, quando fui eleito Ministro Provincial e deixei a etapa do noviciado.

No Congresso capitular de 2016, Frei Kelisson Geraldo Machado, que havia concluído os seus estudos teológicos no Instituto Santo Tomás de Aquino, em Belo Horizonte, foi nomeado o novo mestre de noviços.

Peregrinos e forasteiros...

É bom recordar que historicamente a nossa Província Santa Cruz por diversas vezes acolheu noviços de outras entidades da OFM para fazer o seu noviciado conosco, como por exemplo do então chamado Comissariado do Sagrado Coração (interior de São Paulo), da antiga Fundação de Nossa Senhora de Fátima, do Triângulo Mineiro, da Província do Santíssimo Nome, de Anápolis. Nos últimos anos, o nosso noviciado tomou uma cara mais diversificada, com a parceria com algumas entidades da nossa Conferência dos Frades Menores do Brasil (CFMB). Desde 2014, essa etapa do Tempo de Provação tem recebido noviços da Custódia de São Benedito do Amazonas, Província de Nossa Senhora da Assunção de Bacabal e da Província São Francisco de Assis, do Rio Grande do Sul.

Conclusão:

Chegando ao final dessa nossa empreitada histórica, fica o nosso agradecimento especial a tantos confrades que fizeram parte desse longo caminho e que agora acompanham o peregrinar da Província Santa Cruz junto de Deus. Como conclusão gostaria de lembrar de algumas figuras emblemáticas que marcaram a nossa caminhada com o seu jeito de ser. Recordo-me do guardião do noviciado de Visconde Rio Branco, Frei Conrado Goumans[36], frade de uma docilidade incomum, sempre muito próximo de nós e atento à parte prática da casa. Sempre preocupado com a pupila de seus olhos, duas creches que ele acompanhava de perto. Outra figura, Frei Augusto Uiterwaal[37], que depois de uma longa estada em Teixeira de Freitas, aceitou a sua transferência para o nosso noviciado de Montes Claros. Era um dos poucos diabéticos disciplinados que conheci. Conseguiu adaptar-se a essa nova realidade e era uma presença fraterna muito positiva no meio dos noviços. Apesar da “cabeça dura”, talvez como consequência da própria doença, encontrava muita motivação para celebrar com o povo de Deus, fazer traduções para o arquivo da Província e dar as suas aulas para os noviços.

Recordo-me de todos os mestres de noviços de ontem e de hoje[38], que ainda se encontram nas suas diversas atividades na PSC. Propositalmente evitei discorrer sobre eles e o seu trabalho[39]. Deixo isso para a posteridade, quiçá no pós-morte. Como expressa mais ou menos assim um trecho da famosa Tragédia Grega Antígone: “Nenhum homem pode ser considerado bem-aventurado antes da morte”.

Por fim, quero lembrar-me de tantos noviços que marcaram essa história do noviciado da PSC e que hoje fazem parte desse grande mosaico de tesselas variadas e coloridas. Uma palavra também para aqueles que por um tempo compartilharam esse mesmo gênero de vida conosco, mas que ao longo da estrada fizeram opções por outros caminhos...

Referências da pesquisa:

SC, 1966 e 1967. História do Seminário Seráfico Santo Antônio de Santos Dumont, de Frei Serafim Lunter.

SC, 1965. Daltro Filho. Veja as Crônicas de Frei Serafim Lunter.

SC, 1954, p.15-17; SC, 1978, p.70-74; SC, 1982, p.416-417; SC, 1983, p.97-99). Sobre Visconde do Rio Branco.

SC, 1993, p.191-193. Visconde do Rio Branco.

SC, 3, 1971, p.218-226. Congresso Provincial de Formação, 14-16 de dezembro de 1971, em Teófilo Otoni.

SC, 1974-1976. Veja as Crônicas de Frei Olavo Timmers, por ocasião dos 75 anos da chegada dos frades neerlandeses em solo brasileiro.

SC, Agosto de 1980, p. 16-42. É um longo texto elaborado pela Equipe de Formação em preparação para o Congresso de Formação de 1981.

SCE, Agosto de 1981 – Congresso de Formação, 06-10 de julho de 1981, Santos Dumont, p.1-65.

SC, 4, 2008 – O caminho da formação na PSC, p.212-225.

Livro de Crônicas, Noviciado São Benedito de Montes Claros, Vol. I.

Pesquisa sobre o Noviciado, s.n.t

-----------------

[1] Expressão utilizada pelo Cronista Frei Serafim Lunter num dos seus artigos sobre “O primeiro Colégio Seráfico em Minas”. SC, 6, 1966, p.154.

[2] Cf. SC, 6, 1966, p.157.

[3] É interessante deixar o próprio cronista Frei Serafim Lunter falar das motivações que levaram à transferência do Colégio Seráfico para Taquari: “Entretanto, já desde cedo o Padre Comissário ficou descontente com o curso que estava tomando o colégio, por causa das muitas desistências entre os alunos e saídas forçadas. Como tinha ouvido que no Rio Grande do Sul se podiam achar boas vocações em abundância entre os filhos de colonos de origem alemã e italiana, voltou os seus olhares para lá. Resolveu angariar vocações no Sul e já em maio de 1926 foi com Frei Júlio a Porto Alegre para solicitar do Arcebispo Dom João Becker licença de fundar uma casa na região colonial do Arcebispado” (SC, 7, 1966, p.159).

[4] Na minha pesquisa não consegui obter uma informação precisa acerca dessa data. Apenas arrisco uma hipótese entre os anos de 1938 e 1939, uma vez que no Capítulo celebrado em Weert, no ano de 1937, um dos assuntos tratados foi a iniciativa de começar em terras brasileiras um noviciado próprio, evitando enviar à Holanda os candidatos brasileiros. E também tendo como parâmetro a data do início do nosso noviciado próprio no Seminário de Taquari, no ano de 1941.

[5] Cf. SC, 4, 1965, p.92.

Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
Artigos
                  
Receba as notícias e artigos da Província Santa Cruz. Cadastre seu e-mail...
Seth Comunicação