O Deus filantrópico
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22/07/2019 Frei Vitor Vinicios da Silva, OFM O Deus filantrópico
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Numa intensa busca por uma vivencia cristã autentica, cabe a nós refletirmos que tipo de Deus temos nos relacionado: um Deus filantrópico ou um Deus Juiz? O uso da expressão “que tipo” dá a entender quando compreendo que por mais que haja um consenso teórico e prático de um Deus único e verdadeiro cada indivíduo se relaciona, seja na leitura dos textos sagrados ou na vivência cotidiana, de maneira única, com base na sua situação, nas suas opções, na sua maneira de ver e encarar a vida e seus problemas. Por isso, corre-se o perigo de manipularmos sua mensagem a nosso bel prazer para justificar nossas opções pessoais. Entretanto, não será esse nosso pivô textual, mas sim o tipo de Deus que alimentamos na nossa vivência cristã que reflete, consequentemente, nas nossas ações.

O Deus filantrópico, o qual carrega o título do texto é um Deus que é bom, que ama e usa de misericórdia para com seus filhos sem esperar nada em troca. O termo filantrópico é um termo que se restringi muitas vezes ao campo jurídico de instituições, isto é, instituições que agem sem fins lucrativos e que não esperam nenhum retorno rentável de qualquer espécie. Todavia, segundo o dicionário Houaiss, o termo filantropia significa profundo amor pela humanidade, desprendimento, generosidade, caridade e outros. Dessa maneira, podemos ampliar a compreensão desse termo deixando de tê-lo apenas como uma mera ação paliativa em relação a uma sociedade injusta.

 Nessa base, iluminamos aquilo que vem sendo retirado do cenário atual eclesiástico que é a gratuidade da salvação e misericórdia de Deus. O Deus cristão age por meio da filantropia, ou seja, no puro amor pela humanidade. Não há com Deus uma relação de capitalismo, em que existe um vendedor (Deus), um comprador (fiel) e o produto (salvação) que é vendido. O Deus encarnado em nosso meio é puro amor e misericórdia. Se dermos uma rápida olhadela na história do povo de Israel vamos perceber o quão bom ele é, podemos nos recordar da retirada da escravidão, da fome saciada num momento de deserto e da aliança feita com os seus. Já no Novo Testamento recordamos a misericórdia inigualável de Jesus para com os excluídos e taxados de indignos, recordamos as curas e o amor incondicional que se tornou caminho dos seus discípulos.

Por outro lado, temos uma imagem que vem sendo alimentada constantemente no imaginário do povo, que é a do Deus juiz. A imagem do Deus juiz é aquela que reflete o medo, que senta na sua cadeira para julgar entre bons e maus. Uma imagem que no fim tem um crivo ético, ou seja, uma ética do medo. Essa imagem permite impor aquilo que é propagado pelo líder da comunidade ou aquele que possui o lugar de fala (padres, pastores, religiosos, catequistas e outros). O pior é quando o líder tem a consciência disso e usa de seu discurso para satisfazer uma vontade própria. Por exemplo, líderes que utilizam de frases como “quem não pagar o dízimo tem lugar reservado no inferno” inculcando o medo e o peso de consciência no povo da comunidade. Aqueles que têm condições pagarão, mas aqueles que passam por momentos difíceis e muitas vezes não tem nem para o pão de cada dia, carregaram o fardo do pecado. Enfim, a grande questão não é a deformação teórica e sim quando a mesma nos leva a adotar comportamentos que afetam as pessoas que estão ao nosso redor.  

Por mais que muitas das vezes a balança tende a pesar mais para o lado do Deus juiz numa sociedade violenta, que sejamos corajosos de acreditarmos que o melhor caminho é o do amor, do perdão, da aceitação e demais valores que o próprio Cristo nos demonstrou em vida. Que em tempos sombrios sejamos luzes e não escuridão, que não nos preocupemos em fazer grandes feitos, mas comecemos com pequenos gestos. Parafraseando Hannah Arendt, os nossos olhos estão tão habituados às sombras que dificilmente conseguiremos dizer se a nossa luz é a luz de uma vela ou a de um sol resplandecente. Mas tal avaliação objetiva parece uma questão de importância secundária que pode ser seguramente legada à posteridade. Frei Vitor Vinicios da Silva, OFM

 

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