Movimento Pentecostal e Neopentecostal: diferenças e semelhanças
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21/08/2018 Dom Total Movimento Pentecostal e Neopentecostal: diferenças e semelhanças Pentecostalismo dos EUA foi grandemente responsável pelo envio de diversos missionários para os países da África e da América Latina.
Ao invés de prezarem por estudos teológicos profundos, a maioria das igrejas pentecostais fazem seus cultos com louvores e pregações motivacionais (Edward Cisneros by Unsplash)
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Por Fabrício Veliq*

O movimento Pentecostal é amplamente conhecido ao redor do mundo e, talvez, um dos movimentos cristãos que mais teve crescimento nos últimos 50 anos. A menção ao Pentecostes, relatado em Atos, em que os discípulos foram cheios do Espírito e falavam em línguas diferentes de maneira que era entendidos/as por todos/as que passavam por Jerusalém naquele tempo é bem clara e, constantemente, o Pentecostalismo faz questão de lembrar essa experiência que se coloca como fundadora desse movimento.

Nos Estados Unidos, é bem conhecido o avivamento da Rua Azuza, que ocorreu em 1906, na cidade de Los Angeles. Esse avivamento teve como característica principal a glossolalia e a liberdade na forma de adoração e foi grandemente responsável pelo envio de diversos/as missionários/as para os países da África e da América Latina.

No Brasil, o Pentecostalismo se dividiu em 3 períodos, também conhecido como ondas. A primeira onda compreende o período a partir de 1910, com a chegada da Congregação Cristã e, posteriormente, com a chegada da Assembleia de Deus, em 1911. A segunda onda começa na década de 50 e início da década de 60, com o surgimento da Igreja do Evangelho Quadrangular, em 1951, Brasil para Cristo, em 1955 e Deus é Amor, em 1962. A terceira onda surge a partir do final da década de 70, com a Igreja Universal do Reino de Deus e, com ela, surge aquilo que é denominado hoje movimento Neopentecostal brasileiro, com seus expoentes tais como a Universal do Reino de Deus, Mundial da Graça e Internacional da Graça de Deus.

Uma das grandes vantagens do movimento Pentecostal foi a de ter sua mensagem evangélica facilmente assimilada e querida pelas classes mais populares, uma vez que, em sua maioria, usam uma linguagem mais simples e trazem uma mensagem mais direta para os problemas reais pelas quais essas comunidades passam. Assim, ao invés de prezarem por estudos teológicos profundos, a maioria das igrejas pentecostais fazem seus cultos com louvores e pregações motivacionais, bem como cultos de cura e libertação, visando trazer algum refrigério para as pessoas que estão em diversas crises financeiras, psicológicas e espirituais.

No caso do movimento Neopentecostal que, como vimos, é fruto do próprio Pentecostalismo, ele também traz em si alguma de suas características, que é o forte apelo popular e capacidade de conseguir a simpatia por parte desse público. No entanto, uma grande diferença dos movimentos Neopentecostais em relação ao Pentecostalismo, de primeira e segunda ondas, é que esses têm como carro-chefe a teologia da prosperidade, que afirma que ser abençoado por Deus é o mesmo que ter bênçãos materiais e prosperidade, estabelecendo uma relação direta entre o beneplácito divino e as ofertas e dízimos que são depositadas no gazofilácio.

Outra característica marcante são os cultos voltados para processos de cura e libertação, em uma luta constante contra, principalmente, as religiões de matrizes africanas, que são consideradas como religiões comandadas por demônios. Em sua maioria, as igrejas neopentecostais não possuem nenhum escopo teológico bem definido, sendo, infelizmente, berço de charlatões/ãs que usam da fé de pessoas simples para tirar delas tudo o que possuem.

Dentre as várias características do movimento Pentecostal e Neopentecostal, duas merecem destaque: a primeira, mais presente nas igrejas pentecostais pertencentes à primeira e segunda ondas é a grande ênfase que esses movimentos dão à literalidade do texto bíblico para assegurar a fidelidade àquilo que entendem ser a vontade de Deus. Ainda que alguns pastores e ministros tragam o texto em suas pregações e tentem trazer à comunidade possíveis aplicações desses textos, a literalidade do texto bíblico e do testemunho ali relatado é visto como fato e não como interpretação. Assim, textos como os relatos da criação do Gênesis, o relato da arca de Noé no dilúvio, torre de Babel, dentre outros são trazidos como fatos escritos sob a revelação divina de como as coisas ocorreram, pois sabem que o autor do texto não estava lá quando esses relatos aconteceram.

A segunda, mais presente no movimento Neopentecostal, é uma visão meio mística a respeito da ação do Espírito. Essa ação é muitas vezes cercada de um misticismo e sincretismo religioso sem tamanho, de maneira que na mesma reunião é possível identificar elementos tirados de diversos lugares, tais como o judaísmo e as religiões pagãs. Esse misticismo e sincretismo são facilmente percebidos nas diversas vassouras ungidas, fitinhas distribuídas, óleos e águas consagradas em Jerusalém que servem como amuletos e proteção contra as forças do mal, e assim por diante. Tudo isso gera uma visão não bíblica e distorcida a respeito do que vem a ser o ensinamento cristão a respeito da ação do Espírito na vida daquele que crê.

Diante disso, saber separar o movimento Neopentecostal do movimento Pentecostal também se torna uma tarefa importante. Ainda que o segundo seja fruto do primeiro, é possível perceber certo distanciamento de um em relação ao outro.

Apesar de suas ambiguidades e distorções, o movimento Pentecostal tem muito a ensinar ao Protestantismo atual ao propor questões que surgem a partir de baixo, no chão da comunidade simples, longe dos gabinetes e escritórios teológicos, que, muitas vezes, produzem uma teologia que mata e tira a liberdade de ação do Espírito. Ao mesmo tempo, esse movimento relativamente jovem, também pode se enriquecer com os aprofundamentos teológicos que surgem por parte das igrejas reformadas, a fim de crescer com consistência e alcançar meios nos quais ainda é visto com certa discriminação.

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*Fabrício Veliq é teólogo. Mestre e doutorando em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica, formado em matemática, graduando em filosofia pela UFMG e graduando em Teologia pela UMESP. Membro do grupo de pesquisa Fundamental and Political Theology em KU Leuven e do Grupo de Pesquisa Estudos de Cristologia da FAJE. Ministra cursos de teologia no cursos de Teologia para Leigos do Colégio Santo Antônio, ligado à ordem Franciscana, no Centro de Formação e Cultura em Divinópolis e é também professor voluntário no CITEP na Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte. É protestante e ama falar sobre teologia em suas diversas conversas por aí, tanto presenciais, como online. Seu blog, caso queiram conhecer mais de seus textos, é www.fveliq.blogspot.com. Seu e-mail, caso queiram entrar em contato, é fveliq@gmail.com

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