Midiatização e mudanças no processo educativo
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27/12/2018 Ir. Helena Corazza, fsp Midiatização e mudanças no processo educativo
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Introdução

A proposta deste trabalho é procurar compreender o contexto da sociedade midiatizada, em que se insere a Comunicação e a Educação e refletir sobre as mudanças que acarretam nas pessoas, compreendidas como sujeitos de um processo educativo. Pensar o campo da comunicação e da educação nos seus princípios antropológicos e humanísticos, hoje desafiados por uma sociedade que vive sistemas complexos e passa por mudanças nos suportes tecnológicos e na compreensão da comunicação, tanto no campo da produção como da recepção. Imersos na midiatização, problematizar até que ponto a educação é uma questão técnico-pedagógica ou estratégia de mudança social e, ao mesmo tempo, o que muda e o que permanece no processo educativo, neste contexto.

O que motiva essa abordagem é a constatação de que a cultura da mídia, tida como informativa, está legitimando um modo de ser e de se portar na sociedade, decorrendo daí certo “enfraquecimento” das instituições de referência como a escola, que representa a educação formal. Por sua vez, a educação informal, na ambiência das comunicações midiáticas e redes sociais, requer não apenas reflexão, mas uma revisão no modo de comunicar e convergir no que diz respeito ao conhecimento formal e informal. E quando falamos de midiatização temos presente o fenômeno atual da comunicação como ambiência, habitat, que perpassa a vida cotidiana, de forma mais intensa que a educação formal.

A hipótese é de que se os educadores não considerarem e compreenderem essas mudanças e não forem ao encontro do interlocutor onde ele se encontra, ou seja, no seu cotidiano marcado pelos processos midiáticos, poderão distanciar-se do seu código, dificultando o diálogo. Por outro lado, a não adequação tanto corpo docente quanto de métodos e linguagens ao universo do outro poderá resultar na falta de eficácia de sua missão educativa, que é a formação de cidadãos que façam a diferença no mundo atual. Estas são algumas indagações, abertas à discussão e ao diálogo.

Mudanças culturais pelos suportes tecnológicos

Ao longo da história, a sociedade foi se organizando a partir da mudança de suportes tecnológicos, que incidem no processo educativo. Num breve repasse, lembra-se que na sociedade industrial vivencia-se a chegada dos meios de comunicação, a partir do século XV. Importa sinalizar o entendimento dessa época para compreender as mudanças atuais. Com Gutenberg, a Imprensa (1456) vem para socializar o conhecimento através da máquina de imprimir no suporte papel; quatro séculos depois, o Cinema (1895) com os Irmãos Lumière, trabalhando a imagem em movimento; no século XX, a possibilidade da emissão de voz a distância, pelo Rádio (1915 e 22, no Brasil), que trouxe a descoberta da propagação do som a distância em tempo real;  a televisão chega na década de 1940-50, popularizando e instituindo um ritual da comunicação com imagem e som, no cotidiano.

Sendo a imprensa, a primeira forma de transmissão, disseminação e circulação do conhecimento em série, no século XV, Chartier considera que essa primeira revolução é técnica e caracteriza-se como uma revolução do impresso. Para ele “a revolução da imprensa não consiste absolutamente numa ‘aparição do livro’. Doze ou treze séculos antes do surgimento dessa nova técnica, o livro ocidental teria encontrado a forma que lhe permaneceu própria na cultura do impresso”. Ele se apóia em Henri-Jean Martin  para dizer que “o livro não exerce mais o poder que teve; ele não é mais o mestre de nossos raciocínios ou de sentimentos em face dos novos meios de informação e comunicação de que dispomos”.  Segundo o historiador, a revolução do presente é mais importante que a de Gutenberg; a grande revolução que preocupa, hoje, é a do texto eletrônico que se configura como uma revolução na leitura, pois

“ler sobre uma tela não é ler um códex. Abrem-se possibilidades novas e imensas. A representação eletrônica  modifica totalmente a sua condição; ela substitui a materialidade do livro pela imaterialidade dos textos sem lugar específico.(…) A revolução iniciada é, antes de tudo, uma revolução de suportes e formas que transmitem o escrito”(CHARTIER, 1998, p. 100).

Na década de 1960, o professor canadense da universidade de Toronto, Marshal McLuhan, (1911-1980), preconizou a mudança de suportes culturais e a incidência no ser humano. A “aldeia global”, expressão cunhada por ele, é uma forma de olhar para as mudanças tecnológicas, deslocando, conforme Cohn (1987), o estudo da comunicação da análise dos conteúdos para o exame dos meios. McLuhan fala de três galáxias: a cultura oral ou acústica – dita e escutada; a cultura tipográfica ou visual de Gutenberg, identificada com o livro; a cultura eletrônica, dos sinais elétricos instantâneos, a velocidade. Ele percebeu que, com o livro, a primazia foi do olhar em detrimento a outros sentidos, que as mídias eletrônicas passariam a envolver como o ouvir e os demais sentidos. Suas afirmações controvertidas e, para alguns parciais, estão sendo retomadas para pensá-las no contexto atual. Para ele

O livro foi a primeira mercadoria produzida em massa. A imprensa, que por definição é uniforme e repetível, não só criou o próprio conceito de ‘mercadoria’ como possibilitou o surgimento de mercadores para esses artigos uniformes e repetíveis. É perfeitamente natural pensar que a operação das formas e matrizes da linha de montagem da imprensa, quando se estendeu a todas as formas de produção, deve ter moldado também nossas atitudes para com as atividades da elite (MCLUHAN, 2005, p. 37)

O diretor do programa McLuhan em Cultura e Tecnologia da Universidade de Toronto e sucessor de McLuhan, Derrick de Kerckhove (1997), relata como os meios eletrônicos são extensões não só do sistema nervoso e do corpo, mas também da psicologia humana. Baseado na ciência comportamental, são as suas teorias sobre os efeitos físicos da televisão sobre o corpo e no sistema nervoso, a televisão dirige o corpo e não o espírito, respostas musculares subliminares. Nas mídias eletrônicas,  maior ênfase é dada à oralidade e ao tato, particularmente na sua relação com a linguagem e com a forma como processamos a realidade sensorial. Defende que se deixará de dar total proeminência à cultura letrada e haverá uma volta à cultura oral.

A cultura, sobretudo a obra de arte, antes considerada uma obra prima, única, agora reproduzida em série, em que se configurou a Comunicação de Massa, é tratada por Walter Benjamin que discute a questão da reprodutibilidade técnica. Neste sentido, podemos dizer que Benjamin, ao falar da obra de arte, está em sintonia com Chartier em relação ao livro, ambos tratam da reprodução, autenticidade, pois “em sua essência, a obra de arte sempre foi reprodutível” Ele chega a afirmar “como o olho apreende mais depressa do que a mão desenha, o processo de reprodução das imagens experimentou tal aceleração que começou a situar-se no mesmo nível que a palavra oral”. (BENJAMIN, 1987, p. 166ss.).

Cada tecnologia trouxe contribuições e desafios. A indústria da comunicação, preocupações com a cultura, antes considerada uma obra prima, única, agora reproduzida em série, em que se configurou a Comunicação de Massa. Já na década de 1920, pesquisadores buscaram compreender e dar razões teóricas ao fenômeno da Comunicação de Massa, que envolvia multidões. Os primeiros estudos se apoiaram na teoria comportamental que veio da Psicologia, seguidos pelos teóricos da Escola de Frankfurt, mais tarde os Estudos Culturais com Raymond Williams, conforme, Wolf (1995), chegando à teoria das mediações que, na América Latina, muito trabalhada por diversos autores, entre eles, Martín-Barbero (1987).

A teoria das mediações traz um novo olhar na comunicação, que introduz uma ruptura e passa a ser entendida não mais a partir dos meios, mas das mediações sociais, culturais, políticas quando as pessoas dão novo sentido aos produtos midiáticos entendendo que “a comunicação é questão de sujeitos, de atores e não só de aparatos e de estruturas; a comunicação é questão de cultura, culturas e não só de ideologias; a comunicação é questão de produção e não só reprodução” (MARTIN-BARBERO, 1995, p. 150). A repercussão desse movimento no Brasil possibilitou a organização do primeiro seminário sobre o tema que buscava o sujeito, até então oculto, resultando num livro referência, organizado por Sousa (1995) e desencadeou um processo de pesquisas na área da comunicação e educação.

A década de 1960 a 1990, marcada pela chegada da Internet e, com ela, a mudança na forma de comunicar pela chamada, revolução digital.  A partir da revolução digital, mudam os conceitos a respeito de meios de comunicação e mescla-se texto, com som e imagem, sendo que antes, havia o universo do texto, do som e da imagem. Trata-se agora da convergência das mídias e de novo contexto em que as pessoas vivem suas relações mediadas por tecnologias.

O fenômeno das tecnologias da comunicação e da informação foi tomando novas proporções e exigindo a busca de compreensão, devido ao sistema complexo que elas compõem. Passa-se da era dos meios para a cultura midiática, uma nova ambiência, um novo habitat, conforme Wolton (2006). Pesquisas atuais buscam compreender esta mudança complexa, que acontece na sociedade e muda os hábitos das pessoas também no campo educacional. Falando da emergência da midiatização, Fausto Neto diz que a convergência de fatores sócio-tecnológicos, disseminados na sociedade segundo lógicas de ofertas e de usos sociais produziu, sobretudo nas últimas décadas, “profundas e complexas alterações na constituição societária, nas suas formas de vida e suas interações”.

Midiatização e mudanças culturais

A mudança de compreensão nos estudos da comunicação e suas interfaces, passando da sociedade “dos meios” para a sociedade midiática já é uma realidade, dada a complexidade que as combinações da mídia trazem. Considerando a temática do campo da comunicação e midiatização, Sodré aponta algumas mudanças como: “muda a natureza do espaço público, tradicionalmente animado pela política e pela imprensa escrita. Agora, formas tradicionais de representação da realidade e novíssima (o virtual, o espaço simulativo ou telerreal) interagem, expandindo a dimensão de tecnocultura, onde se constituem e se movimentam os novos sujeitos sociais” (SODRÉ: 2006, p. 19).

A midiatização envolve um fenômeno complexo que vai para além dos meios, das mediações e interações de um sujeito que possa interferir. Para Fausto Neto ocorre a disseminação de novos protocolos técnicos em toda extensão da organização social e de intensificação de processos que vão transformando tecnologias em meios de produção, circulação e recepção de discursos. Para o autor, a midiatização resulta da evolução de processos midiáticos que se instauram nas sociedades industriais, tema eleito em reflexões analíticas de autores, feitas nas últimas décadas, e que chamam atenção para os modos de estruturação e funcionamento dos meios nas dinâmicas sociais e simbólicas.

 “Midiatização é uma ordem de mediações socialmente realizadas, caracterizadas por uma espécie de prótese tecnológica e mercadológica da realidade sensível, denominada medium. Trata-se de um dispositivo cultural historicamente emergente no momento em que o processo da comunicação é técnica e mercadologicamente redefinido para informação, isto é, por um produto a serviço da lei estrutural do valor, também conhecida como capital” (SODRÉ, 2008, p. 20).

A temática requer uma compreensão mais aprofundada, uma vez que incide no modo de ser de uma sociedade e também da educação. Não se trata mais da “era dos meios” em sim de outra era, estruturada pelas próprias noções de uma realidade de comunicação midiática.

“Ao converter-se numa espécie de ‘sujeito’ dos processos e das dinâmicas de interação social, a cultura midiática torna-se um complexo dispositivo em cujo âmbito se organiza um tipo de atividade analítica, cujas gramáticas, regras e estratégias geram ainda, por operações auto-referenciais engendradas no dispositivo, as inteligibilidades sobre as quais a sociedade estruturaria suas novas possibilidades de interpretação” (NETO, 2008, p. 94).

Sodré aponta que a midiatização implica num “novo modo de presença do sujeito no  mundo”. E reporta-se a alguns filósofos, partindo da classificação de aristotélica de que cada forma de vida tem um bios específico. Dessa forma como existe o bios político, a midiatização pode ser pensada como um novo bios,  bios midiático, uma espécie de esfera existencial. Segundo o autor, esta é “a questão central de toda a sociologia ou toda antropologia da comunicação contemporânea”.

Daí nascem conflitos que se dão num campo onde todos buscam legitimidade para seus discursos. O papel central exercido pela mídia inclui ainda uma intencionalidade: estabelecer relações de interação com o campo da recepção. Cristina Mata a caracteriza como uma relação complexa:

“Os meios deixam de ser canais para converterem-se em espaços de negociação, de contrato […]. Os receptores já não são somente o fim de um processo iniciado no outro lado, mas parte ativa, tanto como produtores de sentido quanto também porque estão presentes, inscritos no discurso do emissor” (MATA: 1993, p. 12).

Entende-se que é preciso entender a lógica da mídia, que vem pautando hábitos e percepções e não pode mais ser vista como elemento externo, mas como parte do cotidiano incidindo nos sujeitos da educação e desafiando para que os educadores  estejam preparados preparada para uma atuação eficaz.

Comunicação e incidências no processo educativo

Compreendida no seu sentido antropológico, a comunicação é um processo relacional, com universos compartilhados que tem como elemento central o ser humano dotado de inteligência, sentimentos e liberdade, que se expressa num corpo e se relaciona consigo mesmo, com a natureza, com o outro. Como ser comunicativo estabelece relações de convivência na alteridade e atua enquanto sujeito e interlocutor na sociedade que se apropriam de conteúdos e formas de comunicar.

Ao discorrer sobre o tema da comunicação, Thompson (2008) tem como ponto de partida a ideia de que o mundo dos meios de comunicação elaboram uma nova visibilidade mediada, tornando visíveis as ações e os acontecimentos cada vez mais difíceis de serem controlados. A partir daí, caracteriza três formas de comunicação: a interação face a face é dialógica, com duas vias, que contempla a multiplicidade de referências simbólicas: as palavras podem ser complementadas com gestos, expressões faciais, variações de entonações. Emissores e receptores compartilham a mesma estrutura espacio-temporal.

A segunda forma, o autor designa como utilizando mídias comunicacionais. Aqui emissores e receptores estão normalmente separados pelo espaço e podem estar separados no tempo, como é o caso de programas gravados. (Como exemplo, escrever cartas, falar ao telefone é mais dialógico.) Nessa forma considera-se a produção de jornais, livros, revistas, programas de rádio e televisão, vídeos que podem chegar a um número indefinido de pessoas. Essa forma de comunicação não tem o mesmo nível de reciprocidade e de especificidade interpessoal. Os vínculos sociais e a intimidade não recíproca a distância. E, como terceira forma de comunicação, o autor coloca a interação mediada pelo computador, onde faz notar que o e-mail é quase como escrever cartas. Acesso a um conhecimento não local e perde gradualmente seu lastro nas situações cotidianas. Nessa forma de comunicação pode-se agregar todas as formas de mídias sociais e também a educação a distância.

Numa sociedade midiatizada que se “converte numa espécie de sujeito dos processos e das dinâmicas de interação social”, importa refletir nesta centralidade e na tendência de pensá-la como questão técnico-pedagógica e não como uma estratégia de mudança social. Quando muitas das relações são virtualizadas no ritmo frenético das conexões eletrônicas, resta pensar, conforme sugere Sodré, “o que muda e o que permanece nas idéias de educação” (SODRÉ, 2012, p. 193).

Pode-se perguntar e como se insere a educação que foi cunhada pela Era de Gutenberg? E, apoiando-nos em Orozco-Gomez, dizer que  “os professores atuais não têm a preparação instrumental, tampouco são convidados a pensar segundo elementos dados pela cultura digital, pela mediatização  generalizada … o que precisamos fazer é começara a intervenção pedagógica, procedimentos ‘extra-escolares’… há um ecossistema presente na vida dos jovens” (OROZCO, 2010, p. 124-125). Entende-se, entretanto, que as mídias comunicacionais não se restringem aos aparatos técnicos usados para transmitir informações de um indivíduo a outro, enquanto a relação entre eles permanece inalterada, mas em “novas” formas de agir e interagir que são criadas, considerando-se suas propriedades distintivas específicas.

Vive-se hoje nessa forma de comunicação e muitas são as experiências realizadas na, hoje, denominada mídia tradicional, a televisão. Neste habitat comunicacional, a análise de produtos midiáticos faz parte da pesquisa em séries televisivas, na interface comunicação e educação, que Citelli trabalha na análise de séries americanas da década de 1950, veiculadas pela TV Tupi em 1960 e pelas TVs Globo e Cultura em 1970 e 1980. A pergunta que o autor faz é de que educação se fala. “É uma educação reguladora ou emancipadora, em condições de situar o debate acerca dos meios de comunicação, como constroem suas narrativas, processos de produção, circulação e recepção de mensagens midiáticas” (CITELLI, 2010, p. 72).

Ao se falar sociedade midiatizada, entende-se que o sujeito, o indivíduo é atingido pelas mídias antes e não obstante a escola. Esse contato constante provoca mudanças nas percepções e modos de processar as informações desafiando o docente em seus métodos. Aqui a referência a Walter Benjamin de que a modernidade estava constituindo novos sensórios. Portanto, há um sujeito modificado para novos sensórios, não se tratando tanto e só dos meios mas de uma nova ambiência. “É necessário ampliar observações sobre o significado das tecnologias na vida de todos nós, motivo pelo qual seria estranho imaginar que fossem elas, ‘um outro’ com  relação à escola” (CITELLI, 2010, p. 80).

Este é um novo olhar que vê um sujeito situado, num contexto em mudança, buscando novo espaço de cidadania, capaz de interferir no processo comunicativo. Neste mesmo sentido, propõe-se a pensar a educação a partir da comunicação, revisando conceitos e modelos que podem ter esgotado a escola pública, conforme Martín-Barbero (2002). Ele critica a visão dualista que permanece no mundo acadêmico que considera o livro como símbolo do conhecimento racional, do argumento, da reflexão, enquanto a televisão é vista como o saber inculto pelo fascínio do audiovisual. O mundo da imagem massiva é reduzido a espaço das identificações primárias e projeções irracionais das manipulações consumistas e da simulação política. Considera a segunda alfabetização, o mundo do audiovisual e do texto eletrônico. O autor é enfático: “A educação deve ser capaz de formar cidadãos que saibam tanto ler livros, quanto noticiários de televisão, videoclipes, videojogos e hipertextos”.

A questão do sujeito, da identidade e da autoridade

Diferentes autores analisam as constantes mudanças da sociedade contemporânea que incidem sobre a identidade do sujeito. Muniz Sodré diz que a midiatização implica uma qualificação particular da vida, um novo modo de presença do sujeito no mundo, um bios específico, o bios midiático, o que faz repensar a compreensão do sujeito em diferentes momentos da história.

Mudanças são consideradas em relação aos grandes relatos e certezas em que a visão sobre o indivíduo era de um sujeito unificado, coeso, cheio de certezas, que Stuart Hall denomina de “velhas identidades”, hoje em declínio pelo surgimento das novas identidades. Para explicar as mudanças que afetam as pessoas em diferentes contextos socioculturais, o autor aborda três concepções de identidade: o sujeito do Iluminismo, o sujeito sociológico e o sujeito pós-moderno.

Por sujeito do Iluminismo, caracteriza “a pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades da razão, de consciência e de ação, cujo ‘centro’ consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia”.

Por sujeito sociológico, entende um ser humano que vive numa complexidade maior e consciente de que o núcleo interior do sujeito não era autônomo e auto-suficiente, mas formado de relações com ‘outras pessoas importantes para ele’, mediações para ele de valores, sentidos e símbolos, ou seja, pela cultura. O núcleo e a essência interior do sujeito sociológico, compreende um ‘eu real’, mas formado e modificado num diálogo contínuo com a realidade exterior. Há um processo de relação contínua entre o espaço interior e exterior, entre um mundo pessoal e público. Nesta concepção situam-se as instituições de referência: família, estado, escola, igreja.

Hall discute a questão do Estado e da necessidade cultivada de se ter um sentimento nacional, mostrando que as identidades nacionais não são coisas com as quais nós nascemos, mas são formadas e transformadas no interior da representação. Nação é mais que entidade política, é algo que produz sentido – um sistema de representação cultural. Uma nação é uma comunidade simbólica e é isso que explica seu “poder de gear um sentimento de identidade e lealdade”(HALL, 1999, p. 47).

A terceira concepção de sujeito que Hall apresenta é do pós-moderno, como “não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente”, tornando-a uma “celebração móvel”. Neste sentido, “o sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos”, que não são unificadas ao redor de um eu coerente. A mobilidade caracteriza esta identidade.

Os autores se servem de diferentes conceitos, como pós-modernidade ou modernidade tardia, para falar do período contemporâneo caracterizado por mudanças aceleradas, causando grande impacto sobre a identidade cultural, entendida como um sistema de representação das relações entre indivíduos e grupos, que envolve o compartilhamento de patrimônios comuns como a língua, a religião, as artes, o trabalho, os esportes, as festas, entre outros.  Este é um processo dinâmico, de construção continuada, que se alimenta de várias fontes no tempo e no espaço. Entretanto, como consequência do processo de globalização, as identidades culturais não apresentam hoje contornos nítidos e estão inseridas numa dinâmica cultural fluida e móvel.

Este processo não é simples e despercebido, mas afeta pessoas e instituições. Bauman é enfático quando diz que a incerteza que atormenta homens e mulheres do século XX não é tanto como obter as identidades de sua escolha e tê-las reconhecidas pelas pessoas à sua volta, mas que identidade escolher e como ficar alerta para que outra escolha possa ser feita em caso de a identidade antes escolhida ser retirada do mercado ou despida de seu poder de sedução. Ele acrescenta que a preocupação das pessoas é a suspeita de que a estrutura conquistada com tanta dificuldade seja logo destruída.

Edgar Morin discute a noção de sujeito citando filósofos como Hegel, Descartes e diz que “de alguma forma, a ciência expulsou o sujeito das ciências humanas, na medida em que propagou entre elas o princípio reducionista e redutor”. Entretanto entre os pensadores estruturalistas “houve uma volta tardia ao sujeito”. O autor propõe pensar o sujeito não a partir da afetividade, do sentimento, mas “de uma base bio-lógica”.

A partir daí discorre sobre algumas características como a autonomia, “não mais entendida como liberdade absoluta, emancipada de qualquer dependência, mas uma autonomia que depende de seu meio ambiente, seja ele biológico, cultural ou social”. É um ser humano situado num contexto, numa cultura, desenvolvendo o conceito de produtos e produtores ao mesmo tempo. Ao dizer que falta uma teoria bio-lógica do sujeito, afirma que “é preciso reconhecer que, potencialmente, todo sujeito é não apenas ator, mas autor, capaz de cognição/escolha/decisão”. Nessa mesma direção Sodré aponta que o sujeito da cultura seria o mesmo da educação, um sujeito político capaz de assumir responsabilidades diante do mundo.

Os aspectos apontados por Morin vem ao encontro das mudanças do sujeito na sociedade midiatizada, na era digital, uma sociedade de escolhas, que favorece o elemento da interatividade, fazendo dele receptor, autor, ator. Este sujeito, seja ele aluno ou receptor da comunicação vai cultivando novos hábitos de aquisição do conhecimento e de se relacionar com a sociedade. O sujeito atual também questiona as formas de aquisição do conhecimento, antes tendo o livro adotado pelo professor como “última palavra”, agora a

“última imagem está na tela e a última palavra quem tem são os sujeitos-audiência, e seus olhos (…) “Desde as interações midiáticas, os sujeitos-educandos questionam o professor, questionam seus saberes enciclopédicos esvaziados de significado, diante da abundância representacional e policromática dos ecossistemas comunicacionais” (OROZCO: 2008,  p. 96).

Pode-se discutir aqui o deslocamento da autoridade do livro para as telas, do conhecimento único para a pluralidade de informações, do ter as informações para elaborar o conhecimento a partir de tantas informações na era digital. Sodré, citando Nisbet, chama a atenção para o conceito sociológico da função da autoridade que é integrar, como um cimento, o laço constitutivo da lealdade. “Ela está a serviço não só da missão e dos valores do grupo, mas também do laço vital que existe entre os indivíduos”.

O autor coloca a integração como essencial a um projeto educacional compromissado com uma cultura de responsabilidade por parte do grupo social implicado.

“A dificuldade cada vez maior desse processo está no fato de que a educação não pode prescindir da autoridade, ainda que se dê ‘num mundo que não é estruturado pela autoridade nem conservado pela tradição’. Esse mundo sem tradição nem autoridade é o bios virtual, a esfera existencial progressivamente criada pela mídia aberta (a televisão principalmente) e pela tecnologia eletrônica a serviço de um mercado ilimitado de jogos de entretenimento (games) (SODRÉ, 2012, p.199).

Abre-se aqui uma discussão sobre a centralidade das tecnologias no processo educativo e se o domínio delas é condição para o deslocamento da autoridade dos educadores para os educandos. Seria o domínio da máquina e das tecnologias digitais a condição para se ter autoridade ou nãos e deveria recuperar o sentido sociológico da autoridade que integra saberes, articula tendências e desafia para a elaboração do conhecimento, favorecendo o “laço vital que existe entre os indivíduos”.

A caminho de novos paradigmas educacionais

A comunicação, entendida como processo relacional, propõe-se a trabalhar nos processos educativos, tendo como foco o ser humano, inserido numa sociedade, procurando manter valores e princípios que norteiam o domínio das tecnologias, não mais sendo vistas apenas como suporte. Elas são cultura e estão integradas ao modo de ser e de se relacionar das pessoas entre si, com a sociedade, com as instituições de referência, pelo processo da midiatização. Daí a necessidade de reformular a mentalidade e articular pessoas, conhecimento e processos, em vista de um novo paradigma educacional.

Um dos desafios é manter os valores, herança de tantos teóricos que, a partir da comunicação de massa e da sociedade global com vistas prioritárias ao mercado e ao consumo, se preocuparam com iniciativas que preservem a comunicação alternativa, formando as pessoas para a produção e recepção, tanto na reflexão quanto na prática, como Paulo Freire, que inspirou Mário Kaplún, Orozco-Gomez e tantos outros. O teórico boliviano, Ramiro Beltrán que, para falar da democratização da comunicação, serve-se do termo “Comunicação horizontal”. Talvez a palavra de Ramonet possa inspirar a busca da continuidade desse caminho, nessa nova ambiência, na cultura midiática em que vivemos.

”Quando refletimos sobre a comunicação dominante ou sobre a comunicação alternativa, o que as duas têm em comum é o fato de que são comunicação e de que não é possível comunicar-se bem de qualquer maneira: este é o problema. Para comunicar bem, faz falta uma série de técnicas. Possuir a verdade não é suficiente. Alguém pode ter a verdade e definitivamente não encontrar eco porque não sabe comunicar esta verdade” (RAMONET, 2003, p. 251).

Diante da geração digital, tanto entre educandos quanto interlocutores nos diferentes espaços educativos, entendemos que alguns desafios apontados por Castells, neste novo ambiente de comunicação que é a Internet, são pertinentes quando se pensa uma educação inserida num contexto social e cultural. Referindo-se à educação, no sentido amplo, ele diz que “o maior desafio é o estabelecimento da capacidade de processamento de informação e de geração de conhecimento em cada um de nós – e particularmente em cada criança”. Essa aquisição da capacidade intelectual de armazenar e processar a informação, “recombinando-a e usando-a para produzir conhecimento para qualquer fim que tenhamos em mente. Essa simples afirmação põe em cheque todo o sistema educacional desenvolvido durante a Era Industrial (…) antes de começarmos a mudar a tecnologia, a reconstruir escolas, a reciclar professores, precisamos de uma nova pedagogia, baseada na interatividade, na personalização e no desenvolvimento da capacidade autônoma de aprender e pensar” (CASTELLS, 2001, p. 207).

Nesse campo de mudança cultural, conforme Sodré, não basta reconhecer a Cultura do outro. “É uma mutação que incita ao diálogo dessas culturas: a escrita se obriga a dialogar com a oralidade e a sonoridade musical, que advém tanto das classes populares quanto do audiovisual e do sistema digital” (SODRÉ, 2012, p. 200).

Outro indicativo é inserir-se no contexto e entrar neste novo paradigma, apontado de instituições que se responsabilizem, e sejam um “nós” coletivo com propostas criativas promovendo valores culturais, humanistas e solidários. Incentivar o ecossistema educativo para que se torne um espaço de criatividade promovendo ações em favor da comunidade, vinculando pessoas, cada vez mais.

Reconhecer que a compreensão dos pilares da educação como a autonomia, a liberdade, a responsabilidade e o envolvimento, a ética do sujeito responsável, passa por mudanças culturais, mas nem por isso, perdem o seu valor. O olhar e a escuta da realidade que evoca o “Educar a partir de dentro” precisam ser mantidos, cultivados e dotados de novos sentidos.

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[1] . Trabalho apresentado no GP Comunicação e Educação no XXXV Congresso Brasileiro de Ciência da Comunicação.

[2] . Jornalista, licenciada em Letras, mestra e doutora em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. Coordenadora de cursos no SEPAC, professora. Email: helena.corazza@paulinas.com.

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