Francisco de Assis, o homem pacificado
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04/10/2021 Frei Hilton Farias de Souza, OFM Francisco de Assis, o homem pacificado
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Francisco de Assis, o homem pacificado

“Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus (Mt 5,9). São verdadeiramente pacíficos aqueles que, por tudo o que sofrem neste mundo, conservam a paz na alma e no corpo por amor de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Ad XV).

Gostaria, neste texto[1], de refletir sobre alguns aspectos da paz e da não violência, presentes na vida de Francisco de Assis, que marcaram o seu modus vivendi. Oxalá possa nos ajudar ainda hoje a ter atitudes que levem o ser humano a contemplar o mundo com outro olhar; quiçá o da harmonia, do diálogo aberto e do respeito pelo outro.

Francisco, homem da paz

  1. Experiência da guerra entre Assis e Perugia

Com certeza Francisco deve ter aprendido uma lição, ao participar da guerra entre Assis e Perugia, pois o saldo obtido fora a morte de muitas pessoas e a sua prisão. Sem contar o rastro de destruição que uma guerra deixaria para trás. Outra constatação era o ódio que gerava entre os cidadãos em guerra, por vezes transformado em vinganças, raptos de pessoas etc. Francisco conviveu de perto com esse contexto de guerra, e os próprios biógrafos narram até mesmo sonhos do jovem que queria galgar posições numa sociedade que almejava poder, prestígio, posição social, títulos. Provavelmente essa experiência marcou profundamente suas atitudes, gestos e reflexões acerca da paz e da não violência.

  1. Não optar pelo caminho das armas

No capítulo XVI da chamada Regra não Bulada, Francisco trata dos frades que vão para o meio dos “Sarracenos”. É curioso que ali está descrito como os frades deveriam “conviver espiritualmente entre eles”; uma espécie de pedagogia franciscana a ser utilizada quando os frades entrassem em contato com os chamados, na Idade Média, de Sarracenos. O método muito simples constava de duas atitudes fundamentais: “um modo é que não litiguem nem porfiem, mas sejam submissos a toda criatura humana por causa de Deus e confessem que são cristãos”. “Outro modo é que, quando virem que agrada a Deus, anunciem a palavra de Deus, para que creiam em Deus onipotente, Pai, Filho e Espírito Santo...” (RnB, XVI, 6-7).

Pode parecer um caminho idílico da parte de Francisco, mas, diante da postura oficial adotada pela Igreja Católica Apostólica Romana, de combater os Sarracenos através da força, os frades deveriam responder com o seu testemunho. Há pouco tempo fizemos memória do encontro de Francisco com o Sultão na cidade de Damieta, no Egito. As fontes franciscanas fornecem poucas informações sobre esse encontro; porém, mesmo envoltas em uma construção hagiográfica, elas são unânimes em dizer que Francisco foi ao acampamento do Sultão desarmado, numa tentativa de estabelecer uma tratativa de paz. Uma vez que Francisco não falava o árabe, provavelmente o suposto diálogo deve ter acontecido mediado por um intérprete e pelo próprio testemunho do poverello. De qualquer forma, a cena nos ajuda a ver Francisco como um pontífice, aquele que estabelece a ponte do diálogo com o mundo sarraceno.

  1. O lobo de Gúbio, metáfora da harmonia[2]

Certa feita, conta-se que havia um lobo “grandíssimo, terrível e feroz” que atacava pessoas e animais, entrava pelas casas das pessoas devorando aquilo que encontrava pela frente. Toda a cidadezinha de Gúbio estava apavorada com os rastros de destruição deixados pelo lobo, e Francisco foi chamado para “amansar” a fera.

Diz a história que, ao encontrar-se com o lobo, Francisco fez o sinal da cruz e disse para ele: “Vem cá, irmão lobo, ordeno-te da parte de Cristo que não faças mal nem a mim nem a ninguém”. A partir daquele momento, o lobo não fez mais nenhum mal aos cidadãos de Gúbio. Além disso, Francisco estabeleceu um “pacto de paz” com o lobo; a partir de então, o animal não iria mais atacar as pessoas, e os moradores iriam fornecer a alimentação devida ao irmão lobo. “Então o lobo, levantando a sua a pata direita, colocou-a na mão de São Francisco”, selando assim a volta da harmonia naquele lugar. Diz a metáfora que, a partir desse dia, o lobo “entrava domesticamente pelas casas de porta em porta, sem fazer mal a ninguém, e sem que ninguém lho fizesse; e foi nutrido cortesmente pela gente”.

Por que não ver, nessa metáfora, a ferocidade do próprio ser humano? A famosa frase do filósofo inglês Thomas Hobbes, “O homem é o lobo do homem”, traduz a ideia de que o homem é um animal que ameaça a sua própria espécie. É a capacidade destruidora do ser humano contra os seus. A convivência humana muitas vezes pode se tornar a realidade da metáfora do lobo de Gúbio, da ferocidade do próprio ser humano contra o outro ser humano... Muitas vezes é preciso “domesticar” a fera que pode estar no recôndito de cada um de nós!

  1. Entre os irmãos, atitude materna...

Francisco gostava de comparar as atitudes dos frades numa fraternidade como a de uma mãe que se preocupa com os seus filhos. No final do sexto capítulo da sua Regra Bulada, ele deixa claro que, se um irmão adoecesse e necessitasse de cuidados, os outros companheiros deveriam dar uma pausa no trabalho para se dedicar ao enfermo. Dizia: “E onde estão e onde quer que se encontrarem os irmãos, mostrem-se mutuamente familiares entre si. E com confiança um manifeste ao outro a sua necessidade, porque, se a mãe nutre e ama a seu filho carnal, quanto mais diligentemente não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual” (RB, VI, 8-9). Na dimensão da vida fraterna, como tem funcionado essa atitude materna/fraterna no nosso cotidiano? Somos sensíveis na fraternidade com o irmão enfermo? Como andam as nossas relações fraternas?  

  1. Governo, relação de serviço

Deixou claro que o tipo de governo que deveria ser exercido entre os frades seria fundamentado no texto evangélico – “Pois, como diz o Senhor no Evangelho: Os príncipes das nações as dominam, e os que são os maiores exercem poder sobre elas (Mt 20,25); não será assim entre os irmãos (cf. Mt 20,26ª); e quem quiser tornar-se o maior entre eles seja o ministro (Cf. Mt 20,26b) e servo deles; e quem é o maior entre eles faça-se como o menor (cf. Lc 22,26)” (RnB V, 10-12). Ou seja, o frade que viesse a ocupar algum cargo de governo deveria fazê-lo assumindo a condição de ministro e servo dos demais irmãos; tendo consciência da nossa dimensão de “forasteiros e peregrinos” nesse mundo, o serviço é por um tempo estabelecido pela legislação da Ordem. Ter a consciência de que, após o tempo de serviço, devemos estar disponíveis para uma outra obediência na Ordem; não deveríamos estar presos a um lugar ou a uma função. Não fizemos voto de Stabilitas loci, como os monges de um mosteiro.  

  1. A rixa entre o bispo e o prefeito de Assis

Em uma ocasião, o bispo de Assis e o prefeito da cidade estavam brigados entre si. Francisco acrescenta mais uma estrofe ao Cântico do Irmão Sol, que havia composto, e pede a dois frades que fossem diante dos dois na praça do bispado e cantassem aquela estrofe para que a paz voltasse a reinar. O texto do cântico rezava o seguinte: “Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam pelo teu amor e suportam enfermidade e tribulação; bem-aventurados aqueles que as sustentam em paz; porque por ti, Altíssimo, serão coroados” (CA, n.84). Diz o texto que, “terminados os Louvores do Senhor, o podestà disse diante de todos: “Em verdade vos digo que perdoo não só ao Senhor bispo, a quem devo considerar como meu senhor, mas também, se alguém matasse meu irmão ou meu filho, eu perdoaria”. Em seguida, o bispo e o prefeito abraçaram-se e beijaram-se mutuamente. A Compilação de Assis[3] nos deixou esse registro, mostrando o poder de influência de Francisco, que consegue reatar os laços entre essas duas figuras da sociedade medieval.  

  1. Sensibilidade para com os animais resgatados do abate...

Até mesmo para com os animais, a atitude de Francisco de Assis foi de uma originalidade fora do comum. Em uma de suas andanças pela Marca de Ancona[4], encontrou um homem que levava dois cordeirinhos amarrados para o mercado para serem vendidos para o abate. Conseguiu convencê-lo de receber um manto em troca, resgatando os animais do sacrifício. Em seguida, devolveu ao homem os cordeirinhos para que ele cuidasse deles e que não os vendessem e nem lhes fizesse mal. Em outras passagens das biografias, podemos colher a sensibilidade de Francisco para com diversos tipos de animais e aves, quase nos reportando para uma espécie de harmonia original, como nos descreve o livro do Gênesis, quando fala da criação e da imagem do jardim, onde havia sobretudo um respeito pela obra saída das mãos de Deus.

Conclusão

Francisco de Assis continua muito atual, sobretudo com o pontificado de Papa Francisco, que tem resgatado vários temas muito importantes para a nossa reflexão e tomada de consciência, como os problemas seríssimos do cuidado pelo nosso planeta (questões ecológicas); as relações entre os irmãos e, de forma especial, a temática da paz.

Infelizmente, na atualidade, há um incentivo cada vez mais forte, por exemplo, para que as pessoas adquiram armas de fogo, num discurso de defesa da propriedade e no fazer justiça com as próprias mãos. Esse caminho seria a solução? Somente para citar um caso, nos Estados Unidos, onde o porte de armas é liberado, já está evidenciado que possuir uma arma em casa não é a solução; pelo contrário, tem causado verdadeiras tragédias, como os massacres em escolas.

Francisco de Assis mostrou, no seu tempo, que é possível construir pontes de harmonia e de paz entre os diversos segmentos: entre cidades inimigas; entre pessoas que divergiam nas suas ideias; no relacionamento e cuidado entre os frades; na forma de exercer um serviço (governo) e até mesmo entre o reino animal.

Como Frades Menores, continuadores do “legado de Francisco de Assis”, é cada vez mais premente que aprofundemos essa herança recebida e a coloquemos em prática, seja na nossa convivência entre irmãos, seja contribuindo numa evangelização em que os elementos da paz, da não violência, do respeito pelo diferente sejam a nossa marca...

Que a figura de Francisco Assis continue a nos inspirar para que sejamos, “no meio da humanidade, dividida em contínua discórdia”, instrumentos de paz.

Frei Hilton Farias de Souza, OFM

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[1] Originalmente este texto, numa versão mais simplificada, foi escrito para o boletim da Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, em Aimorés, MG.

[2] Cf. o texto na íntegra in I Fioretti, XXI, FF, p. 1525-1527.

[3] Cf. CA, n.84, FF, p. 914-916.

[4] Cf. 1Cel, Capítulo XXVIII, n.79, FF, p. 251.

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