Economia de Francisco, um outro modelo é possível
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12/11/2020 Frei Oton da Silva Araújo Júnior, OFM Economia de Francisco, um outro modelo é possível
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Previsto para março de 2020, depois adiado para novembro do mesmo ano, o encontro mundial denominado Economia de Francisco, convocado pelo Papa, visa ser um espaço de discussão a respeito de novos modelos econômicos viáveis perante a selvageria do capital. Infelizmente, a pandemia fez com que o encontro fosse novamente adiado para o próximo ano, ao menos presencialmente. Em novembro de 2020, haverá exposições e interações virtuais na data em que estava previsto o encontro. Nessa ocasião, apresentaremos brevemente do que se trata tal proposta, suas motivações e as expectativas.

A Encíclica Laudato Si', motivadora de processos

Em 2015, o Papa Francisco ao apresentar a encíclica Laudato Si, demonstrou a íntima ligação entre a questão ambiental e os interesses econômicos. A degradação ambiental está diretamente relacionada a um determinado modelo econômico. Não considerar este vínculo empobrece a reflexão e não permite perceber propriamente a “raiz humana da crise ecológica” (capítulo 3 da Encíclica).

Laudato Si não é uma encíclica ‘verde’, romântica ou desesperançada. Ao apontar a relação entre eco-logia e eco-nomia, o papa aponta para a gravidade dos problemas socioambientais, ocasionados por um modelo pautado pelo capital, pelo lucro, pela exploração inveterada. “A aliança entre economia e tecnologia acaba por deixar de fora tudo o que não faz parte dos seus interesses imediatos” (Laudato Si', n. 54) e todo projeto de longo prazo fique comprometido.

Daí emerge a preocupação pelas futuras gerações, que certamente terão uma qualidade de vida muito mais desafiadora que a nossa, que já estamos colhendo os frutos dos maus tratos para com o ambiente. Tais mutações “são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade” (Laudato Si', n. 25).

Laudato Si' não é um documento apocalíptico, no sentido de proclamar o Armagedon, um ‘salve-se quem puder’, ou que a única coisa a se fazer seja sentar, chorar e esperar o fim. No entanto, se o sentido de Apocalipse for ‘revelação’, talvez possamos entender de outra forma: como uma grande revelação de interesses obscuros, à custa de milhares de vida, consideradas somente do ponto de vista financeiro.

Ao final da Encíclica, o Papa Francisco convida à conversão ecológica, que passa por atitudes individuais, mas também pelos processos de produção das grandes corporações, dos donos do dinheiro, como ele costuma dizer.  Uma conversão “que comporta deixar emergir, nas relações com o mundo que os rodeia, todas as consequências do encontro com Jesus. Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã, mas parte essencial duma existência virtuosa” (Laudato si', n. 217).

Os desdobramentos da Laudato Si'

Curiosamente, a recepção da Laudato Si foi maior fora da Igreja do que nas próprias estruturas eclesiais. Técnicos em meio ambiente, organizações não governamentais, associações das mais diversas elegeram a Encíclica como cartilha para suas orientações. Internamente na Igreja, no entanto, houve um alvoroço inicial, como os documentos do Magistério costumam provocar, mas logo foi escorregando para os cantos. “É a forma como o ser humano se organiza para alimentar todos os vícios autodestrutivos: tenta não os ver, luta para não os reconhecer, adia as decisões importantes, age como se nada tivesse acontecido” (Laudato Si', n. 59).

O fato é que Laudato Si' não é um texto para católicos ou que professam uma determinada fé. É um manual para saber a quantas andam as reflexões mais atuais sobre ecologia. Sabemos que nos bastidores estão muitos especialistas e que o papa os proibira de indicarem teoria, hipóteses, mas somente dados e ações de efetividade comprovada.

Com esse documento, deu-se início a outros processos de reflexão, igualmente importantes. Podemos considerar que o fruto imediato fora o Sínodo da Amazônia (2019), que mobilizou centenas de pessoas ligadas diretamente à Floresta, como as populações ribeirinhas, indígenas e comunidades não só no Brasil, mas também nos outros oito países que compõem a Panamazônica, bem como tantas pessoas e entidades interessadas em refletir sobre “novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Houve mesmo quem provocasse: mesmo que o Sínodo não resultasse em grandes propostas, só o processo de preparação já teria feito valer a pena.

Voltemos às questões econômicas. Francisco está consciente de que a degradação ambiental não pode ser entendida senão à luz dos interesses econômicos atuais. É a mão invisível do Mercado a dar as ordens, subjugando inclusive a política dos países, pois as diversas tentativas de acordos climáticos, p.e., não chegam a propor nada muito radical, uma vez que as grandes corporações assim não o permitem. “Há demasiados interesses particulares e, com muita facilidade, o interesse econômico chega a prevalecer sobre o bem comum e manipular a informação para não ver afetados os seus projetos” (Laudato Si', n. 54).

Ao tratar de uma ecologia integral, que considere o ser humano no centro das discussões, e não fora delas, como por muito tempo se fez, Laudato Si' pontua o vínculo inseparável entre abordagem ambiental e social (n. 49), uma vez que as populações mais pobres, e não só elas, sofrem as consequências de um modelo econômico que privilegia as especulações financeiras, o progresso – visto como superação da natureza – e que vitimiza milhares de vidas mundo afora, muitas delas forçadas a deixar suas terras e migrarem rumo ao desconhecido.

O problema seria a falta de recursos? Sabemos que não. O economista Ladislau Dowbor esclarece que “no mundo se produz anualmente 85 trilhões de bens e serviços por ano, o que, razoavelmente distribuído, asseguraria 15 mil reais por mês por família de quatro pessoas (...). Nosso problema não é de capacidade de produção, e sim de saber o que produzimos, para quem, e com que impactos ambientais. O grande desafio é o da governança do sistema, desafio sem dúvida técnico, mas sobretudo ético e político” (Site: Outras Palavras, 22.10.19).

Tratar das questões econômicas faz pousar o olhar sobre a plasticidade do capitalismo, a qual permite que ele assuma o espírito do tempo até se tornar senhor do tempo e do espaço. “O velho capitalismo reconciliou-se com sua natureza inquieta e criativa. Tão inquieta e criativa que rapidamente transmutou a concorrência perfeita em concorrência monopolista”, observa o economista Luiz Gonzaga Belluzzo. “Se antes o capitalismo era ruim, ao menos gerava recursos para o Estado, podendo se pensar um Estado de bem-estar a partir de suas bases. No entanto, agora se faz ainda mais perverso pela perspectiva individualista que assume. Livre, leve e solto em seu peculiar dinamismo, amparado em suas engrenagens tecnológicas e financeiras, o ‘Velho Cap’ promoveu e promove a aceleração do tempo e o encolhimento do espaço. Esses fenômenos gêmeos podem ser observados na globalização, na financeirização e nos processos de produção da indústria 4.0” (BELLUZZO, Revista IHU, 10/6/2019. p.12).

A frase de Francisco é contundente: “esta economia mata!” Durante o encontro com os movimentos populares em Santa Cruz de la Sierra, (09.07.2015), o papa argentino profetizava: “Os seres humanos e a natureza não devem estar a serviço do dinheiro. Digamos ‘não’ a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”.

Em sua encíclica mais recente, papa Francisco coloca ainda mais o dedo na ferida e “dá nome aos bois”, ao apontar o sistema neoliberal como o grande responsável pela grande desigualdade entre as pessoas. Embora haja muitos que o defendam, o mercado não resolve tudo. O neoliberalismo reproduz-se sempre igual a si mesmo, recorrendo à mágica teoria do ‘derrame’ ou do ‘gotejamento’ – sem a nomear – como única via para resolver os problemas sociais, sem se dar conta de que a suposta redistribuição não resolve a desigualdade. Na Fratelli Tutti (2020), Francisco defende uma política econômica ativa, que favoreça a diversificação produtiva e a criatividade empresarial “para ser possível aumentar os postos de trabalho em vez de os reduzir” (Fratelli Tutti, n.168).

Em contraponto a uma economia financista, o papa elogia as iniciativas dos movimentos populares, com estratégias econômicas de ajuda mútua. Essas iniciativas crescem de baixo, do subsolo do planeta, são ‘poetas sociais’. Com essas iniciativas “será possível um desenvolvimento humano integral, que implica superar a ideia das políticas sociais concebidas como uma política para os pobres, mas nunca com os pobres, nunca dos pobres, e muito menos inserida num projeto que reúna os povos” (Fratelli Tutti, n.169).

O encontro em Assis

O movimento por uma nova economia foi quase a consequência imediata. Aqui no Brasil, o evento logo foi denominado Economia de Francisco e Clara, visto a grande importância das mulheres nos processos econômicos, desde o nível doméstico até em grandes organizações.

Passemos a apresentar algumas de suas características. Em primeiro lugar, salta aos olhos o público convidado: não velhas cabeças, veteranos na economia, mas jovens de até 35 anos. Se queremos uma nova economia, o protagonismo deverá ser dos jovens, que têm mostrado uma visão de mundo muito mais integradora e respeitosa.

Na carta de convocação, Francisco diz que essa nova economia “faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a devasta. Um acontecimento que nos ajude a estar unidos, a conhecer-nos uns aos outros, e que nos leve a estabelecer um ‘pacto’ para mudar a economia atual e atribuir uma alma à economia de amanhã. Sim, é necessário ‘re-animar’ a economia!” (FRANCISCO, 01.05.2019).

Dessa forma, desencadeou-se um grande movimento global em preparação a este encontro que, como já dissemos, teria sido em março de 2020, depois adiado para novembro do mesmo e agora adiado novamente para 2021. De fato, isso não foi ruim, afinal, assim como se dera no Sínodo da Amazônia, o processo de preparação talvez seja até mais importante do que o evento em si. Muitos grupos foram organizados, muitos eventos realizados, e agora com a pandemia, há lives quase diárias a respeito do tema. No Facebook, o grupo “Articulação brasileira pela economia de Francisco” já tem mais de 2300 inscritos. Ou seja, a ideia pegou!

Eu, particularmente, pude participar de alguns eventos junto ao Conselho Regional de Economia (CORECON) para refletir sobre a relação entre ecologia e economia presente na Laudato Si. Fiquei surpreso com a receptividade dos membros, todos (ou quase todos, para não ser ingênuo) convencidos de que um novo modelo econômico se faz necessário.

Os assessores

Para o evento de Assis, Francisco convidou como assessores os ganhadores do Prêmio Nobel de economia Muhammad Yunus e Amarthya Sen, e ainda Bruno Frey (com pesquisas na área da economia política e economia da felicidade), Tony Meloto (fundador de um movimento de redução da pobreza nas Filipinas), Carlo Petrini (fundador do movimento internacional Slow Food, em especial contra o McDonald's, e que em 2020 publicou um livro com o papa Francisco intitulado Terra Futura) , Kate Raworth (cuja proposta é de deixar de lado o PIB e o crescimento, para centrar a economia no bem-estar das famílias e na sustentabilidade), Jeffrey Sachs (conhecido pelo seu trabalho em agências internacionais para a redução da pobreza, o cancelamento da dívida e o controle de doenças, especialmente a AIDS, para os países subdesenvolvidos), Vandana Shiva (Fórum Internacional sobre Globalizaçãoo, sendo uma de suas vozes mais críticas) e Stefano Zamagni (Presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais), entre outros.

Iniciar processos

Na Exortação pós-sinodal Evangelii Gaudium (2013), Francisco já alertava de que devemos estar mais preocupados em iniciar processos do que possuir espaços (n. 223). “Às vezes interrogo-me sobre quais são as pessoas que, no mundo atual, se preocupam realmente mais com gerar processos que construam um povo do que com obter resultados imediatos que produzam ganhos políticos fáceis, rápidos e efêmeros, mas que não constroem a plenitude humana” (Evangelii Gaudium, n. 224).

Iniciar processos, eis a chave. Laudato Si iniciou um bonito e desafiante processo. Essa peça do dominó moveu o Sínodo da Amazônia, move a Economia de Francisco, mas não para por aí: estava previsto para este ano o encontro do Pacto pela Educação, ligado também a todo este contexto. Este encontro também deve acontecer no próximo ano.

Quais serão os frutos desses debates sobre economia, não o sabemos. Mas já estamos tocando no assunto, sabemos da necessidade de uma nova dinâmica econômico-social, aglutina-se mais e mais pessoas dispostas em discutir tal proposta. Como disse, as preparações e reverberações talvez sejam mais inspiradoras do que o encontro em si, que deve ter uns três dias de duração.

Papa Francisco vai contornando de todos os lados a fim de construir um novo modelo de sociedade, mais integral, mais fraterno, mais consciente em relação ao lugar do ser humano como guardião da obra criada. Tudo isso sob a inspiração do Poverello de Assis, que, sem dúvida nenhuma, é seu santo de cabeceira nessas horas. O santo de Assis “recebeu no seu íntimo a verdadeira paz, libertou-se de todo o desejo de domínio sobre os outros, fez-se um dos últimos e procurou viver em harmonia com todos” (Fratelli Tutti, n.4). Sigamos as inspirações de Francisco, o de Assis e o de Roma.

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