Bíblia colo e travessia: passo a passo rumo à libertação
Artigos
            Informações             Artigos             Bíblia colo e travessia: passo a passo rumo à libertação
01/09/2018 Frei Jacir de Freitas Faria, OFM Bíblia colo e travessia: passo a passo rumo à libertação
Aarão-e-Hur-segurando-os-braços-de-Moisés
Aarão e Hur segurando os braços de Moisés (1871), John Everett Millais
A+ a-
"A Bíblia é uma criança que quer colo sempre. Acolhê-la é acolher a revelação de Deus na história do ser humano. Acolhê-la é fazer memória e ter Deus sempre presente no meio de nós."

Setembro chegou! A primavera também. As flores pedem passagem. Neste mês, a Bíblia tem destaque especial. As Sagradas Escrituras também pedem licença para entrar em nossas casas e comunidades no passo e no compasso de sua proposta de santificação para judeus; salvação para cristãos; libertação para todos.

A cada ano, um tema de suas páginas universais de fé é tomado como referência de estudo. Neste ano (2011), o livro do Êxodo (cf. Ex 15,22;18,27) é o ponto de partida para a reflexão. O tema é "Travessia: passo a passo se faz o caminho"; e o lema: "Aproximai-vos do Senhor". A Igreja propõe uma reflexão sobre a travessia do povo de Deus pelo deserto até o momento da aliança, no monte Sinai. O passo a passo do povo é repleto de dúvidas, sofrimento, saudade do Egito, divisões internas e crises. Não foi fácil ser livre. Liberdade exige responsabilidade. O deserto é um lugar inóspito. De tanto implorar ao faraó do Egito para lhe conceder a permissão de ir ao deserto para cultuar o seu Deus, o povo recebe a permissão, mas, diante de tantas dificuldades, sente saudade das "cebolas do Egito". Ele imagina que era feliz, mas não sabia. Pura ilusão! A cada sofrimento no caminho do deserto, o povo irrita-se com Deus e pede colo para Moisés.

Colo, quem não quer colo? A Bíblia quer colo! Sair do colo, como é difícil! Certa feita, os discípulos de Jesus estavam discutindo a caminho de Cafarnaum, após serem instruídos pelo Mestre sobre quem seria o maior entre eles (cf. Mc 9,30-37). Jesus disse-lhes: "Se alguém quer ser o primeiro, que seja o último de todos e o servo de todos". E, tomando uma criança no colo, Ele afirma que quem acolhesse em seu nome uma daquelas crianças é a Ele que estaria acolhendo. E quem o acolhesse estaria acolhendo não a Ele, mas Àquele que o enviou. Acolher é próprio de quem dá colo. A Bíblia é um livro sagrado que pede colo. Serve a todos, porque é escrito por muitas mãos de homens e mulheres, judeus e cristãos. É o relato da história de Israel, povo escolhido por Deus para ser a Sua presença santificadora no meio de nós, por meio de uma ação missionária de um povo que caminha da escravidão para a libertação. Israel, com sua história, tantas vezes cantada e decantada de forma histórica e historiográfica, não é o maior de todos os povos, mas o escolhido entre tantos outros. Ele é filho amado, que recebeu colo. Ganhou asas e quer voar sempre, assim como os cristãos.

A Bíblia é uma criança que quer colo sempre. Acolhê-la é acolher a revelação de Deus na história do ser humano. Acolhê-la é fazer memória e ter Deus sempre presente no meio de nós. O Deus de Abraão, Isaac, Sara, Rebeca, Madalena, Maria etc. É compreender a história de Jesus, Deus encarnado no meio de nós. Respeitando sempre nossos irmãos judeus, que não compreenderam a presença de Jesus, mas nem por menos deixaram de acreditar que a Bíblia, chamada por eles de Tanakh ou Torá, é a presença de Deus, o Bendito e Eterno.

A Bíblia é a história de um Primeiro e um Segundo Testamentos. Dizemos assim para ressaltar que a segunda parte das Sagradas Escrituras não é melhor que a primeira, mas sim continuidade, assim como os filhos da primeira leva, que receberam colo com mais afeto, não são, por isso, melhores que os da segunda. A Bíblia levou anos para ser escrita. porém, ela foi vivida. dois mil anos de história em 73 livros. E ainda tem outra Bíblia, a Apócrifa, composta I de 140 outros livros que não foram considerados inspirados, oficiais, mas que refletem o pensamento, ora aberrante, ora complementar, ora alternativo em relação ao pensamento hegemônico (Cf. FARIA, Jacir de Freitas. Apócrifos aberrantes, complementares e cristianismos alternativos: poder e heresias! 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2009.) daqueles que também escreveram a história da salvação.

Algumas pessoas se perguntam: "Como estudar a Bíblia?" Outros afirmam: "Já li toda a Bíblia e não entendi muita coisa". Lê-la como um livro não é o melhor caminho. A Bíblia é como uma cidade desconhecida. Quando mudamos para ela, tudo parece estranho, pessoas, ruas, lugares. Com a leitura e o estudo constantes, de modo crítico, ecumênico, orante e pastoral, esse livro passa a ser a nossa casa. Outro detalhe: a Bíblia deve sempre ser lida em sintonia com a vida de hoje. Devemos partir de nossa realidade e iluminá-la pela realidade, descrita nas Sagradas Escrituras, perguntando sempre pela experiência de Deus refletida naquele texto.

Entre as diversas experiências bíblicas que iluminam nossa realidade, nada melhor que a experiência do Êxodo, a saída do povo de Deus do Egito, após mais de quatro séculos (ou décadas?) de opressão, nas mãos de sucessivos faraós que não conheceram José (cf. Ex 1,8), o bom judeu que chegou a ser chefe, restabeleceu a economia egípcia e levou seu idoso pai, Jacó, e seus descendentes para o Egito (cf. Gn 37-50).

Neste ano (2011), os capítulos propostos para nossa reflexão (cf. Ex 15,22;18,27) estão situados estrategicamente entre a travessia do mar Vermelho - o que representou o fim da opressão faraônica do Egito - e a aliança definitiva no monte Sinai. O texto reflete os passos do povo no deserto com seus inúmeros problemas: fome, sede, morte, desânimo etc. Tais capítulos não estão dispostos de forma unitária. Trata-se de uma composição de relatos de experiências da vida do povo na relação entre eles e com Deus, que passa a receber o nome de Javé, o Deus libertador que salvou os oprimidos do Egito. Nesses relatos, o que nos chama a atenção é que seu relator uniu as narrativas para que possamos perceber que cada evento é um passo, assim como uma parada de ônibus, no itinerário que nos leva ao nosso destino, no caso, a libertação. Os passos são:

  • O povo atravessa o mar dos Juncos, e Moisés faz Israel partir da margem do mar para o deserto de Sur (cf. Ex 15,22). O povo chega a Elim, onde havia doze fontes de água e setenta palmeiras. Ali, junto às águas, o povo acampou (cf. Ex 15,27). Nesse percurso, o povo clama a Deus por água, e Ele o coloca à prova. Moisés invoca Deus, que lhe pede que jogue um pedaço de madeira nas águas amargas de Mara, as quais se transformam em água doce. Esse foi o primeiro passo: as águas da provação ensinam o povo a seguir os mandamentos.
  • O povo parte de Elim para o deserto de Sin. Ele sente fome e tem saudade da escravidão e da comida do Egito. Mais uma vez, Deus vem em seu socorro e dá-lhe de comer o maná e as codor- nizes. O alimento chega com um ensinamento: aprendam a comer o suficiente e repartam com todos. Esse foi o segundo passo na caminhada de libertação (cf. Ex 16,1-35).
  • O terceiro passo é mais forte. O povo, em Rafidim, duvida se Javé está ou não no meio deles (cf. Ex 17,7), e o põe à prova, pedindo água para beber. Moisés, a pedido de Deus, toca a rocha com seu cajado e dela sai água para todos (cf. Ex 17,1-7). A lição aprendida é: nunca duvidem de Javé e de sua presença.
  • O rei Amalec combate contra Israel, mas Deus defende seu povo. O aprendizado naquele momento da luta: o povo tudo podia se estivesse com Deus. É Ele quem combate em seu lugar. Por ser um guerreiro valoroso, derrama suas bênçãos sobre o povo (cf. Ex 17,8-16).
  • Seguindo rumo ao monte Sinai, Moisés aprende isto do conselho de seu sogro, Jetro: o povo deve ser liderado por chefes que agem em seu nome e o poder precisa ser descentralizado. E o povo organizou-se em comunidade. Esse foi o último passo até a chegada ao monte Sinai, onde Deus sela a aliança com seu povo.

Dos passos mencionados, vale ressaltar, não por ordem de importância, o combate de Israel contra os amalecitas (cf. Ex 17,8-16). Nessa passagem, dois personagens se destacam: Josué e Moisés. O primeiro é enviado pelo segundo para cumprir a missão divina de ir ao país inimigo, os amalecitas - habitantes da região do deserto do Neguev (cf. 1Sm 15,7) -, e destruí-los em nome do Deus de Israel, que os venceria.

Israel e Amalec eram países-irmãos, por serem descendentes de Esaú, irmão de Jacó, filhos de Isaac (cf. Gn 14,7;36,12). Entretanto, reinava uma rivalidade constante entre eles. Ambos, em nome de Deus, desejavam o extermínio mútuo pela ação divina (cf. Ex 8,8-16). Os amalecitas eram uma ameaça constante a Israel, o povo de Deus. Este temia o fim da liberdade e da aliança com Deus.

Moisés sobe a uma colina, lugar, na visão judaica, do encontro com Deus. Nas mãos, ele traz uma vara. Mãos levantadas é sinal de vitória para Josué; abaixadas significam derrota. Como não era fácil manter as mãos erguidas, seus auxiliares, o sacerdote e seu irmão Aarão, com Hur, que o acompanhava, resolvem manter as mãos de Moisés levantadas até a vitória final de seu enviado.

Esse relato, à primeira vista simplório, faz parte da catequese da comunidade teologal eloísta, que o escreveu por volta do ano 740 a.E.C. para os israelitas. O objetivo dele era demonstrar que o povo tudo podia se estivesse com Deus. É Ele quem combate no lugar do povo. Deus é um guerreiro valoroso. A vara de Moisés é a mesma que fez brotar água no deserto (cf. Ex 17,5). Aarão e Hur são os responsáveis por manter as mãos de Moisés levantadas.

Cada personagem tem o seu papel na história. Todos cumprem o papel de levar o poder do Deus de Israel a outros povos. Na verdade, podemos ver aqui uma ação missionária. Pena que seu teor é o das grandes ações missionárias de que falamos anteriormente. Por outro lado, podemos destacar duas atitudes peculiares decorrentes do texto: Josué representa a luta política e Moisés, a espiritualidade. São dois modos de agir que precisam estar unidos no trabalho missionário. Se um fica enfraquecido, o outro também não resiste. A espiritualidade na missão libertadora, na luta social e política, são dois caminhos em uma mesma estrada. Para o povo judeu, sua missão no mundo é levar a santificação para os demais povos, o que inclui atitudes de luta social e espiritualidade. Para muitos, falar desse tema, luta social e espiritualidade, pode parecer fora do tempo, anacrônico, visto que cristãos aguerridos, como os das décadas de 1970 e de 1980, parecem não mais existir. Não. O tema é atual e merece nossa reflexão, para encontrarmos novos caminhos de ação libertadora. Sem espiritualidade, o caminho da luta fica fraco. Por isso, todos os passos são importantes na luta e na organização do povo. Muitos desanimam. Sem fé e esperança em Deus, que opera maravilhas nos momentos de ameaça, o povo não conseguirá o colo, fruto da libertação da escravidão de ontem e de hoje. Por isso, resta-nos sempre o bom conselho: "Aproximai-vos do Senhor", pois Ele está e estará sempre no meio de nós, oferecendo-nos um colo.

  • Frei Jacir de Freitas Faria, OFM
  • Escritor e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma
  • www.bibliaeapocrifos.com.br
Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
Artigos
                  
Receba as notícias e artigos da Província Santa Cruz. Cadastre seu e-mail...
Seth Comunicação