Aspectos históricos da quaresma de São Miguel nas Fontes Franciscanas
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28/09/2017 Higor Ferreira, OFM Aspectos históricos da quaresma de São Miguel nas Fontes Franciscanas
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Ora ou outra, nos encontramos com pessoas ou pela mídia e os diversos meios de comunicação comentando sobre a quaresma de São Miguel. Muitas vezes, esses comentários parte de pessoas ligadas aos movimentos católicos-neopentecostais.  Qual o sentido dessa quaresma, que acontece de quinze de agosto à vinte e nove de setembro? Quais as motivações? Onde surgiu essa devoção? Por que se trata somente de um Arcanjo, sendo que a quaresma culmina na festa dos três arcanjos: Miguel, Rafael e Gabriel?  Vamos percorrer pela história e ver onde se deu tal devoção. Primeiramente vamos entender quem foi esse Arcanjo por nome de Miguel[1].

 Na Tradição Bíblica

Na tradição bíblica, encontramos algumas citações que referem diretamente ao Anjo Miguel. Em Jd, 9 o arcanjo Miguel é invocado, quando disputava com o diabo a respeito do corpo de Moisés; em Ap 12,7 Miguel[2] luta contra o Dragão; já em Dn 10, 12.21; 12,1 Miguel é tratado por príncipe e, protetor dos amigos de Deus.  Essas breves passagens bíblicas, demonstram qual é a atuação do Arcanjo Miguel na história do povo de Deus.  Ao lutar e defender os simples e humildes, Miguel age em nome do Deus Libertador.  A sua defesa aos amigos de Deus, corresponde à sua identidade, ou seja, de preservar os que Deus predestinou.  O principado de Miguel no texto, refere – se de algum modo a um reinado.  No entanto não se sabe, ainda, qual a origem desse principado.

O principado do Arcanjo Miguel, muito leva em conta a história do povo de Deus. Deus liberta seu povo de toda maldade e prepotência dos grandes reis. Deus assume o seu povo com parte sua e o liberta da escravidão conduzindo-os a terra prometida.  Vemos o quanto Deus se compadece de seu povo, a raça escolhida a nação santa, ao ponto que nos envia seu próprio filho, Jesus Cristo.  Jesus Cristo instaura um novo tempo. O que antes fora predito pelos profetas, culmina em Jesus Cristo, a vinda do reino de Deus. 

Miguel assume o principado desse reino. Diante de todos outros reinos, o arcanjo se mostra defensor dos pobres e excluídos. Na grande batalha do apocalipse, vemos o qual é a sua ação em defender os que são oprimidos. Ao lutar contra o Dragão, representando o império opressor, que queria devorar o filho da mulher, que estava para dar à luz, Miguel defende o nascimento desse novo rei, que governará com cetro de ferro.  

O principado de Miguel, não está a favor das grandes nações que oprimem os povos, mais a favor do Reino de Deus. Reino de justiça e paz. Ao ressaltar, em seu nome Quem é Como Deus? o Arcanjo se coloca a mostrar que não um outro Deus capaz de nos salvar.

Na religiosidade Popular

Na religiosidade popular, Miguel recebe algumas características de “guarda do cortejo fúnebre”[3].  Percebemos isso em alguns cânticos de incelências[4] para defunto.  “Acredita-se que, a alma durante a viagem ao paraíso encontra inúmeras tentações do demônio.  Nesses cantos é invocado o arcanjo São Miguel, que pesa cada qual em sua balança para saber o peso dos pecados. São Miguel é invocado para livrar as almas do inferno.”[5]

 São Miguel é invocado em diversas dificuldades presentes na vida humana, como:  na defesa contra o mal, na falta de chuvas, no momento da agonia e como “buscador” de almas que se perdem no inferno. Tudo isso podemos constatar nos tradicionais benditos de São Miguel.[6]

Para o povo de Deus que sempre está a caminhar, muitos são os exemplos que os deixam desanimar. Muitos desses exemplos são o Santos, que configuraram suas vidas ao projeto de Jesus. Há também os santos aos quais pedimos proteção para superar as intempéries do caminho. Um desses santos é São Miguel, que como guerreiro defende os que lhe pedem auxilio.

Diante de tantas aflições, pelas quais passamos, Miguel nos lembra de não perdermos a nossa rocha, o apoio dos nossos pés. A descrição do seu nome, “Quem é como Deus?” Abre para nós o tamanho da manifestação da graça de Deus, pois ele é Único.  Não há quem possa nos salvar se não Deus. Mostrando nos como a presença de Deus em nosso meio é sublime, mesmo em meio a tantas dificuldades.

Nas Fontes Franciscanas

Depois de passarmos pela tradição bíblica e pela religiosidade popular, vamos ao objeto central: As fontes franciscanas. Nos escritos referentes a São Francisco, em diversos momentos citam o santo fazendo a quaresma de São Miguel.  Tomando a Compilação de Assis, (118,1-4). “Numa ocasião, o bem-aventurado Francisco foi ao eremitério do Monte Alverne; e porque aquele lugar era muito afastado, tanto lhe agradou que ele quis fazer ali a quaresma de São Miguel. Fora para lá antes da festa da Assunção da gloriosa Virgem Maria e contou os dias desde a festa de Santa maria até à festa de São Miguel, que seriam quarenta dias; e disse: Em honra de Deus e da Bem Aventurada Virgem Maria, sua mãe, e do bem-aventurado Miguel, Príncipe dos anjos e das almas, quero fazer aqui a quaresma”[7].  Podemos notar, nesse fragmento, que Francisco, primeiramente escolhe um lugar tranquilo, o Monte Alverne. Esse tempo para Francisco é algo muito precioso, pois ao querer um lugar calmo, nota se que é necessária essa parada para encontrar com Deus.

Tomando outro texto das Fontes Franciscanas, na Exortação ao Louvor de Deus, no deparamo-nos com várias frases bíblicas, no entanto somente duas não são citações bíblicas. Uma dessas, refere-se a São Miguel. Umas das suas jaculatórias já bem conhecidas em nosso Meio. São Miguel Arcanjo, Defendei-nos no combate (ExL 17)

A exortação ao qual nos referimos, foi escrita pelo próprio Francisco, “em uma tábua que servia de piso do altar em um eremitério. Francisco mandou pintar algumas criaturas na tábua e depois escreveu o texto”[8]. Como Francisco se retirava para fazer suas orações, provavelmente, o lugar acima referido, pode ser que era um dos lugares aos quais Francisco ia para fazer a quaresma de São Miguel.  No Oficio da Paixão do Senhor[9], composto por Francisco, o santo também traz a invocação a São Miguel na antífona a ser dita antes de cada salmo.

Para facilitar o encontro dos frades, Francisco elegeu Santa Maria da Porciúncula como sede dos capítulos e encontros.  Francisco ordenou que ali fizessem o capitulo duas vezes ao ano, em pentecostes e na dedicação de São Miguel[10].

Eis aqui mais um breve relato da devoção de Francisco ao Arcanjo São Miguel. Importante notar o termo que o biografo utiliza, Dedicação de São Miguel.  Essa dedicação provavelmente tem a ver com a basílica de São Miguel construída em Roma, pelo Papa São Gregório Magno(540-604). [11]  Narra a história, que o mesmo teve uma aparição de São Miguel.  No entanto essa devoção se difundiu por toda a Idade Média.

Tomás de Celano, em seus relatos cita a devoção de Francisco aos anjos e, o que fazia por amor a São Miguel. “Dizia muitas vezes que São Miguel devia ser mais excelentemente honrado, pelo fato que este tinha o ofício de apresentar as almas a Deus.  Dizia pois, que “Em honra de tão grande príncipe, todos deveriam oferecer algum louvor ou dádiva a Deus”[12].   Ao rememorar essa devoção de Francisco, Celano que dar atenção ao fato do Amor que Francisco tinha pelo Arcanjo.  Provavelmente, Essa devoção de Francisco era algo bem forte em sua caminha.  Tudo isso pode agregar uma diversidade de fatos. O contexto histórico, pode ser que tenha influenciado o santo de Assis. Assim como Miguel apresentava almas a Deus, Francisco também pode ter se inspirado e, em contexto tão significativo de conduzir os irmãos e, de se colocar como penitente, ora pelos testemunhos, ora pela pregação.

São Boaventura, em sua Legenda Maior, confirma a essa intensidade de Francisco em jejuar para conduzir as almas. “Por causa do fervoroso zelo que tinha pela salvação de todos os que devem ser salvos, com especial amor, era mais devoto ao Arcanjo Miguel.”[13]

Como narram os biógrafos, podemos constatar quão grande era a devoção de Francisco pelo Arcanjo. Há um outro fator que muito nos chama atenção, que a impressão das chagas de São Francisco se dá durante a quaresma de São Miguel. Impressão das chagas, durante a quaresma de são Miguel, mostra como era algo peculiar na vida de Francisco, como ele abraçou a cruz e se tornou semelhante a Cristo. Contanto, para o santo de Assis, essa quaresma tinha um real significado pelos diversos fatores descritos acima.

Em nossos Dias...

A quaresma de são Miguel, que fora tão importante a São Francisco, em nossos dias parece ter se perdido no tempo. Tomou se um modo totalmente devocionista, como meio de alcançar milagres. Celebrar a quaresma de São Miguel em nossos dias, é sem dúvida rememorarmos aqueles mesmos sentimentos que teve São Francisco. É se dedicar intensamente a Deus e aos Irmãos.  É mostrar ao mundo hodierno, tão marcado pelas injustiças, o novo reino de Deus e a sua misericórdia.  É viver a graça de Deus, mesmo em meio a tanto ódio e preconceito. É defender os Pobres no grande combate de suas vidas. É anunciar um mundo mais Humano, mais Fraterno. Que São Miguel, Nos ajude a vencermos esse grande combate. São Miguel Arcanjo, Defendei-nos no combate!

[1] Nesse estudo, vamos nos deter somente ao Arcanjo São Miguel.

[2]  O texto de Apocalipse 12,7 fala de Miguel e Seus anjos.  Destacando a importância de Miguel perante a outros anjos.

[3] Grifo nosso.

[4] As incelências são um tipo de canto fúnebre de matriz popular, vastamente difundido no interior do Brasil e entoado junto aos moribundos e defuntos.  In FONSECA, Joaquim, OFM. Música ritual de exéquias: uma proposta de inculturação. Belo Horizonte: Editora O lutador/ Apostolado Litúrgico, 2010.

[5] Idem.

[6] POEL, Francisco Van der, Dicionário da religiosidade popular: cultura e religião no Brasil. Editora Nossa cultura,2013. Pag. 992.

[7] Fontes franciscanas. Texto citado ad litteram. CA 118,1-4

[8] PEDROSO, Frei José Carlos Corrêa. Fontes Franciscanas: Apresentação Geral.  Centro de espiritualidade franciscana. SP.2013 . 2ª tiragem. Pag.14.

[9] Cf. Fontes franciscanas. Oficio da paixão do Senhor. Pag. 142.

[10]Cf. Fontes Franciscanas. Legenda dos Três companheiros. 57, 1.pag.827.

[11] POEL, Francisco Van der, Dicionário da religiosidade popular: cultura e religião no Brasil. Editora Nossa cultura,2013. Pag. 992.

[12] Cf. Fontes Franciscanas. Pag. 424. 2Cel 197,5-7

[13] Cf. Fontes Franciscanas. Pag.610. LM  9, 3-4

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