A memória como resistência: “Todos vós estais em pecado mortal”
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10/03/2021 Frei Vitor Vinicios da Silva, OFM A memória como resistência: “Todos vós estais em pecado mortal”
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"No fim, que possamos fazer memória e aprender com o passado e com nossos ancestrais a maneira certa de resistir a tamanhas violências, pois nada melhor do que aprender com aqueles que resistem por milhares de anos, nossos indígenas", escreve[1] Frei Vitor Vinicios da Silva, ofm, Licenciado em Filosofia e graduando em Teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino, em artigo publicado originalmente na IHU.

Eis o artigo.

A memória é um dos elementos marcantes da experiência judaico-cristã. Recordar-se da aliança por meio de textos, imagens e cantos é uma maneira de manter vivo o pacto amoroso entre Deus e o povo. Da mesma forma, somos chamados a fazer memória das experiências históricas dos nossos antepassados para que sejamos melhores e, consequentemente, para que não cometamos os mesmos erros.

É mais do que sabido que enfrentamos um dos piores momentos ou o pior momento do século XXI. A pandemia de Covid-19 paralisa uma marcha frenética a qual acreditávamos que galgávamos à felicidade em um mundo de avanços tecnológicos que nos faria mais realizados. Entretanto, o sonho foi se desfazendo pelo percurso, crenças foram sendo descridas e o cosmos foi cada vez mais dando provas de que não corresponderá a tamanha truculência. Diante disso, os efeitos colaterais foram piores do que imaginamos, além de contrapartidas da mãe terra (desastres ambientais e crise climática) gera-se, ao longo desse tempo, o inimigo atual Sars-CoV-2.

Segundo cientistas, urge em resposta ao desmatamento cometido pelos humanos o vírus que estamos enfrentando atualmente. Em outras palavras, a mudança climática/desmatamento deve ser vista como um problema de saúde pública (tese defendida pela diretora de Meio Ambiente da OMS, María Neira). Essa relação desmatamento e saúde pública pode ser ratificada pela origem do Sars-CoV-2 que não tinha os seres humanos como hospedeiros, habitava em animais selvagens como, provavelmente, morcegos. Todavia, com a destruição do seu habitat, do seu reservatório, culminou na proliferação do vírus e, consequentemente, transições de hospedeiros.

(Artigo do DW: “[...] Análises assinadas por Aneta Afelt, pesquisadora da Universidade de Varsóvia, na Polônia, descrevem como os altos índices de destruição florestal nos últimos 40 anos na Ásia eram indicativos de que a próxima doença infecciosa grave poderia sair dali”). Com isso, é fatídico que à medida que mantemos o motor do pseudodesenvolvimento (agronegócio, mineração...) alimentaremos um monstro que não daremos conta de frear, continuaremos em uma autodestruição já prevista e anunciada a conta gotas.

Por outro lado, temos como efeito colateral o negacionismo como resposta a essa derrocada promessa de felicidade do progresso que fez com que muitos acreditassem em soluções simplistas e pseudodiscursos de salvação que nos levou a eleições desastrosas, apesar de democráticas. O negacionismo alvoreceu em nossos cenários em um momento que pede sensatez, empatia e liderança. A questão tem se tornado tão dramática que alianças e acordos firmados, possibilitaram que os aliados do Poder Executivo, o Deputado Arthur Lira (PP-AL) e o Senador Rodrigo Pacheco (DEM-MG) fossem eleitos como líderes no Congresso Nacional, o que viabiliza ao governo federal colocar como pauta prioritária não a pandemia, mas temas como permissão para mineração em terras indígenas, alterações no estatuto do índio e outras quimeras a mais.

Essa pauta levantada nos faz recordar mais uma vez dos nossos ancestrais, dos povos originários dessa terra, que desde que os europeus pisaram nesse solo, têm lutado pela vida. A história nos denuncia, a partir da experiência religiosa, que nossos ancestrais foram brutalmente dizimados, que “[...] a primeira experiência do cristianismo nas Américas foi ligada à conquista brutal e à colonização” (IRVIN, D.; SUNQUIST, S., 2015, p.22) e essa experiência se perpetua em outras dimensões e roupagens ainda hoje.

Em contrapartida, a história também nos recorda dos profetas das Américas que, com coragem, denunciaram a violência praticada. Em memória, é resistência recordar do sermão ecoado pela boca de Montesinos que indaga:

“Com que direito, perguntou retoricamente, os indígenas estão sendo subjugados e oprimidos? Não são eles seres humanos com almas racionais, e então os colonizadores não estão obrigados a tratá-los com amor cristão?” (IRVIN, D.; SUNQUIST, S., 2015, p.27). É claro que devemos ter o cuidado para não cometermos anacronismos em nossas análises, é preciso observar os contextos e saber filtrar aquilo que pode nos ensinar a não errar, mas isso não nos tira o reconhecimento de que houve homens e mulheres que lutaram a favor da vida. É fato que “não se conserva nem uma cópia e conhecemos unicamente através de Las Casas, que lança sérias dúvidas sobre a sua literalidade. Não podemos assegurar que este não retocou [o texto] a serviço da eficácia comunicativa, pois Las Casas era um hábil propagandista, embora, se fez, não desvirtuo em absoluto a mensagem, pois as cartas firmadas pelos dominicanos são uma evidência mais sólida dessa tomada de posição” (DOBARRO, 2021), mas não podemos negar que esses pregadores – Frei Pedro Cordoba, Frei Antão de Montesino, Frei Bernardo de Santo Domingo e Domingo de Villamayor, em 1510 - tinham como objetivo evangelizar os denominados infiéis. Entretanto, frente as atrocidades perceberam que a mensagem de Cristo não poderia se coadunar com essa realidade cruel. Assim, Montesinos, nos recorda ainda hoje:

"Todos vós estais em pecado mortal. Nele viveis e nele morrereis, devido à crueldade e tiranias que usais com estas gentes inocentes. Dizei-me, com que direito e baseados em que justiça, mantendes em tão cruel e horrível servidão os índios? Com que autoridade fizestes estas detestáveis guerras a estes povos que estavam em suas terras mansas e pacíficas e tão numerosas e os consumistes com mortes e destruições inauditas? Como os tendes tão oprimidos e fatigados, sem dar-lhes de comer e curá-los em suas enfermidades? Os excessivos trabalhos que lhes impondes, os faz morrer, ou melhor dizendo, vós os matais para poder arrancar e adquirir ouro cada dia... Não são eles acaso homens? Não tem almas racionais? Vós não sois obrigados a amá-los como a vós mesmos? Será que não entendeis isso? Não o podeis sentir? Tende como certo que, no estado em que vos encontrais, não tendes mais chance de vos salvardes [...]”[2] (DOBARRO,2021, tradução nossa).

No fim, que possamos fazer memória e aprender com o passado e com nossos ancestrais a maneira certa de resistir a tamanhas violências, pois nada melhor do que aprender com aqueles que resistem por milhares de anos, nossos indígenas. Esses, já estão calejados de tanta batalha, que aqueles que se identificam com a mensagem de Cristo (amor) possam denunciar as injustiças de nosso tempo, defender com voz profética nossos povos originários, dialogar e respeitar as diferentes profissões de fé, e que diante de outras violências possamos ser defensores dos direitos humanos e porta vozes da mensagem de Cristo.

Referências:

OBARRO, Clara. Fray Pedro de Córdoba, primer teólogo de la liberación. Disponível aqui. Acesso em: 23 fev. 2021.

FREI Antônio de Montesinos: Sermão do 4° domingo do Advento de 1511, condenando o massacre dos índios. Disponível aqui. Acesso em: 23 fev. 2021.

Notas:

[1] O título deste artigo é uma frase retirada do sermão de Montesinos pronunciado em 1511.

[2] “[...] del sermón no se conserva ninguna copia y lo conocemos únicamente a través de Las Casas, lo que arroja serias dudas sobre su literalidad. No se puede asegurar que este no lo hubiera retocado al servicio de la eficacia comunicativa, pues Las Casas era un hábil propagandista, aunque, si lo hizo, no desvirtuó en absoluto el mensaje pues las misivas firmadas por los dominicos son la evidencia más sólida de su toma de posición.”

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