Frei Hilton comenta os encontros de São Francisco ao longo da vida
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04/10/2018 Frei Hilton Farias de Souza Notícias Frei Hilton comenta os encontros de São Francisco ao longo da vida
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Os encontros ao longo da vida de Francisco de Assis

Frei Hilton Farias de Souza, OFM - Ministro Provincial da Província Santa Cruz

Introdução

Este texto não tem a pretensão de elencar os inúmeros encontros que aconteceram ao longo da vida de Francisco de Assis; quer ser apenas uma tentativa de recolher aqui alguns fragmentos desses encontros, em circunstâncias diversas ao longo da sua vida e que por si só, ainda hoje, são pérolas preciosas da nossa espiritualidade franciscana. Espero que os encontros aqui apresentados possam nos ajudar a vivenciá-los nas diversas realidades em que nos vemos inseridos, enquanto frades menores.

Encontro com o Cristo de São Damião

Vecchi acquerelli - Il crocifisso di S. Damiano

No início do seu “processo vocacional”, Francisco de Assis buscava respostas para o seu caminho espiritual. Com certeza, a pergunta fundante que os biógrafos colocam nos seus lábios é: “Senhor, que queres que eu faça?”. Ele deve tê-la matutado na sua cabeça por diversas vezes e, como uma cantilena, viu-se interpelado, sem saber de forma muito clara o que de fato o Senhor queria dele. Numa dessas vezes, entra na igrejinha dedicada aos mártires Cosme e Damião e ali, diante de um crucifixo bizantino, cujo artista se inspirara na teologia joanina, tenta passar por um processo de clarificação. No seu momento de “lusco-fusco”, eleva a Deus a sua prece, pedindo não coisas materiais, mas as virtudes teologais[1]. Pede ao Altíssimo que ilumine as trevas do seu coração e o ajude a trilhar as veredas das virtudes. A partir daquele momento, faz a experiência de ser impressa no seu coração a marca indelével do Crucificado, que o acompanhará até sua identificação plena com Ele no Monte Alverne. Francisco de Assis será o seguidor apaixonado do Crucificado.

Encontro na praça de Assis

San Francesco rinuncia ai beni paterni, (particolare), affresco, 1452 Montefalco (perugia), Chiesa di San Francesco

Depois de romper com o seu pai Pedro Bernardone – sobretudo por causa do dinheiro obtido pela venda de tecidos na cidade de Foligno, o qual Francisco queria que fosse empregado, através de um sacerdote, na restauração da igrejinha e no cuidado aos pobres –, o pai leva Francisco à presença do bispo de Assis, para que o jovem renuncie a todos os bens e restitua ao pai o dinheiro arrecadado com a venda dos tecidos. O encontro se dá numa praça, onde Francisco faz o gesto de total despojamento; onde entrega as suas roupas ao pai e fica totalmente nu diante de todos. O bispo o cobre com o seu manto. Diz a tradição que Francisco, a partir daquele momento, faz uma opção radical, deixando para trás a riqueza da família, e passa a chamar apenas a Deus de pai. A cena nos leva a refletir numa perspectiva do despojamento, de uma pobreza radical que irá tornar-se, ao longo da vida de Francisco, uma espécie de moto: a chamada “não apropriação”, de coisas, de pessoas e de lugares. O biógrafo Tomás de Celano expressa que, depois desse acontecimento, Francisco deixa “de lado toda preocupação pela vida, de modo que como pobre tinha paz num caminho cercado de insídias” (1 Cel 15, 7).

Encontro com os leprosos[2]

Francesco bacia il lebroso - legenda maior di S. Boaventura - miniatura dal codice pergamenaceo del 1457, Roma, museo franciscano, inv. nr. 1266

Uma das experiências talvez mais fortes que acompanharam o jovem Francisco ao longo da sua vida foi encontrar-se com os leprosos. Aquilo que ele descreve no seu Testamento, no final da vida, é muito forte: “parecia-me amargo ver leprosos. E o próprio Senhor me conduziu entre eles, e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura de alma e de corpo” (Test. 1-3).

Francisco passa por um processo de conversão, rompe a barreira do preconceito, da repugnância, da exclusão e beija o leproso. A primeira reação é fugir daqueles seres desfigurados e segregados pela sociedade; mas a graça de Deus toca profundamente o seu coração de tal forma que Francisco se insere no meio dos leprosos com alguns companheiros, procurando cuidar com dignidade daqueles irmãos excluídos.

Encontro com o Papa Inocêncio III

Firenze - Basilica di S. Croce - cappela bardi - Ignoto (metà XIII sec.) S. Francesco (particolare) l'approvazione della regola

No momento em que Francisco reúne, segundo a tradição, 11 companheiros, dirige-se até Roma para encontrar-se com o Papa Inocêncio III. A audiência com o pontífice não foi fácil. Durante a sabatina enfrentada diante do cardeal João de São Paulo, bispo de Sabina, Francisco não desiste e fica firme no seu propósito apresentado, mesmo diante da tentativa de persuadirem-no a optar pela vida monástica ou eremítica. O propósito de Francisco mesclava alguns fragmentos do Santo Evangelho com algumas orientações práticas para reger a vida nascente de um grupo intitulado num primeiro momento como “Penitentes da cidade de Assis”. Os biógrafos relatam que, depois da sabatina, o Papa Inocêncio III, após um discernimento, “concedeu assentimento ao pedido deles e concluiu com a subsequente efetivação; exortando-os e admoestando-os a respeito de muitas coisas, abençoou a Francisco e aos irmãos e disse-lhes: ‘Irmãos, ide com o Senhor e pregai a todos a penitência, como o Senhor dignar inspirar-vos. E quando o Senhor onipotente vos multiplicar em número e graça, relatar-me-eis com alegria, e eu vos concederei mais coisas e vos confiarei, mais seguramente, coisas mais importantes’” (1 Cel 33, 7-8). Assim, o Papa concede o seu placet para que o grupo de Francisco possa “viver a sua vida segundo a forma do Santo Evangelho”. Portanto, desse encontro Francisco obtém do Papa uma aprovação chamada oral.

Encontro com Clara

Vecchi acquerelli - la vestizione di S. Chiara

Um dos encontros marcantes de Francisco com Clara foi por ocasião da escolha dessa jovem de seguir a radicalidade também do Cristo pobre. Francisco a recebe na capelinha de Santa Maria dos Anjos e, junto do altar, corta os cabelos de Clara, marcando, com esse gesto, a pertença dela a um novo estilo de vida, isto é, de pobreza e total desprendimento. Dizem as fontes que, quando a família dos Favarone soube do acontecido, tentaram convencer a jovem Clara de que voltasse para a casa da família. Quando se depararam com a escolha de Clara e viram que a jovem havia tonsurado os cabelos e se agarrado ao altar, desistiram da ideia de reconduzi-la para casa. Ela já não pertencia mais à família, por causa da sua consagração.

Num dos I Fioretti, precisamente o de número 16[3], encontramos um episódio ao meu ver bem genuíno e de uma importância basilar na vida de Francisco. É quando Francisco pede a Frei Masseo que procure Clara e lhe diga que, com algumas das irmãs mais espirituais companheiras, ela rogue devotamente a Deus para que Ele mostre o que mais convém a Francisco: se dedicar-se “à pregação ou somente à oração” (I Fioretti, p. 1514-1515).

E em seguida pede que Frei Masseo se dirija a Frei Silvestre para fazer a mesma consulta. Diz o texto que, depois de rezar, Frei Silvestre obtém a resposta divina e pede a Frei Masseo que a transmita a Francisco: “Isto disse Deus para dizeres ao Irmão Francisco: que Deus não o chamou a este estado somente para si; mas para que ele obtenha fruto das almas e que muitos por ele sejam salvos” (I Fioretti, p. 1515). Frei Masseo em seguida dirige-se a Clara para escutar o seu discernimento. E ela pontua que, juntamente com as suas companheiras, obteve através de Deus a mesma conclusão de Frei Silvestre. Por fim, Frei Masseo retorna a Francisco. Francisco ainda interpela: “Que é que ordena que eu faça o meu Senhor Jesus Cristo?”. Frei Masseo lhe diz: “Tanto a Frei Silvestre como a Soror Clara, Cristo respondeu e revelou que sua vontade é que vás pelo mundo a pregar, porque ele não te escolheu para ti somente, mas ainda para a salvação dos outros” (I Fioretti, p. 1515). A partir desse discernimento, segue com o seu projeto alicerçado sobre a pregação itinerante. Nesse mesmo I Fioretti, Francisco segue pregando por vários locais, como no Castelo de Savurniano, Cannara e Bevagna. Ele prega não somente às pessoas, mas também aos pássaros.

Francisco encontra-se com Clara quando, em 1225, faz uma parada em São Damião, provavelmente residindo na cela do capelão, período em que ele foi submetido a um tratamento nos olhos, depois da insistência de Frei Elias. Na estadia de Francisco em São Damião, entre os meses de abril e de maio ele compõe o Cântico do Irmão Sol; no mês de junho acrescenta a estrofe sobre a paz, a fim de reconciliar o Podestá com o bispo.

Outro momento marcante e tocante na vida de Clara é quando o féretro de Francisco passa pelo convento de São Damião, e ela com as companheiras podem encontrar-se pela última vez com o Poverello.

Encontro com o Sultão

Francesco dialoga con il sultano- legenda maior di S. Boaventura - miniatura dal codice pergamenaceo del 1457, Roma, museo franciscano, inv. nr. 1266

No ano de 2019, celebraremos a memória dos 800 anos do encontro de Francisco com o Sultão do Egito, Malek-el-Kamel, no contexto de uma Cruzada, onde dois lados lutavam entre si. De um lado, o exército dos Sarracenos[4] e, de outro lado, o exército dos Cruzados, querendo “libertar” a Terra Santa. O gesto de Francisco fala por si só: vai ao encontro do Sultão desarmado, num papel de mediador, tentando evitar derramamento de sangue. Dizem as fontes que ele ganha a simpatia do Sultão, que inclusive lhe concede algum presente. Mais uma vez, Francisco aparece como uma espécie de arauto da paz. É curioso que, na sua Regra não Bulada, de 1221, no capítulo XVI, ele descreve o método que os frades deveriam utilizar para ir ao meio dos Sarracenos. Somente quem teve a oportunidade de encontrar-se com o Sultão e ter um mínimo de conhecimento da cultura desse povo pode descrever a metodologia para se aproximar de forma respeitosa desse universo. Na sua regra, ele fala de alguns elementos importantíssimos para o bom êxito de uma empreitada missionária: licença do ministro, idoneidade, testemunho pacífico e anúncio quando for necessário.

Encontro com o lobo de Gubio[5]

S. Francesco e il lobo

Esta passagem do encontro de Francisco com o lobo de Gúbio, registrado pelo I Fioretti, no seu capítulo 21, é a metáfora franciscana da utopia do profeta Isaías de um convívio entre a ferocidade do lobo, de um lado, e a população do condado de Gúbio aterrorizada, de outro. O texto descreve o medo que assolava o condado de Gúbio por causa dos ataques constantes do lobo a outros animais e aos citadinos. Os habitantes tomados de medo andavam armados como prevenção de um possível encontro indesejado com a fera. Francisco, por compaixão, dispõe-se a ir ao encontro do lobo. Encontrando-o, fez o sinal da cruz e estabeleceu um diálogo com o animal, dizendo: “Vem cá, irmão lobo, ordeno-te da parte de Cristo que não faças mal nem a mim nem a ninguém”. Após Francisco ter feito a cruz, o lobo fechou a boca e se dirigiu mansamente como um cordeiro e se lançou aos pés de Francisco como morto. A partir desse momento, Francisco estabelece um diálogo com o lobo, interpelando-o por ter feito muito mal aos animais e aos homens, ferindo a esses e matando-os. Ele estabelece um pacto de paz com o lobo, deixando claro nesse pacto que o animal não iria mais fazer mal ao condado, e os habitantes também não iriam persegui-lo. O texto pontua que o lobo, com gestos do corpo, da cauda e das orelhas, mostrava aceitar o que Francisco propunha. A partir do pacto estabelecido, Francisco promete cuidar bem dele, fornecendo comida e os cuidados devidos, desde que não atacasse mais os outros animais e as pessoas. O lobo sela o seu compromisso com Francisco colocando a sua pata direita na mão de Francisco. Depois de ter feito uma pregação ao povo, Francisco dirige-se a eles para que prometessem dar a cada dia o alimento necessário ao lobo. O povo aceitou cuidar do animal. Por fim, o lobo reitera a observância do pacto de paz e que não ofenderá nem aos homens nem aos animais nem a criatura nenhuma. O lobo gesticula com os movimentos do corpo, dando o seu assentimento. Mais uma vez levantando a pata direita, coloca-a na mão de Francisco. O final do texto diz que o lobo entrava domesticamente pelas casas, de porta em porta, sem fazer mal a ninguém. Foi alimentado pelos cidadãos de Gúbio, e todos viviam em harmonia. O texto mostra que é possível encontrar a harmonia perdida. No lugar da ferocidade, de atitudes bélicas, pode acontecer um pacto de paz, em que o “lobo” que habita dentro de cada ser humano pode se transformar. A figura de Francisco de Assis estabelece pontes importantes de contínuas ligações; num cenário medieval de constantes guerras entre cidades e famílias, o Poverello continua apontando que é necessário não deixar o lado da ferocidade falar mais alto. A via da paz é possível.   

Encontro com o Deus encarnado (Greccio)

Basilica Superiore di S. Francesco (Giotto 1267-1337) S. Francesco istituisce il presepio a Greccio

Outro encontro importante na vida de Francisco foi com a experiência que quis vivenciar no povoado de Greccio. O seu amor pelo mistério da encarnação leva-o a fazer memória desse acontecimento. Organiza um presépio vivo, uma espécie de “paraliturgia”, harmonizando as pessoas e os animais; proclama o Evangelho e experimenta de perto o mistério da “humildade da encarnação”. Tomás de Celano descreve que, durante a celebração, Francisco teve uma visão: “Via, pois, deitado no presépio, um menino exânime, via que o santo de Deus se aproximava dele e despertava o mesmo menino como que de um sono profundo. E esta visão era muito apropriada, pois que o menino Jesus tinha relegado ao esquecimento nos corações de muitos, mas neles ele ressuscitou, agindo a sua graça por meio de seu servo São Francisco, e ficou impresso na diligente memória deles” (1 Cel 86, 7-8). Nas palavras de Tomás de Celano, através de Francisco o mundo pode redescobrir a figura do Deus encarnado que assumiu a nossa história. Greccio tornou-se, por assim dizer, a nossa “Belém Franciscana”, lugar da memória do nascimento de Jesus.

Encontro com o Cristo Crucificado no Monte Alverne

São Francisco - Paróquia São Francisco das Chagas - Belo Horizonte (Brasil)

Segundo as Fontes Franciscanas, dois anos antes da sua morte, na proximidade da Festa da Exaltação da Santa Cruz, Francisco faz a experiência de um profundo encontro com o Crucificado. Como costumava fazer ao longo da sua vida, Francisco retira-se para o alto do Monte Alverne, para um período forte de recolhimento, de oração e de jejum. Procurava cada vez mais lugares desertos onde podia refugiar-se para se dedicar intensamente a Deus. No Monte Alverne, existem tipos de rochas abertas, formando como se fosse uma espécie de gruta; nesse refúgio, costumava o homem de Deus fazer a sua experiência de mergulho no Absoluto de Deus. Num desses momentos de intensa contemplação, Francisco tem a visão do Serafim crucificado e recebe no seu corpo a marca do Cristo Crucificado. São Boaventura, na sua Legenda Maior, de forma poética descreve: “Depois que o verdadeiro amor de Cristo transformou o amante na própria imagem, (...) Francisco, o homem angélico, desceu do monte, trazendo consigo a imagem do Crucificado, não esculpida em tábuas de pedra ou de madeira pela mão de um artífice, mas desenhada nos membros de carne pelo dedo do Deus vivo” (LM 13, 5). Poderíamos sintetizar que a experiência de Francisco no Monte Alverne é o coroamento de toda a sua identificação com o Crucificado, que se iniciou na igrejinha dedicada a Cosme e Damião, no início do seu processo vocacional. Ele poderia, agora, expressar como São Paulo: “pois eu trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6, 18).

Encontro com as criaturas

Zonnelied van St. Francisci - Kapucijnenkerk - Biezenmortel

Somente uma pessoa profundamente marcada pela graça de Deus, ao final da vida, soube integrar-se totalmente com o Criador, com os irmãos e com a criação, a ponto de chamar a morte de irmã. Um homem que chegou ao final da vida alquebrado, com o corpo marcado por várias doenças, com sérios problemas de visão soube entoar o seu Te Deum sobre o mundo. Entrando numa sintonia profunda com o mundo a sua volta, convida os animais, o sol, a lua, enfim, o cosmos para elevar o seu louvor àquele que foi definido por ele como Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor.  

Encontro com Jacoba de Setessoli

Francisco mantinha amizade com uma nobre senhora romana, viúva, e costumava hospedar-se na casa dela por ocasião de suas idas a Roma. Era uma amizade tão forte, que Francisco desejou, ao final da vida, receber sua visita e comer um tradicional doce, à base de amêndoas e mel, preparado pela amiga, chamado mostacciolo. Pede aos seus irmãos que escrevam uma carta solicitando que a amiga traga um tecido de cor cinza para confeccionar uma túnica, além do famoso mostacciolo. Enquanto o frade procura um portador para levar a carta, alguém bate à porta do convento. Era a senhora Jacoba que chegava até o convento, trazendo as encomendas pedidas por Francisco, moribundo. O frade avisa Francisco que ela havia chegado miraculosamente à portaria do convento e indaga-lhe como procederiam, pois não era permitido a uma mulher entrar na clausura conventual. Francisco ordena que “esta prescrição não deve ser observada com relação a esta senhora, a quem tão grande fé e devoção fez vir até aqui de regiões longínquas” (CA 8, 12). Assim, as portas da clausura se abrem para que a amiga possa encontrá-lo no leito de morte. Francisco pôde saborear o mostacciolo, preparado com tanto carinho por Jacoba. Poderíamos dizer que, saciado com uma espécie de viático e confortado por sua amiga, Francisco prepara-se para empreender a sua viagem para junto do Altíssimo. Jacoba de Settesogli também havia levado, além do doce e do pano para a túnica mortuária de Francisco, velas e incenso para serem queimados nas suas exéquias. Um detalhe importante relativo à cripta em Assis, onde se encontra o corpo de Francisco, é que, entre as duas escadas que dão acesso à cripta, estão os restos mortais da sua amiga Jacoba. Num espaço onde estão os restos mortais de Francisco e os de vários companheiros, podemos contemplar a presença feminina de Jacoba de Settesogli.

Encontro com a Irmã Morte

Assisi - basilica di Santa Maria delgi Angeli - Cappela del transito, affresco nell'esterno raffigurante - morte di san Francisco

Na sociedade em que vivemos, as pessoas têm muita dificuldade de lidar com o mistério da morte. Evita-se em alguns círculos falar sobre esse tema. De outro lado, buscam-se técnicas científicas para se viver mais tempo. Nos hospitais, prolonga-se cada vez mais o estágio do doente no CTI, mesmo diante das poucas possibilidades de recuperação.

A figura de Francisco de Assis, mais uma vez, ajuda-nos a receber a morte como irmã, conforme expressava serenamente no seu Cântico ao Irmão Sol: “Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar”. Vem à minha cabeça a figura de Francisco, após uma intervenção oftalmológica malsucedida numa noite de tormentos, em meio à dor, rodeado por ratos, com os seus companheiros por perto, cantando o seu Cântico ao Irmão Sol e acrescentando estrofe, como fez por ocasião do conflito existente entre o bispo e o Podestá de Assis. Com esse encontro com a Irmã Morte, Francisco celebra a passagem do ser humano para encontrar-se com o Altíssimo, o Onipotente e o Bom Senhor.

Conclusão

Ao finalizar nosso percurso pelos diversos encontros ao longo da vida de Francisco, fica o desafio de perguntarmo-nos: qual é o reflexo deles na minha vida pessoal e fraterna? Como tenho revisitado meu chamado primeiro, aquilo que o profeta chama de voltar ao primeiro amor? Como tenho trabalhado ao longo da vida o meu “não me apropriar” de nada, nem de pessoas, nem de casa, nem de lugar, nem de coisa alguma? Como se inserir no meio dos “leprosos” de hoje? Como ir ao encontro dos “Sarracenos” de hoje? Como vencer a intolerância religiosa de hoje? Como cultivar e manter vivas as nossas amizades sinceras, como as que Francisco manteve com Clara e Jacoba de Setessoli? Como viver a radicalidade do mistério da encarnação e do mistério da Cruz, tão fortemente enraizados na nossa tradição franciscana? Como respeitar a criação e ver nela as marcas impressas do Criador? Como nos preparar com serenidade para nos encontrarmos um dia com a nossa Irmã Morte?

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[1] “Altíssimo, glorioso Deus, iluminai as trevas do meu coração, dai-me uma fé reta, uma esperança certa e caridade perfeita, sensibilidade e conhecimento, ó Senhor, a fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento”. (Oração diante do Crucifixo) – Cf. FF, p. 157.

[2] No texto, prefiro usar o termo “leproso”, pois é o vocábulo usado na Idade Média para descrever a doença que desfigurava o ser humano. Francisco expressa no seu Testamento que era amargo olhar para os leprosos. O termo usado hoje para a doença é hanseníase, e, ao ser diagnosticada, tem tratamento. Basta seguir as prescrições médicas e tomar os devidos medicamentos. Mesmo assim, ainda é vista na nossa sociedade com preconceito.

[3] Trata-se do I Fioretti, Capítulo XVI, intitulado: “Como São Francisco recebeu o conselho de Santa Clara e do Santo Frei Silvestre de que devia, pregando, converter muita gente; e pregou às aves e fez calar as andorinhas”. Cf. FF, p. 1514-1516.

[4] Prefiro utilizar a terminologia medieval (“Sarracenos”); é a que se encontra nos textos das nossas Fontes Franciscanas. Hoje utilizaríamos o termo “Mulçumanos”.

[5] Trata-se do I Fioretti, Capítulo XXI, intitulado: “Do santíssimo milagre que fez São Francisco, quando converteu o ferocíssimo lobo de Gúbio”. Cf. FF, p. 1525-1527.

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