“O bem e o mal são uma única coisa”*
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21/01/2019 Frei Vitor Vinicios da Silva é professor de filosofia e religioso na Ordem dos Frades Menores. Notícias “O bem e o mal são uma única coisa”*
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*Frase dita pelo filósofo da antiguidade Heráclito de Éfeso.

Diante de tempos fugazes ou líquidos, como diz o sociólogo Zygmunt Bauman, é necessário repensarmos as nossas formas de vidas, nossas escolhas e direções. Em vários âmbitos sociais enfrentamos crises e turbulências, mas é na chama da esperança que nos agarramos e afirmamos que é na escuridão de uma noite que enxergamos nitidamente as luzes ou é no vidro comum que se retira um diamante. Nesta perspectiva, refletiremos a religião como parte importante na compreensão do homem e das suas relações no escopo de apontar novos rumos. O escopo desse ensaio não é discutir a existência de um transcendente ou não, mas partir do fato de que existe uma relação, na maioria humana, entre o homem e o transcendente e é com base nessa relação que embasamos nossos atos e discursos.

Segundo um filosofo da antiguidade chamado Heráclito de Éfeso, em uma das suas frases celebres, afirmou que “O bem e o mal são uma única coisa”. Evidentemente, não quer dizer que são a mesma coisa, mas no sentido de que não se pode compreender a noção de bem sem ter a noção de mal, ou vice-versa. Comparado a semelhança de uma ladeira que tem um único caminho, ou seja, o caminho para cima é também o caminho para baixo, muda-se apenas a direção. Assim, se abolirmos o caminho para cima o mesmo ocorrerá com o caminho para baixo. Em outras palavras, se abolirmos o mal aboliremos também o bem e, assim, podemos afirmar que a religião ao insistir no bem também insistirá no mal.

Nessa ótica o mal que recai sobre nossa tradição religiosa e que persiste em nosso imaginário não precisa, e nem deve, ser direcionado e afirmado nas minorias, ou seja, nos negros (as), nas mulheres, nos indígenas, nos quilombolas, nos LGBTQ+ e outros tantos aqui não mencionados. As minorias pintadas como mal nos discursos hipócritas que ouvimos deve ser libertada dessas amarras. O mal deve ser sim, direcionado como pobreza, intolerância, preconceito, violência e outros tantos males que assombra nossa sociedade.

Nesta tentativa de mudar os rumos da sociedade cristã, que de certa forma ainda se encontra fria e mórbida diante das grandes mazelas e sofrimentos dos mais pobres e desfavorecidos, que apontamos para necessidade de se entender o “ser” cristão. O “ser” cristão deve ser uma opção consciente e não uma herança familiar, em que, cumpre-se ritos frios e saudosistas. Por outro lado, aqueles que se identificam como cristão devem, conscientes, aderirem o projeto de Jesus Cristo, que numa simples frase resumiu todo o seu ideal de vida: “amar o próximo como a ti mesmo”. Esse próximo falado e pregado por Jesus pode ser compreendido, segundo a filosofa Edith Stein, na sua seguinte citação:

“o próximo não é aquele que eu amo, mas todo aquele que se aproxima de mim.  Assim, compreendendo dessa forma, permitiremos que o outro seja ele como for, de que cor for, de que orientação sexual for... ser aceito e amado. Pois, além de tudo o outro é essencial para que a minha própria existência tenha sentido.

Em consonância com essa compreensão deixaremos de pulverizar discursos, pregações, palestras e homilias frias e alienadas da realidade. Se não entendermos que o ser cristão deve estar entrelaçado com uma opção por um projeto de vida, no qual, tem como prioridade os pobres e violentados de nossa sociedade, morremos no caminho.  Em outras palavras, continuaremos elucubrando palavras belas, citações e exegeses que transmitem apenas vaidades acadêmicas e que no fim apaga a luz dizendo: “diante de incertezas da atualidade não percamos a esperança! ”. Ora, enquanto os desvalidos e os pobres, não apenas de âmbito econômico, mas os pobres de carinho, de atenção, de amor, de terras e várias outras pobrezas, estiverem morrendo e nós não sensibilizarmos, acorrerá aquilo que já vislumbramos na atualidade, a perda da fé, da esperança e do compromisso com a religião. Não diferente do que aconteceu com Heráclito que se escarneceu da religião de sua época, pois afirmou que não é através de ritos e sacrifícios que os homens se tornarão bons! Enfim, aos que se identificam como cristãos digo, a maneira de Heráclito: “Em vão se purificam se manchando-se de sangue, como se alguém que caminhasse na lama lavasse os pés na própria lama. Qualquer homem que o visse agir assim o consideraria louco”, como já muitos na história consideraram a religião. 

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