O silêncio na liturgia
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23/03/2018 Revista de Liturgia O silêncio na liturgia
Momento de silêncio na missa
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Por: Jerônimo Pereira Silva

Artigo extraído de: Revista de Liturgia, Ano 44 – 261 – maio/junho 2017, p.21-24.

Recentemente, em visita a minhas tias idosas, no sertão paraibano, fui convidado pelo pároco do lugar a presidir a celebração eucarística dominical na comunidade paroquial. Era a solenidade da Epifania.

Como se tratasse da minha primeira presidência naquela comunidade, na sacristia, pedi ao acólito, que também fazia a função de cerimoniário, que me indicasse qualquer “forma particular” daquela comunidade no modo de celebrar, para não desrespeitar o jeito costumeiro da assembleia.

Depois da homilia, feita do ambão, dirigi-me à sede e sentei-me para um breve momento de meditação silenciosa, minha e dos fiéis. Ao perceber que me sentara, o acólito agitou-se, dirigiu-se a mim e “recordou-me” que, depois da homilia, sendo uma celebração dominical e ainda mais uma solenidade, era costume da paróquia recitar o Credo. Perguntei se seria possível fazer uma pausa silenciosa, ao que me respondeu que não, pois no jornalzinho, não estava prevista nenhuma pausa entre a homilia e a profissão de fé! Constrangido, obedeci!

Depois da celebração me dei conta de que o cerimoniário, em certo sentido, tinha “razões” para me fazer tais observações. Primeiro, porque eu, por excesso, lhe pedi; depois, de fato, o jornalzinho, que infelizmente substitui em muitas realidades o Missal, não o previa; e, por fim, por estar “fora de moda”, o silêncio tornou-se problema também na liturgia.

O silêncio na experiência humana

A sociedade atual vive imersa em caótica situação de constante barulho que preenche todo o “espaço temporal” da vida humana. A noite, por exemplo, que era tempo de recolhimento, depois da iluminação dos centros urbanos, vem perdendo sempre mais a sua identidade de “espaço silencioso”. Por causa do trabalho ou de outras atividades diurnas, as diversões e as reuniões sociais, permeadas de músicas em alto volume, se transferem cada vez mais para o âmbito noturno. Há jovens que praticamente inverteram o relógio biológico, dormindo de dia e se movimentando à noite.

No plano social e político, o silêncio incorporou uma conotação negativa como ausência de palavra e como forma de submissão. Calar, quando é imperativo falar, faz do silêncio símbolo de cumplicidade e de consentimento. “Quem cala, consente”, diz o ditado popular. Em toda convivência humana, o silêncio pode se apresentar ambíguo, isto é, pode indicar abertura, escuta e presença solidária, e pode também ser sinal de indiferença, de ódio e de vingança. Tal silêncio torna-se barulhento, ensurdecedor, duro.

Mas existe o silêncio como exigência da palavra. É o silêncio que provoca interrupções1, suspende o som, valoriza a pausa, chama à atenção, equilibra a respiração e, consequentemente, traz descanso ao corpo. O ritmo silêncio-palavra pertence à natureza mais profunda do ser humano e é tão valioso que sem o silêncio a palavra pode se perder no vazio. O silêncio é condição para que a palavra seja ouvida.

O silêncio tem a sua própria voz que comunica o que a palavra não é capaz de dizer, por isso o provérbio popular ensina que "a palavra é de prata, mas o silêncio é de ouro”. Graças ao silêncio o ser humano aprende a olhar para si mesmo, profundamente, seriamente.

O silêncio: um valor litúrgico recuperado

À luz do paradigma da participação ativa na liturgia, a atitude dos fiéis que piedosamente iam ã igreja, antes do Concílio Vaticano II, era a de “assistir” às cerimônias "em silencio”. No caso concreto da celebração eucarística, encontrávamos um “mutismo” comunitário, um silêncio substitutivo da palavra, indicador de não pertença ã ação que se desenvolvia quase toda a voz submissa, diante dos olhos da assembleia. Um silêncio que se revestia de um aspecto de “temerosa reverência” e estranheza ao rito, próprio da chamada devotio moderna, surgida a partir do ano 13002. A própria estrutura ritual era de tal modo arquitetada que os fiéis se sentiam obrigados a “participar” como “estranhos ou mudos espectadores” (SC 48). O silêncio estava desconectado da Palavra.

A Constituição litúrgica Sacrosanctum Concilium (SC) propõe uma reforma na qual a palavra ganha toda a sua importância, tanto a palavra da Escritura, como a palavra da oração da Igreja. Em seu artigo 30, quando trata da forma concreta de participação ativa dos fiéis na liturgia, sublinha a importância do silêncio: “Para fomentar a participação ativa, promovam-se as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos, bem como as ações, gestos e atitudes corporais. Não deve deixar de observar-se, a seu tempo, um silêncio sagrado”. Este termo, “silêncio sagrado”, foi tomado da Instrução “De Musica Sacra” de 3 de setembro 1958. A Instrução de 1958 acolheu o tema com serenidade pois já havia mais de 10 anos que se refletia sobre ele e, mais tarde, João XXIII o retomou, modestamente, na reforma do “Código das rubricas” de 19613.

Com a publicação dos novos livros litúrgicos e dos documentos que regulam a aplicação de SC, o silêncio foi abundantemente valorizado, agora profundamente vinculado à palavra, como exigência da palavra. Já em 1966, em se tratando da restauração da Oração dos Fiéis, fala-se de uma forma de “participação feita por meio da oração em silêncio” que “pode dar uma admirável plenitude à oração”4. Em 1967, se sublinha que, por meio do silêncio, os fiéis se inserem mais intimamente no mistério que celebram, “por causa da Palavra de Deus que escutam, dos cânticos e das orações que se pronunciam”5. Nos diversos ritos dos sacramentos e dos sacramentais aparecem: imposição das mãos em silêncio (no rito de Ordenações, da Unção dos Enfermos); silêncio após o convite à oração (rito da Profissão Religiosa, rito da Penitência), depois das exortações (rito das Exéquias) e especialmente depois das leituras, durante a Liturgia da Palavra.

a) O silêncio na missa, conforme a Instrução Geral do Missal Romano (1GMR):

Oportunamente, como parte da celebração, deve-se observar o silêncio sagrado. A sua natureza depende do momento em que ocorre em cada celebração. Assim, no ato penitencial e após o convite à Oração, cada fiel se recolhe; após uma leitura ou a homilia, meditam brevemente o que ouviram; após a Comunhão, enfim, louvam e rezam a Deus no íntimo do coração.

Convém que já antes da própria celebração se conserve o silêncio na igreja, na sacristia, na secretaria e mesmo nos lugares mais próximos, para que todos se disponham devota e devidamente para realizarem os sagrados mistérios (45, grifo nosso).

Ritos iniciais

Em seguida, o sacerdote convida para o ato penitencial, que após breve pausa de silêncio, é realizado por toda a assembleia através de uma fórmula de confissão geral, e concluído pela absolvição do sacerdote, absolvição que, contudo, não possui a eficácia do sacramento da penitência (51).

A seguir, o sacerdote convida o povo a rezar; todos se conservam em silêncio com o sacerdote por alguns instantes, tomando consciência de que estão na presença de Deus e formulando interiormente os seus pedidos. Depois o sacerdote diz a oração que se costuma chamar “coleta”, pela qual se exprime a índole da celebração (54).

Liturgia da Palavra

(...) No fim [da proclamação da primeira leitura], o leitor profere a aclamação: Palavra do Senhor, respondendo todos: Graças a Deus. Se for oportuno, pode-se, então, observar um breve espaço de silêncio, para que todos me-ditem o que ouviram (128).

Se houver uma segunda leitura antes do Evangelho, o leitor a proclama do ambão, enquanto todos escutam, respondendo, no fim, com a aclamação, como se disse acima (n. 128). Em seguida, se for oportuno, pode-se observar um breve espaço de silêncio (130).

Após a homilia, convém observar um breve tempo de silêncio (66). O sacerdote, de pé junto à cadeira ou no próprio ambão, ou ainda, se for oportuno, em outro lugar adequado, profere a homilia; ao terminar, pode-se observar um tempo de silêncio (136).

(Oração dos Fiéis) O povo, de pé, exprime a sua súplica, seja por uma invocação comum após as intenções proferidas, seja por uma oração em silêncio (71).

Liturgia Eucarística

Inicia-se a Oração eucarística, centro e ápice de toda a celebração, prece de ação de graças e santificação. (...) A oração eucarística exige que todos a ouçam respeitosamente e em silêncio (78).

Comunhão

O sacerdote prepara-se por uma oração em silêncio para receber frutuosamente o Corpo e Sangue de Cristo. Os fiéis fazem o mesmo, rezando em silêncio (84).

Terminada a distribuição da Comunhão, ser for oportuno, o sacerdote e os fiéis oram por algum tempo em silêncio (88).

Ritos finais

A seguir, de pé, junto à cadeira ou ao altar, voltado para o povo, o sacerdote diz, de mãos unidas Oremos, e de mãos estendidas, recita a Oração depois da Comunhão, que pode ser precedida de um momento de silêncio, a não ser que já se tenha guardado silêncio após a Comunhão. No fim da oração, o povo aclama: Amém (165).

b) O silêncio na celebração do Oficio Divino, segundo a Instrução Geral da Liturgia das Horas (1GLH):

Nas ações litúrgicas deve-se procurar, em geral, que “se guarde também, a seu tempo, um silêncio sagrado”; por isso haja ocasião de silêncio também na celebração da Liturgia das Horas (201).

Para facilitar a plena ressonância da voz do Espírito Santo nos corações e unir mais estreitamente a oração pessoal com a Palavra de Deus e com a voz pública da Igreja, pode-se fazer uma pausa de silêncio após cada salmo, depois de repetida a sua antífona, de acordo com antiga tradição, sobretudo se depois do silêncio se acrescentar a oração sálmica; ou também após as leituras, tanto breves como longas, antes ou depois do responsório. Contudo evite-se introduzir um silêncio tal que deforme a estrutura do ofício, ou que ocasione aos participantes, mal-estar ou tédio. (202)

E ainda: “Após a leitura ou a homilia, se for oportuno, pode-se guardar um momento de silêncio” (48). Também nas preces (cf. 193) e no exame de consciência das completas.

Silêncio, parte integrante da ação litúrgica

O silêncio na liturgia restaurada pelo CV II pertence ao presidente e ao povo de Deus conjuntamente e, sendo parte integrante da celebração (cf. IGMR 45), não deve ser considerado como recurso para criar um clima de passagem entre uma ação e outra6, mas deve ser praticado como silêncio de espera e preparação, de acolhida e adoração, de escuta e resposta meditativa à palavra7. Romano Guardini disse uma vez: “Se alguém me perguntasse onde começa a vida litúrgica, eu responderia: com a aprendizagem do silêncio. Sem ele, tudo é pobre de seriedade e fica vazio... O silêncio é a primeira condição antes de qualquer ação sagrada”8.

O silêncio de espera e preparação é consciência de si mesmo e da presença de Deus, é atitude de adoração. É a condição para que a Palavra possa encontrar ressonância nos corações. O Silêncio na liturgia está profundamente ligado à Palavra, à escuta do Senhor que fala ao seu povo. Nesse sentido, não basta respeitar os momentos de silêncio ao longo da celebração, é importante que o silêncio esteja presente na fala espaçada do leitor ao proclamar um texto bíblico, ou de quem preside, ao dizer, em nome da assembleia, uma oração, para que, nas entrelinhas da palavra de Deus e da Igreja, se escute a voz do Espírito.

A participação litúrgica tão evocada na reforma do Concilio supõe o silêncio como atitude: o calar os sons exteriores e as vozes interiores, o aguçar todos os sentidos, seja para escutar uma leitura ou acompanhar uma oração, seja para cantar uma música, tudo se destina a voltar nossa atenção para o Senhor que se manifesta, que fala ao coração, que responde aos nossos anseios e reanima a esperança. E o silêncio culmina na comunhão, que é saborear a presença na intimidade do coração, uma presença que se manifesta em sinais. Ficamos aí presentes com todo nosso ser, em comunhão com o Senhor.

É o silêncio vivido como espaço de abertura à presença de um Outro que nos confirma como sujeito celebrante9, que nos dá a identidade de uma autêntica pessoa no seio da Igreja (cf. IGLH 202). O silêncio se apresenta como a abertura viva, eficaz e fecunda da parte do coração do crente na direção do infinito, é o abatimento de toda e qualquer defesa diante do manifestar-se de Deus, é a ação que preenche a experiência do gozo da divina liberdade no espírito humano. O silêncio na liturgia se coloca em direta relação com a experiência mística.

A liturgia está em estreita relação com a contemplação, em virtude da sua dimensão mistérica que introduz no grande silêncio de Deus. Apesar de estabelecer um encontro dialógico no qual a pessoa se abre à palavra de Deus que o ilumina e o santifica, a ação litúrgica permanece sempre um encontro misterioso com Deus [...] É um Deus que, ao denunciar a presunção do ser humano que pensa saber e, portanto, determina como Deus deve ser e comportar-se, ensina que o melhor elogio é o silêncio (...). A liturgia ritualiza o silêncio, mas em todo caso, não devemos esquecer que a linguagem e a gestualidade rituais, em seu simbolismo, são uma “a-logia”, ou seja, uma expressão típica de quem se sente incapaz de expressar-se; uma comunicação para além das possibilidade dos meios comumente utilizados; são, resumidamente, o silêncio eloquente de quem se encontra e se entende em uma aceitação amorosa.10.

Concluindo

Pastoralmente, sente-se a necessidade de recuperar, com urgência, a dimensão ritual do silêncio dentro das nossas celebrações litúrgicas. Desde o cuidado com o espaço celebrativo, eliminando os ruídos visuais, até o respeito aos momentos de silêncio previstos pelo rito e o modo de conduzir toda a celebração. Um grito que ecoa por toda parte refere-se ao canto, muitos vezes massacrado pelos ruidosos instrumentos, monopolizado pelo pequeno grupo... A boa música (letra e melodia), adequada ao tempo e ao momento celebrativo, tem uma força própria para conduzir ao silêncio, desde que os instrumentistas e cantores contribuam para isto.

Somente o aprendizado do silêncio possibilitará que a formalidade e o rubricismo deem lugar a um estilo orante e mistagógico, onde a assembleia possa viver em profundidade a fé que professa.

Jeronimo Pereira da Silva, monge beneditino, Olinda, PE. jeronimo.osb@gmail.com

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1 Cf. BONACCORSO, G. FI tempo come segno: vigilanza, tes- timonianza, silenzio. Bologna: EBD, 2004, p. 75.

2 Cf. ARTUSO, L. Liturgia e spiritualità. Profilo storico. Padova: Messaggero, 2002, p. 171.

3 Cf. Vagaggini, C. Fl senso teologico delia liturgia. Saggio di liturgia teologica generale. Roma: Paoline, 1958a, pp. 243-245; CASEL, O. Ü mistero delVEcclesia. Roma: Città Nuova, 1955, pp. 291-293.

4 De oratione communi seu fidelium. Natura, momentum ac structura. Criteria atque specimina Coetibus territo- rialibus Episcoporum proposita, 12b, EnchVat II, 655.

5 Sacra Congregatio Rituum, «Instructio De musica sacra», 17, AAS 50 (1958) 639.

6 Cf. MAGGIANI, S. «II silenzio: per celebrare ‘in Spirito Santo'», RL 76 (1989) 371.

7 O silêncio na liturgia, restaurado pela reforma litúrgica, encontra suas raízes e inspiração tanto na tradição: cf. CECCHETTI, I. «“Tibi silentium laus”», in Miscellanea litur- gica in honorem L. Cuniberti Mõhlberg, II. Roma: Edizioni Liturgiche, 1949, pp. 521-523; e no aspecto sócio-reli- gioso: cf. DUVAL, R. «Les herméneutiques du silence», La vie spirituelle 621 (1977) 316-520; quanto às Sagradas Escrituras: cf. RIDOUARD, A. «Silenzio», in Dizionario di Teologia Biblica, ed. X. Leon-Dufour. Genova: Marietti, 19955, pp. 1206-1207.

8 GUARDINI, R. La messe. Paris: Cerf, 1957, p. 20.

9 Cf. Bonaccorso, G. «II ritmo silenzio-parola nel rito. Riflessione antropologica», RL 76 (1989) 333-334; Ma- ggiani, S. «Celebrare il mistero di Cristo alia luce della riflessione pneumatologica», in Spirito Santo e Liturgia. Atti della XII Settimana di Studio delVAssociazione Pro- fessori di Liturgia, Valdragone (S. Martino); 22-26 agosto 1983. Casale Monfort: Marietti, 1984, p. 71.

10 RUFFINI, E. «Celebração Litúrgica», in Dicionário de Espiritualidade, ed. S. De Fiores - T. Goffi.São Paulo: Paulinas, 1989, pp. 170-171.

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