O paradoxo do individualismo na vida comunitária religiosa
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26/04/2018 Anderson Neves O paradoxo do individualismo na vida comunitária religiosa
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Nos dias de hoje, o homem se encontra em uma crise existencial tremenda, na qual o paradoxo comunitário x indivíduo faz ecoar nas diversas esferas de sua vida. Tal crise vivenciada pelo homem contemporâneo está relacionada ao seu “eu”, ao que o “eu” quero, desejo e sonho. Quando, na modernidade, o homem deixou de viver o senso de pertença a um “nós” e passou a viver no solipsismo do “eu”, surgiu um fenômeno chamado individualismo.

Augusto Cury, no livro “Nunca Desista dos Seus Sonhos” nos relata que há uma grande diferença entre o individualismo e a individualidade. Segundo ele, o individualismo é uma característica doentia da personalidade, ancorada na incapacidade de aprender com os outros, na carência de solidariedade, no desejo de atender em primeiro, segundo e terceiro lugar aos próprios interesses, ficando em último lugar as necessidades dos outros. A individualidade, por sua vez, estaria ancorada na segurança, na determinação, na capacidade de escolha. Por essa razão, Cury a considera uma característica muito saudável da personalidade, ao mesmo tempo em que lamenta a nossa tendência antrópica em desenvolver frequentemente o individualismo e não a individualidade. Tal situação, leva o indivíduo a entrar numa crise da qual não se mostra desalienado o bastante para sair, senão, com ajuda profissional.

Da modernidade para cá, o “eu” se tornou o centro do universo, todavia, fato é que a própria dinâmica da existência tem feito mostrar que o homem não da conta deste “eu” sozinho. Já dizia Tom Jobim: “Fundamental é mesmo o amor. É impossível ser feliz sozinho”. Desta forma, para ludibriar a solidão que o aterroriza, não é raro o indivíduo se isolar nas redes sociais, atitude que lhe permite certa fuga do “mundo real”, por conseguinte, experimentar uma vida ilusória, num mundo alheio à realidade, onde ele pode ser quem ele quiser e o que quiser, menos ele mesmo. Nas redes sociais, convive-se virtualmente com o outro, logo, o eu não precisa se defrontar com os problemas alheios. Com efeito, quem, nos dias de hoje, detém-se a pensar verdadeiramente nos problemas do outro? Quem se ocupa a refletir sobre o sentido da amizade e do companheirismo? Quem enxerga as dificuldades do outro desde a lógica da alteridade, isto é, como sendo, de alguma maneira, também seu problema? A ausência de respostas, ou a negativa das mesmas nos leva a pôr em xeque a existência de verdadeira amizade, ao mesmo tempo em que constatar que, o que denominamos amigos, quase sempre, não passam de “companheiros de prazer”. O homem não nasceu pra ser indivíduo, mas sim comunitário, foi assim desde os primórdios”. Entretanto, ainda que viva em grupos, parece ter se esquecido do verdadeiro significado de comuna.  

Transpondo tal situação à vida religiosa atual, é com pesar que notamos que, nos últimos tempos, conscientes ou não, os religiosos tem se inclinado mais a tendência secularizante do individualismo do que ao ideal da vida comunitária (salvo nosso relacionamento pessoal com Deus, que, a propósito, pode se mostrar tão individualista quanto). Uma frase que se torna corriqueira hoje, quase um axioma é a de que: “cada um cuide da sua caminhada”, ou “cada um cuide de seu processo”. De fato, cabe a cada sujeito se responsabilizar pela dinâmica de sua existência, cabe a cada qual dar conta daquilo que é ou pretende ser, sem transferir responsabilidades para terceiros. Não obstante, deve-se ter claro que, responsabilizar-se por si mesmo não é fechar-se no próprio egoísmo, mas sim, empreender um trabalho sobre si, afim de que, mais inteiro nas próprias questões, poder melhor caminhar com os outros. Nascemos de fato pra caminhar sozinhos? De fato damos conta de caminhar sozinhos?

No dia 10 de dezembro de 1968, Thomas Merton proferiu sua última conferência no Encontro Ecumênico de Monges da Ásia, em Bangkok/Tailândia[1]. Ele Falara sobre Marxismo e Perspectivas Monásticas. Na ocasião, Merton argumenta que só é possível viver a utopia do comunismo dentro da vida religiosa, especificamente, da vida monástica. Em definições, o Comunismo é uma doutrina social, segundo a qual, pode-se e deve-se "restabelecer" o que se chama "estado natural", em que todos teriam o mesmo direitos a tudo, mediante a abolição da propriedade privada. Importa esclarecer que, aqui, não queremos dizer que a vida religiosa é um comunismo, até porque, este deixa de lado algo fundamental para nós cristãos: a compreensão de Reino de Deus. Contudo, é possível perceber algumas semelhanças no âmbito comunitário.

Em Atos dos Apóstolos 2, 44-45, relata-se que todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum. Aqueles que abraçavam o modo de vida cristão vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um. Com efeito, eles nada mais faziam que aquilo que Jesus os convidara a fazer: viver uma vida de comunhão, desapropriar-se do próprio, do privado, do individual, em função do bem estar do todo, da comunidade de fé; a saber, algo que temos tamanha dificuldade em realizar nos tempos de hoje, dado ao individualismo que se nos impõe. Dentro de inúmeras casas religiosas, torna-se cada vez mais visível o senso do privado tomando o lugar do comunitário. À título de exemplo, basta-nos atentarmo-nos ao fato de que, embora convivamos, não conhecemos aqueles a quem chamamos de irmão de caminhada, não temos informações básicas sobre a sua vida, não sabemos nada acerca de sua família, gostos, limitações, etc.

O individualismo que cada vez mais se entranha na vida religiosa, torna impossível o autêntico conhecimento e reconhecimento do irmão. A consequência disso são os problemáticos pré-conceitos que fazem minar de vez qualquer possibilidade de convivência legítima, de maneira tal que, como diria Lulu Santos em “Uma onda no mar”: “tudo que se vê não é”.

O pensador Heidegger, pondera que o dasein, o ser aí, é um ser de cuidado, para consigo e para com os outros. No contexto do individualismo no geral, mas também, no âmbito religioso, o verbo “cuidar” ganhou uma conotação bastante pejorativa, ao passo que, se se vê um irmão andando errante, pensa-se logo: “vou cuidar da minha caminhada, ele que se dane com suas mazelas”. Nessa perspectiva, as palavras de Jesus no evangelho de Mateus são bastante questionadoras: "Se teu irmão tiver pecado contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele somente; se te ouvir, terás ganho teu irmão. Se não te escutar, toma contigo uma ou duas pessoas, a fim de que toda a questão se resolva pela decisão de duas ou três testemunhas. Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano. (Mt 18, 15 – 17).

Neste ponto, o termo, "Se teu irmão tiver pecado contra ti!” não deve ser tomado tão somente em seu sentido particular, mas também coletivo. Ora, pois, quando um irmão que vive dentro de uma comunidade peca, ele não peca apenas contra um, mas sim contra a comunidade inteira. Hoje, na vida comunitária, é inadmissível a correção fraterna, se esta não proceder da parte de um superior. Assim, vestimos nossa armadura individualista e palavreamos em alto tom: Quem é você pra me corrigir? Por acaso é meu formador? Com efeito, nesse mundo, somos eternos formadores e formandos, sempre temos algo a aprender, todavia, precede ao aprendizado a humildade e a acolhida da crítica construtiva alheia.

Faz-se necessário elucidar que, adverso ao "cuidar" é "bisbilhotar a individualidade alheia". O bisbilhoteiro é aquele que tem o mau hábito de espiar pelo “buraco da fechadura”, aquele que invade a invidualidade do outro com o perverso propósito de controlar os seus passos e determinar os seus atos; quem puder entender, entenda.

Portanto, urge que voltemos à genuína vivência fraterna, mas isso só será possível na medida em que nos virmos capazes de nos libertarmos da tirania do “eu”, isto é, de arrancarmos de dentro de nós, a medida de nossas forças, as tendências egoístas e individualistas que nos habitam, para então, nos abrirmos ao processual conhecimento mútuo, sem perder a nossa identidade (individualidade), tampouco, sem violar a subjetividade alheia.

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[1] MERTON, Tomas. Conferência Ecumênica a Monges Asiáticos. Última aparição pública. Disponível em:  <https://www.youtube.com/watch?v=0m4sLu3iakQ>>.

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