Liturgia, um direito do povo
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03/04/2018 Revista de Liturgia Liturgia, um direito do povo
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Por: Jerônimo PEREIRA DA SILVA

Artigo extraído de: Revista de Liturgia, Ano 44 – 259 – janeiro/fevereiro 2017, p.24-26.

Em tempos de discussão sobre os direitos do povo, faz-se necessário que uma voz se levante para reclamar, em favor do povo batizado, um direito que lhe pertence por natureza: a Liturgia. Tanto a liturgia pertence ao povo batizado, que se torna por força da Iniciação Cristã um povo sacerdotal, portanto um “povo celebrante”, quanto o povo pertence à liturgia, que é essencialmente ato de fé comunitário.

Um direito natural

Já nos primórdios do cristianismo, no período apostólico e imediatamente depois, a liturgia cristã vai se distanciando lentamente dos lugares de culto dos judeus, templo e sinagoga e do conceito de sagrado veterotestamentário, basicamente separatista e exclusivista. O culto cristão, embora nascendo quase que naturalmente ou embrionariamente do culto de Israel, vai se caracterizando sempre mais como um culto de inclusão, proximidade e relação. O véu do templo que se rasga de alto a baixo no momento da morte do Salvador (cf. Mt 27, 51) é o sinal simbólico de que por uma ação divina o processo de mediação no culto da nova aliança se daria por meio de um único sacerdote, Jesus Cristo, do qual todo batizado se torna membro, portanto sacerdote no único Sacerdote. Pelo batismo os novos crentes são “incluídos” em Cristo, tornam- se agentes ativos da história da Salvação e passam a se relacionar com Deus com “certa proximidade”, mediante os ritos e as preces da nova aliança, que se caracterizam como momentos pontuais da vida de cada batizado e da comunidade dos batizados.

Para os antigos a liturgia cristã se configura como o culto perfeito que o Cristo total, cabeça e membros, presta ao Pai, no Espírito Santo, por meio dos ritos e das preces. Ela é o cume e a fonte da vida da Igreja, por isso os padres da Igreja a entenderam sempre essencialmente eclesial, comunitária. Na época de ouro da liturgia não se colocava a questão nem de direito nem de dever da liturgia porque ela estava no centro da vida cristã.

Um direito perdido-roubado

Muitos fatores, tais como a incompreensão do latim, o distanciamento das fontes, o processo de sacerdotalização, a mudança do método da mistagogia para a alegoria, ocorridos ao longo da Idade Média, roubaram lentamente do povo o direito de celebrar, cedido exclusivamente ao “sacerdote”. Ao “povo celebrante” se reservou tão somente o dever de assistir, na condição de agente passivo, o complicado cerimonial que se tornou a liturgia cristã, sempre mais distante da vida1.

Ao presbítero sacerdotalizado cabia um pesado fardo, em decorrência da falta grave e da excomunhão no caso de imprecisão no cumprimento das rubricas. Além do mais, a liturgia entrou na lógica do comércio: o povo se tornou a massa dos que recebiam os sacramentos e o clero os que os distribuíam. Do século XIII em diante, a Escolástica ensinava, entre outras coisas, que o culto não é um ato da virtude de religião; então diferentemente das virtudes teologais [fé, esperança e caridade], não tem como fim imediato o próprio Deus, mas unicamente o culto exterior (ajoelhar-se, incensar, juntar as mãos, o elevar os olhos...)2.

No fim da Idade Média se verificava uma progressiva e acentuada decadência da vida e da espiritualidade litúrgicas. Instalou-se uma clara distinção entre a hierarquia e o povo: a primeira direcionada a uma vida mundana e apegada somente à parte exterior do culto e o povo obrigado a refugiar-se numa piedade carregada de sentimentalismos, distante da experiência celebrativa e da Palavra de Deus. Acentuou-se a dimensão subjetiva: ver a hóstia era mais importante que comungar; mais importância a quantidade de missas do que a qualidade.

O Concílio de Trento no século XVI tentou um processo de purificação de uma realidade que se arrastava há séculos. Pressionado, todavia, pela Reforma Protestante, terminou por engessar a liturgia na tentativa de proteger o patrimônio da tradição. Afirmando a suficiência do mínimo necessário do sinal sacramental estimulou a reflexão na direção da “validade” sem qualquer tentativa de restituir o real valor dos sinais sacramentais. A obra reformadora de Trento, todavia, deve ser valorizada porque salvou a liturgia da crise do séc. XVI. É, no entanto, uma obra limitada: fixou a liturgia para superar a situação caótica da época, mas a afastou da vida real, transformando-a numa forma “congelada”, obrigando o povo a buscar a fonte da sua piedade nas devoções3.

Um direito recuperado

Impulsionado pelo movimento litúrgico do início do século XX, que cresceu e se desenvolveu especialmente na Europa sob a bandeira da “participação ativa dos fiéis” na liturgia, o Concílio Vaticano II desejou no seu espírito e na sua letra recuperar em todas as dimensões da Igreja aquilo que por direito pertencia ao povo e que ao longo dos séculos lhe fora subtraído. O elemento mais evidente e visível era a liturgia. Assim se expressou o Concílio (SC 14):

É desejo ardente da mãe Igreja que todos os fiéis cheguem àquela plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da Liturgia exige e que é, por força do Batismo, um direito e um dever do povo cristão, “raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido” (lPd 2,9; cf. 2,4-5). Na reforma e incremento da sagrada Liturgia, deve dar-se a maior atenção a esta plena e ativa participação de todo o povo porque ela é a primeira e necessária fonte onde os fiéis hão de beber o espírito genuinamente cristão. Esta é a razão que deve levar os pastores de almas a procurarem-na com o máximo empenho, através da devida educação.

O objetivo da restauração litúrgica promovida pelo Concílio foi o de restituir a liturgia ao povo e o povo à liturgia. Para a primeira se fazia necessário promover uma reforma dos ritos e para a segunda era urgente repensar teologicamente o sujeito celebrante. O Concílio se ocupou de ambas.

O sujeito celebrante da liturgia é o Corpo Místico de Jesus Cristo, cabeça e membros (cf. SC 7). A Igreja é a reunião daqueles que foram transformados pelo batismo em membros deste Corpo Místico. Ela é o corpo de Cristo, é a sua esposa e o seu sacramento (cf. LG 7-8). Por isso as ações litúrgicas não são obras de alguns privilegiados, mas de toda a Igreja (cf. SC 26). Nessa dinâmica, sacerdócio ministerial e sacerdócio comum dos fiéis, se exigem e se completam mutuamente (cf. LG 10; PO 5), pois ambos são expressões indistintas de uma Igreja povo sacerdotal (cf. lPd 2,9).

Ao menos sete elementos se constituem fundamentais entre os direitos readquiridos pelo “povo celebrante”, a saber: a celebração na própria língua (cf. SC 36; 54); a participação plena, consciente, ativa e frutuosa (cf. SC 19; 27; 48); o acesso ao tesouro mais abundante da Palavra (cf. SC 51); a música verdadeiramente litúrgica (cf. SC 112-121); o espaço litúrgico que ressalte a dimensão da assembleia como celebrante (cf. SC 124-125); a maior participação nos sinais sacramentais (cf., por exemplo, SC 55) e o acesso à beleza rica de nobre simplicidade (cf. SC 34; 123).

Um direito em jogo

Atualmente, assistimos quase que atordoados e incrédulos um movimento que tenta subtrair do “povo celebrante” o seu direito de povo sacerdotal com ampla articulação nas redes sociais. Uma clara afronta ao Concilio Vaticano II, com posturas rígidas e ultraconservadoras, que faz de jovens desinformados da história, da teologia da Igreja e da sua Liturgia, uma presa fácil. Um acentuado clericalismo se levanta contra o princípio bíblico assumido pelos Padres conciliares que fundamenta a “Igreja como povo de Deus” (cf. LG 9; CIC 782)4 e, mais ainda, contra a iniciativa evangélica do Episcopado latino-americano, que identifica a igreja com os que habitam nas periferias da existência humana.

A este espetáculo se une um poder midiático veiculado pelos meios de comunicação de massa que, desprezando os ritos católicos registrados nos livros litúrgicos, utiliza-se da linguagem verbal e não verbal da liturgia para a promoção narcisista da própria imagem, pretendendo ditar um modelo celebrativo claramente contrário à catolicidade.

Um direito “inegociável”

É abusivo roubar do povo o direito de rezar a Deus oficialmente na sua própria língua. Como já ressaltamos, a facilidade e acessibilidade à linguagem litúrgica se justificam pela urgência de que o ‘destinatário’ da mensagem a receba com clareza e dela participe de modo não passivo (cf. SC 59 e 90). Facilidade e simplicidade na Sacrosanctum Concilium não são sinônimos de empobrecimento, mas de completude, amplitude, abundância e até de superabundância, especialmente da Palavra de Deus (cf. SC 51. 92. 109). Descartam-se as repetições inúteis (SC 34) e as “cerimônias” que não dizem respeito à originalidade do rito cristão e que, muitas vezes, sobrecarregaram a liturgia de caráter supersticioso/mágico, de rigidez e “rubricismo jurídico” (SC 21). Eis porque a reforma se fez dentro de um acordo equilibrado entre a Santa Sé, com sua competência de promulgar a reforma (cf. SC 22,1), e as conferências episcopais, encarregadas de cuidar da inculturação (cf. SC 22,2, 36,3 e 63b).

Restaurada a “proclamação da Palavra de Deus na liturgia”5 se torna abusiva a sua subtração pela falta de preparo por parte do leitor, o descaso para com os livros da Palavra de Deus, a redução a um único leitor para a proclamação das leituras e, por fim, o despreparo da homilia por parte de quem preside a assembleia litúrgica. O povo tem direito a homilias mistagógicas e acessíveis na sua linguagem (cf. Lc 24,32)6.

É direito inalienável do “povo celebrante” uma música verdadeiramente litúrgica7. Que as estrofes do texto tenham o mesmo número de sílabas, métrica correta e rima que facilite a execução do canto. Que o texto seja poético, sem explicações supérfluas, bíblico ou inspirado na bíblia, especialmente nos salmos, que expresse o mistério celebrado.

No que diz respeito à melodia, é importante que tenha um fraseado popular, com suficientes pausas, para que possibilite o canto da assembleia. Que seja artística no sentido próprio do termo e evite melodias importadas, especialmente se tais melodias não pertencem originalmente a um canto litúrgico. É de bom tom que tais melodias gozem de caráter brasileiro, quanto às características melódicas e rítmicas e que estejam de acordo com o sentido do tempo e do momento ritual e que leve em conta as diferentes assembleias8.

A nobre simplicidade que deve resplandecer na liturgia (cf. SC 34) diz respeito à arte de celebrar, inclusive a do espaço litúrgico, que não é explicação, mas emerge do próprio mistério celebrado. O povo celebrante tem direito a uma arquitetura que manifeste a salvação com beleza e harmonia e que se configure como lugar de encontro com Deus e com os irmãos. 9 A iconografia que compõe tal espaço não é decorativa, tem antes a função de despertar a piedade dos fiéis em consonância com o que se celebra na liturgia, bem diferente da arte no período barroco, que mantinha os fieis concentrados enquanto o padre, sozinho, executava um rito incompreensível. A nobre simplicidade remete a uma arte despojada de ostentação, seja o próprio edifício, seja os elementos que o compõem, incluindo as vestes e os diversos utensílios. De fato, o “luxuoso” não pode ser compatível com o memorial do Servo de Deus, o crucificado-ressuscitado. Tampouco é compatível o descuido e o laxismo.

Jerônimo Pereira da Silva, monge beneditino, Olinda, PE. jeronimo.osb@gmail.com

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1 Cf. DA SILVA J. Ariovaldo. A presidência litúrgica na história. Alguns apontamentos. In Liturgia, um direito do povo, ed. J. Ariovaldo da Silva - Marcelino Sivinski, Vozes, Petrópolis 2001, 120-155.

2 Cf. B. BAROFFIO. Liturgia ed esperienza di Dio. Riflessioni liturgico-pastorale. In Liturgia, soglia deli’esperienza di Dio?, ed. A. N. Terrin, Messaggero, Padova 1982, 31.

3 Cf. M. AUGÈ. Liturgia, história, celebração, teologia, espiritualidade. Ave Maria, São Paulo 2007, 52.

4 Sobre o tema conferir a palavra do Papa Francisco na Audiência Geral de 12 de junho de 2013, em https:// w2.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2C13/ documents/papa-francesco_2013 0612_udienza-gene- rale.html

5 Cf. J. Pereira Silva. O lecionário bíblico dominical. Uma escola de fé e vida, RdL 250 (2015) 9-16.

6 D. Sartori. L’omelia. In “Flores vemantes...”. Trent’anni di studi e ricerche in liturgia, LEV, Città dei Vaticano 2002, p. 321-338.

7 Cf. S. MARTIN. Musica litúrgica e diritto canonico. Cenni sulVevoluzione normativa, CEDAM, Padova 2002.

8 Cf. J. Postma, in CNBB, Hinário Litúrgico, 2° fascículo, Quaresma, Semana Santa, Páscoa e Pentecostes. Cf. CNBB, Canto e música na liturgia. Princípios teológicos, litúrgicos, pastorais e estéticos, CNBB, Brasília 2005.

9 Cf. R. TAGLIAFERRI, Lo spazio architettonico nella perfor-mance litúrgica, in La tazza rotta, Messaggero, Padova 2009, p. 223-270.

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