Gênesis (1,1-2,4a) e Enûma Elîsh
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07/06/2018 Frei Jacir de Freitas Faria, OFM Gênesis (1,1-2,4a) e Enûma Elîsh
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Frei Jacir de Freitas Faria, OFM[1]

O contramito de Gn 1,1-2,4a e o mito da criação babilónico são correlatos discordantes. Ambos falam de deuses criadores. Neles aparecem o ser humano e a natureza como obras criadas. No primeiro, o ser humano é criado pela palavra criadora de Deus; no segundo, pelo sangue de um deus vencido.

Provavelmente, Gn 1,1-2,4a tenha sido redigido pela fonte sacerdotal, no início do século 5° antes da Era Comum (a.E.C.), na época do exílio da Babilónia ou pouco posterior a ele (587-536 a.E.C.). Os israelitas exilados ouviam dos babilónicos a narrativa de Enûma Elîsh (palavras iniciais do mito e que significam 'quando do alto'), descrevendo a crença mitológica que tinham na criação do mundo e do ser humano. Partimos do pressuposto de que Gn 1,1-2,4a nasceu nesse contexto e foi escrito em oposição, como contramito, resistência ao mito babilónico da criação.

Para compreender a relação entre os dois mitos, é importante levar em consideração, portanto, o contexto em que foram escritos. O exílio babilónico marcou profundamente os judeus que para lá foram levados. Lideranças do povo, centenas de milhares delas, vivendo longe da pátria, da religião e da cultura, tiveram a oportunidade de repensar a aliança que Deus tinha feito com eles. O judaísmo, como religião, nasceu naquela época, como memória da fé em Deus que os libertou do Egito. Eles se perguntavam: "Por que viemos parar nesse lugar?"; "Quem pecou? Nós ou nossos pais?".

O profeta Jeremias, debaixo de duras críticas e resistência, defendendo a tese de que o povo devia ir para o exílio na Babilónia, afirmava categoricamente que a culpa era deles e não dos pais.[2] Um provérbio popular dizia: "Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram" (Jr 31,29). Jeremias escreve que esse provérbio, tido como verdade para o povo, era para ser esquecido. No próprio exílio, é o profeta Ezequiel quem vai retomar esse provérbio e rebatê-lo duramente, chamando a atenção para a responsabilidade pessoal do exilado (cf. Ez 18). Os deportados acreditavam que o sofrimento do tempo presente era uma consequência fatalista do pecado cometido por seus pais. A solução para tal problema baseava-se no princípio de solidariedade. Os filhos deviam pagar pela culpa dos pais. Não podemos nos esquecer de que o decálogo já dizia: "(...) sou um Deus ciumento, que puno a iniquidade dos pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam" (Ex 20,5; Dt 5,9). Por outro lado, estaria Jeremias contra a Lei Mosaica, que insistia sobre os laços de solidariedade entre a família, os parentes e a tribo? Não. Apresentando ao povo a proposta de uma nova aliança com Deus (cf. Jr 31,31-34), ele diz que o futuro será um novo tempo em que os antigos provérbios serão abandonados e uma nova aliança será feita. É nesse contexto de exílio que o povo retoma a sua fé. Fazendo memória, eles se lembram das ações libertárias de seu Deus e as compara com as do deus babilónico Marduk. Nascem os contramitos. É como se eles estivessem afirmando: o nosso Deus é muito diferente do de vocês, babilónios. Passemos, então, às narrativas dos dois mitos.

Mito babilônico da criação Enûma Elîsh

Quando ainda não existiam o céu nem a terra, dois seres divinos, Apsü (o abismo, o oceano subterrâneo) e Tiâmat (o mar, princípio feminino) se uniram, e desta união nasceram sucessivamente todos os outros deuses. Mas como esses perturbavam o sono de Apsü, o progenitor decidiu destruí-los. Mas o prudente Ea soube de tudo. Com fórmulas mágicas fez Apsü dormir e o matou. Com o seu corpo construiu o Apsü, isto é, o mundo subterrâneo com o oceano de água doce. Assim, Ea tornou-se a divindade do subsolo, das fontes e dos rios. Tiâmat, para vingar o marido, gera um exército de monstros, que aterroriza os deuses, os quais, depois de muita discussão, elegem Marduk, filho de Ea, seu herói. Marduk aceita com a condição de que lhe sejam conferidas todas as prerrogativas dos outros deuses, o que lhe é concedido com enorme solenidade. Assim, o poema celebra de mítico o golpe de estado do deus Marduk,  que, de protetor da cidade de Babilônia, ascendeu ao ápice panteão sumérico-acádico, quando a primeira dinastia de Babilônia conquistou a hegemonia de todo o país. Marduk, armado dos pés à cabeça, prende Tiâmat em uma rede, despedaça-lhe o crânio com o chuço, depois, fendendo-lhe o cadáver em duas partes como uma ostra, com a parte superior forma o céu, pondo ferrolhos para represar as águas. Trata-se do mar celeste, que parece contrapor-se ao mar terrestre, aqui não citado. Feito isso, Marduk forma os astros e outras criaturas que não podemos especificar, dado a grande lacuna que existe no texto. As circunstâncias da criação da humanidade são estas: os deuses partidários de Tiâmat deveriam ser escravos dos outros, mas em uma assembleia os deuses vitoriosos decidem sacrificar um deles, o seu líder Qgun. Matam-no, e com seu sangue Marduk constrói a humanidade, à qual impõe o serviço dos deuses em lugar dos vencidos. Depois disso, em sinal de gratidão para com seu soberano, os deuses lhe constroem uma Babilônia celeste, com um templo para a sua residência. O poema termina com a celebração dos cinquenta nomes de Marduk.[3]

Contramito judeu da criação Gênesis 1,1-24a

Quando Deus iniciou a criação do céu e da terra, a terra era deserta e vazia, e havia treva na superfície do abismo; o sopro de Deus pairava na superfície das águas, e Deus disse: "Que a luz seja!" E a luz veio a ser. Deus viu que a luz era boa. Deus separou a luz da treva. Deus chamou a luz de dia e à treva chamou noite. Houve uma tarde, houve uma manhã: o primeiro dia. Deus disse: "Que haja um firmamento no meio das águas, e que ele separe as águas das águas!" Deus fez o firmamento e separou as águas inferiores do firmamento das águas superiores. E assim aconteceu. Deus chamou o firmamento de céu. Houve uma tarde, houve uma manhã: segundo dia. Deus disse: "Que as águas inferiores ao céu se juntem em um só lugar e que apareça o continente!" Assim aconteceu. Deus chamou o continente de terra; chamou de mar o conjunto das águas. Deus viu que isto era bom. Deus disse: "Que a terra se cubra de verdura, de erva que produza a sua semente e de árvores frutíferas que, segundo a sua espécie, produzam sobre a terra frutos contendo em si a sua semente!" Assim aconteceu. A terra produziu verdura, erva que produz a sua semente, segundo a sua espécie, e árvores que produzem frutos contendo em si a sua semente, segundo a sua espécie. Deus viu que isto era bom. Houve uma tarde, houve uma manhã: terceiro dia. Deus disse: "Que haja luminares no firmamento do céu para separar o dia da noite, que eles sirvam de sinal tanto para as festas como para os dias e os anos, e que sirvam de luminares no firmamento do céu para iluminar a terra". Assim aconteceu. Deus fez dois grandes luminares, o grande luminar para presidir o dia, o pequeno para presidir a noite, e as estrelas. Deus os estabeleceu no firmamento do céu para iluminar a terra, para presidir o dia e a noite e separar a luz da treva. Deus viu que isto era bom. Houve uma tarde, houve uma manhã: quarto dia. Deus disse: "Que as águas pululem de enxames de seres vivos e que o pássaro voe acima da terra em face do firmamento do céu". Deus criou os grandes monstros marinhos e todos os pequenos seres vivos dos quais pululam as águas segundo a sua espécie, e todo pássaro alado segundo a sua espécie. Deus viu que isto era bom. Deus os abençoou dizendo: "Sede fecundos e prolíficos, enchei as águas dos mares, e que o pássaro prolifere sobre a terra!" Houve uma tarde, houve uma manhã: quinto dia. Deus disse: "Que a terra produza seres vivos segundo a sua espécie; animais grandes, animais pequenos e animais selvagens segundo a sua espécie". Assim aconteceu. Deus fez os animais selvagens segundo a sua espécie, os animais grandes segundo a sua espécie e todos os animais pequenos do solo segundo a sua espécie. Deus viu que isto era bom. Deus disse: "Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança, e que ele submeta os peixes do mar, os pássaros do céu, os animais grandes, toda a terra e todos os animais pequenos que rastejam sobre a terra!" Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou; criou-os macho e fêmea. Deus os abençoou e lhes disse: "Sede fecundos e prolíficos, enchei a terra e regei-a. Vivei em harmonia com os peixes do mar, os pássaros do céu e todo animal que rasteja sobre a terra!" Deus disse: "Eu vos dou toda erva que produz a sua semente sobre toda a superfície da terra e toda árvore cujo fruto produz a sua semente; tal será o vosso alimento. A todo animal da terra, a todo pássaro do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que tem sopro de vida, eu dou como alimento toda erva que amadurece". Assim aconteceu. Deus viu tudo o que havia feito. Eis que era muito bom. Houve uma tarde, houve uma manhã: sexto dia. O céu, a terra e todos os seus elementos foram terminados. Deus terminou no sétimo dia a obra que havia feito. Ele cessou no sétimo dia toda a obra que fazia. Deus abençoou o sétimo dia e o consagrou, pois tinha cessado, neste dia, toda a obra que ele, Deus, havia criado pela sua ação. Este é o nascimento do céu e da terra quando da sua criação.

Comparação

Observando atentamente os dois relatos, percebemos há divergências entre eles:

A partir da comparação estabelecida, já se evidenciam resistências, em oposição do texto bíblico ao babilônico. Da mesma forma, a afirmativa de que Gn 1,1-2,4a não é uma ata da criação do mundo, mas uma manifestação de resistência ao pensamento oficial babilônico da criação, um contramito. Ele expressa poeticamente o pensamento dos deportados que, longe da pátria querida, sofrem a dominação do conquistador e testemunham a fé em Deus criador do mundo. Quais são, de fato, essas resistências? É o que veremos no próximo artigo.

Para saber mais sobre mitos e Contramitos bíblicos, clique aqui.

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[1] Escritor e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Acesse  www.bibliaeapocrifos.com.br

[2] Cf. FARIA, Jacir de Freitas. Profetas e profetisas na Bíblia: história e teologia profética na denúncia, solução, esperança, perdão e nova aliança. São Paulo: Paulinas, 2004. p. 117.

[3] Cf. BALLARINI, Teodorico. (Org.). Introdução à Bíblia, II/1. Petrópolis: Vozes, 1975. p. 162-163.

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