Formar-se é transfigurar-se: Inspiração evangélica para a Vida Religiosa Consagrada
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19/07/2018 Convergência Formar-se é transfigurar-se: Inspiração evangélica para a Vida Religiosa Consagrada
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Extraído de: Revista Convergência, novembro, 2017, Ano LII, nº. 506, p. 38-53.

Pe. Jaldemir Vitorio, SJ[1]

Formar-se é um enorme desafio para todo ser humano. Deus cumula de talentos seus filhos e suas filhas e coloca em suas mãos a tarefa de fazê-los desenvolver e frutificar. Uma coisa é certa: mesmo a pessoa mais agraciada de dons, se não investe, com afinco, na própria formação, jamais superará o nível da mediocridade. A vocação cristã interpela-nos a crescer, colocando os dons recebidos a serviço do próximo. Quanto mais se tornar servidora, com criatividade e generosidade, tanto mais a pessoa crescerá. Este é o caminho cristão da transfiguração, em cujo pano de fundo está o amor que se radicaliza, sempre mais, fazendo-nos semelhantes ao Deus-amor (ljo 4,16). São muitos os caminhos possíveis de serem trilhados na contínua aventura de se transfigurar no  processo de se formar.

Essa realidade tem muito a ver com a Vida Religiosa Consagrada (VRC).[2] Quem possui, de verdade, tal vocação, empenha-se de corpo e alma na dinâmica da formação inicial e permanente, descortinando um horizonte amplo de possibilidades de crescimento e de se tornar mediação valiosa da misericórdia divina para a humanidade. Os religiosos sem carisma são desinteressados pela formação, desconhecendo-lhe a importância, já nos primeiros passos da caminhada.

Um fenômeno persistente na VRC, porém, inaceitável, é o fato de os religiosos passarem pelo processo de formação inicial sem qualquer resultado prático na construção da identidade de consagrados, e assim continuarem a caminhada, por longos anos. Como se explica que um religioso, depois de décadas em uma Congregação, tenha o mesmo grau de maturidade que se pode compreender em um aspirante ou postulante prestes a ingressar no noviciado? Isso se percebe no caráter complicado da pessoa, quando não insuportável, na incapacidade de assumir, com maturidade, uma missão, pois não se adapta a nada que se lhe confia, na inércia, na carência de imaginação, na baixa autoestima, na exigência do bom e do melhor, nas reclamações contínuas, na culpabilização dos outros, acusados de serem causa de seus problemas. A lista dos sintomas de imaturidade de religiosos veteranos é infinda.

O objetivo desse texto é mostrar como o processo formativo, na VRC, quando bem conduzido e vivido, introduz o religioso em uma dinâmica de transfiguração, cujo ideal a ser alcançado, nas palavras do Evangelho, é: “Sede, portanto, perfeitos, como o Pai Celeste é perfeito” (Mt 5,48); “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Sem transfiguração, não haverá formação! A transfiguração, por sua vez, é perceptível na vida comunitária, na inserção missionária, no empenho por crescer na perspectiva da gratuidade, na busca de ser mais para servir e doar-se mais.

O primeiro passo consistirá em esboçar os indícios do fracasso da formação transfiguradora, em um sobrevoo incompleto sobre o cenário atual da VRC. O segundo passo mostrará como a condução do processo de formação é marcada por empecilhos para que a transfiguração aconteça. O terceiro passo refletirá o tema da descristianização da VRC, sério impedimento para o processo de formação transfiguradora. O quarto ponto indicará alguns itens a serem trabalhados, desde o início do processo formativo, em vista de se obter a transfiguração desejada. O quinto ponto será uma leitura do Evangelho de Lucas (9,28-36), na perspectiva da formação transfiguradora na VRC.

A contínua transfiguração, na dinâmica da formação na VRC, é mistério da graça divina e da liberdade humana. O simples esforço de colocar todos os ingredientes que possibilitem uma formação adequada, capaz de transfigurar o formando, pode, em longo prazo, mostrar-se ineficaz, se não houver empenho pessoal do religioso. Em última análise, está nas mãos do formando e do veterano transfigurar-se no largo processo de formação na VRC, que só se conclui com a morte. Sem uma decisiva ação da liberdade, movida pelo bom Espírito de Deus, a formação estará fadada ao fracasso, com a possibilidade de haver uma transfiguração ao revés.

O fracasso da formação: alguns sintomas de um fenômeno preocupante

Uma forma ingênua de considerar o “sucesso” ou o “insucesso” da formação na VRC consiste em partir das estatísticas. O sucesso seria identificado com o número de perseveranças; o insucesso, com o número de deserções. Tal miopia insiste em desconhecer o fato de muitas pessoas morrerem na VRC sem terem tido o menor carisma para esse projeto de vida. Pelo contrário, muitas pessoas abandonam a VRC, embora tendo o carisma dessa vocação, simplesmente por não suportarem as estruturas infantilizantes e não entreverem, em curto e médio prazo, a possibilidade de as coisas mudarem. Muitos ex religiosos, libertados dos esquemas retrógrados e imutáveis, passam a investir seu carisma, vivendo a vocação de discípulos-missionários em múltiplas frentes de ação missionária. Ou seja, foi preciso abandonar sua Congregação para obedecer a voz do Espírito!

O sintoma mais visível do malogro do processo formativo da VRC está na baixa qualidade humana, espiritual, eclesial, missionária, cultural e, até, moral de uma “comunidade religiosa”. Muitas estão longe de serem comunidades e, menos ainda, religiosas. O comunitário e o religioso passam longe delas! Costumo dizer que “A baixa qualidade da vida comunitária é o veneno preparado pela VRC, que a matará!”. Essa afirmação choca alguns ouvidos e fere os religiosos sensíveis, parecendo-lhes forte demais.

Entretanto, pode-se pensar em um futuro promissor para uma Congregação e falar em formação bem sucedida que produziu ou cultivou neuróticos, hipocondríacos, personalidades complicadas, pessoas com os mais variados vícios, inclusive o de falar mal da vida alheia, gente sem qualquer senso de compaixão, companheirismo e misericórdia, indivíduos enclausurados em seus mundinhos que, quais novos Caim, não se envergonham de dizer: “Acaso sou o guarda do meu irmão?” (Gn 4,9), insensíveis ao sofrimento alheio e indisponíveis para cuidarem do próximo?

Uma comunidade sadia, lugar da misericórdia, do cuidado mútuo e da reconciliação, no meu entender, é o melhor termômetro para se avaliar o bom êxito da formação inicial e permanente e prospectar a continuidade de uma Congregação. A comunidade é o primeiro lugar onde se experimenta a transfiguração, e os irmãos, como Pedro (Lc 9,33), são os primeiros a dizer: “E bom viver com você!”; “Como me sinto feliz, tendo-o como companheiro de comunidade!”; “Sua presença é, para mim, um incentivo para continuar a caminhada com mais ânimo e generosidade”. Tudo isso só é possível quando os candidatos à VRC, os formandos e os religiosos veteranos lançam-se, de corpo e alma, no processo formativo, como experiência de contínua e ilimitada transfiguração.

Um fenômeno muito atual — e preocupante — que tem alarmado as equipes de formação, são as deserções inexplicadas de religiosos que estavam dedicados à missão e pareciam realizados e, abruptamente, vão-se embora, deixando perplexos os coirmãos, por não terem trabalhado o sentido da pertença ao corpo apostólico da Congregação. Com certeza, o fato é passível de análise sociocultural que identifica na chamada modernidade líquida a incapacidade de assumir compromissos definitivos ou de suportar situações adversas, a exigirem ascese. A análise teológico-espiritual detectará outros elementos, presentes na ingenuidade dos formadores no processo de seleção e acompanhamento dos formandos e na incapacidade de os formandos abraçarem, com radicalidade, o projeto cristão e seguirem adiante, pois, como declarou o Mestre de Nazaré, “Quem põe a mãp no arado e olha para trás, não está apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62). Ou, então, o processo formativo não os ajudou a caminhar “com os olhos fixos em Jesus” (Hb 12,2). A formação não lhes possibilitou perceber que a VRC é um caminho excelente para se descobrir o tesouro do Reino e nele colocar o coração (Mt 6,21). Daí a fragilidade de uma vocação sem fôlego (Lc 14,28-32).

A falta de criatividade comunitária e pastoral, identificada na tendência a repetir esquemas, a se desesperar em face às provocações da realidade, a praticar a “pastoral de manutenção”, a se desinteressar pela atualização teológica, espiritual, profissional e, mais amplamente, humana, a não estar aberto para novas missões, vistas como ameaça para a inércia dos indivíduos, a dependência pueril do parecer alheio são indicativos da frustração do processo formativo. Religiosos acomodados e sem empenho foram malformados ou, simplesmente, jamais foram formados, pois, formar-se é passar por contínuas mudanças de “forma”, em um processo ascendente e ilimitado, em uma incessante transfiguração. Os contínuos altos e baixos, idas e vindas, e os sintomas de crise estarão sempre presentes. Porém, em uma dinâmica de crescimento!

A maleabilidade de caráter, a abertura para a mudança e a disponibilidade para dar novos passos, sem interpor dificuldades, já se mostram desde o aspirantado e devem ser valorizados pelos formadores. Infelizmente, os modelos de formação rígidos, tendentes a enquadrar os formandos e fazê-lo permanecer na imaturidade são perniciosos no processo de transfiguração, característico da VRC. Todavia, pode haver o caso de formando bloqueado por natureza e tendente à acomodação. Caberá aos formadores detectar o problema e ajudá-lo, por todos os meios, a se libertar. Caso não responda positivamente aos estímulos da direção espiritual, das orientações dos formadores e, eventualmente, da psicoterapia, será claro sinal de carecer de vocação para o carisma da VRC. Deverá ser despedido! Se os desavisados formadores deixarem-no seguir adiante, com grande probabilidade, será o futuro religioso desprovido de iniciativa e tendente a se acomodar aos esquemas petrificados, que lhe dão segurança. Congregações com grande percentual de religiosos desse calibre estão fadadas a desaparecer ou a se tornarem irrelevantes e sem interesse para um jovem ou uma jovem, com o carisma da VRC à procura de uma Congregação.

Outro sintoma do fracasso da formação manifesta-se na incapacidade de discernir a cultura moderna e perceber o que tem de contrário ao projeto de Jesus e à sabedoria do Evangelho. Após longos anos de caminhada na VRC, existem religiosos que não se dão conta da incompatibilidade entre o consumismo e o ideal cristão de partilhar, entre o individualismo narcísico e o mandamento do amor mútuo e a vida comunitária, entre a busca hedonista do prazer e o chamado a servir ao próximo, com opção preferencial pelos empobrecidos e marginalizados, entre o encantamento e a sedução pela parafernália tecnológica e a sofreguidão por adquirir tudo que é o último grito da moda high tech e a liberdade de coração, em face das criaturas, entre a satisfação de estar conectado às redes sociais, em comunidades virtuais, e a necessidade de criar comunidades reais, de verdadeiras inter-relações. A ausência de discernimento torna os religiosos marionetes nas mãos invisíveis das agências de marketing e publicidade, deixando de lado o ideal evangélico e o programa de vida e missão da Congregação.

O processo formativo da VRC é vitorioso quando forma corações generosos e oblativos, dispostos a amar e a servir, na contramão de certos valores da cultura moderna. Trata-se de se deixar transfigurar pelo amor e pelo serviço, nos passos do Mestre Jesus.

Os "nós" do processo formativo da VRC e suas consequências

O agente primeiro e fundamenta] de qualquer formação é Deus, atuando no coração de cada ser humano. Quem se fecha para Deus, bloqueia a dinâmica da formação e tende a se bandear para o egoísmo, empecilho para a autêntica formação. Na VRC, a formação, em última análise, diz respeito à história de Deus com cada religioso. Os formadores devem se entender com colaboradores da obra de Deus, de modo que a ação da graça produza ao coração dos formandos profundos efeitos de transfiguração na linha da misericórdia e da disposição para servir. A chamada formação permanente nada mais é que a continuação da dinâmica da formação inicial, já sem as estruturas de apoio do começo. O religioso vê-se diante da responsabilidade de tomar nas mãos o próprio processo formativo, buscando dar novos passos na caminhada para Deus, mediada pelo serviço aos irmãos.

Entretanto, se olharmos com atenção as tendências dos processos formativos da VRC, encarnados em múltiplas Congregações, detectaremos alguns elementos problemáticos, cujos efeitos danosos são previsíveis.

Os processos formativos, em geral, são desfocados, por diversos fatores: a Congregação rompeu com o Evangelho e se tornou uma empresa; o empenho missionário foi substituído pela obsessão burocrática imposta pelas regras do Estado, como é o caso da Lei da Filantropia; a diminuição e o envelhecimento do corpo apostólico colocam a questão da sobrevivência em primeiro lugar; os conflitos pessoais, em âmbito de comunidade de formação e de Congregação, encurtam os horizontês dos religiosos, fazendo-os gastar as preciosas energias em quiproquós sem sentido; enfim, ao se descolarem do carisma e da espiritualidade congregacional, os religiosos ficam à mercê de superiores e superioras sem qualquer aptidão para o exercício da liderança.

A carência de membros obriga as congregações a improvisarem formadores, em uma perniciosa rotatividade, cujo principal efeito consiste em ver formandos seguirem adiante sem terem dado passos nas etapas pelas quais vão passando. É comum superiores e os formadores desconhecerem os formandos, com grande probabilidade de terem desagradáveis surpresas no futuro. Em muitos casos, a condução do processo formativo é confiada a jovens formandos, seguramente, gente muito boa, porém, carente da experiência necessária para compreender os processos pessoais dos colegas formandos, às vezes, extremamente complexos. Então, a figura do formador torna-se inútil pela incapacidade de compreender o que se passa no coração de quem está sob sua responsabilidade. Cada pessoa que bate à porta das Congregações, pedindo para ser admitida, é um mistério. Pode acontecer de o indivíduo ter uma ideia vaga do que é ser religioso, mas sem horizonte suficiente para ponderar as exigências da VRC e a própria capacidade de abraçá-las. Daí a necessidade de ter formadores capazes de ajudá-los no caminho para Deus, na condição de mistagogos.

Esse cenário de fragilidade humana e cristã torna-se tanto mais complicado quando, ao ser inserido no processo formativo da Congregação, a pessoa é submetida a um retrocesso infantilizador, que durará anos, impossibilitando-a de se desabrochar e, por consequência, de se transfigurar. Formandos, com certo estofo humano e espiritual, ao se verem enredados em esquemas que o impedem de crescer, tendem a gerar conflitos ou, simplesmente, desligam-se da Congregação. Já os formandos sem vertebração humana e espiritual, bem como os aproveitadores, seguem adiante até quando podem ou são desligados do processo formativo. Todavia, existem os que seguem adiante e permanecem gerando conflitos ou sendo presenças inexpressivas na vida comunitária e missionária da Congregação.

Outro “nó” do processo formativo, bloqueador da transfiguração pela qual se deve passar, diz respeito ao encantamento com valores da cultura atual, no que têm de anticristãos e à incapacidade de se tornar livre diante deles. Aqui a transfiguração torna-se um imperativo! Certos elementos que os jovens religiosos trazem consigo foram recebidos desde a infância e assimilados sem qualquer tipo de questionamento, à luz do projeto cristão. Por isso, a preocupação com estar na moda, frequentar ambientes da moda, possuir os objetos da moda soam como normais. São incapazes de pensar um modo de proceder alternativo. Entretanto, igual mentalidade encontra-se, também, entre os veteranos, cujo processo formativo foi incapaz de criar corações livres. O exemplo dos mais velhos serve de confirmação para os mais jovens em suas escolhas contrárias aos valores de sua consagração.

Resulta daí uma forma de narcisismo, oculto ou declarado, onde o religioso, desde os primeiros passos na VRC, está em busca de si mesmo e de seus interesses, sem se importar com a opção que fez. Este é o cenário de muitas saídas de religiosos, assim que concluem algum curso universitário. Com o canudo na mão, deixam a Congregação com emprego encaminhado e com a vida direcionada em um rumo muito diferente daquele que, até a pouco, pareciam cultivar. Em muitos casos, trata-se de exploração descarada da Congregação para alcançar objetivos inconfessados, à revelia do processo formativo em vista da missão. Só superiores e formadores muito experientes terão a capacidade de detectar a conduta mal-intencionada do formando ou do professo e confrontá-lo, abertamente.

O processo de descristianizaçõo da VRC

A VRC não escapou do processo de descristianização pelo qual passaram as instituições denominadas cristãs, como é o caso das Igrejas. No atual cenário religioso-eclesial cristão, tornou-se tarefa quase impossível encontrar pessoas cujo modo de pensar e de agir são compatíveis com o modo de pensar e expressem o modo de ser de Jesus de Nazaré. As estruturas eclesiais aderem, sem mais, ao esquema neoliberal do lucro e da prosperidade, sem qualquer preocupação com a fidelidade ao Evangelho. Certo liturgismo vazio e a exibição de exterioridades são sintomas graves de distanciamento de Jesus Emanuel.

A deficiência cristológica, somada à carência pneumatológica, ou seja, subestimação do Espírito Santo, apesar do neopentecostalismo imperante, tem raízes bem identificáveis na caminhada da Igreja, ao longo dos séculos. A catequese, centrada na doutrina e no dogma, trabalhou com conceitos a serem assimilados, dando origem a uma religiosidade racionalista, na qual o fiel era obrigado a declarar uma fé cega no que era ensinado, sob pena de ser colocado à margem da Igreja. Jesus era apresentado, nesse horizonte teológico, como salvador da humanidade, livrando-a do castigo eterno, com o próprio sangue, preço exigido pelo Pai para voltar atrás em sua decisão de punir, eternamente, o ser humano pecador e abrir-lhe o caminho da salvação. O Batismo tinha como função apagar o pecado original e, assim, transformar o pagão em cristão.

A vivência da sabedoria do Evangelho pouco importava; aliás, nem era conhecida. Bastava ater-se aos Dez Mandamentos da Lei de Deus e aos cinco Mandamentos da Igreja e tudo estava resolvido. Em caso de pecado, o sacramento da confissão servia para colocar as coisas, novamente, em ordem. A fé desconectou-se da vida e os crentes se tornaram mais conhecidos pela pertença eclesiástica (católicos ou protestantes), com suas exigências, às vezes, rígidas, do que pela adesão à pessoa de Jesus e ao modo de vida decorrente (cristãos) do Evangelho. A pessoa de Jesus tornou-se irrelevante na vida dos católicos, sem que se dessem conta. A maioria deles, contando os religiosos e os formandos da VRC, dificilmente seria aprovada em um teste de autenticidade cristã. Motivo: não foram preparados para ser verdadeiros discípulos de Jesus!

Jesus de Nazaré, na prática, tornou-se irrelevante ao ser menosprezada ou desconhecida a exigência de encontro pessoal com ele — seguimento —     como pressuposto da fé. Tal experiência tem a força de provocar uma reviravolta na vida do fiel e colocá-la no compasso do Mestre. Sem ela, declarar-se cristão será uma afirmação inconsistente. Quem realmente encontrou Jesus, confessará a fé com atos genuínos de misericórdia e de compaixão. Essa será a prova mais cabal da centralidade de Jesus na vida do discípulo e da transfiguração nela operada.

Um sinal da centralidade transfiguradora da fé na vida do discípulo de Jesus será o cuidado misericordioso com os empobrecidos e deserdados desse mundo, centro da atenção do Mestre. Um claro sinal da infidelidade a Jesus consiste no desprezo ou no desconhecimento do sofrimento do outro, de modo especial, as vítimas da marginalização socioeconômica. Supõe-se de quem abraça a VRC, a experiência prévia de cuidado com os mais pobres, por se tratar de um carisma de serviço, como corpo apostólico. Portanto, os candidatos à VRC já devem estar envolvidos na dinâmica da transfiguração, embora não sabendo reconhecê-la como tal. Importa, sim, seu modo de ser e de proceder inspirado no de Jesus.

A contemplação de Jesus de Nazaré, a partir das catequeses evangélicas, será um caminho essencial para se assimilar seu modo de ser e de agir. Substituir os Evangelhos por livros de autoajuda tem sido uma prática largamente difundida entre os cristãos, que preferem “um bom livro” da moda, carregado de sentimentalismo e de orientações questionáveis de certos gurus, do que a leitura e meditação dos Evangelhos, no intuito de se deixar transfigurar nos passos do Mestre de Nazaré. Os “gurus” cristãos estão tomando o lugar de Jesus: enquanto esse se tornou uma logomarca lucrativa - a logomarca gospel — aqueles determinam como seus seguidores devem se comportar. A triste realidade de Jesus de Nazaré sendo posto de escanteio tem acontecido sob o olhar complacente, quando não conivente, das autoridades eclesiásticas, despreparadas para discernir o acelerado processo de esfacelamento do projeto cristão, substituído por esquisitices, bem ao gosto da modernidade contemporânea.

O resultado é o baixo interesse pela prática da misericórdia e do cuidado com os pobres e deserdados desse mundo, em contraste com a busca do exotismo católico, que vai do acintoso ao ridículo. Quem o promove, embora apelando para Jesus Cristo, está pouco ou nada preocupado em confrontar suas invencionices com a proposta evangélica. A falta de discernimento no trato com as coisas da fé e do Evangelho já mostra seus frutos. A Igreja comunidade foi substituída pelas concentrações de multidões. A mistagogia cristã, que insere o crente no caminho para Deus, foi deixada de lado, e as pessoas estão em busca de si mesmas e de seus interesses. O serviço da caridade pouco conta, em face aos cultos barulhentos, à multiplicação de milagres fajutos e outros interesses escusos.

Este capítulo foi uma espécie de digressão para mostrar como é difícil, para quem é admitido na VRC e traz em sua bagagem um cristianismo sem Cristo, entender a formação como caminho de transfiguração, nos passos do Mestre Jesus de Nazaré. Sem uma autêntica volta às raízes da fé, que leve o novo religioso a beber das fontes do Evangelho, a formação jamais atingirá seu objetivo de inserir o formando em uma dinâmica de transfiguração, cujo alvo é a perfeição do Pai, rico em misericórdia (Mt 5,48; Lc 6,36).

Pressupostos da formação transfiguradora

Na base da formação transfiguradora estão alguns elementos imprescindíveis, a começar com a atenta seleção e o devido acompanhamento, de modo especial, na fase da formação inicial. Estar em determinada fase não significa que, realmente, o processo formativo esteja acontecendo. São recorrentes os casos de formandos que passam de etapa em etapa e chegam à profissão perpétua sem terem sido tocados em suas estruturas mais profundas. Individualistas eram; individualistas permanecem! Acomodados eram; acomodados permanecem! Despreparados para a missão eram; despreparados permanecem! Esses são handicaps dos formandos. Entretanto, questionamentos sérios devem se fazer aos formadores, às equipes de formação e, não menos, aos superiores, responsáveis últimos pela formação. Os resultados pífios do processo formativo, incapaz de gerar mudanças profundas nos formandos, põem em xeque a seriedade da Congregação e de seus encarregados pela formação.

Evidentemente, por se lidar com liberdades, embora havendo a preocupação de fazer o melhor e com a máxima seriedade, será preciso contar com o imponderável das surpresas com atitudes indevidas de formandos e de formadores. Todavia, isso não poderá servir de álibi para se levar a formação, de modo especial, a formação inicial sem a devida seriedade. Será preciso confiá-la a pessoas bem experientes e dispostas a abraçar esta missão, às vezes ingrata, da qual depende o futuro da qualidade comunitária e missionária das Congregações. Só o empenho de formadores e formandos pode gerar a esperança de vermos religiosos transfigurados no decorrer do processo formativo.

O processo formativo transfigurador exige converter-se à pessoa de Jesus de Nazaré. O caminho consiste em contemplá-lo, a partir das narrações evangélicas, na busca de aprender com ele como viver, inteiramente, centrado no querer do Pai e no serviço ao próximo. Duas declarações evangélicas lapidares ilustram o horizonte da vida de Jesus: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e levar a termo a sua obra” (Jo 4,34) e “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19,10). Uma música religiosa bem conhecida, de forma poética, expressa a maturidade a ser alcançada pelo discípulo no processo de transfiguração: “Amar como Jesus amou, sonhar como Jesus sonhou, pensar como Jesus pensou, viver como Jesus viveu, sentir o que Jesus sentia, sorrir como Jesus sorria!”. Uma jaculatória, inspirada em Mateus (11,29), foca o essencial na transfiguração da pessoa de fé: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso!”. No livro Exercícios Espirituais, Santo Inácio de Loyola propõe que se peça, com insistência, a graça do “conhecimento interno do Senhor, que por mim se fez homem, para que eu mais o ame e o siga”.[3] Conhecimento interno, diferentemente do conhecimento racionalista ou abstrato, corresponde ao conhecimento que abarca e transforma a existência do ser humano, conformando-a com a de Jesus.

A formação na VRC pode ser considerada como processo de assimilação existencial de Jesus, a transformar o mais interior do formando. Cada etapa da formação consiste em um passo a mais na radicalização de um processo a ser consumado, escatologicamente, na comunhão definitiva com o Pai. Pode-se falar em cristificação progressiva, bem formulada por Paulo, em Filipenses (1,21): “Para mim, o viver é Cristo!”. A frase paulina desdobra-se de variadas maneiras: Viver é agir como Cristo! Viver é encarnar o projeto de vida de Cristo! Viver é ser transparência de Cristo! Essa é a meta a ser alcançada no correr da formação inicial e radicalizada na formação permanente. Assim o religioso, ao longo de sua caminhada, tem a chance de se transfigurar, de modo a se poder dizer, no âmbito da comunidade e da missão: “Como é bom conviver com você!”; “Como é bem trabalhar com você!”. Quando isso não acontece, com grande probabilidade, o religioso se equivocou no processo da formação, enveredando-se por atalhos que o desviaram do caminho para Deus.

Para acontecer a transfiguração, na caminhada formativa, a missão deverá estar sempre no horizonte. Ela será o Norte para todas as decisões e opções a serem feitas, no âmbito da espiritualidade, dos engajamentos pastorais, da formação intelectual, da formação profissional etc. Tudo quanto for útil e preparar para a missão será objeto da escolha do religioso, preocupado com a formação; na direção contrária, tudo quanto o fizer perder o foco da missão será deixado de lado.

Essa postura missionária evita que a formação seja transformada em uma espécie de corrida de obstáculos, onde o formando está sempre às voltas com uma barreira a ser superada. A barreira do aspirantado é entrar no postulantado. A barreira do postulantado é entrar no noviciado. A barreira do noviciado é fazer os votos e chegar ao juniorado. As barreiras do juniorado correspondem às renovações dos votos, até chegar aos votos perpétuos. E depois, não havendo mais barreira a ser vencida, põe-se um ponto final na formação e, não poucas vezes, tem início um processo de regressão ou de estagnação, de modo a frustrar qualquer possibilidade de transfiguração. Essa é a situação lastimável dos religiosos infelizes e causadores de infelicidade, pois não caminham e impedem ou desanimam os outros de caminhar.

Ter os olhos fixos na missão, em última análise, corresponde a ter os olhos fixos em Jesus Missionário e se saber companheiro de missão dele, levando-a adiante, em meio a contratempos e desafios, sem esmorecer. Antes, quanto mais desafiadora a missão, tanto mais o religioso apostólico será criativo, destemido e motivado a se lançar nas tarefas que lhe competem.

Quando a missão desaparece do horizonte, o religioso perde o sentido da vida, tendendo a deixar o barco correr, com a grande probabilidade de ser infiel à vocação que o trouxe à VRC, a ponto de abandonar a caminhada ou de debandar para um estilo de vida indigno de um discípulo do Reino. Possivelmente, tal guinada resulta da incapacidade de se deixar transfigurar pela ação da graça em seu coração, que o Evangelho chama de “blasfêmia contra o Espírito Santo” (Mt 12,31-32). Creio ser possível afirmar que, na VRC apostólica, a dinâmica da transfiguração depende de como o religioso se confronta com o tema da missão. Afinal, a transfiguração, ao longo da formação inicial e permanente, tem em vista o serviço ao Reino, nos passos de Jesus de Nazaré. Os religiosos se transfiguram ao serem melhores servidores do Povo de Deus.

Um grave empecilho para se transfigurar no processo de formação diz respeito à liberdade. Sem a emancipação da liberdade a formação fica impossibilitada e, por conseguinte, a transfiguração do religioso fica bloqueada. Abjugar a liberdade corresponde a colocar ordem nos afetos e nas paixões, evitando, assim, agir movido pela inveja, pelo ciúme, pelo espírito de competição, por preconceitos e, até mesmo, pelo ódio e suas consequências imprevisíveis. Em Gálatas (5,19-21), o apóstolo Paulo elenca as chamadas “obras da carne”, fruto da liberdade cativa das paixões. Em contraposição, elenca os “frutos do Espírito” (G1 5,22-23) expressões da liberdade orientada para Deus e para o próximo. Só se pode falar em verdadeira liberdade quando o foco da ação é a misericórdia em favor do irmão e da irmã necessitados. O egoísmo é a morte da liberdade!

Aplicado à formação transfiguradora, quanto mais solta a liberdade, no sentido de Gálatas (5,1) - “Para a liberdade, Cristo nos libertou” tanto mais o religioso, em todas as fases de sua caminhada formativa, inicial e permanente, estará em condições de se transfigurar, a partir do mais íntimo, de modo a ser cada vez mais misericordioso no trato com o semelhante, mais capaz de perdoar e viver reconciliado, solidarizar-se com o outro, em quem contempla o rosto de Cristo (Mt 25,40), crescerá em cuidado com o semelhante e, também, com nossa Casa Comum, o Terra em que habitamos. Esse dinamismo de transfiguração infinda se perceberá nos gestos concretos, sendo irrelevantes a misericórdia e a solidariedade praticadas no mundo virtual, sem o face a face exigido pelo Evangelho.

Em suma, um sinal inquestionável de transfiguração, no processo formativo da VRC, sem sombra de dúvida, é o compromisso com os empobrecidos e deserdados desse mundo. Existem religiosos satisfeitos por “brilharem” como profissionais, como grandes administradores ou por sua inventividade pastoral. Menos comum, hoje, são os que “brilham” por uma santidade feita de práticas de piedade e ascese. Entretanto, nada disso tem, necessariamente, a ver com a transfiguração evangélica, cuja autenticidade faz um percurso distinto, bem ilustrado pela parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37). Nela, o Mestre Jesus ensina a seguir o exemplo do homem que, em viagem, defrontou-se com um ser humano, vitimado pela violência, e esse encontro deu um novo rumo à sua vida. O desconhecido tornou-se o centro de suas atenções, sem esperar qualquer retribuição. “Vai e faze tu o mesmo” (Lc 10,37) é a ordem que deve ressoar, insistentemente, nos ouvidos de quem está em processo de transfiguração, na caminhada da VRC.

Os passos da formação transfiguradora na VRC

Nas entrelinhas da narrativa evangélica da transfiguração, é possível discernir os passos a serem dados pelos religiosos no processo de tornar a formação em verdadeira mistagogia de transfiguração, nos passos de Jesus de Nazaré. O texto de referência será Lucas (9,28-36).

1. “Jesus tomou consigo Pedro, João e Tiago” - Jesus se transfigurou diante do Pai, na companhia dos discípulos. Presença imprescindível! Afinal são eles que constatam o que se passa com o Mestre e devem aprender com ele. O contexto social da transfiguração, na formação, é a comunidade formativa (formação inicial) ou a comunidade de missão (formação permanente). Os solitários, isolados, egoístas e fechados em seu mundinho, jamais se transfigurarão. No processo formativo da VRC, só os irmãos de boa vontade e de coração aberto serão capazes de perceber as mudanças positivas em nosso modo de ser e de proceder; isso será impossível para os hipercríticos, os invejosos, os ciumentos e os tendentes a só ver o negativo dos outros. Por outro lado, os verdadeiros irmãos serão fundamentais para nos apoiarem e nos incentivarem a prosseguir, apesar das dificuldades. A dimensão comunitária da formação transfiguradora é imprescindível!

2. “Subiu a montanha (...)” - Ao subir a montanha, Jesus vai ao encontro do Pai, para estar em comunhão com ele. Não se trata de fuga do mundo, e, sim, de esforço de contemplação do mundo com o olhar do Pai, para, ao descer da montanha, estar em condições de abraçar, com vigor renovado, a tarefa de proclamar o Reino de Deus. Inspirada em Jesus, a formação transfiguradora exige dos religiosos situarem-se muito acima das banalidades da vida para alcançar um patamar existencial de alta qualidade humana e evangélica. Isto lhes permitirá contemplar a realidade com os olhos de Deus e na perspectiva de Deus, sem se deixar enredar por querelas comunitárias, atritos com superiores e formadores, conflitos com os companheiros de caminhada, tampouco com imbróglios criados no âmbito da missão, do trabalho profissional e da instituição eclesiástica. Subir a montanha jamais será sinônimo de alienar-se e se colocar à margem da realidade. Antes, significará encontrar o lugar adequado para contemplar a realidade e discerni-la, em vista da ação, sem o risco de cair nas muitas armadilhas com que nos defrontamos.

3. “(...) Para rezar” — A transfiguração de Jesus acontece no âmago da intimidade com o Pai, na oração. Transfigura-se, em estando unido ao Pai; em fazendo a experiência de ser amado e querido pelo Pai; em abrindo o coração para o Pai; em diálogo com o Pai. A oração transfiguradora na formação consiste no diálogo profundo com Deus, pai e mãe cheio de misericórdia, o primeiro e verdadeiro formador, a quem nos entregamos “como o barro nas mãos do oleiro”, na bela metáfora de Jeremias (18,6). Trata-se de estar em comunhão com Deus para escutá-lo, em vista do discernimento necessário para a missão. A resposta é dada pela vida e pelo agir, dispensando-se as palavras bonitas ou o palavreado vazio, como denunciou Jesus (Mt 6,5-8). O testemunho de oração de Jesus, nos Evangelhos, é determinante para a formação transfiguradora. Quanto mais intensa e autêntica a oração, tanto mais o religioso se transfigurará!

4. “Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou branca e brilhante”’— Algo de muito profundo e particular acontece com Jesus, pois deixa transparecer toda riqueza interior, expressa na beleza de suas feições e no brilho de suas vestes. Algo semelhante acontecerá na dinâmica da formação transfiguradora. Do mais íntimo do religioso, jorrarão o que de mais bonito o Pai lhe concede, a ponto de obscurecer os componentes negativos de sua personalidade, tornados irrelevantes. Na direção contrária, quando a formação não transfigura, o religioso tende a deixar transparecer as paixões desordenadas, enquanto o tesouro recebido de Deus permanece enterrado (Mt 25,14-30). A formação transfiguradora se mostra verdadeira na qualidade sempre crescente da misericórdia, do cuidado com os pequeninos e empobrecidos, do empenho por construir o mundo querido por Deus, por parte dos religiosos, desde a formação inicial. Equivoca-se o religioso resistente em se deixar transfigurar, o que bloqueia o processo de transfiguração e o que se fecha para ele.

5. “Dois homens conversavam com ele: eram Moisés e Elias” — Esses dois personagens do Antigo Testamento simbolizam as Escrituras que narram o esforço divino para transfigurar a humanidade, mergulhada na infidelidade ao projeto de Deus, com graves consequências sociais. O profeta Oseias denunciou falta de conhecimento de Deus, perceptível nos homicídios, nos roubos, na violência e no sangue derramado (Os 4,1-3). A formação transfiguradora exige a escuta atenta das Sagradas Escrituras, em cujas entrelinhas se podem captar os caminhos apontados por Deus, em vista de salvar a humanidade, carente de transfiguração. Moisés e Elias conversam sobre o “êxodo que aconteceria com Jesus em Jerusalém”, que incluía a paixão, a morte de cruz e a ressurreição na dinâmica da transfiguração contemplada pelos três discípulos. A transfiguração não elimina a paixão e a cruz na vida dos discípulos do Reino; antes, ajuda- -os a integrá-las e a lhes dar um novo sentido. A paixão e a cruz podem ser momento de profunda transfiguração!

6. “Mestre, é bom estar aqui!” — A contemplação de Jesus transfigurado gera entusiasmo no coração dos discípulos, que desejam perpetuar aquele momento. Sem pensar em si, propõem-se a fazer três tendas: para Jesus, para Moisés e para Elias, dispostos a ficar ao relento. A exclamação de Pedro pode, perfeitamente, estar na boca de quem convive com religiosos transfigurados. Como é bom estar com pessoas misericordiosas, otimistas, alegres, preocupadas em fazer o bem, cheias de projetos, idealistas, empenhadas de corpo e alma na missão! Estes são claros sinais de transfiguração obtida já na formação inicial e, em fase de continua consolidação, na formação permanente. Os entraves da vida comunitária na VRC, bem como na vida missionária, quase sempre, provêm da falta de abertura, por parte dos religiosos, para a obra transfiguradora de Deus em seus corações. As consequências funestas de tal fechamento para a ação divina em nós são, sobejamente, conhecidas.

7. “Este é o meu Filho escolhido” — Os religiosos transfigurados podem tomar para si as palavras do Pai dirigidas ao Filho. Deus confia-lhes grandes missões, como aconteceu com Jesus, se passarem por um processo radical de conversão e se lançarem em um dinamismo teológico-espiritual que faça deles instrumentos dóceis nas mãos do Pai para a salvação da humanidade. A consciência de serem “filhos escolhidos de Deus” os moverá a agir com dedicação e generosidade sempre maiores, pois é assim que o Pai age em favor da humanidade. A filiação divina, na vida dos religiosos, revela-se no modo de proceder, na direção apontada pelo Mestre Jesus: “Sede misericordiosos, como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). Ser filho transfigurado e escolhido consiste em ser misericordioso, como o Pai, no trato com o semelhante, com privilégio para os empobrecidos e os sofredores e quem vive nas periferias existenciais, à espera de amor, de cuidado e de compreensão. Só os religiosos transfigurados se solidarizarão com eles!

Conclusão

Transfiguração deve ser a meta de toda formação na VRC. Existe uma palavra correspondente: metamorfose! A transfiguração ou a metamorfose acontecem quando as estruturas mais profundas do religioso são tocadas. Formação superficial, cosmética, formalista, imposta, atropeladora da liberdade, jamais terá a força de levá-lo a mudar de figura-forma. Será preciso uma pedagogia adequada para se atingir o objetivo de transfigurar-se no processo de formação inicial e permanente. Porém, a melhor pedagogia e os melhores formadores são insuficientes para colocar em movimento o processo de transfiguração e de metamorfose espiritual-existencial dos religiosos. A ação da liberdade, dinamizada pela graça, é imprescindível. Suas metas deverão ser bem definidas, com o foco na perfeição do Pai, apresentada por Jesus como ideal a ser atingido pelos discípulos do Reino: “Sede, portanto, perfeitos, como vosso Pai Celeste é perfeito” (Mt 5,48). Quem se fixa em tal objetivo, não terá motivo para cruzar os braços, dar-se por satisfeito por ter alcançado certos patamares, tampouco se deixa abater pelo desânimo por não alcançar o escopo pré-fixado. Uma pergunta se coloca para os rígidos espiritualmente e petrificados de caráter: vale a pena continuar na VRC, sem a disposição de querer se transfigurar, em uma clara afronta ao Senhor que nos chamou e conta conosco para, como instrumento apto em suas mãos, levar adiante a missão de fazer a salvação chegar aos confins da terra (Mt 28,20)?

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[1] Jaldemir Vitorio é presbítero jesuíta e professor de Sagrada Escritura na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE, em Belo Horizonte-MG. E-mail: jvitoriosj@faculdadejesuita.edu.br.

[2] Esse texto foi escrito pensando nas religiosas e nos religiosos. Pelo fato de ser usada a forma masculina, peço às religiosas que o leiam fazendo a devida transposição de gênero.

[3] Exercícios espirituais (EE), n. 104.

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