Ester e Maria: rainhas padroeiras
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11/10/2018 Frei Jacir de Freitas Faria, OFM Ester e Maria: rainhas padroeiras
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Ester denuncia Amã (c.1915), Ernest Normand
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Padroeiro é aquele que protege. Em todas as culturas, divindades protegem povos. Nos países de tradição cristã, cada comunidade, cidade e país escolhe seu padroeiro, seu protetor. Tendo como inspiração a Bíblia e a tradição popular no Brasil e em Israel, lancemos nosso olhar sobre duas mulheres que protegeram seu povo: Ester e Maria. A primeira, se é que a podemos chamar assim, é padroeira de Israel. Por sua sábia atitude, conseguiu livrar seu povo do extermínio, devolvendo-lhe a esperança. A segunda é a padroeira do Brasil, aquela que apareceu aos pobres pescadores que serviam aos nobres de Aparecida, devolvendo-lhes a alegria da vida.

Maria, a Aparecida Padroeira do Brasil

Em 12 de outubro, o Brasil católico celebra Maria, como Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Em 1717, ela foi encontrada sob a forma de imagem negra por pobres pescadores, na Vila de Guaratinguetá, em São Paulo; posteriormente, tornou-se a padroeira do Brasil.

Lentamente, o local de seu aparecimento tornou-se referência de peregrinação. Poucos brasileiros ainda não estiveram lá. Esse acontecimento marcou época. A Mãe de Deus apresenta-se como padroeira da população carente e dos negros escravos do Brasil de outrora. A Maria do Magnificat, que canta a derrubada dos opressores e soergui- mento dos pobres (cf. Lc 1,45-55) é a mesma negra de Aparecida do Norte (SP), aquela que devolveu a alegria aos pobres pescadores com uma pesca milagrosa. Maria tornou-se Aparecida, que virou Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Um título de rainha para uma mulher que marcou a humanidade desde sua terra natal, Nazaré, no Oriente Médio, quando gerou, por obra do Espírito Santo, um "rei", Jesus, iniciando-o na sua atividade de pregador do Reino de Deus, em uma festa de casamento. Nesse momento, o Messias torna-se conhecido, a esperança torna-se realidade.

Ester: a rainha que devolveu a esperança aos judeus condenados ao extermínio

No livro bíblico que leva o seu nome (Ester), são narradas as peripécias dessa mulher judia, filha adotiva do israelita Mardoqueu, que se tornou rainha na corte persa, ao lado do rei Assuero (cf. Est 1,9; 2,18). Ester, mulher de rara beleza, graça e feminilidade, tornou-se rainha no palácio do opressor. E aconteceu que, mais tarde, o primeiro-ministro do rei Assuero, Amã, sugeriu ao rei que fosse decretado o fim do povo judeu que vivia no império, dizendo-lhe: "Há um povo espalhado por todas as províncias de teu reino, separado entre os povos e obedecendo a leis estranhas, que os outros não conhecem, e que além disso des-preza o decreto do rei. Não convém que o rei os deixe tranquilos" (3,8). E assim aconteceu: o rei concordou e autorizou Amã a executar a sua sentença, que rezava: "No dia treze do décimo segundo mês, o mês de Adar, todos os judeus sejam aniquilados e confiscados os seus bens" (3,13). O dia previsto foi escolhido por meio da sorte (pur) lançada diante do rei.

Ester, sabedora dessa realidade, ofereceu um banquete ao rei Assuero (cf. 7), no qual estava também presente o malvado Amã. Já tomado pelo vinho, o rei prometeu para a rainha Ester o que ela lhe pedisse, até mesmo a metade do seu reino (cf. 7,2b-3). Ester pediu sua vida e a de seu povo, que seria aniquilado pelo primeiro-ministro (cf. 7,3-4). O rei não só realizou seu desejo, como também mandou enforcar Amã (cf. 7,10).

O povo judeu nunca se esqueceu desse episódio. Uma de suas festas anuais judaicas se chama Purim (sortes), o dia da sorte, celebrado nos dias 14 e 15 do mês de Adar, para lembrar que Israel foi salvo pelas mãos de uma mulher e que a aflição deu lugar à alegria e o luto às festividades (cf. Est 9,22). Purim é a festa do bom humor. Nesses dias, o povo sai para as ruas com máscaras e fantasias, assim como no nosso carnaval. Nessa festa, o livro de Ester é lido na sinagoga. Na hora em que o nome de Amã é citado, as crianças fazem algazarra para não ouvi-lo.

Ester, com a sua atitude, passou para a história como símbolo de resistência e de fé. Ela libertou o povo oprimido, devolvendo a alegria a seu povo, que, com pavor, esperava o dia da morte.

Maria: a mães do “Rei-Messias” restabelece a alegria com um vinho novo

Em Jo 2,1-11, a comunidade joanina conservou a belíssima narrativa das bodas de Caná, uma pequena cidade da Galileia. Com uma população atual em torno de 8 mil habitantes, Caná da Galileia é, atualmente, a cidade de maior proporção de cristãos em Israel/ Palestina (cerca de 25%). Cristãos e muçulmanos convivem no lugar de forma pacífica. Caná significa 'adquirir', tendo, por isso, um valor simbólico na realização do primeiro milagre de Jesus. Na ocasião, faltara vinho em uma festa de casamento, e não havia tempo hábil para o noivo comprar mais. Jesus, sim, foi capaz de "adquirir" um vinho novo e de muita qualidade. Ele o fez a pedido de sua mãe. Era o terceiro dia de uma festa que durava sete dias, e o vinho tinha acabado. Jesus e sua família eram convidados. Maria solicitou a Ele que fizesse seu primeiro milagre. Uma igreja, relembrando esse episódio, foi edificada no local em 1879, sobre uma bizantina e outra cruzada. Os cristãos aí renovam as promessas matrimoniais.

O matrimônio, no Primeiro Testamento, foi relido como símbolo do casamento entre Deus e Israel (cf. Os 2,16-25; Is 1,21-13; 49,14-16). Entre esses textos, é muito conhecida a experiência do profeta Oseias com a esposa infiel, Gomer, símbolo da infidelidade de Israel. No evangelho de João, Jesus é o novo esposo de Israel que, simbolicamente está celebrando sua festa de matrimônio, na qual faltava uma coisa essencial, o vinho. Maria, mãe de Jesus, sabedora do papel do filho no novo Israel, lhe pede para resolver imediatamente a questão, pois a festa não podia terminar e as promessas divinas nele deveriam se cumprir. Sendo o Messias, o esposo que deveria, por obrigação cultural, oferecer vinho durante a festa, Jesus era o Messias-esposo. E Maria sabia disso.

Naquele tempo, o vinho era o sinal de alegria nas festas. Ele representava para os judeus o que a cerveja e o refrigerante são hoje em uma festa. Assim como, para nós, cerveja e guaraná não podem faltar em uma festa, casamento sem vinho não combinava. Em um jantar de Páscoa, em que são consumidas cinco taças de vinho, cada uma delas com o seu simbolismo próprio, Jesus toma, ao fim da ceia, uma taça de vinho e diz que se tratava do seu sangue, o da salvação.

O vinho e a videira sempre estiveram ligados à história de Israel. A Bíblia conservou a memória de Israel como videira transplantada por Deus do Egito para Canaã, onde se espalhou para todos os lados (cf. Sl 80[81],9-12). Falar de vinho é falar de Israel seguidor da Torá. Vinho e Torá passam a ser sinônimos. O vinho recorda ao povo seu compromisso, sua aliança com Deus, que os libertou da escravidão do Egito. A falta de vinho é sinal da Torá não cumprida. E o vinho faltou. Que tristeza! Foi aí que Maria, a mãe de Jesus e também a nova Eva no Segundo Testamento, isto é, a mãe dos viventes, intercede a seu Filho-Torá que devolva aos noivos e seus convidados a alegria, isto é, a Torá-Vinho.

A resposta de Jesus não foi muito elegante com a mãe, ao dizer-lhe: "Que queres de mim, mulher? A minha hora ainda não chegou" (v.4). A hora de Jesus é sua morte que levaria à ressurreição. Maria nem se importou com essa resposta e disse aos criados que fizessem tudo o que ele ordenasse. Muitos já explicaram o fato de Jesus não se dirigir a Maria como mãe, mas como "mulher", dizendo que mulher, aqui, representa a nova Eva, a mulher mãe de Israel, a esposa de Jesus, os novos judeus seguidores do messias Jesus. Não temos como discordar dessas afirmativas. No entanto, vale lembrar que a tradição dos evangelhos apócrifos, ao relatar esse mesmo episódio, diz que, ao receber os criados com talhas de água enviadas por Maria, Jesus balançou a cabeça, encolheu os ombros e disse rindo aos criados: "Fazei o que ela está pedindo. Que filho pode negar um pedido de mãe? O melhor será atendê-la o quanto antes, porque senão irá insistir até conseguir o que quer". E disse aos criados: Enchei as talhas de água!"(FARIA, Jacir de Freitas. História de Maria: mãe e apóstola de seu filho, segundo os evangelhos apócrifos. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 2006, p. 102.).

O relato apócrifo parece mais lógico. Maria é a mãe que adianta a hora do filho. Nela estão todos os que acreditaram e acreditam em Jesus, como filho de Deus. Ela nos revela que seu filho é o próprio vi¬nho novo, o esposo da humanidade, a nova humanidade, simbolicamen¬te representada pelas seis talhas de pedra. O número seis relembra o dia da criação do ser humano (cf. Gn 1,26), bem como a imperfeição, o incompleto. A besta do Apocalipse é representada com o número 666. Por serem de pedras, as talhas re¬cordam as tábuas da lei selada entre Deus e povo, na pessoa de Moisés, o "tirado das águas", conforme o próprio nome significa. Agora, é Jesus, o novo Moisés, que pede para colocar água nas talhas e a transforma em vinho.

Jesus realizou seu primeiro sinal e, nele, a glória de Deus. E todos creram, mas quem roubou a cena no evento foi Maria, que em uma só atitude realizou dois atos importantes: intercedeu em favor dos convidados e apresentou para a comunidade o seu filho como o Rei-Messias, que traria a salvação.

A falta de vinho é sinal da Torá não cumprida. E o vinho faltou. Que tristeza! Foi aí que Maria, a mãe de Jesus e também a nova Eva no Segundo Testamento, isto é, a mãe dos viventes, intercede a seu Filho-Torá que devolva aos noivos e seus convidados a alegria, isto é, a Torá-Vinho

Ester e Maria iluminam a luta dos desprotegidos

Maria e Ester reúnem em si todos os atributos de mulheres-esperança. A devoção a Maria como Nossa Senhora da Conceição Aparecida vai além do devocional. Maria, em Aparecida do Norte (SP), veio até nós para nos ensinar que temos de fazer tudo o que Ele, Jesus, nos disser. Encher nossos vasos de um bom vinho e sair para a luta. Ela surgiu para nos colocar no caminho da vida, da libertação dos opressores de ontem e de hoje. Ela nos protege com seu manto de ternura.

As lutas das mulheres de hoje, assim como no tempo de Ester, não podem ser esquecidas. Ela nos mostra que, para vencermos, precisamos estar solidários, homens e mulheres, na luta comum por dias melhores. Ela continuará intercedendo por Israel e por nós. Deus caminha conosco e nos protege.

  • Frei Jacir de Freitas Faria, OFM
  • Escritor e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício instituto Bíblico de Roma
  • bibliaeapocrifos.com.br
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