Eclesiastes: a morte como sentido de vida
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15/11/2018 Frei Jacir de Freitas Faria, OFM Eclesiastes: a morte como sentido de vida
Lamentação sobre o Cristo morto (1490)
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"Viver é conferir sentido à vida. O dia é sempre o mesmo. O sol sempre nasce o mesmo. A questão não é o dia nem o sol, mas como eu estou diante deles. Sou eu quem confiro sentido à vida. Um dia nublado pode ser alegre para mim. E um dia de sol e praia pode ser o pior dos meus dias. A questão está no sentido. E o sentido, segundo Eclesiastes, deve ser conferido à vida porque a morte é certeira"

Dando continuidade ao estudo do livro do Eclesiastes na perspectiva da morte, neste artigo, vamos ver como a morte confere sentido à vida.

O autor do livro do Eclesiastes pode até parecer um tremendo pessimista diante da vida. Para que viver se a morte é o fim? De que me adianta acumular fortunas ou viver na pobreza, se vou morrer? Não. Não é esse o caminho apontado no livro. A constatação da morte deve levar o ser humano a viver com intensidade a vida, procurando sempre a sua felicidade. Olhando para o presente. De que me adianta pensar ou viver em função de um futuro que tampouco conheço ou que nem sei como será. O que vale é a vida vivida com intensidade. E é a certeza da morte que me leva a viver plenamente a vida em todos os sentidos. Viver com intensidade é amar a vida.

O dia da minha morte, que nem sei quando será, confere sentido à minha vida e ao dia do meu aniversário (cf. Ecl 7,1b). O dia da morte de alguém me recorda que eu também morrerei. Portanto, é importante viver com intensidade a vida que me resta. Ninguém fica para semente, diz a sabedoria popular.

No dia da morte de alguém, vivenciamos no velório o luto, a dor e as lágrimas. Muitos de nós não gostamos dessas cerimônias fúnebres. Se pudesse, eu não iria a nenhuma delas. Queremos viver como se a morte não existisse. Em Eclesiastes 7,2, segue-se o caminho inverso deste pensamento, ao afirmar que "mais vale ir a uma casa em luto do que ir a uma casa em festa, deste modo, quem está vivo refletirá". Mais uma vez, estamos diante do sentido da vida conferido pela morte. Diante dela somos chamados a refletir, a mergulhar em nosso interior. Dessa reflexão surge o sentido da vida a partir da morte. Então perceberemos que nossas vidas estão cheias de banalidades, absolutismo, ganância que levam muitos à miséria etc. E um desejo de mudar de vida ressurge. Nasce a consciência de que tudo é relativo. Ser rico e poderoso é um apêndice na vida. A morte põe um fim em tudo. Este pode tornar-se começo desde que tomo consciência de que uma nova vida é possível aqui e agora.

Uma casa em festa pode nos desviar do verdadeiro sentido da vida, pode maquiá-la. Pensando bem, esperar uma festa é melhor do que realizá-la. Ao prepará-la, refletimos, pensamos, impulsionamos a vida para aquele momento festivo. O momento festivo, no entanto, é passageiro. Além disto, algo errado pode acontecer no dia da festa, na hora da festa. E a ocasião torna-se um desastre. Por isso mesmo, Eclesiastes prefere o dia do velório. Ali nada pode acontecer pior que a morte. E a morte nos devolve para a vida.

Viver com intensidade por causa da morte

Quem tem consciência da morte não deixa para amanhã aquilo que se pode fazer hoje, celebra a vida com intensidade. Quando chegam a dor e a doença, não há o que festejar. Aí também é necessário viver com intensidade a dor, embora nossa tendência natural é negar essa cruel realidade.

No dia do aniversário de alguém, é costume entre nós desejar muitos anos de vida. Estas palavras expressam o desejo de vida em abundância, como se a morte não existisse. Com isso falseamos a realidade. A vida tem um fim. Melhor seria desejar muita vida nos anos de vida que ainda restam para aquela pessoa. Assim estaríamos desejando intensidade nos gestos e nas ações da vida desta pessoa e não vida sem vida. Bem, mais isso também poderia ser a negação do sofrimento.

Na vida, muitas vezes, vivemos fugazmente. Pena que, quando a morte se aproximar, ou a idade avançada sinalizar que ela está chegando, não haverá mais o que fazer. Encanta-me a poesia "Instantes", de Jorge Luis Borges, quando diz: "Se eu pudesse viver novamente a minha vida, trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, seria mais relaxado. Seria mais bobo do que fui". Borges continua poeticamente afirmando que passou a vida inteira encarando tudo com seriedade, sendo metódico, comendo verduras para não engordar... Ele afirma: "Eu fui dessas pessoas que viveu sensata e corretamente cada minuto de sua vida. Mas se eu pudesse voltar atrás! Procuraria ter bons momentos. Se não sabem, disso é que é feita a vida. Somente de momentos. Não percam o agora", responde. "Se pudesse voltar a viver?" é a pergunta que ele deixa no ar. Se tivesse outra vida pela frente, faria tudo diferente, mas termina o poema: "Tenho 85 anos e estou morrendo".

Não há muito que dizer diante dessa maravilha poética. Vida não vivida com intensidade gera uma frustração em nós quando a morte se aproxima. Parece que a vida ficou inacabada. É o que quis dizer o poeta.

Muitas vezes vivemos a vida em um eterno disfarce. Nunca somos aquilo que somos. Queremos ser perfeitos, quando perfeita não é nossa índole. Fazemos mais que poderíamos fazer. Anulamos nosso corpo com trabalho, porque os outros precisam perceber que "meu nome é trabalho". O corpo é o burro que carrega as minhas pretensões, mesmo quando suas pernas são frágeis. E o "burro" não consegue ver quem está ao lado. Eu mesmo me impus uma viseira. A noite foi feita para descansar, para alguns, também para trabalhar. E o que é pior, a vida parece que foi feita somente para produzir e consumir. Absurda lógica. Quantas vezes damos mais sentido às coisas do que elas deveriam ter. Quantos dos nossos problemas são mais imaginários que reais.

Viver é conferir sentido à vida. O dia é sempre o mesmo. O sol sempre nasce o mesmo. A questão não é o dia nem o sol, mas como eu estou diante deles. Sou eu quem confiro sentido à vida. Um dia nublado pode ser alegre para mim. E um dia de sol e praia pode ser o pior dos meus dias. A questão está no sentido. E o sentido, segundo Eclesiastes, deve ser conferido à vida porque a morte é certeira.

Por outro lado, viver a vida com intensidade não é curti-la de modo egocêntrico. Percebendo como estruturas e relações opressoras de seu tempo tornam amarga a vida da maioria do povo, Qohelet desmascara a leviandade que é a vida vivida segundo os ditames do império: acumular, enriquecer e curtir a vida. Ele sugere vida intensa, mas com qualidade. Isto implica viver a vida de forma solidária, terna e comprometida na luta por justiça. Quem assim vive, após a morte, continuará presente na memória dos vivos. Esse é o caso de Jesus Cristo, Che Guevara e de tantos outros.

Eclesiastes conclui que a morte...

A morte é um elemento-chave na interpretação do livro de Eclesiastes. Para falar da vida e de todo o seu sentido, ele fala da morte. Porque existe a morte, a vida deve ser vivida intensamente. Tudo o que não leva a vida a ser vivida intensamente é "vaidade das vaidades". A morte dá sentido à vida. A partir da morte se descobre a vida.

Porque o autor de Eclesiastes propõe viver intensamente sem se preocupar com o que vem depois, ele não pode ser chamado de pessimista. Seu otimismo consiste em que o seu leitor, compreendendo sua reflexão, dê um novo sentido à sua vida, tendo os pés no aqui e agora. O autor de Eclesiastes não perde noites de sono pela vida do além. Essa, ele não a conhece e dela não pode falar.

O mundo grego pregava a imortalidade da alma, e nisto estava o sentido da vida para eles. Eclesiastes mostra que o sentido da vida está mais próximo de nós do que imaginamos. Falar da vida é falar de Deus. Nas palavras poéticas e realistas sobre a morte, Eclesiastes revela um Deus próximo de cada um de nós, que nos oferece a vida e as condições para vivê-la com intensidade. Foram os seres humanos da sociedade de Eclesiastes que justificaram as suas práticas injustas com reflexões sobre a vida no além.

Os cristãos, mais tarde, compreenderam que Deus em Jesus se encarnou no meio de nós e aqui viveu plenamente. N'Ele a vida torna-se eterna e terna, pois Ele se eternizou no meio de nós, na intensidade de sua vida doada por amor. Celebrar, dia após dia, a Sua memória é reafirmar que Ele vive sempre. Ele não morreu. Ele viverá sempre. N'Ele ressurgiremos todos para a vida em Deus.

A felicidade em Eclesiastes consiste no sentido da vida, vivida com alegria. Enquanto a sociedade do seu tempo se preocupava com o acúmulo de bens, Eclesiastes ensina o valor de usufruir os frutos do próprio trabalho. Vida vivida com intensidade produz alegria. Pequenas coisas tornam-se grandes porque foram feitas com o traço da eternidade, mesmo que passageiras.

A vida é uma arte, um eterno rodízio do nascer e morrer. Uns vão e outros vêm. E a vida continua seu curso. Na vida, há um tempo para tudo, plantar, arrancar a planta; matar e curar; destruir e construir; chorar e rir; atirar pedras e recolher pedras; guerrear e fazer paz, abraçar e separar. Há um momento para cada coisa. Há de tudo na vida. Quem compreende este mistério vive a vida com intensidade. Viver é a arte de viver intensamente no amor! Morrer é arte, desde que se tenha vivido com intensidade. Viver e morrer entrelaçam-se em uma única irmandade. A morte, no entanto, é o princípio de sabedoria para quem entendeu seu sentido. Eclesiastes compreendeu isso. Será que nós compreendemos tal paradoxo?

  • Frei Jacir de Freitas Faria, OFM
  • Escritor e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma
  • www.bibliaeapocrifos.com.br 
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