Cuidado de si e do outro na Vida Religiosa Consagrada e Presbiteral
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05/07/2018 Convergência Cuidado de si e do outro na Vida Religiosa Consagrada e Presbiteral
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Eusmar Alves dos Santos, CSsR[1]

Extraído de: Revista Convergência, maio, 2017, Ano LII, nº. 501, p. 28-39

Introdução

Como abordar a questão do cuidado de si e do outro na Vida Religiosa Consagrada (VRC) e Presbiteral? Para tratar do tema proposto, o artigo apresenta-se em quatro partes: o processo de aceitação; a importância da escuta do outro; o líder como alguém que cuida de si e do outro e, por último, na VRC e Presbiteral, o sofrimento é social? Na primeira parte explico que o processo de aceitação dos limites, quando feito com responsabilidade, contribui para uma análise dos motivos da não realização na VRC e Presbiteral. Já a segunda parte dedica-se à reflexão da importância da escuta do “Outro” no processo de aceitação das próprias dificuldades. Na terceira parte, colocarei em discussão o papel do líder como alguém que necessita cuidar de si e do “Outro”. Por último, na quarta parte, procuro mostrar que o sofrimento na VRC e Presbiteral exige que se leve em consideração o contexto social.

  1. O processo de aceitação

O ser humano depara-se, frequentemente, com realidades e dimensões que exigem ser assumidas existencialmente. Cari Rogers ensina que, para o ser humano crescer verdadeiramente, torna-se preciso, a princípio, “assumir” o que precisa ser “assumido”. Assim escreve: “Muitas vezes, quando o cliente se apercebe de uma nova faceta sua, inicialmente a rejeita. E apenas quando vivência um aspecto de si mesmo negado até então, num clima de aceitação, que pode tentar assumi-lo como uma parte de si mesmo”.[2] Em seu dizer, a atitude do assumir, independentemente de qual seja a realidade, terá papel positivo por levar o ser humano a lidar com realidades ambivalentes por meio da aceitação. Porém, alerta que a postura do ato de assumir não significa conformismo, mas atitude inicial em vista do desenvolvimento da personalidade. Desse modo, o crescimento ocorre em decorrência da aceitação. Aceitar implica admitir. A pessoa será capaz de transcender ao admitir as realidades negadas em vista da mudança em sua estrutura de personalidade. Esse processo torna-se necessário para a sobrevivência e a convivência com os demais, por meio da relação “Eu -Tu”.

O ser humano, como já assinalou Sigmund Freud[3], experimenta, em seu interior, mundo subjetivo, mundo inconsciente, este lado, às vezes, “sombrio” e mascarado. Geralmente, a razão, nesse contexto, torna-se insignificante aos pés do não observável, do não verbalizado. Em outras palavras, do inconsciente. A pessoa, nessa perspectiva, trata-se de um ser inconstante e volúvel. Ser não realizado. Até certo ponto, o sentimento de não realização é positivo, pois desperta o desejo da busca. Torna-se negativo, entretanto, quando tal busca despersonaliza o indivíduo. O sentimento de não realização na VRC e Presbiteral pode despersonalizar a pessoa. Na relação, na comunidade, a vida corre o risco de tornar-se amarga e vazia. Isso porque já não há o encanto pela busca da realização. Talvez ela tenha até sido procurada, mas não foi encontrada.

E por que não foi encontrada? “Há em mim comportamentos que não se devem a deficiências psicopatológicas, nem à falta de ideais ou de generosidade, mas que são devidos ao fato de que eu sou perfectível, isto é, nem perfeito nem imperfeito, nem pecador impenitente nem santo para se venerar”[4]. Nesse contexto, faz-se necessária a seguinte observação: “A descoberta dessas inconsistências não nos leva então ao desespero; não se trata de deixar-se levar ao pânico, de bater no peito ou confessar-se sem parar; trata-se de aceitar a si mesmo de maneira realista: caminho segundo o Espírito, mas há em mim desejos opostos ao Espírito”[5]. Porém, “as inconsistências só podem ser trazidas à consciência com a ajuda de instrumentos psicológicos profissionais, como certos tipos de psicoterapia”[6]. Dessa forma,

  • é preciso estudar a relação entre as consistências e as inconsistências, isto é, entre as partes integradas e as partes instáveis do eu [...J não basta ver a fraqueza do homem, é preciso também ver quais e quantos são seus pontos fortes. E é aqui que os valores voltam a assumir importância.[7]

Ainda na discussão sobre a não realização na VRC e Presbiteral, falei que o processo de aceitação das inconsistências contribui para a descoberta das razões da não realização no seguimento de Cristo. Além dessas considerações, fala-se, nos dias de hoje, de uma síndrome que está cada vez mais presente na VRC e Presbiteral. Trata-se da síndrome de burnout.[8]

  • O termo burnout designa, em inglês, uma chama que se extingue por completo. Ela define um distúrbio psíquico ligado ao exercício da profissão que extrai as forças, o envolvimento pessoal e a satisfação, gerando intenso esgotamento físico e mental. A síndrome foi estudada preferencialmente nas categorias de profissionais que desenvolvem uma tarefa de ajuda. São numerosos os sintomas da síndrome de burnout: tristeza, vazio interior, despersonalização, alterações de comportamento, depressão, esgotamento, stress, insatisfação, recalque de conflitos internos etc.[9]

Acredito que a síndrome de burnout, às vezes, pode estar relacionada com o sentimento de não realização na VRC e Presbiteral. Ou melhor, em decorrência de sua instalação na estrutura psíquica, a síndrome pode levar o (a) religioso(a) ou o presbítero à perda da realização vocacional, em decorrência do esvaziamento psíquico e espiritual.

  • Os sentimentos que eram “a favor dos outros” passaram a se transformar em “repulsa”. Ou seja, a síndrome se desenvolvia em pessoas que antes faziam da ajuda afetiva aos outros a sua profissão e que esperavam o mínimo retorno amoroso, como professor, assistente social, médico, enfermeiro, psicólogo, padres, religiosos, freiras e atendentes públicos. Há em comum entre essas pessoas a procura de satisfação no trabalho que busca fazer os outros felizes, melhores, curados.[10]

Assim, “sem um suporte de sustentação, há o risco de o sujeito ser arrastado pelas próprias limitações e impotências, o que, consequentemente, leva à desintegração do seu Eu”[11]. Quanto aos sintomas da síndrome de burnout, a literatura assim explica os principais sintomas: a) Esgotamento emocional e a diminuição de recursos psíquicos, intelectuais e baixa autoestima; b) Despersonalização, isto é, desempenhar o próprio serviço sem envolver-se pessoalmente, tratar os usuários como objetos, procurando reduzir ao mínimo o próprio investimento amoroso; c) Somatização ou manifestação generalizada no corpo, como: cansaço físico, mal-estar, fadiga, frequentes dores de cabeça, aumento da pressão arterial, úlceras digestivas, aumento dos batimentos cardíacos, desordens gastrointestinais, dores de coluna e musculares, fibromialgias, entre outras; d) Transtorno de comportamento, como: irritabilidade e frequentes conflitos interpessoais, quadros paranoides, distanciamento afetivo, absenteísmo, baixo rendimento constante e quadros depressivos; e) Probabilidade de desenvolver outras condutas aditivas, como: consumo de álcool, fármacos, drogas, uso excessivo da internet ou transtornos alimentares, como, bulimia e anorexia.[12]

Dessa forma, “para o tratamento tradicional da síndrome de burnout, recomenda-se a combinação de medicamentos, como tranquilizantes ou antidepressivos, para atenuar a ansiedade ou a depressão, com a psicoterapia que busca a elaboração dos sintomas”[13]. Daí a importância da comunidade religiosa e presbiteral, a qual precisa estar alerta para perceber os sinais de fragilidade do Outro e procurar o devido tratamento. Significa que, cada vez mais, torna-se exigente o papel dos (as) superiores (as) das comunidades religiosas na observância do comportamento dos membros que compõem a comunidade. Porém, para relacionar-se com o Outro, exige-se do Eu uma ulterior busca em si mesmo.

  1. A importância da escuta do outro

A Escuta que o Outro procura em alguém levou Freud[14] a se dedicar a essa temática. A princípio, o pai da psicanálise chamou esse mecanismo de “associação livre”. Essa prática consiste em levar o indivíduo a falar de si. Em outras palavras, procura-se dar “nomes” aos sentimentos. A partir daí, Freud descobre que a pessoa precisa eleger alguém para escutá-la. De modo que a “cura”, nessa acepção, passa pela experiência da Escuta.

  • Pathos não pode ensinar nada, ao contrário, conduz à morte se não for ouvido por aquele que está fora, por aquele que, na condição de espectador no teatro grego do tempo de Péricles, se inclina sobre o paciente e escuta essa voz única se dispondo a ter, assim, junto com o paciente uma experiência que pertence aos dois[15].

O que interessa nessa definição é a dimensão de pathos, por ter como significado linguagem de sofrimento. Significa também “paixão” e “passividade”. Porém, pathos pode transformar-se em patologia. Sobre essa possi-bilidade, “quando isso acontece, pathos transforma-se em patologia, ou seja, um discurso sobre o sofrimento, as paixões, a passividade”[16].

De acordo com Elisabeth Lukas[17], o ser humano sempre levanta as seguintes questões: Como realizo a missão da minha vida? Sou importante para alguma coisa? Estou disposto a assumir minha vida nas condições existentes? Vivi erradamente e joguei fora minha vida? As questões levam ao questionamento acerca da própria identidade, pois esta passa pela dimensão da realização enquanto ser humano, naquilo que se faz, no caso específico, como religioso(a) ou presbítero. O filósofo alemão Martin Heidegger ensina que “Ser-no-mundo é uma questão de realização”[18]. Assim, “Ser-no-mundo” não consiste simplesmente em estar no meio das coisas, de pessoas, da natureza etc. Mesmo em volta a tudo isto, o ser humano corre o risco de sentir-se um Ser não realizado em sua to-talidade. Entretanto, não se pode esquecer que a “verdadeira” realização somente será possível no “Ser-no-mundo”. Daí a importância do “OUTRO” que possibilita “enxergar” o “EU”. Em outras palavras: “Porque quem sou Eu se não o Eu que Outros apresentam a mim?”[19]

Até o presente momento, vimos dois pontos: o processo de aceitação e a importância da escuta do outro. Acredita-se, portanto, que o sentimento de não realização na VRC e Presbiteral pode ter relação com o que foi refletido. Como pontuado, os dramas psíquicos podem contribuir para a não realização na VRC e Presbiteral. Entretanto, ao dialogar com tais realidades, uma luz emerge para o reestabelecimento da “cura” e a total abertura para a realização humana e espiritual no seguimento de Cristo. Isso significa que, sem o desejo de transformar-se e a constante abertura por meio do reconhecimento das próprias dificuldades, quase nada pode ser feito para ajudar o Outro a encontrar sentido e realização na VRC e Presbiteral.

  1. O líder como alguém que cuida de si e do outro

De acordo com o percurso feito, /oi dito que a existência humana é perpassada por ambiguidades e contradições, mas isso não significa incapacidade ao seguimento de Cristo. Espera-se do Outro sinal de abertura em vista do crescimento. O (a) superior(a) ou líder precisa sempre apresentar um itinerário que possa contemplar as demandas dos(as) que compõem a comunidade. Eis aí o ideal, o qual poderia tornar-se real, caso ainda não o seja. E quando o (a) responsável diretamente pela comunidade não proporciona meios em vista do bem comum? Significa que os(as) líderes precisam autoanalisar-se frequentemente. No dia-a-dia, requer-se do(a) líder a capacidade de lidar com as próprias emoções e com as emoções dos outros. Significa que o (a) superior(a) da comunidade necessita de uma constante vida de oração e que não perca de vista o mergulho no autoconhecimento. Ao(à) líder é fundamental dialogar com as próprias ambiguidades e inconsistências para, assim, ser capaz de compreender e propor ao Outro um processo reflexivo e de crescimento. Em contraposição espera-se do Outro sinal de abertura ao que é proposto. Porém, se o (a) superior(a) não deixa transparecer em sua vida sinais de confiança e maturidade, não haverá interesse por parte dos membros da comunidade, mesmo dos que sofrem em silêncio.

Significa que do (a) superior (a) ou de qualquer liderança é exigido o sentimento de confiança. Alguém capaz de guardar em segredo o que foi partilhado, por exemplo. Não usar de forma alguma a fragilidade do Outro em vista de seus interesses particulares. Em seu modo de ser e agir, precisa mostrar que “a própria descoberta dará a oportunidade para deixarmos cair a máscara que ocultava nosso verdadeiro Eu, permitindo fluir a mudança”[20].

Ao(à) superior(a) ou líder de uma comunidade ou frente de trabalho, exigem-se muitas atitudes e habilidades, mas estas, a meu ver, são essenciais para o êxito do seu ministério de Cuidar do Outro: lidar com a própria agressividade, cultivar a calma, saber conviver com o ciúme, dialogar com a inveja, não usar da mentira em vista do próprio benefício, ponderar seu próprio sentimento de insatisfação, ser capaz de conviver com a solidão, perguntar a si próprio do porquê da insegurança, não deixar a tristeza invadir a própria vida e ser capaz de conviver com a hipersensibilidade[21].

Vejamos o que a literatura, especialmente a psicanalítica, diz sobre alguns desses traços de personalidade. Primeiramente, a agressividade. “Entendemos por agressividade o impulso nervoso daquele que ataca. Esse ataque pode ser hétero ou autodirigido, ou seja, canalizado para outras pessoas ou contra si mesmo. A agressividade geralmente aparece como manifestação da falta de realização de desejos acalentados”[22]. Já o ciúme “projeta 110 outro seus próprios desejos inconscientes (...) A origem do ciúme pode estar na superproteção infantil. A criança cresceu fragilizada, obtendo tudo, não precisando lutar, não aprendendo a perder. E continua a querer tudo só para si”[23]. Ao (à) superior (a) ou líder, caberá a seguinte pergunta: Sou invejoso(a)?

Invejoso é aquele que quer ser o que não é, que gostaria dc estar no lugar do outro a quem admira e cujos bens cobiça. Todos nós, em maior ou menor grau, podemos apresentar atitudes invejosas durante algumas fases da nossa vida (...) A inveja surge quando a pessoa julga ter o direito de possuir algo e não possui e sofre por isso.[24]

Percebe-se, então, que a inveja tem o poder de destruir quem é invejoso. Causa mal-estar na comunidade, especialmente quando, no modo de ser e agir, o (a) superior(a) deixa transparecer tal fragilidade. Não somen-te os(as) responsáveis diretamente pela comunidade e frentes de trabalho, mas todos(as) os(as) religiosos(as) e presbíteros estão sujeitos ao sentimento de insatisfação. A esse comportamento, é preciso se perguntar: O que me falta? “Tenho saúde, dinheiro, trabalho, tudo para ser feliz. E, 110 entanto, sinto-me insatisfeito e angustiado (...) Esse sentimento vago pode surgir repentinamente e nos envolver, provavelmente, nossas aspirações estão mais voltadas para o ter do que para o ser”[25]. Passando para outro traço de personalidade, não é novidade que a solidão acompanha o ser humano independentemente de sua opção de vida. Entretanto, ao(à) superior(a) de uma comunidade e lideranças, essa realidade será um estado de espírito? “Solidão é uma maneira de sentir, está dentro da pessoa. Significa estar só. E um estado de espírito que pode estar presente em qualquer fase de nossa vida. A solidão pode ser uma opção ou uma contingência inevitável”[26].

Nos traços de personalidade de um(a) superior(a) de comunidade ou líder pode haver também o excesso de hipersensibilidade. Ninguém pode falar nada, caso contrário, sentir-se-á ofendido(a) em decorrência da hipersensibilidade. “Hipersensibilidade é a exacerbação de um temperamento por demais sensível, muitas vezes depressivo. Não há dúvida sobre uma sensibilidade desenvolvida de forma adequada ser algo extremamente desejável, positivo e enriquecedor. O excesso, porém, como todos os extremos, é inconveniente e prejudicial”[27]. Ainda, na perspectiva do cuidado de si, exige-se dos(as) que estão à frente de uma comunidade, saber conviver com a própria angústia e com a angústia do “Outro”. Gostaria de apresentar uma breve reflexão sobre a angústia no contexto dessa discussão.

O psicanalista francês, Jacques Lacan (1901-1981) dedicou, em seus Seminários, um livro ao tema da Angústia. Estou longe de esgotar a profundidade em que o autor reflete esse tema. Lacan pergunta: “Que é a angústia? Afastamos a ideia de que seja uma emoção. Para introduzi-la, direi que ela é um afeto”[28]. Ressalto apenas que, nessa obra, Lacan deixa transparecer, num primeiro momento, que a angústia na relação entre paciente e analista significa: “Sentir o que o sujeito pode suportar de angústia os põe à prova a todo instante”[29]. Assim, a angústia coloca o ser humano à prova a todo instante. Não só na relação paciente e analista.

O mencionado psicanalista lança um desafio no árduo estudo sobre a angústia: “A que distância colocar a angústia para lhes falar dela, sem pô-la imediatamente no armário e sem tampouco deixá-la na imprecisão?”[30]. A partir da ótica lacaniana, penso que não seria exagero afirmar que ao (a) superior(a) ou líder de uma comunidade religiosa faz-se necessário o esforço para distanciar-se da própria angústia para ser capaz de administrá-la, para não ser “tomado(a)” por completo por tal sentimento. Trata-se, portanto, de uma postura alicerçada no esforço de não deixar-se tomar pela angústia; caso contrário, não será capaz de conviver com a angústia do “Outro”, na comunidade. Nesse contexto, o filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard, na sua obra O Conceito de Angústia, lembra:

  • A angústia é a possibilidade da liberdade, só esta angústia é, pela fé, absolutamente formadora, na medida em que consome todas as coisas finitas, descobre todas as suas ilusões [...] Aquele que é formado pela angústia é formado pela possibilidade, e só quem é formado pela possibilidade está formado de acordo com sua infinidade.[31]

E interessante observar que o caminho proposto pelo mencionado filósofo diante da realidade latente da angústia, não é outro senão o mergulho na fé. Não defende a angústia pela angústia, mas oferece uma “possibilidade” de conviver com essa realidade que perpassa a condição humana: “Mas para que um indivíduo venha a ser formado assim tão absoluta e infinitamente pela possibilidade [da angústia], ele precisa ser honesto frente à possibilidade de ter a fé”.[32]

  1. Na VRC e Presbiteral, o sofrimento é social?

E possível falar de sofrimento sem o social? O sofrimento psíquico seria também social? O sofrimento social é um problema apenas individual? E certo que o estudo sobre o sofrimento e sua relação com a dimensão social é algo recente.[33] O sofrimento humano é sempre um sofrimento social. Quer dizer que o sofrimento não corresponde somente ao aspecto individual, pois a pessoa que sofre está inserida num contexto social e institucional. De acordo com Jean Furtos[34], o sofrimento do “Eu” está sempre mergulhado num contexto social. Significa que ninguém sofre só. Há sempre motivos, causas que provocam o sofrimento, por isso, ele é social. Para o pensador francês, o sofrimento é de origem social por que não há indivíduo que vive isolado, especialmente, no universo do trabalho. Não existe um “Eu” neutro do social. Desse modo, o sofrimento que é social é também psíquico, por ser capaz de abalar e afetar profundamente a confiança das pessoas. Aliás, no sofrimento social ocorre, entre outras coisas, a perda da confiança.

Uma vez que o sofrimento se encontra inserido num contexto social, Furtos[35] ressalta que esse contexto de precariedade se dá através dos aspectos econômico, político e antropológico. Isso mostra que são diversas as contingências relacionadas ao desencadeamento do sofrimento. Daí a compreensão de que o sofrimento é uma forma de precariedade. A pessoa vai se isolando. Perdem-se os ideais de vida, uma vez que sua capacidade de se sentir como sujeito encontra-se debilitada. A precariedade da qual fala Furtos desencadeia no indivíduo a incapacidade de se ver como protagonista, isto é, como sujeito de sua própria condição humana.

Não há dúvida de que na VRC e Presbiteral, atualmente, talvez mais do que em outros momentos da história, existe um excesso do social na vida dos(as) religiosos(as) e presbíteros. Esse excesso do social se faz presente no demasiado tempo dedicado ao trabalho. Em muitos contextos, religiosos (as) e presbíteros não tiram férias. Além disso, são religiosos(as) dia e noite. Não existe uma separação entre o que se é daquilo que se faz. É nesse contexto que o social se apropria, às vezes demasiadamente, de religiosos(as) e presbíteros. Assim, no contexto religioso, como em outros ambientes, o sofrimento social “resulta de uma violência cometida pela própria estrutura social e não por um indivíduo ou &rupo que dela faz parte: o conceito refere-se aos efeitos nocivos das relações desiguais de poder que caracterizam a organização social”[36].

Considerações finais

O artigo procurou explicar que o processo de aceitação dos limites, ambiguidades e inconsistências, quando feito com responsabilidade, contribui positivamente para uma análise do sentimento do porquê da não realização na RC e Presbiteral. O que era negativo pode tornar-se positivo. Explicou- -se, ainda, que a síndrome de burnout, frequentemente identificada na VRC e Presbiteral, pode ser um entrave para o não sentimento de realização. O que antes começou como sinal de realização, ou seja, a constante doação trabalho, pode se tornar, num curto intervalo de tempo, desmotivação para o seguimento de Cristo. Como explicado, tal síndrome suga as forças e o(a) religioso(a) ou o presbítero corre o risco de cair no vazio existencial.

As pessoas, de modo geral, e, especificamente, os(as) religiosos(as) e presbíteros, são convidadas a perceber a importância que tem o “Outro” na dimensão da aceitação. Abrir-se, portanto, a esse “Outro”, em vista de dar nome aos sentimentos, tem o poder de curar corações feridos e desiludidos. Quem é este “Outro”? Cabe ao(à) religioso(a) e ao presbítero responder para si mesmos(as) quem é esse “Outro” em sua vida. Pode ser um profissional da psicologia, ou um confessor, ou, ainda, o diretor espiritual etc.

Colocou-se em discussão a temática do (a) líder como alguém que precisa cuidar de si e do “Outro”. Zelar pela vida de oração da comunidade, propor leituras, sobretudo espirituais etc. O (a) superior(a) ou líder precisa ser alguém capaz de dialogar com seus próprios sentimentos. E preciso saber lidar com as seguintes realidades, tanto em si como na existência dos membros da comunidade: agressividade, ciúme, inveja, mentira, insatisfação, solidão, insegurança, hipersensibilidade e angústia. Assim, cabe ao(à) superior(a) cuidar de si e do “Outro” em vista da realização na VRC e Presbiteral, mas contando com o espírito de abertura por parte da comunidade religiosa.

O artigo buscou mostrar que, na VRC e Presbiteral, o sofrimento precisa ser compreendido como uma realidade social. Todo sofrimento é social? Foi dito que não há sofrimento que não seja social. O “Eu” encontra-se inserido sempre em um contexto social. Daí que o sofrimento social é também psíquico, pois, uma vez que a pessoa se sente afetada em sua totalidade, sobretudo no âmbito de sua confiança, significa que a dimensão psíquica se torna o aspecto mais vulnerável na estrutura de personalidade. Presbíteros e religiosos(as) são seres sociais. Certamente, estão sempre inseridos (as) num contexto religioso que é, por sua vez, também social.

Questões para ajudar a leitura individual ou o debate em grupo:

  1. O que chamou mais sua atenção no artigo?
  2. Quais são os questionamentos que surgiram para você e para sua comunidade ao discutir sobre “cuidado de si e do (a) outro(a) na VRC e Presbiteral”?
  3. Em sua comunidade você percebe que há preocupação com a dimensão do cuidado do (a) outro(a)?

Referências

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[1] Elismar Alves dos Santos é padre da Congregação do Santíssimo Redentor (redentoristas). Doutor em Psicologia Social e Institucional pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e em Teologia Moral pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE - Belo Horizonte. Atualmente é professor de teologia e psicologia na Faculdade de Filosofia e Teologia de Goiás (IFITEG), em Goiânia (GO). E-mail: elismar01@.yahoo.com.br.

[2] ROGERS, C. R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 196.

[3] FREUD, S. O mal-estar na civilização. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (v. XXI, p.73-143). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

[4] MANENTI, A. Vocação, psicologia egraça. São Paulo: Edições Loyola, 1991, p. 53.

[5] Ibidem, p. 54.

[6] Ibidem, p. 55.

[7] Idem.

[8] PEREIRA, W. C. C. Sofrimento psíquico dos presbíteros: Dor institucional. Petrópolis: Editora Vozes, 2012, p. 37. “No Brasil, a ‘Síndrome de burnout’ integra a Lista de Doenças Profissionais e Relacionadas ao Trabalho (Ministério da Saúde, Portaria n. 1.339/1999), além de estar registrada nos Anais da Classificação Internacional de Doenças, 10 revisão, CID-10, com o seguinte código e descrição: ‘Z 73.0 — Sensação de estar 'acabado”'), p. 33. CID: Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10, 1993.

[9] CARRARA, P. S. Apreciações — Sofrimento psíquico dos presbíteros: Dor institucional, por William Cesar Castilho Pereira. Petrópolis: Editora Vozes, 2012. In: Revista Eclesiástica Brasileira (REB), n. 287, julho/2012, p. 737.

[10] PEREIRA, W. C. C. op. cit., p. 35.

[11] Idem..

[12] Ibidem, p. 37.

[13] Idem.

[14] FREUD, S. Esboço de psicanálise e outros trabalhos. In:________. Moisés e o monoteísmo três ensaios. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol. XXIIT. p. 151-222). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

[15] BERL1NCK, M. T. Psicopatologia fundamental. São Paulo: Escuta, 2000, p. 21.

[16] Ibidem, , p. 20.

[17] LUKAS, E. Psicologia espiritual. São Paulo: Edições Paulinas, 2002, p. 23.

[18] HIEIDEGGER, M. Ser e tempo. Petrópolis: Editora Vozes, 2004, p. 20.

[19] JOVCHELOVITCH, S. Vivendo a vida com os outros: (ntersubjetividade, espaço público e representações so-ciais. In: GUARESCHI, P.; JOVCHELOVITCH, S. (Orgs.). Psicologia social - textos em representações sociais. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, p. 59.

[20] NOVELLO, F. P. Um mergulho cm si. São Paulo: Edições Paulinas, 2000, p. 18.

[21] Ibidem, p. 54-85.

[22] Ibidem, p. 54-55.

[23] Ibidem, p. 60.

[24] Ibidem, p. 63.

[25] Ibidem, p. 67-69.

[26] Ibidem, p. 71.

[27] Ibidem, p. 85.

[28] LACAN, J. O seminário — A angústia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005, Livro 10. p. 23,.

[29] Ibidem, p. 13

[30] Ibidem, p. 17.

[31] KIERKEGAARD, S. O conceito de angústia. Petrópolis: Editora Vozes, 2005, p. 164.

[32] Ibidem, p. 165.

[33] WERLANG, R.; MENDES, J. M. R. Sofrimento social. Serv. Soe. Soc., n. 116, p. 743-768. São Paulo, out./ dez. 2013.

[34] FURTOS, J. L’apparition du sujet sur l'ascène sociale et sa fragilité: La précarité de la confiance. Paris: Erès, 2008, p. 15.

[35] ______. Introduction - Elredéraugé par le social. Paris: Erès, 2008, p. 1.

[36] PUSSETTI, C. L. Sofrimento social: Idiomas da exclusão c políticas do assistencialismo. Revistei do cenlw em rede de investigação em antropologia, v. 15, p. 1-35. Lisboa — Portugal, 2011, p. 7.

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