Construir relações humanizadoras nos passos de Jesus
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17/05/2018 Convergência Construir relações humanizadoras nos passos de Jesus
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Extraído de: Revista Convergência, dezembro, 2017, Ano LII, nº. 507, p. 52-63

Carlos Palácio, SJ[1]

O tema que me foi pedido tem a ver com a segunda prioridade da CRB Nacional para o triénio 2016-2019: “relações humanizadoras e solidárias”. O desejo de “humanizar” as relações pressupõe implicitamente que é possível encontrar relações desumanizadoras na Vida Religiosa Consagrada. Uma afirmação que dá o que pensar. A falta de solidariedade seria um dos fatores da possível desumanização.

PREÂMBULO - Para compreender o tema

A primeira surpresa é deparar-se com esta prioridade ao lado de outras como “integrar mística e profecia”, “missão como opção pelos pobres” ou o fenômeno mais recente da partilha de carismas, denominado “intercongregacionalidade”. O conjunto produz uma sensação de desproporção. Qual é o elo que as une?

A explicitação da prioridade diz tratar-se de uma questão cultural que afeta a chamada vida comunitária na Vida Religiosa Consagrada. O clamor das novas gerações busca abrir espaços em prol de relações circulares, afetivas e solidárias no âmbito intercultural e entre as diversas gerações.

O acúmulo de adjetivos não facilita a compreensão; cada um aponta para âmbitos diferentes. A linguagem não é inocente; nela vem à tona o contexto no qual está enraizada. A título de exemplo, vejamos rapidamente como são ambíguos os três termos centrais: “cultura do encontro consigo”, diversidade de gerações e relação.

Em primeiro lugar, a cultura do “encontro consigo”. A expressão está marcada inevitavelmente pelo contexto cultural e pode ser entendida como resultado do individualismo pós-moderno (nesse sentido agravaria o isolamento e o fechamento da pessoa em si). Ou seria um esforço desesperado para se libertar do individualismo?

Seja como for, o “consigo” (do encontro) visa o sujeito como indivíduo e, portanto, como critério. Trata-se de uma experiência subjetiva que acentua o aspecto psicológico-afetivo-emocional. Impressão confirmada pela multiplicação dos termos usados para adjetivar as relações: circulares, afetivas, solidárias, comunhão, gratuidade, proximidade, misericórdia.

O segundo termo, é a diversidade de gerações. Tal diversidade é um fato humano (biológico, histórico e cultural) e pode ser entendido de maneiras diferentes. A coexistência de gerações não é sinônimo de contemporaneidade e menos ainda de convivência. As gerações podem se opor, sobrepor-se ou articular-se. Mas, para ser fecunda, a relação exige cultivo, tem que ser construída sobre valores comuns.

Por isso, adjetivar um grupo geracional com o termo “novas” é qualificar contrapondo, é opor o “novo” ao “antigo”. Atitude típica da pós-modernidade. De fato, a pós-modernidade exalta de forma quase exclusiva o valor do presente, renunciando à função da tradição na história humana: memória viva que unifica e dá sentido. A vida se converte em uma sucessão de “instantes”, uma sequência fragmentada, sem unidade interior de sentido.

Ora, o que constitui o humaem um é a transmissão do sentido acumulado ao longo da história, “de geração em geração”, para utilizar uma bela e profunda expressão da tradição cristã, recebida do povo eleito. Nessa perspectiva, a relação entre as gerações é de integração, não de oposição nem de pura superposição. Essa convivência abre ao encontro e enriquece as gerações.

Esse é, em terceiro lugar, o terreno propício para a construção de novas relações na convivência da Vida Religiosa Consagrada. Entendê-las, de maneira subjetiva como busca obsessiva de laços afetivos, seria empobrecer o sentido do “projeto comum de vida” e a prova de que a Vida Religiosa Consagrada  hoje está marcada pelo individualismo cultural.

A relação humana acontece de verdade quando a pessoa se encontra referida ao outro (irelatio, re-ferré), restituída, (re)integrada em uma experiência que a supera e transcende. São essas relações que nos constituem.

Estas considerações não são uma problematização inoportuna; são uma exigência do que está em jogo nesta prioridade. As relações não podem ser um bloco errático, vagando pelo universo da Vida Religiosa Consagrada; o cuidado das relações só tem sentido dentro de um projeto maior de Vida Religiosa Consagrada, isto é, como exigência do Evangelho que une mística, profecia e opção preferencial pelos pobres como missão.

I. A cultura pós-moderna como pano de fundo das relações

O clamor das chamadas “novas gerações” ressoa na atualidade deste tema. Mas, seria um engano fazer dele a expressão do conflito entre gerações. O desafio é maior: afeta as relações na Vida Religiosa Consagrada de modo geral; é reflexo de como incide na Vida Religiosa Consagrada a cultura pós-moderna.

1. O individualismo em questão

Uma das características marcantes da cultura pós-moderna é o individualismo. Pode ser útil esclarecer alguns dos seus traços mais significativos.

a. Breve caracterização

Na atual cultura ocidental, o individualismo se tornou um modo de ser, um “ideal” que foi exportado e globalizado a partir do ocidente. O sonho das pessoas é tornarem-se independentes (uma redução que empobrece a liberdade) e autossuficientes (este seria o atalho para a felicidade). O individualismo seria quase sinónimo de autorrealização.

A perspectiva do homem pós-moderno é ser um “indivíduo” autónomo (o acento recaindo no todo indiviso) que se basta a si mesmo. A imagem paradoxal desse individualismo narcisista é o “sujeito” curvado sobre si mesmo, ensimesmado, fechado em si. Pode estar em conexão (virtual) com o vasto mundo, mas isolado dos mais próximos (seres reais). E a figura cotidiana de tantas pessoas que caminham nas ruas, encurvadas sobre o celular.

b. Alguns impasses

A imagem cultural do individualismo acentua o aspecto de isolamento: o indivíduo, curvado sobre si mesmo, incapaz de estabelecer relações reais (tanto do ponto de vista psicológico, como do ponto de vista sociopolítico) e de sustentá-las responsavelmente.

Essa seria a condição originária do ser humano em relação aos outros: a ruptura, o isolamento (sujeito/indivíduo), a separação. Esse parece ser o grande impasse do individualismo pós-moderno.

No ser humano, contudo, há experiências primárias que contradizem tal pressuposto: a condição originária do ser humano não é a separação (apesar da experiência traumática da “ruptura” do nascimento), mas a relação, ser acolhido e envolvido em amor. Por isso a identidade humana é relacional, ela se constrói através de relações estabelecidas nos diversos níveis da vida (família, amizades, “comunidade”, etc.) nos quais são tecidos os vínculos pessoais e sociais.

Sem essa dimensão social de abertura ao “outro”, o “indivíduo” estaria condenado a morrer asfixiado no seu esplêndido isolamento. E através dessas “pequenas transcendências” que a pessoa (sujeito) vai descobrindo uma abertura constitutiva à “transcendência maior”.

Tudo indica que a “cultura do encontro consigo” (da segunda prioridade) é filha legítima do individualismo e da subjetividade pós-moderna que deixam suas marcas na maneira de entender as relações na Vida Religiosa Consagrada.

2. Individualismo social

Não é difícil perceber a repercussão desse individualismo na organização da vida social e na relação entre as nações. São muitos os indícios de uma desintegração do corpo social (nas suas diversas formas); ela é resultado, em parte, da afirmação do individual, do particular, como critério regulador, tanto no que diz respeito aos indivíduos, quanto no que concerne os Estados.

Também do ponto de vista social, a condição humana primeira é estar referidos uns aos outros (relação). O princípio da primazia do “bem comum” (direitos de todos) sobre o “bem individual” (direitos do indivíduo) não se aplica só ao “indivíduo”/sujeito, mas também ao “indivíduo”/Estado, quer em relação aos próprios “sujeitos” (indivíduos que o compõem), quer em relação aos “indivíduos”/Estado (sociedade das nações). O individualismo dos Estados mais poderosos (proteção dos próprios interesses) acaba prevalecendo sobre os interesses de todos (bem comum).

Poluição, mudanças climáticas, esgotamento dos recursos naturais, a questão da água, a perda da biodiversidade, etc., são exemplos evidentes do egoísmo que faz prevalecer o interesse de alguns sobre o bem de todos. A gritante desigualdade social (relações sociais) e a deterioração (destruição seria mais exato) do meio-ambiente se agravaram de forma dramática nas últimas décadas.

O Papa Francisco, na Encíclica Laudato Sí’[2] chamou a atenção para a relação entre a natureza e a sociedade que a habita: “não há duas crises separadas (uma ambiental e outra social), mas uma única e complexa crise socioambiental”.[3] E o que ele denomina paradigma da “ecologia integral”:[4] justiça e meio-ambiente caminham juntos.

Um dos sinais de que a Vida Religiosa Consagrada está colonizada e contaminada pelo individualismo cultural é a falta de consciência social. E sintomática a naturalidade com a qual se identifica com valores, critérios e opções políticas das classes dominantes.

Esse é o contexto vital e cultural da “construção de novas relações”. Somos filhos e filhas da cultura pós-moderna e reféns dela. Nossos pressupostos, com frequência, estão mais afinados com os da cultura do que com os do Evangelho.

II. "Nos passos de Jesus": o recurso ao Evangelho

O chamado de Jesus e a adesão à sua pessoa estão na origem da Vida Religiosa Consagrada e são os fundamentos das novas relações. Ele chamou os que quis para ficar com ele e para enviá-los em missão (Mc 3,16-19). A relação com Jesus, portanto, é o caminho para repensar o problema das relações e da dimensão “comunhão-comunidade” na vida consagrada apostólica (VCA).[5]

1. Jesus não está sozinho

Estar com Jesus cria comunhão (põe as pessoas em relação). O chamado eleva essas relações a um patamar qualitativamente novo: são inspiradas e alimentadas pela mística do encontro com Jesus e têm como finalidade o envio em missão. É a primeira e fundamental iluminação do Evangelho a respeito desse tema: em termos cristãos, mais do que escolher outros (as), nós somos escolhidos(as) por Jesus e postos(as) com outros(as). Primeira constatação a qualificar e determinar a questão: as relações na Vida Religiosa Consagrada não são espontâneas.

Por isso, a arte do encontro se aprende contemplando a vida de Jesus. Dele, de suas atitudes, aprendemos que a interação com o “outro”, em cada encontro, é um ato de resgate: encontrada no emaranhado de sua vida, a pessoa é restaurada na sua integridade.

2. As relações de Jesus

O mundo das relações de Jesus, segundo os Evangelhos, é amplo e diversificado. Há referências à família, aos que o seguem, aos que se opõem; frequenta, quando convidado, a casa de letrados; não tem medo de enfrentar as autoridades religiosas e políticas; mas seu hábitat natural é os que foram deixados à margem da sociedade: doentes, pecadores, as mulheres, os pobres de modo geral.

As suas relações eram diferenciadas: algumas, com grande poder de transformação (como a samaritana Zaqueu, Madalena e, de outra forma, Pedro); outros manifestam um nível de extrema confiança e intimidade (Marta, Maria, Lázaro). Em todas, há traços de comunhão verdadeira, laços mútuos que se tecem e repercutem emocionalmente em Jesus (Jo 11,3.33.35-36).

Sem nenhuma pretensão de esgotar os dados evangélicos, pode ser útil ordenar alguns dos elementos que eles oferecem para captar a novidade e a diferença qualitativa das relações construídas “nos passos de Jesus”.

3. Alguns traços característicos

a. Primeiro elemento, que é também pressuposto: todos os relatos nos situam. no terreno comum do humano, com suas riquezas e limitações. Os atores são da mesma “raça”,[6] da mesma carne e sangue de que participa Jesus, como irmão nosso (Hb 2,11-14). Essa irmandade fundamental nos coloca diante do outro em pé de igualdade, mesmo quando o interlocutor se considera superior (atitude dos fariseus, doutores da lei e autoridades).

O “outro”— seja qual for a sua situação — é sempre sujeito (pessoa), não “objeto” descartável. A relação começa pela acolhida respeitosa; ela nos põe diante da pessoa tal como ela é: com suas contradições, necessidades e limitações. E a função das enfermidades e doenças nestes relatos.

b. Para entrar em relação com alguém é preciso adotar (entrar em) a perspectiva da pessoa. E o segundo elemento. A incapacidade de estabelecer e manter relações no mundo atual está, em boa parte, na incapacidade de “sair de si”: dificuldade para adotar a perspectiva do outro. O ensimesmamento do sujeito/indivíduo é na sua origem egocêntrico.

c. De Jesus aprendemos também — é o terceiro elemento — que as relações começam com o “êxodo de si” e o movimento que nos faz ir ao encontro do outro. E, sobretudo, nos relatos de curas que vem à tona este aspecto. Jesus vai à casa (sogra de Pedro: Mc 1,29-31), aproxima-se fisicamente. Outra forma de “ir ao encontro” é ser capaz de “ver” o indivíduo perdido no meio de outros, individualizá-lo entre muitos outros doentes (paralítico de Bezata, Jo 5,1-6) ou colocá-lo em evidência dentro de um grupo (homem da mão seca, Mc 3,1-6).

d. O encontro se realiza - quarto elemento — na reciprocidade. A medida que Jesus se dá a conhecer, as pessoas tomam a iniciativa de “ir ao encontro dele”: por iniciativa própria (a busca pessoal: os dez leprosos, Lc 17,11-19; Mc 1,40; centurião romano, Mt 8,5; Jo 4,47; possesso de Gerasa Mc 5,2) ou carregadas solidariamente por outros (Mc 2,3; 7,32; 8,22).

Seria necessário percorrer cada uma das referências e analisar cada narrativa para ver como acontece o processo da relação, o que suscita em cada pessoa, e os resultados. De um modo ou de outro, estes quatro elementos sempre estão presentes.

É a grande diferença entre relações reais e virtuais. A “realidade virtual” não nos ameaça porque não é “de carne e osso”. O perigo mora no “cara a cara”, quando deixamos a mediação dos aparelhos e encetamos relações interpessoais. A presença física interpela porque expõe o “outro” diante de nós, com a singularidade própria e todas as suas necessidades, limitações, sofrimentos e reivindicações (inúmeras “doenças” com as quais Jesus se enfrenta nos Evangelhos).

A relação se torna específica quando a pessoa se sente acolhida e passa do genérico ao particular; respira um ar de confiança, de abertura e sinceridade que torna possível o encontro e faz acontecer o milagre da “cura”. A pessoa é posta em pé, erguida, restaurada na sua integridade e devolvida à plena dignidade.

Cada encontro de/com Jesus chega às raízes da fragilidade humana porque rompe a barreira do individualismo e chega até a pessoa real. Não há relações de comunhão possíveis sem sair do individualismo narcisista e destrutor da cultura contemporânea. Mas podem haver barreiras de outra natureza, prévias às relações.

III. "Comunidade" e relações humanas na Vida Religiosa Consagrada

Por que razão a Vida Religiosa Consagrada real suscita nas gerações mais jovens o clamor por relações humanizadoras e solidárias? Além dos aspectos culturais, é inegável que ele incide em um terreno minado da VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA. A escuta desse clamor exigiria dela reconhecer — em um sincero mea culpa — o déficit de “humanidade”, a desumanização de muitas das suas estruturas e modos de proceder.

1. Um mea culpa reconciliador

Começar com uma “confissão” é reconhecer que a Vida Religiosa Consagrada é feita de humanos e que a conquista do humano não pode ser garantida de uma vez por todas, nem deve ser dada por suposta. A história está aí para nos poupar dessa perigosa tentação.

O modo de lidar com o “humano” nem sempre foi claro na Vida Religiosa Consagrada. Durante décadas e mesmo séculos ela se protegeu da exposição ao “humano”. O mundo dos afetos foi talvez o âmbito onde aparecia mais claramente essa atitude defensiva. O resultado foi o ocultamento de sua “humanidade”. Aos olhos do povo cristão, religiosas(os) tinham adquirido uma aura mítica que as(os) afastava do comum dos mortais, com o perigo de desumanizá-las(os).

O escudo de plantão podia oscilar da sisudez ascética (que prevaleceu muito tempo sobre a mística) à exaltação das estruturas (aspecto institucional) passando pela primazia do jurídico (direito, lei e aspectos formais da vida). O “humano”, a pessoa, desaparecia por trás dessas proteções e foi sacrificado em aras de uma espiritualidade fria e rígida.

O indício mais evidente dessa perda de humanidade é o mundo das relações. A Vida Religiosa Consagrada acreditou ter afastado para sempre os perigos do mundo afetivo, ignorando os sentimentos e reprimindo os afetos. A violência dessa repressão era visível no comportamento das pessoas, na sinuosidade sutil de relações que se escondiam ou estavam mal resolvidas (quer no nível pessoal ou de grupo) e no autoritarismo mal disfarçado das relações de autoridade (governo, etc.).

E impossível negar o registrado na história. São fragilidades que não podem ser escondidas. E como se, em inúmeros rostos de religiosos(as), o rosto da Vida Religiosa Consagrada tivesse se tornado opaco à “alegria do Evangelho”;[7] como se aderir à pessoa de Jesus fosse sinônimo de estar condenados a viver em uma permanente “Quaresma sem Páscoa”?[8]

Existe, graças a Deus, o outro lado da moeda; são muitos os(as) religio- sos(as) cujas vidas irradiam a força de uma existência plenamente realizada, humana e evangelicamente. Mas esse fato inegável não dispensa a Vida Religiosa Consagrada de responder ao apelo de conversão que lhe vem da busca atual de “relações humanizadoras e solidárias”.

Pode-se responder a esse desafio atirando pedras em uma “Geni”[9] que incomoda e com a qual ninguém quer se identificar ou sentindo o olhar do Pai da misericórdia como um colírio que cura o nosso olhar e permite “ver” que a Vida Religiosa Consagrada, como casta meretrix, é e será sempre milagre da graça (charis, carisma), dom à espera de uma resposta responsável de nossa parte.

2. Os atores em questão

Do ponto de vista das relações, poderíamos dizer que hoje, na Vida Religiosa Consagrada, convivem dois grandes grupos etários que, para facilitar (mas sem intenção caricatural), vamos denominar o das “novas gerações” e o das “gerações maduras”.

São conceitos genéricos; cada grupo é internamente complexo e diferenciado e, além disso, a clivagem entre eles e o modo de abordar os diversos problemas dependem de variáveis que não passam pela idade (mentalidade, sensibilidade, etc.).

O problema das relações é levantado pelas “novas gerações”. Por motivos óbvios, esse grupo é mais vulnerável ao individualismo cultural e se torna presa fácil do pós-moderno. Não que o grupo das “gerações maduras” esteja imunizado; ele respira o mesmo ar e vive igualmente condicionado por essa atmosfera.

O grupo das “novas gerações” é mais sensível ao cultivo de relações qualificadas afetivamente (circulares, afetivas, solidárias) como algo natural e espontâneo. A sua tendência é subjetivar as relações, acentuando o aspecto emocional e afetivo. O grupo das “gerações maduras” porta as cicatrizes de uma época de repressão afetiva em que sentimentos e afetos não tinham lugar na Vida Religiosa Consagrada. São feridas abertas sob um tecido não recomposto por completo.

O diálogo e a construção de relações de comunhão só serão possíveis se os dois lados deixarem de olhar para si e se voltarem para o Evangelho. Até que ponto a dimensão comunitária da Vida Religiosa Consagrada pode ser, por um lado, antídoto contra a sedução do individualismo cultural das “novas gerações” e, por outro, vencer o ceticismo afetivo das “gerações maduras”?

3. A dimensão "comunidade" na Vida Religiosa Consagrada

As relações pessoais na Vida Religiosa Consagrada não podem ser reduzidas ao nível da realização pessoal (bem-estar dos indivíduos ou dos grupos); elas se inserem em um projeto maior: a Vida Religiosa Consagrada como projeto comum de vida.

Dois elementos essenciais configuram a vivência das relações (vida comunitária) na Vida Religiosa Consagrada: o chamado e a missão. Na origem da Vida Religiosa Consagrada, há um chamado pessoal de Jesus (vocação) a “estar com ele” que cria comunhão. “Estar com Jesus” é, ao mesmo tempo, “estar com outros” (também escolhidos por ele) “sendo para os outros” (envio e missão).

A vida comunitária é parte integrante desse projeto. Mas sua finalidade e expressões diferem segundo o tipo de vida e vocação (monástica ou apostólica). Na vida monástica, a communitas está associada à organização dos ritmos - espaços e tempos — dentro dos quais se processam a vida, a oração e o trabalho. Organização feita em função do tipo de vida monástica. O comunitário, assim organizado e ritmado, é parte constitutiva da vida monástica, que assim chega a ser ela mesma.

Outra bem diferente é a situação da vida apostólica. Ela vive para a missão e tem que se organizar em função da missão. Nesse tipo de vida, o “estar juntos” visa o “ser enviados juntos” em missão. O que determina o modo de viver as relações pessoais e as, expressões da convivência.

O nível “superior” dessas relações não significa que elas tenham lugar à margem do humano ou em oposição ao humano, mas que têm que ser construídas sobre outro fundamento: o dos valores hauridos em Jesus e no Evangelho. Esse fundamento lhes garante serem humanizadoras e solidárias, revestidas de sensibilidade, respeito e cuidado do “outro”, como as relações de Jesus.

A comunhão — “comunidade” — criada em torno de Jesus é uma realidade diferenciada; o seu ponto de partida é a adesão à pessoa de Jesus e ao seu estilo de vida “para os outros”, esse é o caminho para a construção de novas relações. Jesus nunca está sozinho. Por isso, “estar com Jesus” é cessar de orbitar em torno de si, ser arrancado do próprio isolamento e enviado aos outros.

O espaço de construção de novas relações é a distância que separa o “ideal” (“os com Jesus”, que a Vida Religiosa Consagrada está chamada a viver) e a “vida” real (o que ela dá conta de viver). Essa distância é o espaço de uma conversão permanente. Aproximar cada vez mais a vida do ideal é boa notícia que evangeliza o individualismo cultural que nos habita e o medo que se esconde por trás da repressão dos sentimentos.

IV. CONCLUSÃO

A prioridade das “relações humanizadoras e solidárias” obriga a Vida Religiosa Consagrada a voltar-se para uma realidade frágil e vulnerável de sua vida. O problema das relações, nos seus diversos níveis (pessoal, comunitário e de autoridade-governo), escancara diante dela a distância entre a “comunhão de vida” (ideal) à qual é convidada pelo chamado de Jesus e o que ela dá conta de viver na realidade concreta do dia a dia; distância entre a possibilidade de recomeçar, aberta pela graça, e o sereno reconhecimento de ser pecador.

Essa inadequação permite recuperar algo fundamental, mas esquecido muitas vezes pela Vida Religiosa Consagrada: o “processo” corno forma de viver. Afinal, a Vida Religiosa Consagrada, como toda vida cristã, está chamada à conversão do Evangelho. “Tecer relações de misericórdia, com palavras, gestos e atitudes humanizadoras” ressoa, ao mesmo tempo, como grito de esperança e humildade mea culpa das próprias fragilidades, do déficit de humanidade nas relações pessoais, comunitárias e de governo.

Por outro lado, para não ser refém do individualismo pós-moderno e das suas exigências subjetivas, o anseio das “novas gerações” por “relações circulares, afetivas e solidárias” tem que ser inserido no conjunto maior do projeto de vida comum da Vida Religiosa Consagrada. A “cultura do encontro consigo” não pode levar a pessoa a encurvar-se sobre si mesma. O humano solidário é mais e maior do que o psicológico-afetivo. E necessário tecer relações circulares, afetivas e solidárias, mas sem perder-se nelas e transcendendo-as.[10]

As relações autênticas têm de humanizar, mas a humanização se plenifica quando a pessoa se abre ao transcendente. Como diz o Papa Francisco: “chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para além de nós mesmos, a fim de alcançarmos o nosso ser mais verdadeiro”.[11]

Desse “humanizar as relações” faz parte, portanto, o “sair de si”, o ser descentrado. As relações têm de ser replantadas sem cessar no nível qualitativo da “mística” da adesão a Jesus e do serviço aos outros. “Mística” —            cristológica e apostólica — que opera um duplo descentramento: nos faz orbitar em torno de Jesus (sair de nós para ser “os com Jesus”) e nos abre à missão de ser, com Jesus, “para os outros” (envio em missão).

Espelhar-se em Jesus é o caminho para as duas perspectivas deixarem de olhar para si e encontrarem um ponto de vista comum. No diálogo e na interação entre gerações. De fato, as novas relações a serem desenvolvidas na Vida Religiosa Consagrada não são espontâneas, isto é, não foram estabelecidas sobre afinidades ou interesses comuns prévios; são relações construídas sobre o alicerce da chamada e do envio feito por Jesus. Recebidas como gratuidade, devem ser vividas gratuitamente (Mt 10,8).

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[1] Carlos Palácio, S.J. Rua São Clemente, 226 Rio de Janeiro. E-mail: cpataciosj.58@gmail.com.

[2] LS.

[3] Ibidem, n. 139. A grande intuição do Papa Francisco nesta Encíclica foi mostrar que as duas crises são inseparáveis.

[4] Ibidem, n. 137-162.

[5] De agora em diante darei preferência a essa denominação, porque é nesse tipo de vida apostólica que aparece com mais força a tensão entre duas maneiras de entender as relações na VC.

[6] “Carne da minha carne, osso dos meus ossos; cia será chamada humana porque foi tirada de mim” (Gn 2,23).

[7] É o convite insistente do Papa Francisco a toda a Igreja na Evangelii Gaudium (EG).

[8] EG, n. 6.

[9] Geni e o Zepelim: música de Chico Buarque, lançada em 1979

[10] O modo de entender a “circularidade” (no governo?) mereceria um capítulo à parte.

[11] EG, n. 8

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