Conceitos de consciência e mente no decorrer do século XX
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08/05/2018 Anderson Neves Conceitos de consciência e mente no decorrer do século XX
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Resumo: O presente artigo tem como objetivo explanar brevemente três ideias centrais sobre consciência nas obras de três pesquisadores importantes para o século XX. O consciente e subconsciente trabalhados, estruturados e abordados pelo pai da psicanálise Sigmund Freud, na tentativa de formar uma ciência da consciência. A fenomenologia de Maurice Merleau Ponty, com seus questionamentos sobre mente-corpo e uma ciência mentalística, a riqueza de suas obras ao agregar o corpo como fator importante para a consciência humana. E finalizando com o conceito de “enação” de Francisco Varela, aprimorando as visões de Merleau Ponty, e introduzindo princípios orientais de trabalhar a mente para fins científicos.

1. Introdução

O conceito de consciência foi abordado sob diferentes vertentes ao longo da história da filosofia. Na antiguidade, o que existia era uma “consciência metafísica”, desligada do mundo material, que buscava apreender a essência das coisas por meio da razão. Para os filósofos desse período, a consciência como intelecto é o que verdadeiramente define o homem. Este encontra-se dividido em corpo e mente, sendo o corpo parte irracional e enganosa do ser humano.

Com o cristianismo na Idade Média, a consciência adquire um caráter religioso e, ainda sob a perspectiva metafísica, ela pretende chegar à realidade íntima das coisas. Contudo, naquela época, o que ela realmente quer alcançar é a natureza divina enquanto princípio da verdade e a quem a razão deve submeter-se. Permanece, portanto, a distinção e oposição entre consciência e corpo, sendo atribuído à primeira um papel primordial no processo de conhecimento.

É importante ressaltar que até a Idade Moderna, os filósofos compartilhavam o mesmo modo de pensar: o modo metafísico. O modo metafísico consiste na crença de uma realidade autônoma e objetiva, independente do sujeito. Tudo existia como realização de uma determinada essência, ou seja, “cada ser, cada indivíduo é do jeito que é porque, ao existir, ele está realizando uma essência, uma natureza que lhe define suas características específicas, ou seja, características pelas quais ele pertence a uma determinada espécie de seres” (Batista Modin, vol 2. p 75).

O modo metafísico de apreensão da realidade foi analisado e criticado pelos filósofos modernos pois, para eles, o homem não pode chegar à essência das coisas através da razão natural. O que o homem pode efetivamente conhecer por meio da razão natural é seu próprio pensamento ou atividade de consciência e o mundo fenomenal, isto é, as coisas tais se apresentam à nossa percepção. Desse modo, desenvolveu-se uma nova forma de representação do mundo, a saber, a ciência.

Nessa linha de pensamento, Renes Descartes com sua consideração de “cogito ergo sum” (“penso, logo existo”) constitui a auto evidencia existencial do pensamento, ou seja, a garantia de que o pensamento, como consciência, tem da sua própria existência. Todas as coisas acontecem nas pessoas, enquanto cada um ter consciência delas.

A diferença entre Descartes e outros filósofos predecessores a ele, é o fato de considerar todo conhecimento existente no próprio homem, um sujeito pensante, e não em algo exterior como Deus ou a natureza. Então, ao dividir a realidade entre material e espiritual, Descartes é considerado um dualista e sua concepção de corpo caracteriza-se pelo mecanicismo. Para ele, a substância pensante é realmente a principal que define o homem, diferente da substância corpórea que apenas é uma massa no espaço e não possui nenhuma consciência.

Essa visão dualista do homem, presente no sistema cartesiano, influenciou consideravelmente o pensamento ocidental em áreas diversas como a filosofia, a ciência e a educação.

Na Idade Contemporânea, surge um modo de pensar dialético, privilegiando a dimensão histórica da existência humana e atribuindo maior dinamicidade à consciência. Porém, embora seja dada maior ênfase ao conhecimento sensível, ainda é dada maior ênfase ao conhecimento racional.

Com as pesquisas realizadas ao decorrer da história, e por haver uma liberdade para novas análises, o século XX foi repleto de pesquisadores querendo entender como a mente funciona. Desde psicólogos com novos tratamentos introspectivos a matemáticos e biólogos.

2. Consciência na teoria freudiana

Sigmund Freud e a psicanálise se popularizaram de tal forma que suas ideias são, muitas vezes, veiculadas de modo errôneo e equivocado. A primeira parte desse artigo têm como objetivo explanar de forma breve o que é a psicanálise e a naturalização da mente segundo Freud.

Primeiramente é preciso entender que a psicanálise é uma teoria desenvolvida a fim de explicar o funcionamento da mente humana. Além , a partir dessa explicação, ela, a psicanálise, se transforma em um método científico de tratamento de diversos transtornos mentais.

São dois os fundamentos da teoria psicanalítica: 1) Os processos psíquicos são em sua imensa maioria inconscientes, a consciência não é mais que uma fração de nossa vida psíquica total; 2) os processos psíquicos inconscientes são dominados por tendências sexuais naturais da estrutura biológica humana.

Nesse sentido, Freud buscou explicar a vida humana, tanto pessoal e individual quanto pública e social, recorrendo a essas tendências sexuais a que chamou de libido. Com esse termo, o pai da psicanálise designou a energia sexual de maneira mais geral e indeterminada. Assim, em suas primeiras manifestações, a libido liga-se a outras funções vitais; por exemplo: no bebê que mama, o ato de sugar o seio materno provoca outro prazer além do de obter alimento e esse prazer passa a ser buscado por si mesmo.

Por isso, Freud afirma que a boca é uma “zona erógena” e considerada que  prazer provocado pelo ato de sugar: é sexual. Portanto, a libido pode nada ter em comum coma as áreas genitais.

Pode-se entender que a psicanálise compreende as grandes manifestações da psique como um conflito entre tendências sexuais ou libido e as fórmulas morais e limitações sociais impostas ao indivíduo. Esses conflitos geram sonhos, que seriam, segundo a interpretação freudiana, as expressões deformadas ou simbólicas de desejos reprimidos. Geram também os atos falhos ou lapsos, distrações falsamente atribuídas ao acaso, mas que remetem ou revelam aqueles desejos sexuais reprimidos ou já exprimidos.

A psicanálise, que se faz através da conversação, trata as doenças mentais a partir da interpretação desses fenômenos, levando o paciente a identificar as origens de seu problema, o que pode ser o primeiro passo para uma suposta cura. Um dos fenômenos que ocorre durante a terapia psicanalítica é a transferência dos sentimentos, principalmente de amor e ódio, do paciente para o seu analista.

Outro conceito agregado à teoria por seu próprio criador foi o de sublimação, que compreende a transferência da libido para outros objetos de natureza não sexual, gerando fenômenos como a arte ou a religião. Além dele, há também o conceito de complexos, mecanismos associativos aos quais devem ser atribuídos as principais pertubações mentais.

No livro “O Ego e o Id” (1923), Freud expôs uma divisão de mente humana em três partes: 1) o ego que se identifica à consciência humana; 2) o superego, que seria a consciência moral humana, ou seja, os princípios sociais e as proibições que nos são inculcadas nos primeiros anos de vida e que acompanha o homem de forma inconsciente a vida inteira; 3) o id, isto é, os impulsos múltiplos da libido, dirigidos sempre ao prazer. Freud chama o ego de eu, o superego de supereu e o id de isso.

A influência que Freud exerceu em várias correntes da ciência, da arte e da filosofia foi enorme. Mas não se deve deixar de dizer que muitos filósofos, psicólogos e psiquiatras fazem sérias objeções ao modo como o pai da psicanálise e seus discípulos apresentam seus conceitos: como realidades absolutas e não como hipóteses ou instrumentos de explicação que podem ser ultrapassados pela evolução científica que, de fato, em muitos casos, se concretizou.

Independentemente disso, a importância de Sigmund Freud para a ciência é inquestionável e reside principalmente em três pontos. Antes de mais nada, o destaque pioneiro que ele deu ao fator sexual que era – até Freud – uma área de completa ignorância para a ciência e a filosofia.

Além disso, vários conceitos desenvolvidos por Freud serviram a diversos ramos da psicologia e possibilitaram o avanço dessa ciência que é muito mais do que um simples complemento da psiquiatria, enquanto uma especialidade médica. Isto é, a psicologia não se limita a tratar os distúrbios, mas a tentar explicar os processos psíquicos do ser humano.

2.1  Consciência na perspectiva fenomenológica de merleau ponty

Enquanto que a dicotomia mente e corpo ainda era, e ainda é, explorada por vários filósofos, depara-se com um grupo de pensadores que, insatisfeitos com a forma de conhecimento estabelecidas, resolvem criar uma metodologia para o conhecimento, tanto no âmbito da ciência como o da filosofia. Surge, então, a Fenomenologia, tendo como intuito chegar às coisas mesmas, descrevendo os fenômenos tais quais eles são experienciados pela consciência e onde sujeito e objeto se inter-relacionam no processo do conhecimento. O conhecimento do mundo, mesmo em termos científicos, se dá a partir a partir da própria experiência do sujeito. Todo o saber científico deriva do mundo vivido, ou seja, dos pensamentos, percepções e vivências que se têm no meio natural. Por isso, Merleau Ponty (1994, p.3) afirma que

(…) tudo aquilo que sei do mundo, mesmo por ciência, eu sei a partir de visão minha ou de uma experiência do mundo, sem a qual os símbolos da ciência não poderiam dizer nada. O universo da ciência é construído sobre o mundo - vivido e, se queremos pensar a própria ciência com rigor, apreciar exatamente seu sentido e seu alcance, precisamos, primeiramente, despertar essa experiência do mundo da qual ela é a expressão segunda.

É, pois, na intersubjetividade, ou seja, na intersecção das experiências entre os indivíduos, que o mundo fenomenológico encontra sentido (Merleau Ponty, 1994)

Na perspectiva fenomenológica, a consciência adquire um novo significado, totalmente diferente daquele existente até então. Ela é definida como percepção, de modo que não há separação e oposição entre os dados sensível e racional no ato de apreensão das coisas. As experiências constituem a fonte de todo o conhecimento, sendo este adquirido no próprio mundo, um mundo que existe ao nosso redor e que só passa a existir efetivamente para nós quando lhe é atribuído um sentido.

O mundo está aí mesmo, ele é inesgotável, pois o conhecimento que pode-se ter dele é em perspectiva, ou seja, há várias possibilidades ou ângulos de apreendê-lo, dependendo das vivências de cada um. Assim, a consciência está ininterruptamente voltando-se para o mundo e buscando, através da essência, um contato mais direto e profundo com a existência ou, em outros termos, com o próprio mundo.

Essa intencionalidade, ou qualidade da consciência de dirigir-se ao mundo a fim de apreendê-lo, se manifesta na motricidade. É a motricidade que permite a todos se lançarem ao mundo e captar o seu sentido. Ela engloba tanto a significação intelectual como a significação motora, de modo que não há separação entre o dado sensível e o entendimento na apreensão que eu tenho do mundo. Dessa forma:

(…) quando faço um sinal para um amigo se aproximar, minha intenção não é um pensamento que eu preparava em mim mesmo, e não percebo o sinal em meu corpo. Faço sinal através do mundo, faço sinal ali onde se encontra meu amigo, a distância que me separa dele, seu consentimento ou sua recusa se leem imediatamente em meu gesto. Não há uma percepção seguida de um movimento, a percepção e o movimento formam um sistema que se modifica como um todo. (Merleau Ponty, 1994, p. 159-160)

É pois, com o corpo que apreende-se as coisas que estão ao redor, de acordo com as situações que cada um vivencia. A presença no mundo é, portanto, uma presença corporal. O modo como o corpo encontra-se no mundo é expresso pelo esquema corporal. Essa presença corporal define o lugar de onde vivencia-se o mundo, isto é, a zona de corporeidade. É habitando o espaço e o tempo que as ações adquirem um sentido que é atribuído pela corporeidade. Ela se funda no corpo dotado de uma intencionalidade original, ou seja, de motricidade, a qual permite voltar-se ao mundo para apreende-se o seu sentido.

É como ser sexuado que o corpo realiza a existência, isto é, os gestos possuem uma significação que é sexual. Contudo, a sexualidade aqui não se limita à genitalidade, tampouco se assimila aos estudos de lascividade exacerbada de Sigmund Freud, mas revela a maneira de cada um ser. Dentre os gestos que o corpo exprime, encontra-se a fala ao estar totalmente entrelaçada ao pensamento. A fala é, pois, dotada de um sentido afetivo que permeia a relação com o outro, numa reciprocidade de intenções.

É pela linguagem sensível que o corpo expressa a unidade do homem. O sensível refere-se ao domínio pré-objetivo, o do sentir, ao mundo sobre o qual repousa todo o conhecimento objetivo, sendo também aquilo que nos confere uma existência singular. Por isso, não cabe existir, realmente, uma ciência que analisa, ou tenta, a forma como se faz o pensamento ou a cognição humana. Cabe-se estruturar, ou explanar, como poderia ocorrê-la, mas, mesmo assim, muita das singularidades existenciais de cada pessoa não suportaria particulares válidos para que se forme um conceito universal científico.

Ainda em suas pesquisas Freud estabelece que o sonho, se caracteriza como de alguma forma, a realização de desejos ou neuroses, acreditava que a fonte das perturbações emocionais residia nas experiências traumáticas reprimidas nos primeiros anos de vida. Desta forma, assumia que os conteúdos “inconscientes”, apenas se encontravam disponíveis para a consciência, de forma disfarçada (através de sonhos e lapsos de linguagem). Neste sentido, Freud desenvolveu na psicanálise, uma abordagem terapêutica que tem por objetivo o conhecimento dos demais conflitos emocionais “inconscientes” e atos falhos dos quais ele mesmo procuraria sua compreensão em função de um determinado sujeito, através de certa cientificidade que idealizava a analise, a causa e a explicação em terceira pessoa. Portanto são para Freud coisas internas ou mentais, acessíveis em principio á introspecção em vez de formas de relacionamentos com os objetos fora de nós, determina ainda, que tais experiências advêm de um “inconsciente”, e que os pensamentos ou conteúdos mentais que por algum motivo eram reprimidos eram “empurrados” para o que ele então chamou de inconsciente, mantidos “fora de vista”.

Na visão de Merleau Ponty a noção freudiana de inconsciente, é compreendida como conjunto de representações (carregadas de afeto), das quais percebemos apenas os efeitos na consciência, destacaria que este “inconsciente” ou este lugar de “forças impessoais”, descaracteriza a autonomia do sujeito, uma vez que “pensamentos inconscientes” estariam à mercê de si mesmo independentes da participação de um sujeito. Para ele, o inconsciente não é definido como o inverso da consciência, mas descreve-o a partir do conceito de figura e fundo, segundo o qual alguma coisa existe graças a um fundo, a um conteúdo latente que, como campo, constitui a figura denominando então este “inconsciente” como o menos perceptível, pois assim esta parte de nos mesmos que esta sempre “ali” meio que adormecida, que sentimos ainda que aquém de nossas representações, ao qual percebemos o mundo, mesmo que presentes em algumas formas confusas, mas de forma alguma um “inconsciente”.

“Não há homem interior, o homem está todo no mundo”. – MERLEAU PONTY – in Fenomenologia da Percepção.

Merleau Ponty ainda ira abordar a então a psicologia da Gestald, em que é designada como uma teoria que estuda como os seres humanos percebem as coisas, permitindo interpretar a forma como uma estrutura em que facilita a compreensão fenomenológica do ser vivo. Tal teoria enfoca as leis mentais ou ainda os princípios que determinam a maneira como percebemos as coisas ou na qual o sujeito percebe o fato por meio de uma organização de estímulos, estruturando-se de tal maneira que uma configuração se destaca no primeiro plano, e este processo é possível porque existe um fundo, pois  nossa percepção não se dá por “pontos Isolados”, mas sim, por uma visão de “todo”. Então, funda-se nessa ideia de que o todo é mais do que a simples soma de suas partes. Está reinterpretação de Freud por Merleau Ponty concentra alguns pontos específicos, assim abordados como um sujeito que tem um corpo e o exprime em primeira pessoa, e que este esta no mundo e não aquém de uma “realidade”, mas que esta em pleno desenvolvimento.

Torna-se claro, portanto, que Merleau Ponty não considera a existência de uma rígida divisão e oposição entre consciência, subconsciência e corpo, pois estão dialeticamente relacionados, haja vista a qualidade do corpo de expressar, numa linguagem sensível, a unidade humana.

3. Nova ciência da cognição, fenomenologia emergente segundo francisco varela

A ciência cognitiva avança a passos largos e, certamente, um dos mais amplos desses passos tenha sido dado por Francisco Varela em seus últimos trabalhos (Varela et al., 1993; Petitot et al., 2000), ao apontar uma “ponte” entre a fenomenologia existencialista e o fenômeno do conhecer. Naturalizar a fenomenologia foi um desafio, aceito por diferentes pesquisadores do campo das ciências cognitivas, que adquiriu seu ápice na obra editada por Petiot, Varela, Pachoud e Roy (2000), The specious present: A neurophenomenology of time consciousness; que traz consigo a junção de ideias de Husserl, Heidegger, Merleau-Ponty e outros.

A abordagem “enacionista”1 (e sua noção de mente incorporada) indica um caminho pragmático nas ciências cognitivas: O verdadeiro conhecimento do funcionamento da mente e a elucidação dos fenômenos da consciência exigem uma ruptura com a tradição científica ocidental, carregada de obstruções e impedimentos pertencentes ao próprio ser, para, então, uma reelaboração da “nova prática científica”, de modo a incorporar técnicas de reflexão “atenciosa e consciente” típicas das epistemes orientais (Varela, F.J., Thompson, E. e Rosch, E. 1993).

A ciência ocidental parou no tempo, segundo Varela, em um tempo em que a exterioridade dos tecnicismos, mobilizados pela fúria do capital e pelo progresso tecnológico em seu sentido vulgar, taparam o desenvolvimento das ciências e saberes. Estes são, agora, retomados por filósofos como Varela como indispensáveis ao acesso a uma verdade ocultada pela história de progresso técnico. Aponta-se, assim, o caminho científico para o conhecimento do que realmente é o conhecer. Verdade também buscada por Heidegger por exemplo. Portanto, influenciado, também, pela filosofia heideggeriana de acesso à verdade inacessível pelas obstruções da impessoalidade criada nos estudos ocidentais, Francisco Varela ficou conhecido como um dos pesquisadores que demonstram os meios de acesso a conhecimentos inacessíveis pelas vias do corpo sensorial atuante no mundo.

“É somente tendo uma visão do fundamento comum entre as ciências cognitivas e a experiências humana que nossa compreensão da cognição pode ser mais completa e atingir um nível satisfatório. Propomos então uma tarefa construtiva: Alargar o horizonte das ciências cognitivas de forma a incluir, num escopo mais abrangente, a experiência humana vivida, por meio de uma análise disciplinada e transformadora.” (Varela et al., 1993: 14)

Francisco Varela tenta mostrar o lado pragmático da complexa e intricada filosofia de Heidegger no campo das ciências cognitivas. Estabeleceu os caminhos de tronar aplicáveis as “técnicas-de-sí ou retorno a sí” para acesso a uma realidade desconhecida. Graça a junção dos pensamentos de Heidegger, Merleau Ponty e Varela, que são convergentes na abordagem atuacionista da cognição (Varela et al., 1993; Petitot et al., 2000) a revelação do como conhecer, pela experiência vivida, algo que a ciência ocidental não conheceu por não se valer de práticas de atenção /consciência presente nas culturas orientais milenares.

Acesso possível, então, via o esvaziamento completo da mente que conhece, gerando efeitos positivos para o conhecimento científico. O contato com o mistério e com o vazio profundos que se tornam instrumentos a iluminar o caminho “nova” ciência. Varela  foi audacioso ao arriscar-se embrenhar por meios dificilmente compreendidos. “Resumidamente, o problema mente-corpo adquiriu o status de problema central de uma reflexão abstrata porque a reflexão, em nossa cultura, foi afastada de sua existência corporal” (Varela et al., 1993:30)

Segundo esta proposta pragmática de raciocínio, proposta por Varela e outros pesquisadores das ciências cognitivas na atualidade, o conhecimento do objeto não se dá sem que se conheça o fenômeno que gera o conhecimento, ou seja, a mente do conhecedor no processo de conhecer. É preciso “sair de si” para observar a si mesmo no ato de conhecer. Isso convida a um vazio, a uma mudez, ao vácuo da mente que deve parar no tempo e no espaço; esvaziar-se; tornar-se desapegada de todos os vestígios de cotidianidade impregnados ao longo de uma história de acoplamento ao mundo objetivo, concreto e tangível.

“Nós acreditamos que a meditação atenciosa/consciente pode constituir uma ponte natural entre a ciência cognitiva e a experiência humana. Particularmente impressionante para nós é a convergência que nós estamos descobrindo entre alguns dos principais temas da doutrina Budista, a fenomenologia e a ciência cognitiva – temas relativos ao ”si” e à relação entre sujeito e objeto” (Varela, Thompson e Rosch, 1993: 33)

A nova ciência se dá na profundidade subjetiva do corpo fenomenal, na colocação de “si” em estado de hibernação máxima, de contemplação aguda e estarrecedora, de forma a fazer emergir no novo processo de conhecer livre, meios de acesso à realidade que sempre percebidas - “estar – aí; estar – em”, na terminologia de Heidegger (1927/2005)

“Um desapego necessário, um desaprendizado que exige treinamento e esforço, (…) como afinar um instrumento de cordas. Quando a pessoa que pratica está meditação atenciosa/consciente finalmente deixa fluir o vazio, em vez de ficar lutando com a própria mente, então corpo e mente encontram-se naturalmente coordenados e incorporados. A meditação/reflexão é, então, alcançada como uma atividade natural”. (Varela et al., 1993: 29)

O conhecimento não opera por representação do mundo exterior, mas está intrinsecamente atrelado ao mundo em relação de co-especificação mútua. Sujeito que conhece e objeto conhecido especificam-se mutuamente, ou se co-especificam. Nas palavras de Varela, não se tem conhecimento por meio de “uma transferência de informação do remetente para o destinatário, mas sim pela modelagem mútua de um mundo comum por meio de uma ação conjugada” (Varela, 1994: 91). Ou seja, o conhecimento não está “lá fora”, dado e acabado, pronto para ser processado, mas é dependente da atuação do agente. A mente não espelha a natureza, ou seja:

“Trata-se de uma interpretação contínua que não pode ser adequadamente fechada em um conjunto de regras e de pressupostos, porque depende da ação e da história; é um mundo de significado de que nos apoderamos por imitação e que se torna integrante do nosso mundo preexistente. Mais ainda, não podemos ns excluirmos do mundo para comparar o seu conteúdo com as suas representações. Estamos sempre imersos neste mundo” (Varela, 1994: 78)

O conhecimento não é resultado de um espelhamento da natureza pela mente. O conhecimento é ontológico: depende do ser no mundo. Não há um sujeito do conhecimento isolado de um mundo de conhecimento situado pelo corpo. As propriedades de conhecer o mundo emergem com a atuação do agente no mundo concreto, material e encarnado. A mente não é um aparelho de captar e processar informações em mundo exterior, mas funciona como mente incorporada ou embodied mind (Varela et al., 1993) que “está no mundo”, acopla-se ao seu mundo e, deste acoplamento, emergem fenômenos de conhecer.

4. Considerações Finais

Fica-se a consideração da importância desses filósofos no estudo de um assunto tão importante e que acompanha a história da humanidade há séculos. Provavelmente não haja uma precisão definitiva de como caracterizar, se possível, uma ciência unicamente voltada para os estudos da consciência humana. Pode-se assimilar a mente com alguma teoria heraclitiana de conflitos, ou até mesmo afirmar que não se é possível uma ciência, com esse objetivo, pois cada pensamento é caracterizado pelas individualidades de cada indivíduo; ou ainda, acreditar que o “esvaziamento de si” é possível para fins científicos, mas fato é que para estudar o homem, e isso incluí sua mente, uma só disciplina não é possível.

REFERÊNCIAS

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MATTHEWN. ERIC – COMPREENDER MERLEAU PONTY:.2º Edição. PETRÓPOLIS:EDITORA VOZES, 2010.

Merleau-Ponty, Maurice. Estrutura do comportamento. Editora: WMF MARTINS FONTES. Coleção: Tópicos, 2006.

Merleau-Ponty, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Editora: Livraria Martins

SCIELO. O inconsciente no pensamento de Merleau-Ponty: contribuição para a psicoterapia – Disponivel em:< http://www.scielo.br/scielo.> Acesso em: 15 nov. 2015.

CARDOSO BOUYER, Gilbert. A “nova” Ciência da Cognição e a Fenomenologia: Conexões e emergências no pensamento de Francisco Varela. Ciências & Cognição, São Paulo, v.07, n. 81-104, p 81 – 102, fev. 2006. Disponível em:

MATURANA, H. R.; VARELA, F. A árvore do conhecimento: as bases biológicas do entendimento humano. Campinas, SP: Psy II, 1995.

MONDIN, Battista. Curso de Filosofia – volume 2. Ed 15. Local: Paulus, 2013.

VARELA, F. CONHECER, As Ciências cognitivas – tendências e perspectivas. Trad. Maria Teresa Guerreiro. Instituto Piaget, 2000.

VARELA, F. J.; THOMPSON, E.; ROSCH, E.  A mente corpórea: ciência cognitiva e experiência humana. Lisboa: Instituto Piaget, 2001.

VARELA, Francisco. O fenômeno da Vida, São Paulo, SP. Dolmen 2000 

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