Comunidade - Relação x poder
Artigos
            Informações             Artigos             Comunidade - Relação x poder
05/04/2018 Convergência Comunidade - Relação x poder
lava-pés
A+ a-
"Servir é o caminho da felicidade (Jo 13,17)."

Por: Frei Moacir Casagrande e Irmã Zenilda Petry

Extraído de: Revista Convergência, janeiro/fevereiro, 2017, Ano LII, nº. 498, p.23-25

Partimos do princípio de que o problema do poder está no tipo de relação estabelecida. Todas as relações são, de algum modo, manifestação de poder e, todo poder, se expressa em algum tipo de relação. A questão é o princípio orientativo que habita quem toma a iniciativa e a meta desejada, se considera ou não a realidade da outra pessoa.

Nós temos, evidentemente, princípios orientativos fundamentados na Palavra de Jesus, mas o problema são as interpretações que daí decorrem. Para iluminar nossa mesa resolvemos ler, encenando João 13,1-17, a lição do “lava-pés”, procurando ver como Jesus encaminha as relações de poder na nova comunidade.

A ceia. A ceia do lava-pés acontece em caráter de despedida; isso expressa um gesto testamentário. Testamento é a herança que o pai ou senhor passa ao herdeiro. E aquilo que o moribundo não quer levar consigo, mas que continue fazendo história no mundo. O lava-pés é um testamento.

“Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1), isto é, até passar tudo aos amados, nada reservando para si. Assim o líder se despoja em favor dos liderados. A passagem acontece durante uma refeição, momento de muita intimidade e partilha. A refeição é ao mesmo tempo um restabelecimento e uma capacitação; é para ser a melhor expressão de congraçamento e comunhão, mas depende das intenções dos participantes. A decisão de Jesus de lavar os pés dos discípulos procurou favorecer a explicitação das intenções dos participantes.

O lava-pés. Jesus escolhe um gesto conhecido, mas aplica num tempo não convencional e de modo muito estranho. Lavar os pés antes da ceia faz parte de um ritual tradicional e não causa espécie, mas lavar os pés no meio da ceia é difícil de entender e mais ainda de aceitar. Há uma estreita relação entre comer e servir. Servir é alimentar o outro. Comer é se alimentar, mas alimentar é símbolo, tem a ver com o físico, o psíquico e o espiritual. A gente nutre pensamento, sentimento, conhecimento, atitudes etc. Este lavar nada tem a ver com purificar, mas com sair de si em favor das necessidades básicas do outro, da outra.

Despojar-se do manto. Antes de começar, ele se despoja do próprio manto. O manto tem a ver com o abrigo essencial da pessoa (Dt 24,12-13). O manto também pode dizer da identidade dela; aqui pode ser também visto como símbolo de poder, isto é, da liderança de jesus sobre os discípulos. Ele, espontânea, voluntária e livremente se despoja do manto, mas não fica só nisso; ele se cinge imediatamente de um avental improvisado e de uma toalha. Aí está uma importante orientação. Ele se desfaz do sinal de senhor e se veste do sinal de servo. Isso pode dar a entender que, quando alguém lidera sem o sentido de serviço, isto é, como senhor, não dá conta de entender a real necessidade do outro nem o verdadeiro alcance de sua missão. Quando, porém, lidera com o sentido de serviço, presta atenção na necessidade de quem está sendo servido.

Por que os pés? Jesus escolheu lavar os pés. Para lavá-los é necessário se inclinar, se curvar chegando até o pé. Este gesto caracteriza o verdadeiro servidor, isto é, servir como servo. Ele sai de sua posição de conforto para dar conforto ao que está sendo servido. O falso servidor, aquele que serve como senhor, não se curvava. Ele obriga o pé que está sendo servido a chegar a uma posição tal que lhe seja cômoda. O servido tem que se adequar ao tempo, ao lugar e ao modo do servidor. Quando Jesus tira o manto e coloca o avental, ele está nos ensinando a tomar esta atitude diante de quem vamos servir.

Observemos que o pé também é um símbolo. Ele se encontra na posição mais inferior de nosso corpo e nos aguenta o dia todo. Ele é nosso jumento, nos carrega por toda parte. Os pés são os nossos servos. Assim, lavar os pés significa servir os servos.

Quem serve o senhor ganha a dignidade do senhor, é reconhecido e respeitado pelo senhor que serve, mas Jesus nos mostra outra via. O reino do céu não é de servidores de senhores, mas de servidores de servos; tem como prioridade não receber, mas oferecer dignidade.

A função da toalha. Jesus enxuga os pés com a toalha que está presa a sua cintura; isso o obriga a aproximar o pé do seu ventre ou seu ventre do pé que está sendo servido. Em Jesus, Deus serve o discípulo da maneira mais cuidadosa, com misericórdia, pois em suas entranhas habita a misericórdia. Deus serve colocando todo o seu ser com todo cuidado a serviço do servidor. Isso explicita o modo de exercitar a liderança crista.

A ordem do serviço. Jesus não começa por Pedro. Ele sabe que Pedro tem dificuldade com a novidade. Pedro é guardião da tradição. Ele só lidera escoltado pela tradição, mas Jesus está ensinado que, para liderar como o Pai do céu deseja, não se pode ficar preso à tradição. A tradição preservada por Pedro deve ser mudada. Pedro então fica assustado e desorientado. Primeiro se nega terminantemente a ser servido por Jesus, mas quando Jesus mostra que a atitude de Pedro o exclui da nova comunidade, então quer um banho total. Jesus está apenas dando um sinal. Pedro não precisa de banho, precisa abrir-se para o novo, para o reino de Deus. A tradição dificulta abrir-se para a novidade, mas a novidade fecunda a tradição, dando-lhe o verdadeiro sentido. A comunidade não pode ficar em função de Pedro, mas precisa ser aberta a todos e por todos ser servida. Jesus não começa pelo mais problemático, mas depois de uma caminhada encara também o problemático, pois a todos é necessário oferecer a novidade. Este lava-pés não é um rito de Batismo, nem um rito de*acolhida; ambos conhecidos de Pedro e dos demais; é um rito de entrega, pois no reino de Deus liderar é dar-se. No reino de Deus a liderança não é piramidal, é circular. “Também deveis lavar-vos os pés uns dos outros” (Jo 13,14).

O lugar de Judas. Jesus lava os pés de Judas, mesmo conhecendo sua intenção (Jo 13,2.11), pois ele não veio para excluir. Jesus chamou e Judas aceitou segui-lo (Mc 3,19). Agora, a esta altura da caminhada, Jesus dá sinais de que continua querendo-o em sua comunidade, mas é Judas quem não consegue mais manter-se no discipulado. A liderança de Jesus tem a finalidade de mantê-los e alimentá-los no desígnio do Pai, mas Judas precisa corresponder.

Manto com avental. Depois de lavar os pés, Jesus retoma, veste novamente o manto, mas não depõe o avental. E no avental que se exercita a liderança ao modo de Jesus. E no avental que se alimenta o sentido dessa liderança. Quando se abandona o avental, a liderança se confunde com tradição e não deixa mais lugar para o Espírito agir. A liderança de Jesus e de seus segui¬dores e seguidoras caracteriza-se pelo servir, e não pelo mandar ou pelo mandar como servidor e não como senhor.

Servir é o caminho da felicidade (Jo 13,17).

Frei Moacir Casagrande é membro do Conselho Editorial da CRB.

Irmã Zenilda Petry é membro da Equipe Interdisciplinar da CRB.

Nome:
E-mail:
E-mail do amigo:
DEIXE UM COMENTÁRIO
Artigos
                  
Receba as notícias e artigos da Província Santa Cruz. Cadastre seu e-mail...
Centro Administrativo | WebTop
Seth Comunicação