Características do jovem de nosso tempo
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10/05/2018 Convergência Características do jovem de nosso tempo
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Extraído de: Revista Convergência, julho/agosto, 2017, Ano LII, nº. 503, p. 55-61

Frei Rubens Nunes da Mota[1], OFMCAP.

Introdução

Quando me foi proposto este tema logo me veio o questionamento sobre a diferença entre característica e perfil. Sabendo que perfil é uma categoria classificada pela psicologia para identificar pessoas com base na psique pessoal e nos comportamentos grupais e sociais, me voltei para o público leitor desta Revista, religiosos e religiosas interessadas no campo eclesial e vocacional. Com este foco é que tentarei ver algumas características que possam nos ajudar na missão junto às diversas Juventudes. O que é importante ressaltar é que, mesmo trabalhando os elementos abaixo como características do jovem, não são exclusivamente deste público, pois nós, adultos, também as temos. O que veremos é que o impacto no jovem é maior por ser configurado dentro deste sistema, enquanto nós, adultos, somos migrantes neste tempo.

A compreensão sobre o tema

Acredito ser importante mostrar aos leitores e às leitoras de onde falo, pois tenho uma abordagem que dá sustentação às minhas reflexões, a saber, pensamento sistêmico. A epistemologia sistêmica[2] nos possibilita compreender a pessoa a partir das relações que estabelece nos diversos sistemas dos quais faz parte, como família, Igreja e demais grupos sociais. Os sistemas são sinalizadores dos contextos e não, exatamente, implantadores ou responsáveis por todas as mudanças por si mesmos.

As características podem ser compreendidas a partir destas influências, especialmente observando o nível do significado que cada experiência relacional, ideológica e estrutural teve e tem mediante a pessoa ou o fato estudado. Nesta perspectiva as Juventudes devem ser compreendidas a partir da análise da ideologia do sistema, seu impacto no sistema familiar e o significado que fica na vida de cada jovem.

Características sociais

Temos muitas maneiras para o estudo das características juvenis, contudo vou apontar algumas neste item para ajudar na compreensão do jovem de nosso tempo. A primeira nos vem da reflexão sobre os tempos geracionais. E o esquema mais conhecido entre nós e por isso não precisa ser trabalhando com profundidade. E um esquema que trata de quatro gerações que vai mostrando que as características são próprias de cada tempo. A primeira, chamada de geração Baby Boom, ou explosão de bebês, com seu público acima dos 60 anos, trata sobre o impacto dos jovens que, após lutarem na segunda Guerra Mundial, chegam aos seus países de origem e implantam um novo estilo, com características de estabilidade e segurança. A segunda é a geração X, composta por pessoas entre 40 e 50 anos, sendo um público de transição, com tendência a guardar valores herdados, porém com abertura para o novo, como migrantes diante das novidades e apelos atuais. A terceira, a geração Y, composta por pessoas entre 20 e 30 anos, é uma geração ágil, flexível com potenciais para fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Por fim, temos a quarta, a geração Z, jovens de até 20 anos de idade, é a geração da conexão, a que “nasce com um chip na cabeça”, com as mesmas características da geração Y, porém de modo muito mais acentuado. Estas duas últimas gerações dizem respeito ao tema deste artigo, trazendo suas características positivas como flexibilidade, agilidade, abertura e outras mais. Contudo, como nos diz a parábola do joio e do trigo, junto com os aspectos positivos são apontadas as contaminações do sistema, tornando os projetos às vezes frágeis mediante a inconstância e a troca constante na busca pelo consumo de novas experiências.

Além desta leitura das Juventudes a partir das diversas gerações, no contexto social podemos perceber características juvenis a partir das tribos que configuram perfis. Chamamos de tribos os grupos juvenis sociais alternativos que se juntam por identificação e oposição. Ao mesmo tempo que se identificam com um ideal comum, normalmente se opõem a algum aspecto social com o qual não concordam. Por se manterem vivos na sociedade, percebemos que a existência do grupo é importante na vida do jovem, seja para sua segurança diante do grupo de iguais, seja pela identificação, amizade ou constituição identitária. Algumas tribos são características como, por exemplo, os “emos”. E uma abreviação da palavra em inglês emotion, que significa “emoção”. E um grupo que cultiva melancolia, reuniões com temas introspectivos e até fúnebres, buscando aconchego e escuta diante da solidão familiar e isolamentos sociais. Percebemos o contraste desta tribo com os “coloridos”. Esta é uma tribo que implantou um estilo de vestir: com uso de cores chocantes e contrastantes (tênis de uma cor, meia de outra, calça de outra, cueca de outra, camisa de outra, cabelo, unhas etc.), mostrando uma contestação aos padrões estéticos impostos formalmente como camisa de força. Ademais, poderíamos citar muitas outras tribos, como pichadores, que sempre estão dando um recado ao demarcarem seus territórios, os que são ligados aos estilos musicais (hip hop; etc.), contendo sempre características semelhantes sobre a identificação e oposição social.

Características midiáticas

Mesmo que faça parte do contexto social, elejo um item para as “características midiáticas” por perceber grande importância destas, não somente nos comportamentos, como foi visto na leitura geracional acima, especialmente as gerações Y e Z. Neste ponto tentaremos mostrar algumas das influências que marcam estas duas gerações, ao ponto de configurarem perfis e personalidades a partir das influências midiáticas, marcando fortemente uma característica juvenil atual.

Comecemos observando a influência do sistema, ou dos sistemas. Como fazemos parte de um sistema capitalista, que é sustentado pelo consumo, este pode ser o primeiro a ser observado neste processo de influência. Mesmo diante de tantas belezas que os progressos atuais nos ofereceram, com tecnologia moderna e conexão imediata, destacam-se alguns prejuízos. Com os avanços, somos obrigados a trocar de objetos constantemente, tanto em função da utilização de novos recursos, como pela “criação da necessidade” se nos sentirmos incluídos socialmente. Aqui, podemos notar o que víamos na reflexão geracional sobre flexibilidade versus inconstância. As trocas impostas pelo sistema capitalista causam impacto não só no meio ambiente, porque o planeta não consegue mais absorver tantos descartáveis, mas também nas relações e opções (namoro, casamento, faculdade, religião). Do cansaço do uso de um aparelho telefônico, eletrodoméstico, passa-se também para o cansaço e desgaste na convivência.

Somado ao contexto do sistema de compra e venda do mercado, há o mundo midiático, em que temos a configuração de identidades, pois a troca de objetos tem tido sua expressão na troca de opções e de pessoas. Aqui, podemos perceber a mistura destas duas dimensões que se complementam, pois a venda do aparelho vem com sua utilidade, ou seja, seu uso midiático. O significado do aparelho celular ganha valor e praticamente passa a fazer parte da pessoa devido às redes de relações por ele estabelecida. Percebamos em nós e nas pessoas com as quais convivemos como está cada vez mais difícil ficar longe do celular e das redes sociais.

Aqui temos a característica de um(a) jovem que tem nas redes virtuais sociais sua principal forma de relação. Estas relações trazem a beleza devido à abertura para o novo, o desconhecido, o misterioso e o curioso, mas trazem desafios quanto à segurança e consistência, configurando um comportamento de incluir e excluir de acordo com as conveniências e reciprocidades. Incluem-se ou excluem-se pessoas da agenda do WhatsApp sem muitos critérios ou pudores. Aqui está o encontro entre o sistema (troca) e o mundo virtual, na forma como me relaciono, no que diz respeito à profundidade e consistência de minhas opções.

Diante desta realidade, é comum o jovem passar por dois ou três cursos universitários em busca de uma realização, bem como passar por diversas opções de trabalho, nas relações e nas opções vocacionais. Diante da facilidade de se conceber uma mera “experiência”, como experimentar o aperitivo antes do “prato principal”, muitas vezes não chega ao “prato principal” ou não o reconhece.

Características eclesiais

Acabamos de ver acontecer, mesmo que ofuscada pelas olimpíadas no Brasil, a XIX edição da JMJ na Cracóvia, Polônia. Evento com grande participação juvenil e encantadora motivação de nosso querido e profético Papa Francisco. O que este evento nos diz é que há um lugar, espaço e importância para os eventos de massa que atraem e motivam vários cenários juvenis, sejam movimentos, sejam pastorais. Em meu ponto de vista, não há dicotomia entre acompanhamento nas bases, nucleação, formação e acompanhamento consistente e compromissos sociais. Percebo a necessidade de se proporcionar grandes eventos para encontro e manifestação de uma espiritualidade do louvor e da alegria, bem como cuidar da base eclesial para o cultivo do que é despertado nos grandes eventos.

O que vimos acima, enquanto eventos de massa, tem a ver com o cenário eclesial, com reflexos internos nos movimentos e pastorais eclesiais. No caso dos movimentos, os impactos são ligados à busca constante por fortes experiências espirituais, por animação e relação. Já no caso das pastorais, percebemos ser um espaço para acolhid^ e aprofundamento de uma fé encarnada no seguimento de Jesus, com respostas aos apelos do Evangelho para a sociedade em sua complexa estrutura política e econômica. Temos desafios nas duas dimensões, como pouco empenho na organização dos movimentos, bem como uma baixa articulação das pastorais. Tudo isto nos enfraquece como Igreja, fazendo com que tenhamos pouca ou nenhuma alternativa para as juventudes.

Diante desta não dicotomia entre ação e louvor, percebo que os cenários juvenis, hoje, exigem novidades que desafiem de forma convidativa à adesão. Para nós, que temos nossa missão junto às diversas juventudes, faz-se necessário, sempre com a presença e participação dos jovens, criarmos e inovarmos sempre. O que há de fato é uma transversalização de concepção entre práticas dos movimentos e pastorais, em que não conseguimos identificar com facilidade o que é próprio de um ou de outro.

Características vocacionais

Por fim, chegamos às características vocacionais buscando identificar as possibilidades para o discernimento vocacional e um projeto de vida diante das características juvenis apresentadas. Tentemos perceber as características destes e destas jovens que buscam responder ao chamado de Deus na Vida Consagrada.

A primeira característica que podemos identificar é de tendência tradicionalista. Trata-se de jovens que buscam sua inspiração na tradição em figuras específicas, normalmente ligadas a um modelo trindentino.[3] Aqui, aponto dois desafios: o primeiro, ligado ao mundo da estética, onde há uma preocupação maior com o rito e a forma, envolvendo paramentos e adereços que vão satisfazer a dimensão visual do ambiente, mas que nem sempre conseguirá expressar consistência e coerência, pois não é incomum haver rigor com as vestimentas e ritos e um certo risco do laxismo no comportamento pessoal, revelando um tradicionalismo por conveniência. Segue este desafio a falta de cuidado com a dimensão missionária, pois há uma preocupação interna com a manutenção do que está posto para sustentar e manter a estrutura, deixando para segundo plano ou até mesmo inexistindo a preocupação com o povo. Este modelo tem sido exortado pelo Papa Francisco para que se torne “uma Igreja em saída” e que estes pastores “tenham o cheiro das ovelhas” justamente por serem uma fatia do clero preocupado com a manutenção e não com a evangelização.

A segunda característica diz respeito a este(a) jovem de atuação pastoral, normalmente conseguindo fazer boa conexão entre o religioso e o social, mantendo uma boa disposição para a missão e o social. Como dissemos acima, este público está em crise, seja pela pouca assistência e acompanhamento, seja pelos desafios que todas as propostas que exigem constância e perseverança passam diante do contexto já citado anteriormente.

Reflexões finais

Como vimos, mesmo tratando sobre as características como sendo dos jovens, devemos cuidar para não tomarmos uma postura de culpabilização e demonização deste tempo atual, caindo em um saudosismo que não ajuda em nada; bem ao contrário, nos afasta e isola dos desafios que este tempo nos oferece.

Ao final, é possível apontar a necessidade de se trabalhar as bases, como: a pessoa, a estrutura familiar e a vida da comunidade eclesial e congrega- cional em vista das motivações para as diversas opções que se vai fazendo. As diversas experiências eclesiais são importantes, porém não de forma condenatória, pois a juventude vivência o que lhe é proporcionado como experiência. Se foi em movimentos ou em pastoral a experiência eclesial, não me parece ser o foco no discernimento, mas sim o processo feito na animação vocacional e na formação inicial para ajudar na compreensão de que se está abraçando um carisma, evitando a imposição do carisma de um movimento para uma congregação.

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[1] Religioso da Ordem dos Frades Menores. Durante cinco anos assessor de Setor Juventude da CRB Nacional. Bacharel em Teologia e graduado em psicologia, especialista em Terapia Sistêmica (Terapeuta Familiar). Mestre cm Psicologia pela Universidade Católica de Brasília. Autor de vários livros, entre eles, Juventudes e Trejetória Social — o crack como sinalizador do contexto; Juventudes — o exercício de aproximação.

[2] A abordagem sistêmica é uma perspectiva que pressupõe diversas dimensões e facetas que podem ser estudadas e entendidas por várias ciências, com conceitos e princípios emanados de diferentes ciências, podendo ser empregados no estudo e na compreensão das pessoas e situações. No campo da terapia familiar e de casal, a abordagem sistêmica é um circuito de feedback que representa o processo por meio do qual um sistema obtém uma informação necessária para seguir adiante de forma estável ou circular. Busca compreender a pessoa a partir das relações que estabelece, especialmente o significado que o impacto destas relações pode ter em sua existência, podendo gerar saúde ou adoecimento.

[3] Modelos de acordo com o Concílio de Trento.

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