A morte no livro do Eclesiastes
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02/11/2018 Frei Jacir de Freitas Faria, OFM A morte no livro do Eclesiastes
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Cemitério judaico em Groningen (Holanda),
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O dia amanheceu fechado. Uma tênue e miúda chuva cai sobre a cidade. Da janela do meu quarto, vejo gotas de chuva que escorrem das folhas das árvores. Elas são como lágrimas de saudade que parecem nos lembrar: "Hoje é o Dia de Finados!"

Os mortos e a morte rondam, por um instante, meu pensamento. Vêm-me à lembrança os indígenas da Serra Madre, no México, onde vivi um tempo de minha vida. Ontem, com certeza, eles terão preparado as salas de suas casas com uma mesa farta e um caminho de flores até a rua para receber seus mortos, que, segundo a tradição, hoje vão visitá-los. Assim como eles irão aos túmulos levando flores e comida para um banquete festivo.

Entre nós, as igrejas receberão fiéis para celebrar a memória de seus mortos, o Dia de Finados. Muitos também visitarão os túmulos de seus entes queridos.

Morte! Sagrado mistério que envolve a todos nós! Para onde vamos após a morte? A resposta de fé do cristão é simples: para a vida de ressuscitados em Deus, assim como Jesus, que venceu a morte. Mas o que é mesmo a morte? Alguém poderia me responder? O que o livro do Eclesiastes nos tem a dizer sobre o tema?

Sentido da morte

Lendo o livro do Eclesiastes, anotei as seguintes passagens sobre a morte:

  1. "Ninguém se lembra dos seus antepassados. E também aqueles que lhes sucedem não serão lembrados por seus pósteros" (1,11).
  2. "Não há lembrança durável do sábio nem do insensato, pois nos anos vindouros tudo será esquecido: o sábio morre com o insensato" (2,16).
  3. "Há um tempo de nascer e tempo de morrer" (3,2).
  4. "Tudo caminha para um mesmo lugar: tudo vem do pó e tudo volta ao pó" (3,20).
  5. "Eu felicito os mortos que já morreram, mais que os vivos que ainda vivem" (4,2).
  6. "Mais vale o dia da morte que o dia do nascimento" (7,1b).
  7. "Mais vale ir a uma casa em luto do que ir a uma casa em festa, porque esse é o fim de todo homem" (7,2).
  8. "Ninguém é senhor do dia da própria morte, e nessa guerra não há trégua" (8,8).
  9. "Um cão vivo vale mais que um leão morto" (9,4b).
  10. "Os vivos sabem ao menos que irão morrer; os mortos, porém, não sabem, e nem terão recompensa, porque sua memória cairá no esquecimento. Seu amor, ódio e ciúmes já pereceram, e eles nunca mais participarão de tudo o que se faz debaixo do sol" (9,5-6).

O substantivo morte aparece também em outros textos, como aquele que diz: "E descobri que a mulher é mais amarga do que a morte" (7,26). Todos esses textos são frutos de uma reflexão sobre a morte, feita pelo autor do livro de Eclesiastes. Uma simples leitura vai-nos levar a concluir que o autor é fatalista, pessimista. Não! Esta não é a sua reflexão. Contra a sociedade de seu tempo, que propunha uma vida futura para, assim, legitimar a exploração social e moral, Eclesiastes propôs um caminho inverso: a vida na terra vale mais que a morte, mesmo que possamos falar de vida depois dela. Desta fé nasce um Deus próximo. Como entender tais afirmações? É o que veremos na interpretação destes textos de sabedoria popular.

A morte é o fim de todos

Parece trágica a constatação de Eclesiastes: "Tudo caminha para um mesmo lugar: tudo vem do pó e tudo volta ao pó" (3,20). A vida começa e a vida termina. Ninguém pode fugir dessa realidade. Morre o sábio. Morre o insensato. Morre o pobre. Morre o rico.

Morreremos todos e todos voltaremos ao pó. Esta máxima está escrita nos portais de entrada de muitos dos nossos cemitérios.

Os vivos sabem que irão morrer (cf. 9,5). Todos temos essa certeza registrada em nossos corações já desde o nascimento. Ninguém jamais conseguiu impedir esse destino. Por isso, "mais vale o dia da morte que o dia do nascimento" (7,1b). Parece trágico, mas não é. Saber que a morte é o fim de todos deve nos levar a viver com intensidade, pois, no dia da morte, já não há nada para fazer. Quem não viveu bem a vida não terá como se arrepender no dia da morte. Morte é o fim e basta (cf. 9,3). Já dizia Dante: "O viver é um correr para a morte" (Purgatório XXXIII, 54). Nesse correr para a morte, torna-se mais trágico ainda o fato que "ninguém é senhor do dia da morte" (8,8).

A morte, chegando quando bem entender, evidencia essa tragicidade da vida. E, quando chega o dia, não há como fugir dela. "Como peixes presos na rede traiçoeira", que os trazem para a morte fora da água; "Como pássaros presos na armadilha", que em vão batem asas; "Assim também os filhos dos homens se enredam no tempo da desgraça, quando ela cai de surpresa sobre eles" (9,12). Com a morte chega a dor. Dor de quem fica, que só o tempo cura. Dor fatal de que parte, mesmo que ninguém nos tenha contado como foi a sua dor da morte.

Se a morte é o fim de todos "mais vale um cão vivo que um leão morto", afirma o autor de Eclesiastes 9,4b. Além de ter muito menos força que um leão, o cão, no Oriente Antigo, era considerado um animal impuro, por isso sem valor na sociedade. Já o leão representava a realeza. Aqui, diante da fatalidade da morte, é melhor ser fraco, pobre e desprezado, mas estar vivo, que rei, mas morto. O dinheiro e a luxúria não compram a vida. É melhor ser pobre vivo que rei morto.

Os mortos não sabem que irão morrer nem terão recompensa, porque a memória deles cairá no esquecimento (cf. 9,5). Ninguém se lembra dos antepassados, e também aqueles que lhes sucedem não serão lembrados por seus pósteros (cf. 1,11). Não há lembrança durável do sábio nem do insensato, pois nos anos vindouros tudo será esquecido: o sábio morre com o insensato (cf. 2,16).

Nessas passagens, o Eclesiastes reflete sobre a memória dos mortos. Na sociedade da época acreditava-se que no mundo dos mortos, no Xeol, havia também divisão de pessoas. Para tanto, criou-se a "imortalidade mnemónica", ou seja, a virtude do falecido era perpetuada na memória dos pósteros e inscrita em tábuas de pedra. Os mortos continuavam vivendo na lembrança de seus descendentes e amigos sobreviventes, ou, mais ainda, porque o nome deles ficava escrito em tábuas de pedra. Assim, ninguém poderia esquecer o morto. Seria como as lápides que colocamos, ainda hoje, em cemitérios? Contra esta visão, o Eclesiastes nega a possibilidade de memória eterna. No Xeol, o mais famoso dos reis se assentará com o mendigo. Essa terrível afirmação tem o endereço certo, o que vale é a vida presente. Ela sim deve ser igual para todos. Ninguém pode, além de cometer injustiças contra o outro, ainda achar que o seu poder continuará após a morte.

Quando a morte chega, o desespero dos vivos chega junto. Dependendo do grau de relacionamento com o falecido, a dor da morte é sofrida na sua intensidade por aqueles que com ele conviveram. Naquele momento de tristeza, ninguém consegue medir as palavras. Uma pergunta pensada e dita: "Como será a minha vida sem a sua presença?" Na imensidão do abismo criado por aquele momento, o mundo parece também desabar. Com o passar dos dias, a vida parece voltar ao ritmo normal. Mesmo que a saudade cale profundamente, tudo vai se ajeitando. O insubstituível é substituído por outra pessoa e por outras coisas.

O trágico é que, quando mais tempo passa, a memória do morto vai mesmo sendo esquecida. E isso parece normal. Imagine se todos nós tivéssemos de viver o resto da vida como em um velório. Não. Isso é impossível! A vida exige de nós seguir seu curso. Claro que alguns nunca conseguem deixar os seus mortos morrerem. Eles sofrem para se libertar. A vida exige que deixemos os mortos viverem a morte. Quem não compreende isso sofre em demasia. Conheço filho que aprisionou sua jovem mãe, depois da morte do pai, impedindo-a de recomeçar novos relacionamentos conjugais. O pai lhe teria pedido, no leito de morte, que não deixasse a esposa se casar novamente. É lastimável tal atitude. Pior ainda, quando a mulher aceita essa condição machista, perpetuada no filho.

Algumas pessoas trabalham como se fossem insubstituíveis nos seus afazeres. Simplesmente se esquecem de viver. Quando morrem, no primeiro dia, choramos por elas. No segundo dia, jogamos terra em seu túmulo, como sinal de ruptura. No terceiro dia, reorganizamos a vida e colocamos outra pessoa em seu lugar. Sua memória parece esquecida, embora não será de todo apagada.

Além da memória esquecida, os mortos não terão recompensa, jamais participarão da faina dos vivos, o amor, ódio e ciúme deles já pereceram (cf. 9,5-6).

A morte é, de fato, o fim de tudo?

Em síntese, a morte causa cinco desgraças ao morto (Cf. RAVASI, Gianfranco. Coélet. Pequeno comentário bíblico do Antigo Testamento. São Paulo: Paulinas, 1993. p. 214): elimina o poder de conhecer, não garante recompensa, apaga a memória, impede a participação na faina do dia a dia e decreta o fim dos sentimentos. A pior delas parece ser a de não poder influenciar no curso da vida, pois essa não lhe pertence mais.

Já Qohelet (Eclesiastes) fala do que consegue ver "debaixo do sol". Logo, não podemos generalizar certas reflexões deste livro. Quando Qohelet diz: "Ninguém será lembrado' não está querendo dizer todos de forma indiscriminada. Provavelmente faz referência a quem vivia a vida de forma equivocada, enquadrado dentro da estrutura e lógica dos impérios. É claro que muitas pessoas de bem são lembradas após sua morte. Qohelet é um exemplo. Jesus Cristo, Gandhi, Martin Luther King, Einstein, Galileu Galilei e tantos outros. Podemos perguntar: "Quais os nomes dos representantes da CIA que mataram Che Guevara?" Ninguém sabe. Desapareceram no anonimato. Mas ele continua vivo, e muito vivo, na memória e nos corações de milhões de pessoas de todo o mundo.

A pergunta que nos resta, então, é: "Tem sentido viver, se vamos morrer e ser esquecidos?" A resposta, a partir do livro do Eclesiastes, trataremos no próximo artigo.

Frei Jacir de Freitas Faria, OFM

  • Escritor e mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma
  • www.bibliaeapocrifos.com.br
  • bibliaeapocrifos@bibliaeapocrifos.com.br
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