A crise da adolescência
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12/04/2018 Anderson Neves A crise da adolescência
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A adolescência é uma fase bastante distinta, caracterizada por buscas, descobertas, indefinições, medos, angústias, alegrias e tristezas. Por essa razão, ela se configura um dos períodos mais importantes de nossas vidas.

Para entendermos a adolescência nos tempos de hoje, faz-se necessário percorrermos sua história e nos confrontarmos com o seu passado. Quando nos deparamos com aquelas primeiras fotos de crianças e adolescentes no início do século XX, vemos crianças e adolescentes trajando roupas de adultos, “pequenas crianças, ingênuos adultos”, por assim dizer; crianças vestidas com boinas, calças sociais, blazers, coletes, sapatos sociais, assim por diante. Naquela época, o fato de não se ter uma moda especifica para crianças e adolescentes, acabava por revelar que se considerava os mesmos pequenos adultos. Quanto as meninas em particular, quando estas atingiam a idade de 12 ou 13 anos, eram preparadas e dirigidas ao casamento e à maternidade. Raramente havia possibilidade de escolherem seus parceiros. Os casamentos, em sua maioria, eram o que conhecemos hoje como: “casamentos arranjados”. E com 14, 15, ou 16 anos já se tornavam mães e passavam a se dedicar mais a seus filhos que a seus maridos. Os meninos com 12 ou 13 iam para o ofício de seus pais.

Nesse contexto, ninguém via o adolescente sofrer como sofre hoje. Estes se frustravam menos e adoeciam menos, porque eles tinham o que muitos jovens do presente não tem, a saber, um certo “investimento de amor “. Esse investimento era muito alto, pois as mães se dedicavam quase que de maneira integral à função materna. Essas crianças eram amamentadas no seio de suas mães por um período maior de tempo, escutavam cantigas de ninar, enfim, contavam com uma atenção especial dos pais. Deste modo, qualquer possível sofrimento que o adolescente viesse a ter, de alguma forma, era engolido pela riqueza afetiva que os pais lhe ofertavam.

Mudanças na família

Philippe Ariès[1], um importante historiador francês, mostra-nos que nos anos de 1925 a 1930 as famílias começaram a ter mais filhos. Os adolescentes, que antes se casavam cedo, começaram a se casar mais tarde, bem como a se afastar um pouco mais de seus pais. Os meninos passam a frequentar mais a escola e ingressam no serviço militar. Portanto, nessa época já era possível notar algumas características que denotam a adolescência dos tempos de hoje, dentre elas, a necessidade de privacidade.

Por volta dos anos de 1935 e 1940, surgiram os “Diários”. Neles, as meninas apontavam suas angústias internas. Pela primeira vez na história, nota-se que na adolescência, há uma espécie de angustia prevalente, uma necessidade de contar, conversar (nem que seja com o diário) sobre as suas angústias que as acomete, angústias estas que evidenciam um não lugar, ou melhor, um lugar onde prepondera o vazio, a falta, por assim dizer. Outro fenômeno que surge nessa época, e que hoje tem andado meio esquecido é a amizade. A amizade, segundo o psicoterapeuta Ivan Capelatto[2] “é a transferência do amor que se devotava aos pais para outra pessoa. Sendo assim, as meninas passaram a dividir o seu afeto com as amigas e os meninos com os amigos”.

A guerra traz a melancolia

O final da Primeira Grande Guerra trouxe às famílias um sentimento de descrença, devido à morte de seus filhos. Pouco depois, eclodiu a Segunda Guerra Mundial. Esta, legou ao mundo um sentimento de melancolia. Segundo Capelatto, “a melancolia é uma forma sombria da depressão”. Neste contexto, o medo se apossou das famílias, pois temiam que seus filhos lhes fossem tirados em decorrência de uma convocação para participarem de possíveis novas guerras.

Nos anos 50, nasce a adolescência nos moldes contemporâneos, aquilo que podemos chamar de “juventude transviada”. Essa época foi marcada pela necessidade de satisfação de um desejo ligado ao prazer do uso do álcool e das drogas. Aqui, a motocicleta se tornou um símbolo importante para a juventude. Doravante, os adolescentes e jovens começaram a morrer cada vez mais cedo e os pais deixaram de investir de uma maneira mais intensa na afetividade dos filhos, devido ao medo inconsciente provocado pelas Guerras e consequentemente, a perda de seus filhos. Nessa época, pode se dizer que nasce uma geração sem investimento afetivo dos pais.

Anos 60, 70, 80 e 90

 A partir dos anos 60, os pais sentem a necessidade de alimentar os seus filhos com leite industrializado, entretê-los com a chupeta, com os brinquedinhos, e começaram a deixá-los no berço. Neste ponto, parecia haver certo desinteresse na criação dos filhos. Tudo isso, por sua vez, seria em consequência de uma possível morbidez que a melancolia passada das Guerras deixou. Na sequência, a predita melancolia de perder os filhos, como que se confunde com os anseios da sociedade que, cada vez mais, vai se conformando com o consumismo. Por conseguinte, instalam-se dois sentimentos: a descrença e a crença. Quanto a descrença, ela se faz manifestar na política, na religião e na ciência. A crença, por sua vez, faz-se verificar no princípio do prazer, na noção de que se tinha que viver mais intensamente o momento presente, o agora, sem pensar muito no futuro. Ademais, o convencimento de que os pais deviam dar a seus filhos recursos para experimentar tais prazeres. Nesta ocasião, os filhos deixam de ser “reais”, no sentido de reis do desejo de seus pais, e passam a serem reis de seus próprios desejos.

A necessidade da neurose na adolescência

Segundo o médico escocês William Cullen[3]: “A neurose é um tripé que nos dá sobrevivência. Esse tripé, caracterizado pelos sentimentos de raiva, medo e culpa é a maneira pela qual se passa pela vida sem adoecer psicologicamente”. De acordo com o médico em questão, o equilíbrio desse tripé é o que dá a proteção para o desamparo, bem como a proteção para suportar a angustia. Quando esse tripé se desiquilibra, começa-se a viver a “perversão” que é o contrário da neurose.

Aqui, pode se verificar aqui que, ainda que de maneira inconsciente, o desejo dos pais é o de criar os seus filhos sem neurose. A título de exemplo, tomemos o não raro caso de uma criança que, porventura, desenvolve medo do bicho papão. Ao dizer de seu medo para os pais, eles intervêm afirmando da seguinte forma: “filho não tenha medo, o bicho papão não existe”. Outro exemplo que ilustra bem tal postura é quando as crianças, por algum motivo, encontram-se com raiva e os pais compram alguma coisa para aplacar tal estado de ânimo. Uma terceira ilustração seria as ocasiões nas quais os pais se sentem culpados, por talvez, terem sido muito enérgicos com a criança ou coisa assim, e acabam por passar mão na cabeça do filho. Assim, pois, nasceria uma sociedade perversa, que para lidar com as frustrações do cotidiano, investe na busca do prazer a qualquer custo.

 A busca pela identidade

O desinvestimento afetivo mencionado acima, de alguma forma, acabou levando o jovem à perda de sua identidade. Isso porque, os adolescentes começaram a não ter mais referenciais, pessoas mais próximas com as quais pudessem se identificar. Consequentemente, como já se tinha as ditas amizades, esses se puseram a criar suas próprias identidades grupais. Este fenômeno foi bastante efervescente neste período, haja vista o Tropicalismo e os Hippies nos anos 60, bem como os “Emos” e os Skins Head nos anos 80 e 90. Com efeito, essas identidades não se consagraram. Não obstante novas tentativas foram protagonizadas via partidários das tatuagens, piercings, alargadores. Todavia, essas tendências também não satisfizeram o jovem.

O desejo fundamental

O homem em geral, busca desde a sua juventude algo que possa satisfazer os seus desejos. Nessa empreitada, vão atrás de dinheiro, de um doutorado, de uma promoção no emprego, assim por diante. Quando não se encontram nisso, o álcool e as drogas aparecem como segunda e, por vezes, definitiva opção. Entretanto, é curioso o fato de que nada do que ele faz é capaz de satisfazê-los, ou seja, sempre parece ficar uma lacuna. Diante disso, cabe, pois, o seguinte questionamento: qual o desejo fundamental do homem afinal? Jacques Lacan, psicanalista francês, intenta uma resposta para a questão com a seguinte afirmação: “o desejo fundamental do ser humano é o desejo de ser desejado”[4]; ou seja, o ser humano tem a necessidade de ser amado, notado, objeto de desejo de alguém. Uma vez que os pais não tem conseguido dar conta das angústias de seus filhos, de atender a tal demanda (pelas razões apresentadas acima), delegam o problema a terceiros, razão pela qual os consultórios de psicólogos e psiquiatras estão cada vez mais lotados de adolescentes e crianças com problemas psicológicos de cunho afetivo. Neste mesmo bojo, pode-se considerar os recentes casos de adolescentes se automutilando, como que num silencioso e desesperado pedido desesperado de socorro, como que na busca de atrair a atenção de seus cuidadores. Em casos extremos, sentindo-se frustrados por não haverem conseguido despertar nos pais o desejo de olhar, portanto, não haverem suprido o seu desejo de serem olhados, muitos acabam por cometer suicídio. Esse tipo de ocorrência lança-nos uma problemática que se esboça na seguinte sentença: “O querer ter um filho não é o mesmo de querer um filho”. Ora, pois, na sociedade consumista na qual vivemos, o filho Parece ser muito mais um desejo de consumo (um objeto da vaidade paterna/materna) do que, o que de fato era pra ser.

Como lidar com a angústia na adolescência contemporânea

Segundo a psicoterapeuta Patrícia Jacob[5], só há uma forma de se desangustiar: transformar a angústia em outra coisa, o que ela chama em psicologia de “sublimação”. Segundo Jacob, pode-se sublimar nossa angústia transformando-a em arte, música ou qualquer outra coisa (atividade) criativa, que seja uma produção que transforme. Algo que também funciona e é bastante acessível é a sublimação por intermédio da fala (da livre associação de ideias, trabalho a partir da qual, não apenas exteriorizamos as angústias mediante a linguagem, mas, sobretudo, por meio dos atos da fala, conferimos a tais significantes – sintomas – significados, por conseguinte, atribuindo aos mesmos um sentido que nos permite apropriarmo-nos daquilo que é nosso. Nesse sentido, se encontrássemos na vida pessoas verdadeiramente confiáveis que, sempre que necessário, pudessem nos ouvir, sem condenação ou julgamento, é possível que esse quadro psicopatológico pudesse ser atenuado. Ora pois, é fato que nos desangustiamos falando, conversando, “vomitando” as coisas que sentimos para aqueles a quem amamos e confiamos.

De certo, ninguém deve se arrogar do direito de afirmar qual a melhor forma de se educar um filho. Conquanto, não se deve negligenciar que, uma maneira eficaz de ajuda-los a se autoconceber pessoa, sobretudo na conturbada fase que compreende a adolescência, é se abrir ao diálogo, à conversação, e, sobretudo, escuta-los. Afinal, pôr-se a ouvir é dar a oportunidade para que o outro, neste caso, o adolescente, possa se expressar; ainda que seja em forma de reclamação, inclusive, acerca dos próprios pais. Notoriamente, isso não constitui uma tarefa fácil, pois a lista de queixas e preocupações de um adolescente costuma ser bastante, além do que, uma das formas clássicas dele pedir ajuda é agredindo, e não é todo adulto que está apto a entender isso. Todavia é preciso!

 

[1]Philippe Ariès foi um importante historiador e medievalista francês.

[2]  Ivan Capelatto, psicoterapeuta, Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Campinas.

[3] William Cullen foi um químico e psiquiatra britânico.

[4] O Seminário, Livro 21, Les non-dupes errent.

[5] Patricia Jacob  tem formação universitária em Psicologia pela Universidade de São Paulo (1993).

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