A Bela e a Fera: uma visão do corpo na contemporaneidade
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24/04/2018 Frei Vitor Vinícios A Bela e a Fera: uma visão do corpo na contemporaneidade
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A Bela e a Fera. Direção: Bill Condor, The Walt Disney Company, 2017, DVD

Em meio a uma sociedade pluralista somos defrontados a todo o momento com ideias e reflexões. Diante disso, cabe a nós, além filtrarmos, refletirmos sobre as informações que nos chegam de várias maneiras, seja por meio de jornais, livros, internet ou filmes. Exige de nós a reflexão do que nos é oferecido, pois tudo é um texto a ser lido. Dessa maneira, vamos analisar um dos maiores romances da literatura mundial, A Bela e a Fera. Embora o conto possa ser visto, num primeiro momento, com um olhar minimista, vamos nos ater a aspectos mais sutis, que vão além de um simples e belo conto infantil. Com isso, por meio do filme “live-action”[1] da Disney, que estreou em 16 de março de 2017, no Brasil, e 17 de março nos Estados Unidos, abordaremos a visão de corpo na sociedade contemporânea.  

O filme, de gêneros: fantasia, romance e musical com duração de 2h09 min é dirigido pelo cineasta e roteirista norte-americano Bill Condor e conta com a participação de grandes estrelas do cinema mundial. Essa versão é uma das muitas releituras já feitas desde a publicação do livro na França, cuja autora é Gabrielle Suzane Barbot, pseudônimo Dama de Villeneuve. A autora publicou seu livro pela primeira vez em 1740 em forma de romance, porém este tornou-se mais conhecido em uma nova versão publicada dezesseis anos depois, em 1756, pela também francesa Jeanne Marie Leprince de Beaumont, que o sintetizou e modificou transformando-o em conto. A obra com o passar do tempo sofreu várias interpretações e versões diferenciando-se cada vez mais do original, se adaptando a diferentes culturas e momentos sociais.

A atual versão é produzida em forma de filme pela Mandeville Films e distribuída pela The Walt Disney Company, conhecida popularmente por Disney, uma companhia multinacional estadunidense de mídia de massa. A empresa busca recriar o filme de forma homônima entre o livro de Beaumont e o filme A Bela e a Fera de 1991 em versão animada, indicado ao Oscar de melhor filme. Dessa maneira, o filme contará a história de Bela, uma jovem destemida e corajosa que se destaca em relação aos outros moradores da pequena aldeia francesa. A personagem também ressaltará uma personalidade a frente de seu tempo, através do empoderamento feminista, no sentido de não ser apenas uma princesa, mas ser aquela que gosta de ler livros, de aventurar-se, que defende seus ideais com afinco, enfim, aquela que não se deixa encaixar aos moldes da “mulher submissa” daquela época. Maurice, pai de Bela, é um inventor e participará de uma feira para demonstrar sua nova invenção, porém durante esse trajeto, até a Feira, se perde na mata, sendo surpreendido e atacado por lobos. Desesperado, procura abrigo num castelo, que à primeira vista abandonado, mas na verdade era habitado por uma Fera. Nesse ínterim, o objetivo da estadia era apenas para descanso, porém resolve pegar, do jardim do castelo, um presente para a filha que já o aguardava, uma rosa. Todavia, é surpreendido e capturado pelo Monstro. Logo, não passando muito tempo, a princesa Bela é informada que seu progenitor corre perigo, com isso se oferece como moeda de troca. O sequestrador aceita a oferta e começa a conviver com Bela em seu castelo. Por conseguinte, a história prossegue culminando num final feliz.

Em conformidade com o que o filme nos apresenta vamos nos ater ao personagem da Fera. O monstro que habita num lugar distante e isolado da aldeia, que é definido por apenas um aspecto que o faz, consequentemente, um monstro: o corpo. Durante o filme vemos nitidamente que o que determina a concepção de monstro é o corpo, pois a suposta Fera, em comparação com os habitantes da aldeia, tem as mesmas necessidades e qualidades, ou seja, tem necessidades biológicas, fisiológicas, sentimentos, razão, entre outra características comuns aos seres humanos/demais personagens A visão daquelas pessoas é determinada apenas pelo corpo diferente do personagem, com isso retomamos uma ótica advinda de um passado longínquo com raízes muito profundas. Esse olhar que acenamos é o corpo sendo visto como pecaminoso, mal, cárcere da alma. O filme demonstra essa visão de forma mais clara já nas primeiras cenas, em que a feiticeira, ao visitar o príncipe (logo depois monstro), lhe diz: “Não se engane com as aparências, pois a beleza está no interior”. Com isso, é necessário remontarmos a visão de corpo nos períodos passados para compreendermos essa visão dialogando, assim, com o corpo visto na contemporaneidade. Ressaltando também, que a estrutura física dos seres humanos é vista de múltiplas formas, como por exemplo, para a ciência naturalista pode ser vista como máquina, para a publicidade pode ser vista como negócio, mas vamos nos limitar a visão de corpo como algo inferior ou algo errado.

É sabido que houve e há diferentes discursos no decorrer da história da humanidade que foram e alguns ainda são transmitidos e reforçamos socialmente, como vemos no filme. Nós ocidentais, ressalto as exceções, carregamos a herança de uma concepção de corpo como algo oposto da mente. Para nós são coisas distintas e hierarquizadas, ou seja, a mente é algo superior ao corpo. Essa é uma herança advinda desde os gregos, para eles o conhecer tinha a primazia sobre o operar, a ação. Sócrates, filósofo grego, ensinava que para bem viver era necessário “bem pensar”, e dizia que o homem não é seu corpo, mas “aquilo que se serve de seu corpo”, ou seja, sua Psyché (alma). O pensador entendia como Psyché a sede racional, valorizando assim, todo o intelectualismo em detrimento de algo corpóreo. Portanto, ele sustentava uma noção de corpo como uma coisa má: “Durante todo o tempo em que tivermos o corpo e nossa alma tiver misturada com essa coisa má, jamais possuiremos completamente o objeto de nossos desejos. ” (PLATÃO, 1972, p. 73)

Nesta visão dualista do homem, corpo e alma, cada qual com suas funções, o corpo começa a adquirir ideias como: prisão da alma e algo imperfeito. Visão reforçada também pelo filosofo Platão, que via o corpo como algo secundário do real, o essencial é as ideias, também ordenadoras, a matéria é algo caótico. Como podemos ver nas suas próprias palavras: “Se o Universo não é totalmente perfeito é porque a matéria imprime seu grau de imperfeição” (Platão, 1972, p. 37). O corpo pertence ao mundo físico e, portanto, tem o dado da imperfeição. O mundo das ideias é o bem supremo. Pensamento esse muito bem demostrado na fala da feiticeira ao príncipe logo no início do filme.

Nesta mesma linha de raciocínio damos entrada ao período medieval, em que se mantem o mesmo pensamento, porém com sutis modificações. A Igreja, detentora do poder, se apropria das mesmas ideias, porém imprime nelas sua marca, ou seja, ligando o corpo ao pecado e a tentação, estabelecendo assim uma ligação direta entre corpo e sexualidade, e a alma como o bem a ser cultivado. O corpo com isso deverá ser mantido distante das tentações demoníacas, isto é, deve ser dominado e negado. Essa negação é aos desejos e prazeres, uma espécie de castração de desejos, no qual, temos exemplos claros desse período, como o uso de objetos de torturas: flagelos, cilícios e outros utilizados por cristãos, como meio de purificação. Dessa forma, o povo começou a temer esse perigo: o corpo, tratando-o dentro das regras da Igreja, renunciando aos prazeres mundanos para não ameaçar a vida. Corroborando com o mesmo pensamento temos também o período do Brasil Colonial, onde o corpo começa a ser visto como identidade, ou seja, status social. Como nos demonstra Anzai.

“Por razões religiosas e pela existência da escravidão, onde os esforços físicos eram relacionados às atividades realizadas pelos escravos, não havia incentivo para as atividades ligadas ao cultivo do corpo. Além disso, os padrões de beleza da época eram diferenciados dos que conhecemos hoje. As mulheres deveriam ter a pele branquíssima e o corpo avantajado, rechonchudo. Mais do que estar bela, o alcance desses quesitos, principalmente pelas mulheres, demonstrava que elas pertenciam a classes sociais mais altas.”  (Anzai 2000 p. 75)

Com isso, por meio do corpo se identificava se eram homens ou mulheres de classes mais altas ou não. Outrossim, embrenhamos aqui nova visão do corpo, mas que não necessariamente anula a visão do corpo como mal. Temos padrões sendo estabelecidos, ou seja, ideais a serem alcançados. Quanto mais o corpo for rechonchudo e branco mais digno de honras, formando-se assim reféns. Porém, no mundo contemporâneo há uma inversão nessa lógica, ou seja, não são mais os “corpos gordos”, avantajados que são almejados, mas sim os esbeltos, definidos e magros. Trazendo assim a culpa daqueles que não a alcançam. Os “gordos” são praticamente obrigados a sentir culpa de sua aparência, não pelo fato da gordura não ser benéfica, mas porque está se faz necessária para beneficiar uma indústria que se aproveita desta insegurança (ANZAI, 2000, p. 36).

A visão que agora temos do corpo se potencializa entre os séculos XVIII e XIX, pois é nesse período histórico que ele adquire relevâncias nas relações humanas e na sociedade. Assim, na contemporaneidade, não há uma negação total do corpo, mas uma valorização, no sentido, da busca pelo ideal determinado pela cultura. Há uma manifestação também da prática de exercícios físicos e rígidos regimes alimentares que visam atingir o ideal estabelecido.  Segundo Soares e Fraga (2003) esses corpos jovens, esbeltos, longilíneos, altos, saudáveis, e ativos de hoje são aqueles que há muito tempo encararam a retidão. “A aparência externa tornou-se uma prega subjetiva mais profunda, que potencializa o sujeito a exterminar em si mesmo todo o tipo de desvio que o desalinhe fisicamente ou moralmente”.

Diante de tantas transformações temos uma espécie de “moral das aparências”, ou seja, aquilo que determina a aceitação do indivíduo em todas as esferas de sua interação. Existe um modelo universal de corpo, porém existem também os muitos modelos determinados segundo o grupo pertencente, ou seja, como se deve comportar esse corpo. Temos aqui corpos disciplinados, como nos acena o grande filosofo e historiador Foucault (1977), que evidência o resultado de processos disciplinares realizados por instituições (escolas, quartéis, Igrejas e fábricas) nos séculos XVIII e XIX, atingindo seu auge no início do século XX. Por serem esses espaços disciplinares, produzem corpos disciplinados, dóceis, com o objetivo de torná-los mais obedientes e mais úteis para o Estado, que tem como objetivo submeter os indivíduos ao modelo estabelecido por ele.

Nesta perspectiva adentramos mais especificamente em uma das grandes problemáticas da contemporaneidade, a qual, emerge de forma brusca e bem apresentada no filme. Apesar das várias mudanças em relação à visão do corpo, ainda permanece de forma muito forte, a ideia de corpo como algo mal. Aquelas pessoas que não se comportam ou se expressão conforme a herança dos gregos não cabe nesse mundo, como bem mostra a cena em que a Fera ao mostrar um presente ganhado da feiticeira diz: “ no mundo exterior não há lugar para uma criatura com eu”. Aqui podemos pensar numa questão de relação corpórea. Com base nessa visão enfrentamos atitudes ríspidas perante as visões e tratamentos diferentes, como por exemplo, a visão do corpo na arte que expõe muitas vezes de forma desconcertante para alguns que veem o corpo ainda como algo mal ou um pecado. Assim, segundo os grupos que ainda carregam uma visão maligna, essas criaturas (pessoas) que se expressão e veem o corpo de forma diferente devem ser punidas pela “moral”.

O monstro apresentado no filme é também o “monstro-corpo” para muitos grupos, por isso devem ficar afastados e devem ser punidos, mas ao contrário, se deve sim buscar a “bela-alma” onde se encontra a felicidade. Contudo, essa grande retomada ou permanência dessa visão pejorativa do corpo gera um reducionismo, pois com o passar do tempo temos progressos e outras formas de ver o corpo, muitos dos conceitos são revistos e revisitados. Embora, possa passar despercebido ao telespectador, o filme transmite em meio a frases e ideias, os ideais que reforçam a visão herdada desde os gregos. Portanto, diante de acontecimentos atuais devemos nós, homens ocidentais, reelaboramos nossas concepções de corpo, num sentido de reencontro consigo mesmo e com o outro, buscando, assim, uma interação entre a dicotomia estabelecida no passado para assim nos sentirmos inteiros. Devemos de uma forma ou de outra quebrar os clichês e paradigmas cristalizados pela história. Não visando um endeusamento do corpo, numa busca diária por um corpo perfeito, mas uma maior compreensão do corpo na atualidade, em relação as instituições e principalmente ao outro.

REFERÊNCIAS

NASCIMENTO, E. Diego; AFONSO, R. Mariângela. Los cuerpos em la sociedade contemporânea. EFDeportes/ Revista Digital. Buenos Aires, Año 18, n° 190, Marzo de 2014.

ANZAI, Koiti. O corpo enquanto objeto de consumo. Revista Brasileira de Ciências do Esporte. 21 (2/3). Jan/Maio, 2000.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões. Editora Vozes. Petrópolis, 1977.

SOARES, Carmen Lúcia; FRAGA, Alex Branco. Pedagogia dos corpos retos: das morfologias disformes às carnes humanas alinhadas. In: Pro-Posição, v. 14, n. 2 (41), maio/ago. 2003.

A BELA e a Fera. Direção: Bill Condor, The Walt Disney Company, 2017, DVD

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[1] É um termo utilizado no cinema e televisão para definir os trabalhos que são realizados por atores reais, ao contrário das animações

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