'Não elimineis o Espírito'
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24/07/2018 Dom Total 'Não elimineis o Espírito' Dever-se-ia captar o Espírito nos modos como ele se revela.
O Espírito é luz cálida a partir da qual se pode contemplar toda realidade. (Reprodução/ Pixabay)
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Por Rodrigo Ladeira*

Sempre me “encucou” o fato de, no Símbolo da fé (Credo), o Espírito não possuir uma  narrativa identitária clara dentro da lógica da Trindade. Do Pai sabemos que é o Todo-Poderoso, Criador de tudo... do Filho sabemos um pouco mais por força do evento da encarnação, que é histórica; mas do Espírito...

Tive que me aventurar mais pela lógica dos sentidos e da simbólica, do que da abstração intelectual, essa que quer tudo encaixado nos conceitos, rótulos e teorias. De todo modo, foi na via d’uma leitura mais poética do próprio “Credo”, ato segundo – fé-que-se-diz, em contraposição à fé-que-se-vive, ato primeiro –, que achei alguma luz para a proibição consignada por Paulo no texto de 1Ts 5,19, que dá título a esse nosso escrito.

A nomeação do Espírito, no texto da “Profissão de fé”, como tentativa de dizer algo sobre quem é a terceira pessoa da Trindade, quase nos causa, num primeiro momento, frustração. Ali o que se diz do Espírito é que ele é Santo. Parece que tudo se resume a essa expressão. Porém, na sequência, fica claro que não se trata mesmo de definir o Espírito, nem mesmo circunscrevê-lo no que se poderia entender por Santo. Dever-se-ia, isso sim, captá-lo nos modos como ele se revela o jeito de ser na Trindade que é santa. Vejamos!

“Creio no Espírito Santo, na Santa Igreja Católica, na Comunhão dos Santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna”.

A leitura desatenta deixaria passar em “brancas nuvens” o que está dito não simples e puramente conceitual, mas em ordem tensional, próprio de todo relacionamento. Há muito mais beleza pululando no texto que é a síntese da verdade sobre a Trindade do que podemos capitular.

Mas antes de ir ao texto é preciso esclarecer algo fundamental. Crer “em Espírito”, como indica a regência latina do verbo “CRER” no Símbolo da fé, significa “crer em”, acreditar movendo-se para dentro de..., ou melhor, mover-se para dentro daquele que nos move. Não é mero exercício cognitivo. Isso já é muita coisa para falar de um cristianismo signatário do esquema da Re-velação e não da Re-ligião. É porque Deus se Revela que nos atrai. Aí já existe algo que nos importa fixar: o cristão só se faz na dinâmica do desejo. Essa atração pode ser verificada a partir dos verbos “ouvir”, “descer” e “libertar” para fazer “subir”.

No Antigo Testamento “Deus ouve o clamor do povo (fica atraído) e desce para libertar e fazê-lo subir para uma terra nova, boa” (cf. Ex 3,7). Estes mesmíssimos verbos poderão ser lidos na dinâmica da máxima revelação da Trindade, que aparece a partir da encarnação do Filho. Sendo Deus, o Pai, pelo Filho, não se conteve, não foi egoísta. Movido em-si, abriu-se porque nos ama de tal modo inexplicável que só podia mesmo ter vindo não só para nos salvar, mas para nos convidar para dentro do amor-salvação. Ele se sentiu mais uma vez atraído por nós. Vale lembrar algo elementar sobre a atração, é que quando a gente se sente atraído por alguém no fundo a gente “quase que se trai” para não-trair o que sentimos por outrem. Deus se moveu definitivamente na nossa direção, desceu (kênose) para habitar entre nós (Emanuel). Amando-nos até o fim, morreu para matar a aquilo que nos aniquilava, libertando-nos radicalmente (cf. Fl 2). Libertação que continua porque o amor não é só dizer que ama, é continuamente dizer-se amando. Trata-se de um contínuo movimento dialético. Um constante ouvir-descer-libertar-para fazer subir. Quem ama coloca o ser amado nas alturas! Aí entra o que o Credo cristão diz do Espírito. Ele só pode ser “identificado” naquilo que ele continua fazendo, quer dizer, ele é santo porque promove, chama à uma experiência de santidade que é amar. É exatamente essa característica do Espírito que mostra um Deus não mais em-si (Pai) e nem só para-nós (Filho), mas em-nós (Espírito). Ele é o lugar da experiência cristã que aparecerá como Igreja (não mais o templo, mas os seres); em comunicação-comunhão daqueles que ele habita, os santos, Igreja no Corpo de Cristo; remidos daquilo que nos aniquilava, o pecado-morte; em vista de uma elevação amorosa daqueles que ele chamou pelo nome, em vista do gozo das alegrias que não acabam, do próprio desejo. Amém!

Victor Codina diz que o Espírito é luz cálida a partir da qual se pode contemplar toda realidade. Portanto, se deletamos o Espírito perderemos o vento que, apesar de imperceptível, refresca a vida, sopra as areias do tempo...; apagaremos o fogo que transforma, arde, esquenta, ilumina...; secaremos a água que hidrata, lava, limpa, renova... Um cristianismo cheio de poesia, e por isso de mística, só se faz com esse “rosto que não se pode ver”, nomear, capturar, mas que, definitivamente, está sempre mais perto do que podemos imaginar.

Voltando ao início da nossa conversa, vai ver o Espírito é “sem nome” porque o cristão, fruto do Espírito Santo, está em descoberta. Ainda não chegamos. Estamos a caminho! Ainda descobrindo quem somos diante daquele que nos impulsiona, soprando, queimando, lavando-nos, de dentro pra fora. “Vem Espírito Criador, visita o espírito dos que são teus” (Veni Creator). Não extingais o Espírito!

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*Rodrigo Ladeira é Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) / BH-MG. Coordena as atividades de educação continuada e pós-graduação lato sensu dessa mesma IES. Ensina Liturgia e Sacramentos em vários cursos livres e de especialização teológica em Belo Horizonte-MG.

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